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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Acordo do passado (2)

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Acordo do passado (2)

Silêncio — esta é a única palavra para descrever o vazio infinito, um mundo antecessor a qualquer coisa existente. Mas, assim como tudo, seu fim se decretou com o primeiro sussurro de pensamentos, gerando um atrito que levou ao fim.

Em meio a tanta escuridão, um brilho de esperança propagou-se e, de tamanha luz, a semente do mundo surgiu em meio ao vasto vazio.

Rachando, expandindo-se e tomando seu espaço, Yggdrasil cravou suas raízes no centro de tudo, dando forma ao precursor e antepassado dos seres vivos: o primeiro mar, Nun.

Por um tempo imensurável, a imponente Yggdrasil aguardou pacientemente pelo dia em que sua consciência divina se formaria. Ao despertar seu ego, conseguindo neste ponto reconhecer a si mesma, pôde assim identificar a maior falha deste mundo apático... a inexistência de vida senciente para habitar as águas negras de Nun. Foi então que passou a nutrir, em seus galhos, sua segunda criação.

Das águas turvas e violentas de Nun, uma tinta negra, escura e viscosa dividiu as águas, ramificando-se e entrelaçando-se, cortando o vazio, enquanto grandes asas negras o cobriam.

Aprofundando-se como um poço, surgiu uma fenda caótica e tempestuosa de decadência, em uma espiral sem fim: um abismo.

Mas pensar que era a única forma de vida senciente, sem considerar qualquer existência igual a si, marcou sua maior demonstração de prepotência.

— Espera, espera um pouco! Você está contando alguma história clichê de início de mundo?

— Sim! Quer calar a boca e ouvir?!

— ...Tá bom!

Sobre o vasto mar negro, ondas violentas moviam-se e batiam-se, gerando um ambiente caótico. Os seres que as águas habitavam não podiam ser explicados, pois tais seres não estavam vivos ou mortos.

Em meio ao vasto abismo, surgiu um ovo celeste rodeado por uma camada nebulosa de caos. Alimentando em seu interior um macrocosmo, ele exalava à sua volta uma turbulenta onda de energia caótica. Isso agitou os seres que ali habitavam, fazendo-os seguir em direção ao ovo celeste, rodeando-o e aguardando por sua vinda.

Propagando-se em uma reação em cadeia selvagem, o ovo explodiu numa neblina vermelha, infectando o Abismo com bilhões de partículas radioativas e forçando uma evolução massiva nas criaturas que ali habitavam: longos tentáculos se moviam no lodo negro de Nun; seres escamosos com longas membranas translúcidas e, espalhados nas extremidades de sua cabeça, quatro pares de olhos.

— Estas coisas possuem um nome?

— Claro, claro que sim! Esta raça primordial tem nome: Aboleths, a primeira raça senciente a se desenvolver como um grupo.

O brilho liberado através das rachaduras do ovo cósmico irradiou feixes de luz que se reuniram de volta para o ponto inicial, reluzindo em cinco cores que se cruzaram, dividindo-se em Yin e Yang. Quebrando-se e propagando-se pelo Abismo, desequilibrando o ecossistema e causando um eco ensurdecedor que se espalhou, despertou uma resposta agressiva daquela presença primitiva.

"O nome do cavalheiro era Oblivion, e a morte o seguia de perto. Estas são as palavras que simbolizam 'aquela' que trouxe em seu nascimento a desordem!"

"Hã?" Victor atiçou todos os sentidos em seu corpo pela vibração intensa das palavras vindas de Hallow Eve, que sorria em empolgação com a descrição que ditava.

De um simples espasmo, uma coisa se ergueu das águas de Nun. A vasta e densa escuridão de Nun foi usada como útero para nutrir o maior dos flagelos, temperando seu corpo com os fragmentos do ovo celeste.

