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OS MISTÉRIOS DO ACASO - Capítulo 9

Pietrodeluccapoeta777
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Helena era uma mulher astuta, vivida, de mil qualidades; possuía mistérios que, para o poeta, não eram novidade. Ele não era tão "disperso" quanto parecia, mas estava profundamente apaixonado. Em…

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9º Capítulo

OS MISTÉRIOS DO ACASO

O Reflexo do Beijo! E O TRATO DA VIDA

Helena era uma mulher astuta, vivida, de mil qualidades; possuía mistérios que, para o poeta, não eram novidade. Ele não era tão "disperso" quanto parecia, mas estava profundamente apaixonado. Em contrapartida, ela sabia como sová-lo, mantendo-o em um banho-maria que seguia com uma singular naturalidade, ainda que, para Narciso, aquela situação estivesse se tornando sufocante. Ele procurava não demonstrar seu lado afoito, mas, por dentro, vivia uma sessão de tsunamis que transbordava em palavras, temas e poesias. Talvez, ao notar a fissura do menino, ela abriu uma exceção: ali foi a primeira aula de línguas traduzidas em beijos.

Foi sublime; deu uma amenizada na caloria do poeta. Com aquele mulherão, linda, de um beijo divino, era óbvio que Narciso queria mais um pouco — não para se aproveitar, mas para deixar-se envolver pela aura do prazer e do amor.

​Sem sombra de dúvidas, aquele final de tarde na lanchonete paulistana tornou-se um marco divisório na biografia de Narciso. O beijo roubado e aquele abraço forte, carregado de ternura e do perfume marcante — o Chanel nº 1 — selaram um novo pacto invisível. Ficou evidente que, daquela data em diante, a aproximação entre o Narciso Poeta e a Helena Dolly estreitou-se de forma ainda mais íntima. Os contatos telefônicos fora do horário de expediente tornaram-se mais constantes e longos, pois a paixão de ambos crescia a passos largos. No caso de Narciso, o sentimento era tão avassalador que estava escancarado em seu rosto; ele não conseguia mais disfarçar o brilho no olhar e o sorriso bobo que insistia em brotar nos lábios.

Qualquer pessoa que cruzasse com o casal nos arredores da empresa conseguia sentir no ar a latente eletricidade, aquele clima inconfundível de amor flutuando entre os dois, o Poeta nem fazia questão de disfarçar. O detalhe mais interessante dessa engrenagem do destino era o tempo: fazia pouquíssimo tempo que eles se conheciam, apenas quatro meses de convivência formal no trabalho. Contudo, para quem olhava de fora, a impressão nítida que dava era de que eles possuíam uma ligação de alma antiga, um elo íntimo construído ao longo de muitos anos em outras vidas.

Houve uma noite específica, entretanto, em que o tabuleiro do romance pregou uma peça no escritor. Narciso recolheu-se cedo, alimentando a certeza de que Helena Dolly ligaria para a sua residência, como já havia se tornado um doce costume entre os dois. Mas, para a sua total infelicidade e desespero, o toque estridente não ecoou. O telefone, que permanecia mudo na parede da sala, mudo ficou até o amanhecer do outro dia. Mesmo sentindo o peso das horas, enquanto o sono se recusava a chegar, o Poeta permaneceu firmemente sentado próximo ao aparelho, vigiando o silêncio. Foi justamente nesse cenário de expectativa e solidão que começaram a surgir, na tela de sua mente, as primeiras linhas do poema "Aguardei Você".

A facilidade quase mágica com que Narciso colocava suas inspirações no papel continuava sendo algo impressionante de se testemunhar. Para ele, o mundo exterior era um eterno gatilho lírico: bastava uma folha seca cair de uma árvore na calçada para que sua mente traduzisse o movimento em pura poesia. Ele realmente possuía uma sensibilidade aguçada, um radar para a beleza e para a dor que era extremamente refinado. Naquela madrugada vazia, Narciso aguardou aquela ligação como se dependesse daquilo para respirar, como se fosse, de forma exagerada e dramática, um caso de vida ou morte. Por fim, o telefone não tocou, e a ansiedade só fazia aumentar no peito.

