Vagantes condenados: Yersin Bafomé
A boca do demônio se escancarou em uma abertura interminável, revelando uma fileira de dentes afiados e pontiagudos como facas. Ele abria sua enorme mandíbula, cuspindo uma língua de fogo gigantesca que iluminava todo o ambiente com seu calor intenso e seu brilho alaranjado e aterrorizante.
“Kieeek!… Jwaaaaaaaaak!” O rugido ensurdecedor e estremecedor do demônio ecoava por todo o povoado, fazendo tremer as casas, as árvores e até mesmo o chão sob os pés dos aterrorizados moradores.
Alguns se escondiam, outros fugiam desesperadamente, mas ninguém ousava desafiar aquele ser demoníaco e inumano.
Enquanto o povoado era devorado pelas chamas, uma figura solitária se destacava caminhando tranquilamente pelas ruas incandescentes. Trajando um sobretudo preto, botas e luvas, a característica mais marcante desse homem era um chapéu escuro e uma máscara branca com um longo nariz em formato de bico.
Batendo sua bengala no chão, ele afastava os animais assustados que corriam em pânico. Seu andar era sereno e decidido; a cada passo ele avançava em meio ao caos.
O homem cantarolava suavemente enquanto observava os arredores, parando no meio do caminho. Seu olhar penetrante varria a área em busca de algo ou alguém.
— O que queres aqui, irmão? — questionou uma figura que surgia das sombras.
A figura respondeu, emergindo lentamente:
— Vim vê-lo. Por que mais eu iria aparecer na sua frente?
O homem de máscara franziu o cenho, e sua voz ganhou um tom mais grave.
— Como eu poderia saber o que se passa em sua mente depravada? Agora, pare com a enrolação e diga o que quer.
A figura deu um passo à frente, com o rosto ainda oculto pelas trevas.
— Nossa! Parece que eu só apareço para pedir algo ou incomodar vocês.
— Quer mesmo que eu responda a essa pergunta?! — o homem de máscara retrucou, batendo a bengala no chão com mais força.
A figura hesitou por um momento antes de responder em tom de brincadeira:
— Não!
Um silêncio tenso se instalou entre os dois enquanto o mascarado observava a figura com desconfiança. Algo naquela interação parecia esconder muito mais do que os olhos podiam ver.
— Tá legal! Você ganhou, eu quero aquilo.
— Aquilo? Sabes muito bem o que "aquilo" significa para mim.
— Eu sei, eu sei… mas eu quero!
— O que eu ganharia em troca?
— Sei o quanto você gosta de veneno, irmão! Por isso, eu lhe darei isto — disse a figura, retirando do manto um frasco com um líquido cinza-metálico.
— Este é o raro e poderoso veneno que tanto procuro! — disse o homem mascarado, com os olhos brilhando de cobiça.
— Temos um acordo, então? — perguntou seu irmão, estendendo a mão.
— … Temos — respondeu o mascarado, apertando a mão do outro com firmeza.
---
Dias depois, em um dos grandes portos da região, um navio de carga atracava. Dele desembarcou o homem mascarado, carregando consigo o frasco com o precioso líquido. Ele sabia que aquela substância cinza-metálica e a nova cidade seriam a oportunidade perfeita para testar seu novo brinquedo. Com passos rápidos e animados, dirigiu-se ao centro urbano, pronto para colocar seus planos em prática.
Entrando em uma das estalagens locais, o homem observou com atenção as pessoas ao redor, notando os olhares curiosos e desconfiados direcionados às suas vestes incomuns. Ignorando as reações alheias, acomodou-se em uma das mesas, mantendo-se em silêncio.
Após alguns instantes, uma das crianças que trabalhava no estabelecimento, responsável por atender os clientes, aproximou-se dele, quebrando o silêncio que havia se instalado no local.
— O que o senhor vai querer? — perguntou o jovem, com uma expressão curiosa.
O homem desviou o olhar, pensativo, e então perguntou:
— Diga-me, criança, qual é o índice de doenças que afetam esta cidade atualmente?
O garoto pareceu surpreso com a pergunta inesperada, mas prontamente respondeu:
— Bom, ultimamente não tivemos grandes problemas de saúde por aqui! Mas por que a pergunta, senhor?
O homem refletiu por alguns segundos antes de formular a próxima indagação:
— Hmm… agora me diga: há algo que você realmente deseja em sua vida?
A pergunta pegou a criança de surpresa. O jovem ponderou por um momento antes de responder:
— … Eu… desejo viver bem e não precisar mais trabalhar! — revelou, com os olhos brilhando de esperança.
O mascarado o observou com um olhar cético.
— Humph… crianças! Tem certeza de que é isso o que realmente deseja? — questionou, com a voz carregada de experiência.
— Tenho! — respondeu o garoto, determinado.
O homem assentiu lentamente com a cabeça.
— Como queiras, então. Diga-me: o que você tem que vale mais do que tudo para ti?
O garoto hesitou por um momento, mergulhando fundo em seus pensamentos. Então, olhando diretamente nos olhos do homem, revelou seu segredo.
E assim, com um gesto solene, o homem mascarado realizou o desejo da criança. O que se seguiu foi uma tragédia sem precedentes, que mais tarde se tornaria conhecida como a famosa Peste Negra — uma das piores epidemias da história da humanidade. O peso daquela escolha e o rastro de sofrimento e morte ficariam para sempre gravados no mundo.