Pulsando em sua placenta, a coisa liberava uma tempestade de gritos guturais de puro horror. Um instinto inconsciente partiu o fino véu de Nun, abrindo caminho como um recém-nascido que rompe a placenta de sua mãe. Longo e esquelético, um braço se ergueu dividindo as águas, levantando seu imenso corpo das profundezas do útero do abismo. Besta escura como jade, de constituição magra, seca o bastante para se verem as costelas do tronco à mostra, arrastando pelas turbulentas águas negras um exoesqueleto que percorria toda a extensão do seu ser.

Rasgando o caminho em direção ao inimigo com seus seis braços avançando, descarregava um instinto de combate e uma sede de destruição inata que abalaram as estruturas de Yggdrasil.

Abrindo as mandíbulas, chamas negras eram cuspidas por suas bocas, como a erupção de vulcões. Ligando suas cabeças, longos pescoços flamejantes moviam-se como serpentes em ângulos diversos.

"Arauto do vazio, mensageiro da destruição; encarregado de levar a cura às forças invasoras, o arauto deixava para trás um rastro de violência e morte. O pináculo da violência."

"Espera, espera um pouco! Como que seres não vivos ou mortos podem morrer?!"

"Hehehe." Abrindo um leve sorriso, o estranho tragou profundamente seu cachimbo. Ao soltar a fumaça, ela deu forma a duas silhuetas disformes e grotescas. "O que vê?"

"Um ser de pura luz primordial..."

"E o outro, Victor?"

"Disforme e grotesco, um amontoado de escuridão de onde chamas negras escapam, junto de um vasto rastro que se afina como o corpo de uma serpente! Mas o que isso tem a ver com a minha pergunta?"

"Humph... não achou em nenhum momento estranha a forma como descrevi tamanho evento titânico com tais palavras mortais? Pois bem, as duas silhuetas mostradas e descritas por você detêm estas formas: a primeira é a verdadeira forma, mas é impossível de ser retratada; já a segunda só pode ser descrita porque as mentes mortais preenchem as lacunas da falta de compreensão do desconhecido, usando as informações presentes na Terra para dar forma à sua descrição."

"Então, o ponto a que deseja chegar é que..."

"A forma como lhe descrevo estas histórias usa as palavras mais fáceis possíveis para o seu melhor entendimento. Ou achou que tua mente pequena e insignificante poderia contemplar a imensidão da verdade do mundo?!"

Tais palavras o apunhalaram profundamente, fazendo-o querer xingar, mas contendo-se por temer as consequências.

"Para finalizar e responder diretamente à sua pergunta: a morte destes seres decreta apenas um destino, o Oblivion!"

"..."

Nascida do ovo celeste, a primeira luz a resplandecer vagou pela vastidão de Yggdrasil, percorrendo suas raízes, as quais sustentavam as imensas ilhas do cosmos que flutuavam sobre o Abismo.

A cada ilha, um futuro é nutrido, contendo em seu interior sementes que florescem abaixo de gloriosos céus. Mas os prósperos sonhos tremem junto ao Abismo. A investida de um caos que rasteja em direção à imponente Yggdrasil acabou por colidir violentamente com a primeira luz do mundo.

"Neste ponto estava marcado o primeiro badalar das chamas da guerra."

Yggdrasil testemunhou impassível a guerra se desenrolar, uma batalha de proporções divinas.

A cada movimento dos longos seis braços, as garras da besta agarravam e rasgavam pedaços do Abismo, arremessando-os como meteoros que cortavam o espaço e se estilhaçavam em milhões de pedaços. Em resposta, centenas de esferas reluzentes formaram-se e voaram na direção dos projéteis do Abismo, desintegrando todos os meteoros negros. Tamanho cisma se expandiu em um clarão que engoliu o cenário.

