Naquela noite, a Lapa parecia ter sido criada apenas para eles.
Uma chuva fina lavara as pedras antigas, e os lampiões faziam a cidade inteira brilhar como ouro envelhecido.
Quando Pessanha chegou ao quarto de Mimi, encontrou a porta entreaberta.
Ela o esperava vestida com um delicado robe de renda negra. O cabelo estava adornado por uma única rosa vermelha, e dezenas de velas espalhadas pelo aposento transformavam a pequena sala em um santuário de luz trêmula.
Sobre a cama, pétalas de rosas desenhavam um caminho escarlate.
Havia uma garrafa de vinho já aberta.
Mimi sorriu.
— Hoje não quero pensar no amanhã.
Pessanha aproximou-se sem dizer uma palavra.
Ela encheu duas taças.
Brindaram em silêncio.
Depois, entre risos e confidências, beberam o vinho lentamente, como quem desejava fazer o tempo esquecer de passar.
O perfume das rosas misturava-se ao cheiro da cera derretida das velas, enquanto o velho gramofone tocava um tango melancólico.
Naquela noite, não foram um malandro e uma cortesã.
Foram apenas Miguel e Mimi.
Ela apoiou a cabeça em seu peito.
— Lembra do rapaz tímido que entrou aqui pela primeira vez?
— Morreu faz tempo.
— Não...
Ela sorriu com ternura.
— Ele ainda vive aí dentro.
Só está escondido atrás do homem que todos aprenderam a temer.
Pessanha fechou os olhos.
Pela primeira vez em muitas semanas, sentiu vontade de voltar a ser Miguel.
Ficaram juntos até a madrugada, conversando sobre sonhos que talvez jamais existissem. Falaram de uma casa à beira-mar, de roseiras floridas, de filhos imaginários e de uma vida simples que nunca lhes fora concedida.
Quando o relógio marcou três horas, Mimi levantou-se.
Abriu a janela.
A brisa trouxe o cheiro do oceano.
— Amanhã haverá festa no cabaré.
A casa inteira estará cheia.
Música.
Champanhe.
Gente importante.
Quero dançar pela última vez.
Pessanha a olhou, sem compreender.
— Última vez?
Ela demorou a responder.
— Algumas despedidas precisam acontecer antes que a tragédia as transforme em silêncio.
Ele tentou segurá-la.
— Não fale assim.
Mimi acariciou seu rosto.
— Prometa apenas uma coisa.
— Qualquer coisa.
— Quando chegar a hora... lembre-se do homem que entrou aqui trazendo uma única rosa.
Não do homem que passou a carregar o mundo inteiro nos ombros.
Pessanha não conseguiu responder.
Apenas a abraçou.
Na noite seguinte, o cabaré parecia um palácio.
As mesas estavam cobertas de flores. Músicos faziam o salão vibrar com sambas e maxixes. Homens de terno branco, artistas, marinheiros, políticos e poetas enchiam o ambiente de fumaça, gargalhadas e brindes.
Madame Satã observava tudo de um canto.
Ao ver Mimi surgir no alto da escada, vestida de vermelho, com uma rosa presa aos cabelos, sentiu um aperto inexplicável no peito.
Ela desceu lentamente.
Sorriu para todos.
Dançou como jamais havia dançado.
Era como se estivesse se despedindo da própria Lapa.
E, do outro lado do salão, Pessanha a contemplava em silêncio.
Pela primeira vez desde que se apaixonara, compreendeu que o verdadeiro amor não podia impedir uma alma de ser livre.
Mas a profecia da Pombagira ainda ecoava em sua memória.
E, escondida entre a música, as flores e o brilho das taças, a tragédia aproximava-se com a calma inevitável de quem já conhece o fim da história.