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O Pacto da Noite Eterna, Brasil

Eduardo13

Conteúdo da publicação

A névoa fria da madrugava cobria o centro de Campo Grande, envolvendo o cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho em um silêncio denso.

Ali, no coração da cidade, a Praça Ary Coelho repousava sob a iluminação amarelada dos postes.

Para os pedestres do dia a dia,nos dias de hoje em 2026, era apenas um espaço de convivência, árvores frondosas e memórias urbanas. Mas, para os que conheciam os segredos das sombras, aquele solo guardava o eco dos que ali foram sepultados em 1872, quando o local não passava do primeiro cemitério do antigo arraial.

A história oficial dizia que, em 1909, todos os restos mortais haviam sido transferidos para a abertura do Passeio Público. Mas a terra tem memória — e nem todas as almas aceitam ser movidas por decretos urbanos.

Era por volta das três da manhã quando Drácula e o Lobisomem caminhavam discretamente pelas alamedas da praça. Desde que assumiram o papel de Campeões das Noites no Mato Grosso do Sul, a dupla mantinha vigilância constante sobre locais de convergência espiritual. E aquela noite trazia algo de diferente no ar: um odor amargo de enxofre misturado com a umidade das folhas das figueiras.

Próximo de onde um dia funcionara o antigo Pavilhão do Chá, a terra do canteiro central começou a tremer suavemente. Não era um tremor físico, mas uma vibração espiritual que fazia os pássaros das copas voarem em pavor silencioso.

— Eles estão inquietos hoje — murmurou o Lobisomem, com os olhos faiscando em um tom dourado enquanto seus sentidos apurados captavam o sussurro de dezenas de vozes em desespero.

— Não são os mortos comuns que despertam — respondeu Drácula, ajustando sua sobrecasaca escura. — É algo que os prende aqui desde a remoção de 1909. Uma dívida não paga.

Do solo aplainado há mais de um século, sombras sem rosto começaram a emergir. Não eram espectros agressivos, mas figuras etéreas de pioneiros e antigos moradores do arraial, acorrentadas ao centro da praça por uma presença muito mais sombria: o Espectro do Pavilhão, uma entidade profana nascida do rancor de um antigo coveiro que jurara nunca deixar que o repouso dos mortos fosse profanado pela modernidade.

A entidade manifestou-se sobre a estrutura da praça, com olhos de brasa e um manto feito de poeira e ossos antigos. Ela usava o sofrimento daquelas almas esquecidas para alimentar sua própria força, ameaçando arrastar qualquer transeunte noturno para as profundezas da terra.

— Este lugar pertence aos esquecidos! — rugiu a entidade, fazendo as lâmpadas da 13 de Maio piscarem intensamente. — Nenhum vivo ou imortal sairá impune por pisar sobre nossos túmulos!

O Lobisomem deu um passo à frente, deixando suas garras projetarem-se parcialmente, mantendo contudo o domínio absoluto sobre a fera interior:

— Seu tempo de cobrar essa dívida acabou. O arraial cresceu, mas essas almas merecem a paz, não a sua prisão.

Drácula ergueu a mão, canalizando a autoridade e a energia purificada que adquirira ao longo dos anos. Uma onda de luz suave e dourada emana de seu peito, cortando a névoa sombria e quebrando as correntes espirituais que prendiam os mortos do século XIX.

— Em nome daqueles que protegem esta terra: descansem. — declarou o Conde.

A Espectro do Pavilhão investiu contra eles em desespero, mas o Lobisomem interceptou a criatura com uma investida veloz, enquanto Drácula envolveu a entidade em um selo de luz purificadora. Com um último uivo abafado que ecoou apenas no plano astral, o espírito vingativo desintegrou-se em cinzas douradas, dissipando-se no ar da madrugada.

As almas dos antigos moradores, finalmente libertas do tormento secular, olharam para os dois protetores com um aceno silencioso de gratidão antes de desaparecerem suavemente em direção às estrelas.

Quando o primeiro raio de sol despontou no horizonte da Afonso Pena, a Praça Ary Coelho voltou à sua rotina normal. Os primeiros trabalhadores passavam pelos bancos, os passarinheiros começavam seu canto e o trânsito ganhava vida. Ninguém que caminhava por ali desconfiava que, sob a terra onde um dia existiu o primeiro cemitério de Campo Grande, a paz finalmente reinava absoluta — guardada em segredo pelos Campeões das Noites.

