No começo, ninguém chamava aquilo de namoro.
Era simplesmente Eduardo e Helena.
Ele aparecia na faculdade quase sempre no fim das aulas, fingindo que estava ali para entrevistar algum professor. Ela fingia acreditar.
As amigas sorriam ao vê-lo encostado sob uma enorme sibipiruna, um jornal dobrado debaixo do braço e um cigarro apagado entre os dedos. Nunca acendia o cigarro quando Helena estava por perto. Ela detestava o cheiro.
— Você vai acabar morrendo cedo se continuar comprando cigarros para não fumar.
— Compro para parecer um jornalista de verdade.
Ela ria.
— Então ainda está ensaiando?
— Todos nós estamos.
Os dois caminhavam pelas ruas de São Paulo como se a cidade existisse apenas para eles. Entravam em sebos onde o cheiro de papel envelhecido parecia mais forte que o do café. Discutiam apaixonadamente sobre literatura.
Ela defendia Clarice Lispector.
Ele preferia Graciliano Ramos.
Ela dizia que a literatura precisava ensinar a sonhar.
Ele respondia que precisava ensinar a enxergar.
— Não dá para mudar o mundo sem poesia — insistia Helena.
— Também não dá para mudá-lo fechando os olhos para a injustiça.
Ela sorria.
— Então escrevemos juntos.
— Como?
— Você conta a verdade.
— E você?
— Dou esperança para quem ler.
Eduardo segurava sua mão discretamente sobre a mesa do café.
Naquele instante, parecia possível fazer as duas coisas.
As noites pertenciam ao cinema.
Assistiam aos filmes de Fellini, de Truffaut e do Cinema Novo brasileiro. Saíam discutindo cada cena enquanto caminhavam pelas ruas iluminadas por postes amarelados.
Numa dessas noites, Helena apareceu com um pequeno rádio portátil.
— Escute.
Uma música desconhecida começou a tocar.
Quatro vozes inglesas.
Quatro rapazes de cabelos estranhos.
Ela fechou os olhos.
— Eles vão mudar tudo.
Eduardo riu.
— Você diz isso de qualquer banda nova.
— Não. Deles eu tenho certeza.
— Como pode saber?
— Porque eles cantam como quem acredita que o futuro existe.
Ele olhou para ela.
— Você também.
Ela percebeu.
— Está me olhando desse jeito outra vez.
— Que jeito?
— Como se estivesse decorando meu rosto.
Eduardo respondeu baixinho.
— Estou.
— Para quê?
— Porque tenho medo de esquecer.
Ela segurou seu rosto entre as mãos.
— Você nunca vai esquecer.
Ele acreditou.
Na primavera daquele ano, viajaram de trem até Santos.
Passaram o dia caminhando pela praia quase vazia.
Helena recolhia conchas como uma criança.
Eduardo anotava frases num bloco de repórter.
Ela aproximou-se por trás.
— O que você escreveu?
Ele fechou o caderno.
— Ainda não.
— Você nunca me deixa ler.
— Porque ainda não sei escrever sobre você.
— É tão difícil assim?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Você não cabe numa reportagem.
Ela sorriu, emocionada.
— Então escreva um romance.
— Não.
— Por quê?
— Porque os romances acabam.
Ela respondeu sem hesitar.
— Os bons continuam dentro da gente.
Naquela tarde, sentados sobre a areia fria, trocaram o primeiro beijo.
Não foi um beijo impetuoso.
Foi lento.
Quase tímido.
Como se ambos soubessem que aquele instante permaneceria intacto para sempre, mesmo quando tudo o mais desaparecesse.
Mas o mundo começava a mudar.
As redações estavam inquietas.
Os jornais recebiam telefonemas estranhos.
Nas universidades, os debates tornavam-se mais acalorados.
Eduardo passava cada vez mais tempo trabalhando.
Helena começava a ouvir nomes que antes lhe eram distantes: censura, repressão, golpe, perseguição.
Ela ainda acreditava que a arte poderia salvar as pessoas.
Ele começava a acreditar que talvez fosse preciso muito mais do que poemas.
Sem perceber, uma sombra silenciosa já caminhava entre os dois.
Ainda se amavam com toda a intensidade da juventude.
Mas, do lado de fora, a História preparava-se para bater à porta.
E quando a História entra numa casa, quase nunca pede licença.