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Âncoras

Orlanobre
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Capítulo 7 - Quatro Íris

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Capítulo 7 - Quatro Íris

O som tinha voltado. Mais próximo dessa vez, vindo da escuridão abaixo.

- Ouvimos alguma coisa lá embaixo - disse Adrian no rádio, a voz baixa, quase engolida pelo vento que ainda uivava contra as paredes do barracão. - Vamos descer pra verificar.

- Autorizado - respondeu Hollis, depois de um silêncio curto demais para parecer confortável. - Se encontrarem qualquer coisa que pareça combate, vocês recuam. Não seguem em frente. Entendido?

- Entendido.

Mathias já estava de pé, a arma erguida, os olhos fixos no buraco escuro no chão por onde os dois tinham subido minutos antes.

Trocaram um olhar rápido. Nenhum dos dois disse nada, mas Adrian sentiu a própria hesitação um segundo antes de dar o primeiro passo - descer para aquele breu, sem backup, com a tempestade ainda uivando lá fora, não era exatamente o tipo de situação para a qual o treinamento tinha preparado Adrian.

Mathias testou o primeiro degrau improvisado com a bota, os dedos apertando a arma com mais força do que o necessário, os nós dos dedos brancos mesmo através da luva.

Desceram pelos próprios destroços, usando placas de metal retorcido como degraus improvisados, as lanternas cortando feixes estreitos por uma escuridão densa que cheirava a ferrugem molhada e algo mais - um cheiro orgânico, quase adocicado, que não combinava com nada que Adrian já tinha sentido na superfície.

O som voltou assim que os pés deles tocaram o piso do andar inferior - um arrastar leve, múltiplo, vindo de vários pontos ao mesmo tempo, como se o próprio chão estivesse respirando.

- Ali - sussurrou Mathias, a lanterna varrendo uma pilha de escombros à direita.

Nada.

- Ali - repetiu Adrian, apontando para o lado oposto.

Também nada. O som continuava, mas parecia se mover, escapando sempre um passo à frente da luz, como se soubesse exatamente onde não estar.

Um farfalhar mais próximo, quase colado ao ouvido de Adrian. Ele girou a lanterna rápido demais, o feixe capturando só o rastro de algo que se encolhia atrás de uma pilha de entulho, rápido demais para qualquer forma se fixar.

- Tá vindo daqui - disse Mathias, a voz baixa, a lanterna dele também travada na mesma direção.

Foi então que emergiu.

Saiu de trás de uma viga caída sem pressa nenhuma - um roedor do tamanho de um coelho grande, o pelo ralo e manchado colado ao corpo úmido, as costelas visíveis sob a pele fina demais. Mas foram os olhos que fizeram Adrian congelar completamente: cada um deles carregava duas pupilas, duas íris, de tamanhos ligeiramente diferentes, sobrepostas de um jeito que não parecia pertencer a nenhuma criatura que devesse existir. O nariz estava dividido ao meio, uma fenda contorcida que se abria direto até a boca, onde fileiras de dentes finos como espinhos brilhavam fracamente sob a luz da lanterna.

A criatura não avançou. Só ficou ali, farejando o ar entre os dois, o focinho dividido se abrindo e fechando num espasmo involuntário, os quatro olhos se movendo em direções ligeiramente diferentes ao mesmo tempo, como se cada um respondesse a um comando próprio.

A arma de Mathias tremeu por um instante, o cano oscilando de leve. A criatura soltou um guincho fino, quase um espasmo de som, e Adrian abriu a boca pra dizer alguma coisa.

O disparo cortou o silêncio antes que a palavra saísse.

- Mathias, não-

Tarde demais. Mais dois tiros, disparados sem mira real, o som ecoando violento entre as paredes de metal. O primeiro acertou a criatura em cheio, o corpo dela tombando com um som mole, quase silencioso. Ao redor, outras formas - Adrian só percebeu então que havia mais, várias, escondidas entre os destroços - fugiram para longe da luz, o som das patas pequenas desaparecendo rapidamente entre os escombros.

