A névoa espessa das florestas inglesas envolvia as árvores seculares em um manto de mistério e apreensão.
O ar era gélido, impregnado pelo cheiro de terra molhada e pelo odor metálico de sangue fresco que pontilhava a vegetação rasteira. Ali, onde a luz do luar mal conseguia romper a copa fechada dos carvalhos, o silêncio da noite era opressivo, interrompido apenas pelo estalar de galhos secos sob botas firmes.
Edward avançava com passos calculados. Em seu peito, a cruz estilizada reluzia suavemente contra a penumbra, refletindo a convicção de uma vida dedicada à proteção dos inocentes. Em seu braço esquerdo, o escudo gravado com a palavra Fé permanecia erguido, pronto para aparar as investidas das trevas, enquanto sua mão direita empunhava a espada com firmeza.
Há semanas, os vilarejos das redondezas viviam sob o terror. Ovelhas eram dizimadas durante a madrugada e, gradativamente, os desaparecimentos alcançaram os próprios aldeões. Rastros de garras profundas na casca das árvores e uivos desumanos ao longe não deixavam dúvidas: uma criatura demoníaca havia fincado garras naquela região.
Um rosnado gutural ressoou entre as sombras, fazendo as folhas rasteiras tremerem. Edward parou. Seus olhos atentos fixaram-se na escuridão mais adiante, onde dois pontos vermelhos e incandescentes brilharam de volta. A fera o espreitava, farejando o ferro de sua armadura e a luz inabalável que o cavaleiro carregava no espírito.
Com uma breve prece murmurada nos lábios, Edward ajustou sua postura de combate e elevou a espada, sabendo que a batalha pela libertação daquele povo estava prestes a começar.
Antes que a lâmina de Edward cortasse a penumbra, os olhos vermelhos dissiparam-se temporariamente na espessura do nevoeiro. O rosnado cessou, dando lugar a um silêncio quase sepulcral. Avançando alguns passos entre as árvores retorcidas, o cavaleiro encontrou uma pequena clareira iluminada apenas pelo brilho prateado do luar.
Ajoelhado sobre uma pedra musgosa, estava um homem idoso de trajes rústicos e pele marcada por cicatrizes e espirais antigas. Não demonstrava medo algum diante da figura imponente de Edward.
— Abaixe sua lâmina por um instante, nobre cavaleiro — disse o homem, com uma voz rouca e profana. — A fera que você caça não pertence a este mundo por vontade própria.
Edward manteve o escudo erguido, mas franziu o cenho.
— Quem é você e o que sabe sobre os males que assolam estas terras?
— Sou apenas um mensageiro das sombras do passado, testemunha de uma vingança antiga — respondeu o ancião, apontando para as marcas gravadas na casca dos carvalhos ao redor. — Essa aberração foi conjurada por um poderoso feiticeiro, o último descendente dos pictos. Cheio de ressentimento pelo sangue de seu povo derramado há séculos, ele recorreu às artes sombrias para moldar uma besta de puro ódio, alimentada por sacrifícios.
O ancião estendeu a mão, revelando um amuleto esculpido em pedra e osso:
— Se você atacar a criatura sem quebrar o vínculo que a prende ao feiticeiro, seu aço será inútil. Destrua o totem do conjurador e a maldição ruirá.
Antes que Edward pudesse responder, o ar gelado tornou-se pesado. A fera emergiu das trevas com um rugido ensurdecedor, quebrando galhos e revelando mandíbulas famintas e garras afiadas como punhais.
Com a palavra Fé reluzindo em seu escudo, Edward deu um passo à frente, pronto para o combate.
Guiado pelos conselhos do ancião, Edward adentrou ainda mais as profundezas da Floresta Negra. À medida que avançava, a névoa dava lugar às ruínas de um antigo templo de pedra. Ali, de pé, aguardava uma figura imponente: um homem impecavelmente trajado com veludo e bordados dourados, ostentando a postura nobre de um Lorde inglês.
Apesar das vestes aristocráticas, sua presença transpirava uma aura profana. Tratava-se do último feiticeiro picto, que anos antes assassinara o verdadeiro lorde local para assumir sua identidade e governar a região em segredo, escondendo sob panos finos as marcas e espirais ancestrais em sua pele.
ao ver a cruz estilizada no peito de Edward e o escudo reluzente com a palavra Fé, o falso nobre soltou uma risada gélida.
— Sua luz não tem poder neste domínio, cavaleiro! — bradou o feiticeiro, erguendo as mãos para o céu.
Raios de energia sombria irromperam de seus dedos, rasgando o solo. O ar congelou e, em meio a um rugido horripilante, a criatura demoníaca emergiu das sombras — uma besta com asas murchas, garras letais e olhos vermelhos famintos.