A essa altura da história, já havia pintado o primeiro beijo e muitos outros encontros ardentes além daquele. Narciso necessitava ouvir a voz de Helena naquele momento de isolamento, talvez porque a sua própria alma estivesse implorando por esse alimento. Era um sentimento estranho, quase uma dependência daquela presença magnética. Ele corria atrás daquela sintonia como um guerreiro medieval disposto a tudo para defender e saudar a sua amada; queria estar em constante conexão com ela. Era uma espécie de magia poderosa e, na mente do escritor, sem a presença de Helena o gênio da lâmpada não valia absolutamente nada. A própria Helena Dolly sabia perfeitamente do poder que exercia sobre ele, pois tudo era muito claro, óbvio e transparente. E foi sob o peso desse silêncio que os versos nasceram:

AGUARDEI VOCÊ

Hoje

Aguardei você.

Impossível, mas aguardei.

Te aguardei com tanta veemência

Que meu coração

Sentiu a sua ausência.

Cheguei a trocar altas ideias

Com meu Eu,

Contemplando nosso mundo,

Nossa trajetória

E nossa história.

*

Concluí

Que perdemos muito tempo

Insistindo em nos enganar.

Tudo tem seu porquê!

Existem detalhes

Que só o coração

Pode explicar.

*

Me apresentei a você

Dedicando toda minha inspiração

E afinidade,

Felicidade...

Descobrindo pelo conteúdo

Que a cada minuto

Torna-se inútil

O nosso afastamento.

Sinto meu querer

Me apertar,

Me empurrar para ti.

*

Te aguardei hoje,

Como sempre

Te aguardei.

Daqui a alguns instantes

Vou rever a quem adoro

E gosto.

O tempo

É uma preciosidade

Que não podemos perder

Ou desperdiçar.

*

Você

É minha especialidade poética

E o meu desejo é grande.

Procuro não me enganar,

Mas não tem jeito.....

Ass. Narciso "O Poeta"

Os dias continuaram a rodar na rotina de São Paulo, e houve uma data em que Narciso, tomado por uma coragem repentina, convidou Helena para um rápido almoço de meio de expediente. No fundo, ele calculava que ela fosse recusar devido à correria das obrigações da empresa, mas lançou o convite assim mesmo, pagando para ver. Para a sua surpresa e alegria, sem titubear ou fazer charminho, Helena aceitou de imediato e marcou o horário exato do encontro. Na hora combinada, os dois deixaram o prédio e seguiram lado a lado para o tão desejado almoço. Narciso estava simplesmente radiante, transbordando uma felicidade que contagiava o ambiente. Mentalmente, ele agradecia a todo momento a Deus e a todas as forças do céu e da terra por ter o privilégio de compartilhar com ela aquele ato cotidiano, mas que para ele era sagrado. A única pena era o relógio: eles tinham apenas uma hora regulamentar para saborear aquele momento, sessenta minutos que certamente ficariam gravados para sempre na mente daquele apaixonado voraz.

Helena, mantendo a sua postura sempre discreta e soberana, não demonstrava o seu interesse por Narciso de forma escancarada; de certo tal sentimento existia em seu peito, mas não na mesma voltagem dramática do escritor. Realmente, o Poeta exagerava na dose de amor, entregando uma intensidade que era cem por cento mais forte do que o normal. Mesmo assim, o carinho e o querer mútuo sempre estiveram presentes na mesa. Quando faltavam apenas alguns minutinhos para o término daquele adorável almoço, Narciso enfiou a mão no bolso do paletó, tirou um papel de rascunho dobrado e disse com um sorriso travesso:

— Surpresa, minha linda!

— O que é que você está aprontando agora, seu Poeta? — perguntou Helena, arqueando as sobrancelhas e sorrindo com o mistério.

— Calma... Esse aqui ainda é o rascunho da madrugada. Vou passar a limpo com calma no meu setor e, depois, entrego a versão definitiva nas suas mãos! — prometeu ele.

E assim ele o fez. Retornando ao trabalho, dedicou seus minutos livres para verter a tinta limpa no papel e entregou a Helena Dolly o poema que, em essência, correspondia ao "Trato da Vida". Na filosofia romântica de Narciso, viver significava amar e, ao fazermos isso com entrega total, estamos cumprindo o trato principal de nossa existência na Terra. Um pacto que não assinamos formalmente ao nascer, mas que temos a obrigação de, pelo menos, tentar cumprir com dignidade até o fim. E as linhas que ela leu diziam assim:

TRATO DA VIDA

Aprecio e admiro

A tua beleza,

A tua nobreza.

Talvez

Esteja no momento errado,

Mas no mundo certo,

Pois nele você está

Desenvolvendo os dons,

Os tons de uma Lady,

A mim presenteados.