Convocando suas esferas reluzentes de volta, a primeira luz fez com que elas circulassem suas costas, irradiando um brilho de cinco cores. A pressão aumentava a cada passo; dobras no espaço criaram um domínio de luz naquele vazio infinito, expandindo-se e transformando as propriedades do Abismo em pura claridade. No seu território divino, correntes tomaram forma, enrolando-se ao redor dos braços da besta, enquanto um pilar de luz erguia-se abaixo com a intenção de desintegrá-la.

Debatendo-se e grunhindo violentamente, rangendo as mandíbulas de dor, a besta rugiu de forma ensurdecedora, devastando a fundação da existência da primeira luz. Rachaduras se espalharam por todo o corpo astral, forçando-a a recuar para a proteção dos galhos de Yggdrasil. A besta avançou como uma tempestade furiosa na direção da árvore do mundo, mas foi forçada a voltar atrás também; seus ferimentos se agravaram ainda mais quando um dos galhos de Yggdrasil destruiu a metade superior do seu tronco, espalhando os restos pelo oceano de Nun, retornando novamente para o abismo.

Flutuando à deriva nas águas negras, os pedaços arrancados reuniram-se, dobrando-se, retorcendo-se e pulsando violentamente, até que cederam em uma grande explosão de dezenas de trilhões de partículas de massa escura, dando forma a legiões de outros seres do véu de uma longa noite. Um exército grotesco e disforme de formas escuras engolfou as raízes de Yggdrasil, encurralando a luz mais brilhante, que estava ferida e acuada pelo último combate, temerosa por sua iminente destruição.

O desespero inconsciente da iminente morte desencadeou um brilho intenso que dispersou as forças invasoras, revelando no meio do campo de batalha um dragão descomunalmente grande, tão grande quanto o tamanho de uma galáxia. Majestoso, o imponente dragão de sete cabeças reverteu a maré da guerra.

"Irônico, não acha? Os mesmos erros que aqueles que se proclamam divinos condenam nos mortais, eles repetem no início, agora e sempre. O que seus olhos serão agraciados a contemplar a partir deste momento nada mais será do que os fenômenos raros de um mundo louco!" Tragando fortemente em seu cachimbo, Hallow Eve baforou uma névoa branca que o engoliu. "As ilhas antes mencionadas por mim passaram a possuir características únicas ao fim da primeira guerra. A cada ilha formaram-se as fundações de colossais criaturas mitológicas, mantidas abaixo das ilhas, fazendo bilhões de galáxias não serem nada mais do que grãos de areia de um vasto deserto... Além dessas ilhas iremos navegar!"

Sorrindo em pura empolgação, Hallow Eve moveu a mão, transformando a fumaça branca ao redor em um novo espaço, sobrepujando o atual.

Pulando para trás de susto, Victor olhava incrédulo para as paredes do apartamento que se desfaziam, apresentando diante de seus olhos um cenário totalmente único.

Do chão, pinheiros ergueram-se em direção ao céu como imponentes montanhas, sob uma atmosfera densa, úmida e cinzenta.

Lamparinas acenderam-se, iluminando as sombras em cadeia; luzes amareladas dançavam em sincronia. À frente deles, estendia-se uma estrada longa que parecia não ter fim.

"Por tudo que é sagrado, o que diabos...!"

Pesadas galopadas chamaram sua atenção, levantando a terra que tremia abaixo dos cascos, deixando no musgo úmido pegadas profundas com um brilho azul-pálido fantasmagórico.

Pendurada nas extremidades da majestosa carruagem negra, uma pequena fonte de luz vinha das lamparinas de ferro forjado.

Puxando esta medonha carruagem, havia sete bestas de corpos equinos monstruosos, grandes e desprovidos de pele, cujos músculos e tendões se moviam por baixo de uma película viva. Entre as veias à mostra, corria sangue negro.

Montados no dorso de cada cavalo, sobressaíam-se torsos humanoides: braços longos demais, mãos com dedos afilados e unhas afiadas como lâminas. Das bocas abertas, exalava um vapor tóxico que fazia o musgo desaparecer e as árvores estalarem, apodrecendo.

