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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Acordo do passado (3)

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Acordo do passado (4)

Adentrando as entranhas de Qliphoth a partir das raízes da árvore morta fincadas na magia ocidental abaixo — como a contraparte de Yggdrasil, os dois lados da mesma moeda, contrapunham-se às raízes de Sephiroth (a árvore viva) —, o governo era firmado a cada raiz: um dos nove círculos do inferno, unificados em nove partes através das mãos do próprio rei do inferno, Samael.

Transpassando a fina membrana de prata, Victor e Hallow Eve encontraram-se abaixo de um vasto céu azul, salpicado por nuvens brancas e cinzentas que se estendiam e se retorciam em desenhos de múltiplas formas.

O choque tomou conta de Victor, incapaz de acreditar no que seus olhos viam: um cenário paradisíaco para aquele que se dizia ser o submundo. Caminhavam por um horizonte de campos ondulados que se estendiam até onde a vista alcançava, vestidos por uma grama viçosa e vibrante, enraizada profundamente naquela terra fértil. Banhado por luz difusa, o sol ocasional tentava romper a densidade do ar, criando um ambiente quase etéreo.

"— Não estranhe, Victor, meu contratante, e muito menos tire conclusões além do esperado sobre o que enxerga. Bem à sua frente estão nada mais do que os vastos Campos Elísios, uma conjunção mental de trilhões de pensamentos unidos em um só lugar."

"— Co... como assim, Eve?" A dúvida era clara em sua mente, transparecendo em seus olhos e palavras.

"— Muito simples. O local em que nos encontramos não passa do plano imaterial, um plano que toma sua forma através dos pensamentos e ideias conscientes e inconscientes, todas ligadas por uma vasta mente colmeia chamada 'Sonhos'. Mas quando um pensamento é compartilhado por uma certa quantidade de seres vivos, ele tende a se aglomerar em certos locais específicos do plano dos sonhos, ganhando forma e uma identidade coletiva no subconsciente."

Caminharam naqueles belos campos até o anoitecer, deparando-se com uma grande área repleta de espantalhos feitos de pele humana esfolada, costurados com fios de prata. Por onde Hallow Eve passava a passos largos, seus longos cabelos negros, escuros como uma noite sem estrelas, eram jogados para trás, e a luz da lua exaltava sua beleza de outro mundo. Espantalhos de figuras grotescas e perturbadoras, cada uma vestindo peles que um dia adornaram vidas de origens desconhecidas.

"— Não olhe, Victor, pois este lugar que se encontra à nossa frente é a morada, o submundo dos mortos."

Representando o destino comum de justos e ímpios, era um lugar caracterizado por escuridão, inatividade e silêncio — uma sepultura coletiva. Instantaneamente, várias vozes sussurraram em seu ouvido:

— O que semeia a boa semente são os filhos abençoados do reino da luz, e o joio são os filhos do maligno. O fratricida, o inimigo o semeou; e a ceifa é o fim do paraíso da paz dos homens. Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim será na consumação do mundo.

A passos pesados, um senhor mendigo, com suas botas de ferro, afundava o chão de pedra como se fosse lama. Atrás do idoso, uma linha separava a terra, rachando-a em centenas de pedaços que flutuavam em volta de um grande vulcão. De suas profundezas, o vulcão implodiu por sua grande boca, jorrando lava e enxofre; a lava escorria para baixo, e o enxofre subia. Do toque da lava incandescente com os pedaços de pedra, formas se mesclaram e tubarões tomaram forma, nadando e vivendo perto do vulcão.

Dando um passo para trás, Victor se contraiu de pavor diante daquela grande manifestação da força da natureza.

"— Não se acanhe, meu contratante, pois deste ponto em diante o velho que avançou à nossa frente não o guiará para a morte, e nem eu deixaria."

Mesmo com suas palavras consoladoras, o medo ainda se mantinha. Com as pernas trêmulas e a respiração ofegante, Victor avançou ao lado de seu jinn.

Abrindo em suas costas suas oito asas vermelho-sangue, o bater delas impregnava o ar com um perfume de sangue, deixando um rastro mórbido para trás. Agarrando o pulso de Victor, Hallow Eve voou atrás do velho.

Da distorção do tecido do espaço, uma dobra do tempo ocorreu, acelerando. Formou-se, em 0,1 segundo, o equivalente a 25 a 30 milhões de anos, abrindo uma grande fenda de 1.642 metros de profundidade, de onde brotou uma água translúcida das entranhas da terra. Atravessando as camadas superiores das águas, o inverno congelou completamente o espaço; em seu interior frio e estéril, atravessando o tempo, distorceu-se o limiar entre o mundo dos vivos e dos mortos. O tempo e o espaço convergiram, céu e terra se unificaram e os cinco elementos encontraram o equilíbrio, girando em um único ponto que deu espaço ao nascimento de um novo cenário.