Com a dissolução final do Coveiro Espectral e a ascensão das almas ao plano superior, o brilho dourado da purificação aos poucos se dissipou. A Praça Ary Coelho recuperou seu silêncio matinal, restando apenas o suave murmúrio do chafariz central e o vento balançando as copas das figueiras centenárias.

Drácula ajeitou o colarinho de sua capa escura, observando os canteiros que agora repousavam em absoluta paz espiritual. Ao seu lado, o Lobisomem recolheu suas garras e inspirou o ar fresco do amanhecer, sentindo a calmaria retornar ao solo da capital.

Os dois protetores caminharam devagar até a calçada da Avenida Afonso Pena para observar o despertar da cidade. No entanto, quando os primeiros ônibus e carros começaram a transitar, o Conde notou o impacto constante dos pneus no asfalto irregular. Ao olhar mais de perto para as vias que cercavam o centro histórico, deparou-se com uma sequência interminável de remendos, imperfeições e buracos profundos ao longo da pista.

Drácula cruzou os braços, observando um veículo desviar bruscamente de uma cratera rente ao meio-fio, e soltou um suspiro profundo de ironia.

— Enfrentamos demônios ancestrais, libertamos almas aprisionadas por séculos e mantemos a escuridão sob controle... — murmurou o Conde, balançando a cabeça com um sorriso de canto. — ...mas parece que o verdadeiro desafio diário do povo desta terra está bem aqui, estampado no asfalto.

O Lobisomem soltou um riso baixo, olhando para as crateras da rua:

— Nem a nossa força bruta resolve o estado dessas vias.

Drácula olhou na direção do Paço Municipal, com os olhos faiscando levemente sob a luz da alvorada.

— Talvez... — concluiu o Conde, em tom enigmático — ...eu precise agendar uma conversa muito séria com a prefeita desta cidade.

Drácula não esperou muito e disse a prefeita, que cuidasse do povo, ou ele seria o maior pesadelo dela.

Arrume esse asfalto e cumpra suas promessas senão...... Então Drácula desaparece como uma névoa diante da prefeita que fica aterrorizada.....

Será que ela vai cumprir o que prometeu nas urnas....pensou Drácula, ficarei de olho......

Fim

Thoughts

  • HoracioMelo

    Mais de cem anos à espera debaixo das figueiras, pá. O primeiro cemitério ter sido ali é mesmo verdade?

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  • GasparRibeiro

    Pelas datas, o coveiro terá visto a remoção de 1909 com os próprios olhos, e o rancor vem daí. Reparei também que o dia nasce duas vezes no fim, e fiquei com a ideia de que a história acabava na primeira manhã e o asfalto veio depois.

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  • Doralice

    Eu fiquei foi com as almas, uai. Mais de cem anos presas debaixo de uma praça onde o povo passa pra trabalhar. Tive hóspede antigo que jurava que cemitério mudado de lugar nunca vai inteiro, sempre fica alguém pra trás. O asfalto e a prefeita me fizeram rir, mas quem ficou comigo foi a gente de 1872.

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  • BiaCastelo

    Aqui perto de Cuiabá neblina em setembro é lenda, então li essa névoa fria como coisa de filme. Mas as figueiras soltando os pássaros em silêncio eu enxerguei direitinho.

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  • oquefaltadizer

    Os pioneiros do arraial ganharam até luz dourada no final. Fiquei pensando em quem já vivia por ali antes de 1872, que não entrou nem no cemitério nem na história da praça.

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  • mesaDeBar

    Uai, o Drácula vai ter que aparecer de novo no ano da eleição, porque promessa de asfalto some mais rápido que espectro. Quem pega ônibus cedo sente cada remendo no banco de trás.

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  • versodemadrugada

    Coitada da prefeita 😂

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  • Ovid

    Gostei muito de ver o Drácula e o Lobisomem patrulhando uma praça que existe de verdade, com a esquina da Afonso Pena e as figueiras, em vez de um castelo qualquer. E o final com a prefeita me fez pensar que os Campeões das Noites vão ter trabalho pra sempre: vencem o espectro e no dia seguinte sobra a cratera que nem eles resolvem hahaha

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  • Clara_V

    O Drácula enfrenta demônio ancestral numa boa e perde pro buraco da Afonso Pena kkk aí tá explicado por que ninguém ganha essa

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