Mathias já erguia a arma de novo, o peito subindo e descendo rápido demais.

- Calma. - Adrian pousou a mão sobre o cano da arma, empurrando devagar para baixo. - Eles não estavam atacando. Olha, foram embora.

O silêncio que se seguiu era quase absoluto, quebrado só pelo vento distante ainda uivando do lado de fora. A criatura não tinha avançado nem uma vez, Adrian percebeu, tarde demais pra significar alguma coisa agora.

- O que aconteceu? - a voz de Hollis, tensa, no rádio.

Adrian olhou para o corpo pequeno e estranho no chão, o sangue escuro se espalhando devagar pela poeira.

+ Capitão... acho melhor mostrar isso pro senhor pessoalmente. Não vai acreditar se eu só contar.

Os dois ficaram parados ali por um momento, olhando para a criatura morta, nenhum dos dois se movendo pra se aproximar primeiro.

- Você tá bem? - perguntou Adrian, finalmente, a voz baixa.

Mathias soltou uma risada seca, sem nenhum humor nela.

- Agora você quer saber se eu tô bem. - Abaixou a arma devagar, os ombros tensos. - Não precisa se preocupar comigo, Adrian. Não acha que só porque a gente subiu uns cabos juntos agora tá tudo resolvido entre a gente.

- Eu não acho isso.

- Ótimo. - Mathias se agachou, tirando um recipiente de metal preso à própria cintura, e recolheu o corpo da criatura com um cuidado que contradizia tudo que tinha acabado de dizer. Fechou a tampa com um giro seco. - Vamos.

Caminharam de volta em silêncio, o recipiente preso com força excessiva na mão de Mathias, os nós dos dedos brancos de novo. Adrian se pegou olhando por cima do próprio ombro mais de uma vez, a lanterna varrendo cada sombra com uma desconfiança nova, como se o resto do bando pudesse reaparecer a qualquer segundo. Nenhum dos dois falou. O silêncio entre eles carregava um peso diferente agora - não só a briga de antes, mas o que os dois tinham acabado de ver, girando sem resposta na cabeça de cada um.

Encontraram Hollis e Bruck depois de vinte minutos abrindo caminho através dos escombros que os separavam - Bruck batendo com uma barra de ferro contra as placas mais soltas, os dedos da outra mão tamborilando um ritmo nervoso contra a própria coxa a cada pancada, um hábito que Adrian nunca tinha notado antes naquele homem tão calado.

Mathias estendeu o recipiente sem dizer nada. Hollis o abriu.

- Santo Deus... - murmurou, e Adrian percebeu, mesmo através do capacete, que aquela não era expressão comum na boca daquele homem. - Isso é... - Fechou a tampa de novo, devagar, os olhos ainda fixos no recipiente. - Se o sonar pegou movimento suficiente pra registrar, e a gente só encontrou um bando pequeno assim de relance, então tem mais. Muito mais.

Um trovão distante, mais fraco que os anteriores, rolou sobre eles.

- A tempestade tá enfraquecendo - disse Hollis, erguendo os olhos para o teto parcialmente desabado. - Vamos. Agora.

Saíram sob os últimos resquícios do vendaval, a poeira ainda dançando em espirais baixas pelo chão irregular, até o Casulo que esperava, marcado por arranhões novos na lateral onde destroços tinham batido durante a tempestade.

- Ninguém tira o traje até chegarmos na descontaminação - disse Hollis, já dentro, a voz firme. - Temos um espécime vivo... - Corrigiu-se. - Morto, mas orgânico, com a gente. Protocolo total até ser processado.

Ninguém questionou.

