Capítulo 3 - Tempo Finito
O alojamento cheirava a suor e metal frio quando Adrian entrou, o corpo ainda pesado da descida, as mãos ainda lembrando a textura áspera do mapa de couro. Marco já estava lá, sentado na beirada do próprio beliche, girando a moeda com menos entusiasmo do que de costume. Fred lia, ou fingia ler - os olhos paravam tempo demais na mesma linha. Dorian remendava algo no próprio uniforme, a agulha entrando e saindo do tecido com precisão mecânica.
Mathias entrou logo atrás de Adrian e foi direto para o próprio beliche, sem cumprimentar ninguém, deitando-se de costas para o quarto inteiro.
- E aí - disse Marco, erguendo os olhos, tentando soar leve. - Como foi?
Adrian hesitou por um segundo antes de responder.
- Vimos umas coisas. No fim, era tudo destroço.
Não mencionou o cabo solto. Não mencionou o revólver. Atrás dele, sentiu - mais do que viu - o corpo de Mathias ficar ainda mais rígido sobre o colchão, como se estivesse pronto para reagir a qualquer palavra a mais que saísse da boca de Adrian.
Nenhuma veio.
- O recruta que desceu comigo achou que tinha visto alguma coisa se mexendo perto de um poste caído - disse Marco, a voz baixando. - Atirou. Três vezes. Era vento batendo numa placa solta. - Riu, mas o riso saiu curto. - Quase morri de susto do próprio susto dele.
- Eu fiquei mal - admitiu Dorian, sem erguer os olhos da costura. - Não da radiação. Do ar, sei lá. Sensação de sufocar, mesmo com o filtro funcionando direito. Passou depois de uns minutos, mas por um instante achei que ia desmaiar dentro do traje.
- Ninguém avisa essa parte - disse Marco.
- Ninguém avisa nenhuma parte - respondeu Dorian.
Fred fechou o livro, finalmente desistindo de fingir que lia, e ficou olhando para o teto por um momento.
- Posso perguntar uma coisa? - disse Marco, de repente, olhando para Fred com uma hesitação que não combinava com o tamanho dele. - Ia perguntar antes, mas achei que fosse falta de educação.
- Pergunta.
- Como é? Viver sem Relógio.
O quarto ficou um pouco mais quieto. Até Mathias, imóvel na cama, pareceu prestar atenção.
Fred considerou a pergunta com a mesma seriedade que dedicava a qualquer problema técnico.
- Estranho tentar te explicar isso, porque pra mim é só... normal. Nunca tive. Nunca vou ter. - Deu de ombros. - Acho que é como perguntar pra um peixe como é viver sem pernas.
- Isso não ajuda em nada - disse Marco, mas sorrindo de verdade agora.
- Eu não penso no meu tempo. - Fred se sentou, cruzando as pernas. - Vocês pensam no de vocês o tempo todo, não pensam? Isso deve ser exaustivo.
- É - admitiu Marco, baixinho, a moeda parando de girar entre os dedos pela primeira vez. - Você recebe o Relógio aos dez anos. Trinta anos de validade, direto. Depois disso, cada hora que você trabalha vira mais tempo - mas cada vez rende menos que a anterior. No começo parece muito. Depois parece que você nunca vai alcançar o suficiente pra realmente descansar.
- Tecnicamente - disse Fred, quase automaticamente, os olhos já calculando - se alguém trabalhasse doze horas por dia desde os dez anos, a soma total ainda seria finita, decrescendo pela metade a cada novo ciclo de esforço. Você nunca chega a zero de trabalho necessário, mas também nunca ganha o suficiente pra realmente se sentir livre. É uma progressão que se aproxima de um teto sem nunca alcançar.
Ninguém disse nada por um momento.
- Você calculou isso rapidinho - disse Dorian, a agulha parada no ar.
- Eu calculo tudo rapidinho.
- Isso é bem fodido quando você fala assim, tão fácil - murmurou Marco, olhando pro próprio pulso, onde o pequeno mecanismo de ponteiros dourados girava sob o vidro protetor.
- E como é ter um? - perguntou Fred, virando a pergunta de volta, genuinamente curioso, sem malícia. - Sentir o tempo contando?
Marco ficou em silêncio por um instante longo demais para uma resposta simples.
- É como carregar uma dívida que você nunca pediu - disse, finalmente. - Só que em vez de dinheiro, é a sua própria vida.
Ninguém riu daquilo.
A porta se abriu sem aviso, e o som de botas fez todos ficarem de pé instintivamente.
- Sentido.
O capitão que entrou não era o Voss - mais velho, o rosto marcado por décadas de disciplina, a farda impecável mesmo àquela hora da noite.
- Keller. Visita esperando no corredor externo.
Adrian sentiu o coração acelerar antes mesmo de perguntar quem era.