Cortando a neblina, a carruagem surgiu como uma marcha de velório, com grades finas de ferro retorcido e rodas largas que rangiam como mandíbulas.

Trazendo um clima denso, a temperatura caiu e o ar pesou. Retorcendo o espaço, a distância entre eles e a carruagem diminuía de forma estranha: aproximava-se rápido e lento, parecendo tão perto e tão longe ao mesmo tempo.

"Haa... haa... está...", batendo os dentes, Victor tremia de frio. A cada respiração, o vapor branco escapava. Seu corpo encolheu ainda mais com a distorção espacial, até que ele caiu ao chão, vomitando.

Agachando-se para olhar mais de perto, Hallow Eve sorriu em deboche.

"Hehehe, o que foi, cara? Por acaso nunca viu cavalos humanoides sem pele?"

"Blargh! Haa... vai tomar no cu! Eu nunca vi essa porra!" Victor limpou o vômito do canto da boca.

Estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar, Hallow Eve continuava a rir ao ponto de chorar.

"Hahaha... vamos logo, haha, levanta!"

Erguendo-se do chão, Victor bateu na roupa para se livrar da sujeira, sendo surpreendido pela voz do cocheiro, uma voz arranhada, ausente de vida.

"Venham, senhores. Esta noite o executor da morte os guiará pelas quatro estações do tempo. Entrem, senhores." Estendendo o braço, o cocheiro gesticulou com os dedos magros, abrindo as portas da carruagem.

"Vamos lá?"

"Humph! Vamos."

Subiu o degrau, adentrando a carruagem, seguido por Hallow Eve. Antes de entrar, segurou-se nas laterais da porta, jogou o corpo um pouco para trás e sorriu para o cocheiro, deixando palavras rápidas: "Envie minhas saudações à grande mãe!", entrando rapidamente na carruagem e fechando a porta.

Repousando sobre o estofamento de couro, Victor sorriu em conforto, apreciando a visão magnífica que se desdobrava diante dele.

Um forte clarão tomou conta do mundo, revelando um espaço escuro que se contorceu, contraindo-se em um único ponto para depois explodir. Cinco luzes voaram, trazendo consigo um vasto e rico universo estrelado.

Incrédulo por tamanha beleza, Victor logo se encheu de pavor, encolhendo-se como um gato assustado pelas maravilhas lá fora.

"Hm... não tema, Victor. Esta carruagem possibilita a qualquer criatura, mortal ou divina, viajar pelo hiperespaço sem sofrer as consequências físicas de tal viagem. Então pare de se encolher aí!"

"... Me desculpe por lhe mostrar este lado feio." Envergonhado com sua atitude, Victor voltou a encostar as costas no couro preto, permanecendo em silêncio a viagem inteira.

"Ahhh! Galopem!", bradou o cocheiro. O chicote de tiras de couro, com pequenos espinhos percorrendo suas extremidades presas à vara de marmelo, cortou o espaço como um raio. Seus dentes eram amarelados, a pele pálida e acinzentada com manchas arroxeadas, vestindo trapos que remetiam a uma antiga e majestosa indumentária de um passado distante.

À medida que a intensidade aflorava, as emoções de Victor aumentavam, sentindo os batimentos de seu coração acelerarem. E, naquele instante, tudo parou. A manifestação do grande fenômeno ocorreu: todo o tecido visível ruiu, girando ao redor da luz e da escuridão.

"O que é isso?!"

"Relaxe e respire fundo, pois neste momento você sentirá uma forte atração gravitacional, mas não se preocupe... apenas não se desespere, tá legal?"

"Tu... tudo bem."

Criando uma vasta passagem pelo novo espaço, a força os atraiu gradualmente, sugando-os para dentro dela. Em menos de um milésimo de segundo, vastos campos de araucárias surgiram em meio à imensidão.

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