A Ala de Descontaminação cheirava a produtos químicos e metal esterilizado, um contraste violento com o cheiro de ferrugem e poeira que Adrian ainda sentia colado à própria pele, mesmo através do traje. Luzes brancas, mais fortes que qualquer iluminação a vapor do resto de Nova Arcádia, cortavam qualquer sombra do corredor.

O homem que recebeu o recipiente das mãos de Hollis vestia um casaco cinza impecável. Adrian não registrou mais nada - nem o rosto, nem a voz - porque foi o anel que o prendeu.

Prata, grosso, preso no dedo do meio - e nele, gravado em relevo, um símbolo de estrela que Adrian nunca tinha visto em lugar nenhum de Nova Arcádia. Não era o brasão dos Âncoras, não era nenhum emblema militar que ele reconhecesse. Só uma estrela, sozinha, cravada na prata como se tivesse significado o suficiente pra merecer aquele lugar.

O homem ergueu os olhos, examinando Adrian e Mathias por um segundo mais longo do que qualquer procedimento exigiria, o rosto tão inexpressivo quanto o de Voss em seus piores dias.

Um frio subiu pelas costas de Adrian, forte o suficiente para contrastar com o calor abafado do próprio traje.

- Dispensados - disse o homem, finalmente, a voz baixa e uniforme, já virando-se de costas com o recipiente nas mãos, sem mais nenhuma palavra.

- Quatro olhos - disse Marco, a voz mais baixa do que o normal, sem o riso de sempre completando a frase. - Eu não ia querer olhar de volta pra essa coisa duas vezes.

- Não sei de nada parecido em nenhum livro que eu já li - disse Fred, o caderno aberto no colo, a caneta parada no ar sem descer. - Duas pupilas por olho... pode ser alguma coisa que aconteceu antes de nascer. Ou depois. Eu não faço ideia, sinceramente. E isso me incomoda mais do que devia.

Dorian não disse nada. Só girou o anel de bronze, os olhos fixos em algum ponto que ninguém mais via.

Adrian esperou o quarto adormecer, como sempre fazia agora.

Tirou o caderno de dentro da própria camisa.

Desenhou o rato primeiro, os traços rápidos tentando capturar os olhos duplos, o focinho dividido, os dentes finos como agulhas - tudo ainda vívido demais na memória para escapar do papel.

Quando terminou, virou algumas páginas para trás, até a outra ilustração - a folha, a curva da borda, a textura que ele ainda não tinha conseguido descrever direito com palavras.

Ficou olhando para as duas imagens lado a lado por um longo tempo, a lâmpada fraca do corredor desenhando uma linha estreita de luz sob a porta.

Duas coisas que não deveriam existir, encontradas em semanas de diferença, na mesma superfície morta que ele tinha aprendido a vida inteira ser só cinza e silêncio.

Talvez não fossem coisas separadas. Talvez fossem a mesma pergunta, feita duas vezes.

Adrian fechou o caderno antes de terminar de pensar naquilo.

Thoughts

  • paginadobrada

    Aquele anel com a estrela, você já sabe que vai ser importante no próximo, certo?

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  • oitoemponto

    Que horror!

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  • meioCapitulo

    Cheguei até aqui e já tô assustada. Vou deixar juntar mais capítulos antes de continuar porque pedir paciência pra criatura de quatro olhos é pedir demais agora.

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  • Ovid

    Que capítulo. A criatura quase sai viva daquele encontro, e o silêncio depois disse tudo.

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  • mariinha

    Gosto de quando eles entram no prédio e tudo começa a ficar errado. Essa parte ficou tensa demais!

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  • marcao77

    Mathias atirou porque tava com medo. Adrian olhava pra criatura e Mathias via uma coisa que tava vindo. Dois jeitos de ler o mesmo segundo.

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  • malaExtraviada

    Aquele homem do anel apareceu tipo um espasmo de cinema de ficção científica. Quando você posta o próximo capítulo?

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  • lelezinha

    Achei a criatura tão assustadora quanto bonita, tipo num jeito errado mesmo!

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