Dario estava encostado na parede do corredor, os braços cruzados, o sorriso torto de sempre já se formando quando viu Adrian se aproximar.
- Achei que ia ter que subornar outro guarda - disse.
- Como você consegue entrar aqui toda vez?
- Talento. - Deu de ombros, sentando-se no chão, as costas contra a parede fria. Adrian sentou ao lado, exatamente como faziam quando garotos.
- Então - disse Dario. - Como foi lá embaixo de verdade? Não a versão que você ia contar pros seus pais.
- Assustador. - Adrian encostou a cabeça na parede, olhando para o teto. - E ao mesmo tempo... eu não sei explicar. Parecia que eu estava vendo alguma coisa que ninguém mais tinha visto daquele jeito antes. Mesmo sendo só destroço.
- Só você pra achar destroço bonito.
- Desci com o Mathias - disse Adrian, baixinho, quase testando a reação de Dario.
As sobrancelhas de Dario subiram.
- O Mathias Mathias? Aquele Mathias?
- Esse mesmo.
- Merda. - Dario assobiou baixo. - E como foi?
- Tenso. - Adrian não elaborou, e Dario, com a mesma sensibilidade de sempre, não insistiu.
- Lembra de quando a gente subia no telhado da oficina do seu pai pra ver o esquadrão saindo? - perguntou Dario, mudando de assunto, os olhos fixos em algum ponto distante. - Você dizia que ia ser o melhor Âncora que Nova Arcádia já tinha visto.
- E você dizia que ia construir uma máquina que fizesse a gente descer sem precisar do Casulo.
- Ainda vou construir. - Dario sorriu, genuíno dessa vez. - Só você foi louco o suficiente pra seguir com aquele sonho de garoto, sabia? A gente ficava lá em cima admirando, e só você virou isso de verdade. Eu preferi ficar em cima, construindo coisas que ficam paradas no lugar.
- Coisas paradas no lugar também importam.
- Diz isso pro Conselho, que vive tentando me tirar da oficina pra trabalhar pra eles.
Os dois riram, baixo, o tipo de riso que só existe entre quem se conhece desde sempre.
O silêncio que se seguiu durou um pouco tempo demais. Adrian percebeu a mudança antes mesmo de Dario falar de novo - o jeito como os ombros dele ficaram mais rígidos, o sorriso sumindo devagar.
- Adrian. - A voz saiu diferente agora. Mais baixa. - Preciso te contar uma coisa.
- Fala.
Dario hesitou, os dedos brincando com a barra da própria manga, o mesmo gesto nervoso que Adrian lembrava dele desde criança.
- É sobre seu tio.
O peito de Adrian gelou.
- O tempo dele acabou. - Dario não desviou o olhar, mesmo parecendo que gostaria de poder. - Sessenta e um anos. Vai ser exilado amanhã, ao entardecer, pelo Casulo do setor leste.
Adrian sentiu como se o chão tivesse sumido debaixo dele.
- Ele ajudou meu pai a levantar a oficina - disse, a voz falhando. - Ele me ensinou a desenhar minhas primeiras plantas. Como ele não me contou que o tempo estava acabando?
- Porque ele sabia o que você faria - respondeu Dario, baixinho. - Eu já doei tempo pra ele uma vez, Adrian. Anos atrás. Ele aceitou, mas depois nunca mais deixou eu oferecer de novo. Disse que não queria mais ninguém gastando a própria vida com a dele.
- Eu teria doado - disse Adrian, a voz subindo, a raiva finalmente encontrando lugar para sair. - Eu teria doado o que fosse preciso, ele sabia disso, e por isso escondeu de mim!
- Era exatamente isso que ele não queria.
- Isso não é justo! - Adrian bateu a mão contra o próprio joelho, a frustração transbordando. - Ele não tinha o direito de decidir isso por mim!
Dario ficou em silêncio, deixando a raiva do amigo existir sem tentar apagá-la.
- Eu sei - disse, finalmente. - Mas era a vida dele. E foi a escolha dele.
Adrian respirou fundo, tentando controlar o tremor nas próprias mãos.
- Você vai estar lá? - perguntou Dario. - Pra ver?
Adrian não respondeu na hora. Ficou olhando para o próprio pulso, onde os ponteiros do Relógio giravam devagar sob o vidro protetor, contando um tempo que ele nunca tinha realmente parado para considerar antes daquela noite.
- Eu não sei - disse, finalmente.
Dario assentiu, sem pressioná-lo, e ficou ali mais um pouco, em silêncio, antes de se levantar e ir embora, deixando Adrian sozinho no corredor.
Adrian continuou olhando para o próprio pulso muito depois de os passos de Dario terem sumido - para os ponteiros que giravam devagar, contando algo que, até aquela noite, ele nunca tinha realmente considerado que também poderia acabar.