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Capítulo 2 As tardes que pareciam eternas Pergunta Sem resposta

Raiana
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No começo, ninguém chamava aquilo de namoro.

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folhaSolta

Gostei quando eles decidiram escrever junto. Você conta a verdade, ela dá esperança. Como funcionaria isso fora da praia?

Gostei quando eles decidiram escrever junto. Você conta a verdade, ela dá esperança. Como funcionaria isso fora da praia?

Conteúdo da publicação

No começo, ninguém chamava aquilo de namoro.

Era simplesmente Eduardo e Helena.

Ele aparecia na faculdade quase sempre no fim das aulas, fingindo que estava ali para entrevistar algum professor. Ela fingia acreditar.

As amigas sorriam ao vê-lo encostado sob uma enorme sibipiruna, um jornal dobrado debaixo do braço e um cigarro apagado entre os dedos. Nunca acendia o cigarro quando Helena estava por perto. Ela detestava o cheiro.

— Você vai acabar morrendo cedo se continuar comprando cigarros para não fumar.

— Compro para parecer um jornalista de verdade.

Ela ria.

— Então ainda está ensaiando?

— Todos nós estamos.

Os dois caminhavam pelas ruas de São Paulo como se a cidade existisse apenas para eles. Entravam em sebos onde o cheiro de papel envelhecido parecia mais forte que o do café. Discutiam apaixonadamente sobre literatura.

Ela defendia Clarice Lispector.

Ele preferia Graciliano Ramos.

Ela dizia que a literatura precisava ensinar a sonhar.

Ele respondia que precisava ensinar a enxergar.

— Não dá para mudar o mundo sem poesia — insistia Helena.

— Também não dá para mudá-lo fechando os olhos para a injustiça.

Ela sorria.

— Então escrevemos juntos.

— Como?

— Você conta a verdade.

— E você?

— Dou esperança para quem ler.

Eduardo segurava sua mão discretamente sobre a mesa do café.

Naquele instante, parecia possível fazer as duas coisas.

As noites pertenciam ao cinema.

Assistiam aos filmes de Fellini, de Truffaut e do Cinema Novo brasileiro. Saíam discutindo cada cena enquanto caminhavam pelas ruas iluminadas por postes amarelados.

Numa dessas noites, Helena apareceu com um pequeno rádio portátil.

— Escute.

Uma música desconhecida começou a tocar.

Quatro vozes inglesas.

Quatro rapazes de cabelos estranhos.

Ela fechou os olhos.

— Eles vão mudar tudo.

Eduardo riu.

— Você diz isso de qualquer banda nova.

— Não. Deles eu tenho certeza.

— Como pode saber?

— Porque eles cantam como quem acredita que o futuro existe.

Ele olhou para ela.

— Você também.

Ela percebeu.

— Está me olhando desse jeito outra vez.

— Que jeito?

— Como se estivesse decorando meu rosto.

Eduardo respondeu baixinho.

— Estou.

— Para quê?

— Porque tenho medo de esquecer.

Ela segurou seu rosto entre as mãos.

— Você nunca vai esquecer.

Ele acreditou.

Na primavera daquele ano, viajaram de trem até Santos.

Passaram o dia caminhando pela praia quase vazia.

Helena recolhia conchas como uma criança.

Eduardo anotava frases num bloco de repórter.

Ela aproximou-se por trás.

— O que você escreveu?

Ele fechou o caderno.

— Ainda não.

— Você nunca me deixa ler.

— Porque ainda não sei escrever sobre você.

— É tão difícil assim?

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Você não cabe numa reportagem.

Ela sorriu, emocionada.

— Então escreva um romance.

— Não.

— Por quê?

— Porque os romances acabam.

Ela respondeu sem hesitar.

— Os bons continuam dentro da gente.

Naquela tarde, sentados sobre a areia fria, trocaram o primeiro beijo.

Não foi um beijo impetuoso.

Foi lento.

Quase tímido.

Como se ambos soubessem que aquele instante permaneceria intacto para sempre, mesmo quando tudo o mais desaparecesse.

Mas o mundo começava a mudar.

As redações estavam inquietas.

Os jornais recebiam telefonemas estranhos.

Nas universidades, os debates tornavam-se mais acalorados.

Eduardo passava cada vez mais tempo trabalhando.

Helena começava a ouvir nomes que antes lhe eram distantes: censura, repressão, golpe, perseguição.

Ela ainda acreditava que a arte poderia salvar as pessoas.

Ele começava a acreditar que talvez fosse preciso muito mais do que poemas.

Sem perceber, uma sombra silenciosa já caminhava entre os dois.

Ainda se amavam com toda a intensidade da juventude.

Mas, do lado de fora, a História preparava-se para bater à porta.

E quando a História entra numa casa, quase nunca pede licença.

Respostas

  • oitoemponto

    Eu tava lendo às oito e meia quando entrou a História. Agora tenho que esperar amanhã pra saber o que acontece.

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  • meioCapitulo

    Tô lendo isso em pedaços tipo ele anotava no bloco. Hoje li até o beijo, segunda continuo.

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  • marcao77

    Ele tava com tanto medo de esquecer. E é engraçado porque quanto mais a gente tenta guardar um momento, mais ele passa pelas mãos.

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  • li_no_busao

    Que esse final me deixou preso. A sombra tá chegando e eu quero saber se ele consegue avisá-la antes que tudo caia.

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  • folhaSolta

    Gostei quando eles decidiram escrever junto. Você conta a verdade, ela dá esperança. Como funcionaria isso fora da praia?

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  • deixoumarca

    Ele tava guardando tudo. O rosto, a voz, o medo de esquecer. Gente carrega essas coisas mesmo.

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  • contoDeSexta

    Ela com Clarice e ele com Graciliano. Cada um achando que o outro tava errado, e mesmo assim trocando beijo. Como é que conseguem?

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  • contoBreve

    O cigarro apagado é do tipo de verdade que a gente só acredita se vir com os olhos.

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