O sol da tarde, um pintor celestial, banhava com sua paleta dourada as folhas vibrantes da orla da floresta, rotacionando na espiral infinita. No horizonte, montanhas convergiram do nada, com altos picos que tocavam o céu, uma cordilheira de grandes gigantes naturais. Nos picos principais, camadas grossas cobertas por gelo permanente estavam conectadas por um colo elevado. O clima extremo de ventos fortes e temperaturas baixas era trazido com a batida das asas do colosso que habitava a entrada; a boca do inferno vinha projetando sua sombra. Sob os céus de chumbo negros, colossais asas formadas de mãos demoníacas erguiam-se como colunas. Raízes eram arrancadas junto dos troncos, e tempestades de gelo rangiam ao vento violento.

"— Este é o primeiro dos nove círculos do inferno. Cada círculo detém sua função única, com o primeiro possuindo seu governante próprio e os oito restantes regidos por Samael."

"— Quem é o rei do primeiro círculo?!"

"— Para o primeiro círculo, seu rei é ninguém menos que o rei das trevas, Lúcifer Pendragon."

"— Mas quem é..."

"— As almas que atravessam as águas de Nun dividem-se em duas partes: a parte branca e pura retorna para as leis do céu e da terra, e a segunda parte, possuidora de ego, vai direto a Qliphoth, sendo direcionada para Hades. Tal mundo é formado pelo braço esquerdo da morte, sendo o único lugar a possuir uma passagem ao corredor dos sonhos, o portão do plano das cinzas do purgatório."

Abaixo da espiral, formou-se um fluxo descendente de ar frio e úmido que afundava em ar mais seco, trazendo consigo gritos agonizantes vindos das bocas de cabeças de pequenos recém-nascidos, que se batiam em longos dreads cobrindo sua cabeça.

"— A boca do inferno veio a nós, então."

Levantando a cabeça, Victor se deparou com a visão da coisa mais feia que já tinha visto.

"— Que porra é essa?!"

Descendo abaixo e criando um aspecto arredondado sob a nuvem, formações atmosféricas incomuns com bolsas em forma de 'seios' giravam pouco a pouco ao centro da boca aberta daquela coisa esfolada. A fenda abria-se até o tronco do corpo, movendo-se abaixo e destruindo os picos montanhosos, enquanto braços ossudos se contorciam, formando um corpo inferior serpentino.

Era o surgimento do guardião do palco secreto do submundo, o décimo círculo do inferno: o Vale dos Ventos.

"— Bem-vindo ao Vale dos Ventos, Victor. O círculo é tomado por fortes ventos negros que acoitam, cortam e rasgam a carne e a alma; um palco criado para habitar um vivo, um único prisioneiro que fez sua própria prisão e onde se trancafiou por sua própria vontade."

Sobre três pilares de pedra, no topo do segundo, havia um trono de rocha maciça no qual se encontrava o pai dos demônios, o primeiro assassino da história, o primogênito de Adão... Caim.

Do horizonte distorcido, um céu azul-índigo parecia constantemente se afastar, dando a impressão de cair, mas nunca caindo. No intermédio do céu e da terra, uma roda de oito cabos girava eternamente, espalhando para as quatro direções tufões flamejantes e eletrificados que acoitavam as paredes cinzas e gélidas. O solo mórbido e maleável era formado pela carne compactada dos que desafiaram o senhor do inferno: montes de carne decorados com olhos, bocas e orelhas ainda funcionando e conscientes do espaço à sua volta.

Descendo até eles, feixes de luz azul-royal iluminaram o ambiente, tocando o solo e queimando o chão de carne, dando início à dor e à melodia dos gritos de agonia e sofrimento.

Erguendo-se em uma convulsão violenta — uma resposta extrema de seu sistema nervoso —, as almas foram puxadas do chão pelas chamas azuis que as atormentavam, moldando-as em um formato cilíndrico de carne, olhos e bocas que ainda gritavam. Elas subiam em dor e gritos até o palco superior, saindo do primeiro círculo rumo a um novo espaço.

Trazendo o silêncio ao sussurro das vozes do universo, surgiu a iminência nascida do clarão da aurora da criação: a chama do julgamento. Irrompendo em meio ao rasgo no espaço, chamas azuis resplandecentes tocaram a matéria e a desfizeram. Surgindo em meio a essas chamas, o rei do inferno atravessou. Sua longa túnica escura exibia um padrão de chamas vermelho-sangue gravado sobre ela.