O desafio

Conduz por um fio

Ao sucesso,

Sem excesso.

Esperto,

Expresso em outras palavras.

Sua generosidade em pessoa,

Que soa

Positivo aos olhos de alguns.

Ao ver dos outros,

O contraste.

Certamente

O destino não mente:

Às vezes presente,

Às vezes ausente,

Está sempre com a gente.

Faço da magia,

Meu mundo.

Faço do mundo,

O rabo de arraia e

Meu particular.

Mas divido sem egoísmo!

Sua coragem

É um estigma que alucina.

Sei que pode ser passageiro,

Mas é o dever da alma,

Do espírito,

Conceder o prazer

Que o faz impávido.

O ímpeto do Ser...

É assim que retrato

O Trato da Vida

E deste perfeito momento...

Ass. Narciso "O Poeta"

O Autor.

Apesar de estar num momento flutuante, se assim se pode dizer, a vida conjugal do Narciso estava longe de ter sido um mar de rosas. Se o que ele passou nos Dez Anos de CÁRCERE foi um castigo, ele já pagou uma boa porcentagem.

No seu primeiro e único casamento, nos moldes da Helena Dolly, o Poeta foi com muita sede ao pote, abriu seu coração para um amor extremamente desconexo, vulgar, mundano e o pior é que o Poeta não percebia “esses pequenos/grandes” déficit de conduta moral. Coisa que ele foi descobrir só na prática, no dia a dia, até aí, a vaca já estava no brejo. Therezza dava todos indícios que “pulava a cerca”, que traía sem o menor pudor, ela tinha um excesso de confiança acima da média. O Poeta até percebia mas evitava atrito, perguntava onde estava com quem e era só patada como resposta, a Therezza parecia um sargentão. O Poeta só alimentava e dava corda, ele sabia que em algum momento ela ia se enforcar e quando “bateu” uma década certinho, o veredito foi dado, fim da linha.

Um dos absurdos, era ela estar com dor de cabeça religiosamente todos os dias, não lavava, não cozinhava, não arrumava a casa. Chegava tarde do trabalho e ia dormir do jeito que tinha chegado da rua, sem banho, sem nenhuma palavra, só o silêncio. Foram anos de penitências, o Narciso via aquilo como uma “caderneta de poupança”, foi deixando render juros até completar os Dez Anos que recebeu a alcunha de Cárcere, mas não parou por aí. Submeter o Narciso à exposição era o que ela mais adorava, anos a fio foi assim!

Hoje, flertando com uma mulher completamente antagônica nas atitudes e pessoa, o Poeta tinha percebido que nem tudo estava perdido!

O Narciso simplesmente adotou a estratégia da paciência estratégica. Ele não enfrentava, não brigava, simplesmente "dava corda". Ao se fazer de desentendido diante das psicopatias e das atitudes suspeitas dela, ele conseguiu dois resultados:

​Observação Detalhada: Ele colheu todo o material necessário para, no momento certo, agir com firmeza diante da situação e poder narrá-la com a clareza que tem hoje para todos que foram a favor da ex.

​O "Enforcamento" Próprio: Como o Narciso escreveu, ele sabia que "em algum momento ela ia tracionar a corda". Ele deixou a Therezza se perder na própria arrogância e na falta de caráter. Ele não precisou entrar em vias de fato; ele apenas esperou o tempo maturar a fruta podre.

​Ele agiu com expertase de quem sabe que, contra certas pessoas, o silêncio e a observação são as armas mais letais. Foi necessário engolir muito sapo para sair por cima.

Hoje, olhando de fora, parece que ele aos poucos foi sufocando o ego dela para poder sair do "Cárcere" com a alma inteira, sem perceber ela ficou presa na própria arrogância.

​Podemos dizer que foi a famosa "esperteza de poeta": enquanto o outro acha que está ganhando, o Poeta está apenas anotando as cenas para o próximo capítulo. Foi uma jogada de mestre (ou de sobrevivente, né).

​Obrigado por dedicar seu tempo às minhas palavras. Este espaço é mantido pela paixão daqueles que ainda acreditam no poder da escrita autêntica. Considere tornar-se um assinante — gratuito ou pago — para não perder nenhum capítulo dessa jornada. Vamos manter viva a chama da literatura. Todas as quartas-feiras e aos sábados, haverá mais Mistérios a serem revelados!

​Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

​@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

O Autor.

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