Edward avançou sem hesitar. Ergueu o escudo Fé, aparando o primeiro golpe devastador da fera. Faíscas douradas e energia profana colidiram, ecoando pelas ruínas. O cavaleiro golpeou com sua espada sagrada, ferindo a besta no peito e fazendo-a recuar com um uivo de dor e fúria incontrolável.
Fora de si, desorientada pela luz divina e pelo sofrimento, a criatura perdeu qualquer vínculo de controle que o feiticeiro ainda mantinha. Em um sobressalto de puro frenesi animalesco, a fera girou bruscamente e cravou suas garras afiadas no peito do próprio invocador.
O falso Lorde soltou um grito sufocado de horror e surpresa antes de tombar sem vida sobre as pedras frias, traído pela própria aberração que conjurara para destruir outros.
Livre da dominação do feiticeiro, a besta virou-se novamente para Edward, sangrando e rosnando com ainda mais ferocidade para o confronto final.
A besta rosnava, saliva negra escorrendo de suas mandíbulas enquanto dava passos lentos em direção a Edward. Porém, ao olhar por cima do ombro da criatura, os olhos do cavaleiro fixaram-se no corpo inerte do falso Lorde.
Preso ao pescoço do feiticeiro fallen, agora exposto sob o tecido rasgado, reluzia um amuleto em formato de serpente entrelaçada, era grande, quase como uma couraça, entalhado em pedra escura. O artefato pulsava com uma luz purpúrea doentia, emitindo um zumbido grave que parecia alimentar a própria existência da criatura.
As palavras do ancião da floresta ecoaram imediatamente na mente de Edward: "Se você atacar a criatura sem quebrar o vínculo, seu aço será inútil... Destrua o totem do conjurador e a maldição ruirá."
Edward entendeu em um fração de segundo. A morte do feiticeiro não havia banido o monstro; enquanto o amuleto estivesse intacto, a essência profana continuaria a manter a besta neste mundo, tomada por uma fúria cega e sem controle.
A fera saltou com as garras abertas, rasgando o ar em sua direção.
Com um movimento rápido e preciso, Edward ergueu o escudo Fé. O impacto da criatura contra a superfície sagrada gerou uma onda de choque dourada, arremessando a besta para o lado por alguns segundos. Aproveitando a brecha, o cavaleiro não avançou contra a aberração, mas sim correu em direção ao corpo do feiticeiro.
A besta rugiu ao perceber a intenção do caçador e se recuperou rapidamente, investindo com fúria total para proteger o artefato.
Com a espada em riste e o coração firmado em sua missão, Edward se preparou para o golpe decisivo que destruiria a fonte daquela maldição de uma vez por todas.
Num movimento de desespero puramente bestial, a fera projetou-se no ar para proteger o artefato. Edward, no entanto, foi mais ágil. Desviando da investida no último segundo, o cavaleiro girou o corpo e fincou a lâmina de sua espada com toda a força no amuleto que jazia sobre o peito do feiticeiro morto.
A pedra em formato de serpente despedaçou-se com um estalo ensurdecedor. Um clarão de luz roxa irrompeu do totem destruído, dissipando a aura de invulnerabilidade que envolvia a aberração. A criatura soltou um uivo de agonia ao sentir a força sobrenatural que a protegia esvair-se instantaneamente, tornando a sua carne mortal e vulnerável ao aço sagrado.
Sem o escudo de magia profana, a fera investiu pela última vez em ato de puro desespero. Edward ergueu o escudo Fé, bloqueando o impacto rasgante das garras. Aproveitando o desequilíbrio do monstro, desferiu um golpe certeiro no peito da criatura. O aço trespassou a carne abençoada pela luz, e a besta caiu pesadamente sobre as folhas secas, dando o seu último suspiro antes de virar cinzas e se dissipar na noite.
O silêncio finalmente retornou à Floresta Negra. A névoa densa começou a se desfazer, revelando a luz límpida do luar.
Ao embainhar a espada, Edward ouviu passos suaves se aproximando. Entre as árvores antigas, o homem que ele encontrara sentado na pedra reapareceu. Contudo, as vestes rústicas e a aparência cansada deram lugar a um resplendor de paz e majestade inconfundíveis. Uma luz suave envolvia Sua figura, e Seus olhos transbordavam uma compaixão infinita.
Edward imediatamente reconheceu a presença divina. O ancião da floresta revelava-se como o próprio Mestre, Jesus Cristo, que estivera guiando os passos do cavaleiro e testando a sua fé ao longo de toda a jornada. Tomado de profunda reverência e gratidão, Edward juntou as mãos e inclinou-se diante da luz do Salvador, sabendo que a vitória contra as trevas nunca pertencera apenas ao seu aço, mas à fé inabalável que guiava o seu coração.
Outras pessoas apareceram, seriam sacrifícios para a criatura, mas Edward chegou a tempo , todos reunidos perante nosso Senhor, oraram e a agradeceram a vitória e deram Glória a Deus.
Fim