Sobre um vasto céu vermelho, rachado e repleto de fissuras cósmicas, quatro luas naturais orbitavam imponentemente. Abaixo dessa atmosfera ameaçadora, em uma imponente torre negra sobre um trono de ferro negro, uma figura majestosa e intimidante descansava a face sobre a mão. Adornando sua cabeça, uma coroa se formava de chamas azuis crepitantes que pareciam acompanhar cada movimento seu. Com um sorriso fraco no rosto, o poderoso ser observava atentamente o ambiente.

Levantando-se lentamente de seu trono, a figura caminhou. Seus olhos brilhantes, refletindo as chamas azuis de sua coroa, esquadrinharam o horizonte como se buscassem algo. Com um ar pensativo, o rei do inferno pisou no chão, movendo os convidados indesejados até sua presença.

"— Victor, eu já volto."

"— O quê?" Perdido em confusão com o súbito desaparecimento de Hallow Eve, Victor viu o espaço se dobrar e engoli-lo.

『O que o traz aqui, resquício do rei dos filhos da noite?』

"— Ah... o mesmo de sempre, rei. Cumprindo a vontade de um ser maior. E você?"

『...Humph! A mesma merda de sempre, um CLT de 7x0 por toda a eternidade, sem folga ou remuneração. Todo o santo maldito dia trabalhando igual a um condenado, masss... de resto, tá de boa!』

Jogando-se de forma desleixada e despreocupada em seu trono, moveu os dedos criando um charuto e acendendo-o com uma simples faísca gerada a partir de suas garras.

『O mortal que trouxe a meus domínios busca o encontro com aquele bastardo rabugento por quê? Entre tantos aos quais o seu privilégio o concedeu, por que desejaria conhecer logo ele?』

"— Talvez, quem sabe... talvez porque seja uma ferramenta do roteiro de alguém preguiçoso!"

『Talvez... hahahaha! Ah, agora... as engrenagens estão girando. A providência moveu as linhas do destino, cada peça já se estabeleceu e, se este mortal vem aqui conversar...』

Perdendo-se em meio às suas próprias palavras, o rei do inferno lembrou-se do passado.

— Tu és o que és, e sou o que sou. Aquele que viveu a metade de sua existência frívola como um andarilho, caminhando descalço até que minha pele rasgasse e minha carne fosse exposta, viajando entre as estrelas e acumulando o conhecimento presente na experiência da vivência... Para quê? Se fosse de um jeito a revelar uma palavra ao teu entendimento, criança... seria perdão próprio. Perdão por uma vida marcada pela inveja e pela ira; o perdão dos meus atos, de tudo o que fiz. O pecado marcado em minha carne consome minha alma por dentro. Foi-me negado o direito ao descanso, restando-me testemunhar a terra — a terra amaldiçoada em que vivem aqueles que carregam meu sangue.

"— O que desejo pedir ao senhor, um dos doze ancestrais dos homens e primogênito de Adão, é que me conte a história dos seus filhos."

— Descendente de um de meus irmãos, qual é o seu nome?

"— Victor, senhor Caim."

— Victor... hum, o tempo passou muito além do que minha mente calcula. Como é passageiro, momentâneo, fútil; vai e nunca mais retorna, como as gotas em uma chuva. Mas, atendendo ao seu pedido, tudo começou...

A vida perguntou à morte:

『Por que todos me amam e a ti odeiam?』

A morte respondeu:

『A vida é uma linda mentira e eu sou uma dolorosa verdade.』

— Palavras únicas para um clã demoníaco.

Iniciando o fluxo do tempo da mortalidade, das raízes de Yggdrasil a Nun, a centelha da descendência de Adão propagou-se pelas ilhas. Movendo sua cabeça para cima, Caim suspirou:

— Ah... contra ti pequei e fiz o que reprovas!

Nos dias de outrora, com o primeiro raiar do sol a banhar as primeiras terras, o primogênito da criação veio do barro da terra; de sua solidão, uma igual extraída de sua costela foi-lhe entregue. Firmou-se a missão de semear e povoar, mas a vergonha e o pecado da tentação, nascidos das palavras do desejo, encravaram-se em seu coração e, de um simples ato de desobediência, o pecado naquele momento se instalou.

