O inverno de 1964 chegou mais cedo naquele ano.
São Paulo amanhecia coberta por uma névoa fina que escondia os prédios e fazia os bondes parecerem fantasmas atravessando a cidade.
Eduardo havia acabado de receber o pagamento do jornal.
Era pouco.
Muito pouco.
Mesmo assim, naquela sexta-feira, passou diante de um pequeno hotel próximo ao centro e tomou uma decisão.
Quando encontrou Helena na saída da faculdade, ela percebeu imediatamente que havia algo diferente em seu olhar.
— O que aconteceu?
— Hoje eu quero roubar você do mundo.
Ela sorriu.
— E para onde um jornalista sem dinheiro pretende me levar?
— Para o lugar mais bonito que eu puder pagar.
Era um hotel simples.
Não havia luxo algum.
A escada de madeira rangia sob os passos, o papel de parede já mostrava o desgaste do tempo e a janela deixava entrar o frio da noite.
Mas, para eles, aquele quarto parecia um universo inteiro.
Helena aproximou-se da janela.
Lá fora, a cidade seguia apressada.
Lá dentro, o tempo parecia finalmente disposto a descansar.
Ela tirou o casaco de lã e ficou observando as luzes da rua.
Eduardo permaneceu em silêncio.
Não conseguia acreditar que aquela jovem, tão cheia de vida, de inteligência e de beleza, tivesse escolhido estar ali com ele.
Helena voltou-se para encontrá-lo parado no meio do quarto.
— Está me olhando desse jeito de novo.
— Não consigo evitar.
— O que foi?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Tenho medo de acordar.
Ela caminhou até ele e segurou suas mãos frias.
— Então não durma.
Ficaram assim por alguns instantes, apenas respirando o mesmo silêncio.
Depois Eduardo tocou delicadamente o rosto dela, como quem tenta guardar na memória cada detalhe.
— Às vezes acho que você pertence a outro mundo.
Helena balançou a cabeça.
— Não pertenço.
Ele apoiou a testa na dela.
— Não...
Fez uma pausa, procurando as palavras.
Então disse, quase num sussurro:
— Você é feita do mesmo barro que eu.
Os olhos de Helena se encheram de lágrimas.
Ninguém jamais lhe havia dito algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundo.
Ela compreendeu o que ele queria dizer.
Não a via como um ideal inalcançável.
Via nela a mesma fragilidade, os mesmos medos, a mesma humanidade.
Sorriu.
— Então nunca deixe que eu me esqueça disso.
Ele respondeu:
— Prometo.
Naquela noite, o frio ficou do lado de fora.
Dentro do pequeno quarto, descobriram que amar também podia ser um abrigo.
Não havia promessas grandiosas, apenas a confiança silenciosa de dois jovens que acreditavam que o futuro ainda lhes pertencia.
Horas depois, Helena adormeceu.
Tinha os cabelos espalhados sobre o travesseiro e respirava tranquilamente, como uma criança cansada depois de um dia feliz.
Eduardo permaneceu acordado.
Sentado na velha poltrona ao lado da cama, observava cada traço de seu rosto iluminado pela luz pálida que atravessava a cortina.
Pensou em quantas reportagens ainda escreveria.
Nos livros que ela ainda publicaria.
Na casa que talvez construíssem.
Nos filhos que, quem sabe, correriam entre estantes cheias de livros.
Pela primeira vez, imaginou um futuro que não fosse apenas seu.
Levantou-se devagar para não acordá-la.
Cobriu seus ombros com o cobertor que insistia em escorregar.
Helena abriu os olhos por um instante.
Ainda sonolenta, perguntou:
— Por que não dorme?
Eduardo sorriu.
— Porque passei a vida procurando uma boa história.
Ela estendeu a mão até encontrar a dele.
— E encontrou?
Ele beijou-lhe a testa.
— Encontrei.
Helena voltou a dormir com um sorriso sereno.
Eduardo, porém, permaneceu desperto até o amanhecer.
Sem saber que aquela seria a lembrança que o acompanharia durante toda a vida — nas madrugadas da prisão, nos corredores escuros onde seria interrogado, nas noites em que receberia prêmios por sua coragem e, décadas mais tarde, quando a doença lhe roubasse as forças.
Sempre que fechava os olhos, era para aquele quarto simples que sua memória voltava.
Não para recordar a juventude.
Mas para recordar a única noite em que acreditou, sem nenhuma dúvida, que o amor era maior do que o medo.