Jogados ao exílio por seus erros, restou-lhes o suor de seu esforço na terra para viver, além de tormento, sofrimento e o dom de conceber a vida através da dor de colocá-la no mundo. Das terras selvagens, o choro de duas crianças ecoou no ambiente hostil. Da terra Caim arava, e dos rebanhos Abel pastoreava. A mão desceu e o sangue banhou a terra; um grito de clamor por justiça foi exigido e atendido.

— Demônios não têm fim, criança Victor... eles só se tornam mais e mais profundos! No fim dos dias de um menino, o limite da natureza de um demônio é o recipiente do corpo contendo a totalidade das complexas emoções do coração dos homens, que não conseguem mais contê-las. Em última análise, o mal é, em outras palavras, determinado por nossa natureza.

Renegados pela luz da aurora, negado o repouso abaixo da terra, proibidos de pisar tanto no céu quanto no inferno — renegados por ambos os lados. Tavam marcada em sua carne a marca do pecado de um único homem. O fratricídio manchou o sangue das crianças de sua casa; o fruto de seu pecado se misturou ao sangue.

— Iniciando assim o conto do demônio! Este é meu mundo interno, criança Victor... e daqui você verá a história deles.

『Da mente, o interior se mascara diante da vasta camada das águas negras, trazendo com a sua passagem arrogante o fluir do tempo. O novo amanhecer trouxe consigo a nova era, a era de clamor pela desolação dos tempos, ramificando-se como os galhos de árvores, caminhos abertos do novo mundo, e assim giraram os livros, fazendo as páginas rolarem.』

Tomado por tamanha imensidão, Victor viu uma prateleira que se encontrava nesse palco recheado de tanta perdição; seus olhos cintilavam como pequenos diamantes, tomado pela euforia do tesouro à sua frente.

"— Ah... ah... ah... calma!"

Guiado por um cheiro amargo e forte de sangue, Victor foi atraído ao caminho correto entre tantas armadilhas que enganavam os olhos. Chegou até o único livro retentor do conhecimento que almejava: um tomo branco com duas tiras grossas de ouro nas extremidades superiores e inferiores. Puxado como por um ímã, passo a passo ele se aproximou, hipnotizado. Finalmente o tocou, arrancando o livro da prateleira e revelando aos seus olhos seu couro desgastado, que ainda assim preservava a nobreza do tempo.

"— Ah! Tão profundo quanto o vasto céu!"

Alisando a capa, manchas revelavam-se entre as rachaduras decorrentes do manuseio das gerações anteriores — detalhes que não escaparam ao olhar de Victor, assim como as tiras de ouro finamente trabalhadas. Abrindo as páginas, ele o folheou calmamente, devorando as letras escritas com o sangue de seu autor. Ganhando vida, as letras giravam em volta do corpo de Victor, adentrando sua pele e tingindo seus olhos como uma longa noite sem estrelas.

Ele finalmente deu o primeiro passo rumo à transcendência. Como um pintinho saindo do ovo, sua alma se preparava para escapar dos limites do seu corpo. Quanto maior a rachadura, mais dolorosa ela era; sentia como se seu corpo estivesse se despedaçando. No entanto, sua alma sentia-se revigorada por escapar daquela gaiola desconfortável. Descascando como uma velha árvore, branco e puro, suas asas longas levantaram-se e a voz de Caim ecoou em sua cabeça:

— Vá para onde os dez mil demônios reinam; escreva seu passado, presente e futuro.

O espaço ondulou e dobrou, e do interior do recipiente algo mudou.

— Lembre-se: do desejo, o demônio floresce!

Atiçando seus sentidos, Victor aos poucos fechou os olhos, mergulhando em pensamentos. Uma imagem sólida apresentou-se em sua mente e ele pôde sentir uma mudança ocorrer no interior e no exterior de seu corpo; do peito, uma chama quente começou a brilhar, espalhando-se para fora entre as rachaduras em um fluxo violento.

Expandindo a consciência no novo mundo que encontrou, teve a visão, no horizonte, de vastas terras desconhecidas. Sendo engolido para dentro desse espaço, descendo mais abaixo, ele testemunhou a passagem da evolução da história dos homens. Do levantar do caminho da vida às formas que ali trilham a natureza: a chegada das estrelas gêmeas, a divisão dos ideais, o confronto das vontades e o início do ciclo eterno das guerras dos filhos primogênitos. O ascender do imperador e a unificação das tribos dos filhos de Caim pela espada; o primeiro imperador dos homens, Aeshma.

Thoughts

  • miguelv341

    Pergunta sincera. O que acham do Hallow Eve? Esse personagem que por tantos colegas que eu o apresentei amaram.

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