Pular para o conteúdo
Carregando…

O homem que mora no próprio quarto

aleroz
Pensamento

Pensamento

WeAreSigmarsHeirs

Homer tem algo de Ulisses às avessas: nunca sai de Springfield e mesmo assim refaz, a cada episódio, a viagem de volta pra Marge, a única Ítaca onde ele não precisa fingir. O homem que fecha a porta do quarto, no seu texto, me lembra o Ulisses que chega e

Homer tem algo de Ulisses às avessas: nunca sai de Springfield e mesmo assim refaz, a cada episódio, a viagem de volta pra Marge, a única Ítaca onde ele não precisa fingir. O homem que fecha a porta do quarto, no seu texto, me lembra o Ulisses que chega em casa e continua disfarçado de mendigo.

Conteúdo da publicação

Homer Simpson é um idiota. Pelo menos, é assim que o mundo o conhece.

Mas existe um paradoxo nesse personagem: Homer tem talentos extraordinários. Troca de profissão, assume funções improváveis, resolve problemas e, em determinadas situações, demonstra uma sabedoria que personagens considerados inteligentes jamais alcançam. Ele pode ser muitas coisas. Entretanto, seu maior sucesso continua sendo a idiotice.

E quase ninguém percebe isso.

Talvez porque o público precise que Homer seja idiota. Ele pode surpreender, mas precisa voltar ao personagem. Se deixar de ser quem todos esperam, deixa de ser o Homer que todos reconhecem. Sua identidade pública é tão forte que até suas capacidades parecem existir à sombra dela.

Penso que muitos homens vivem algo parecido.

O homem se casa, trabalha, paga as contas, sustenta a casa, cuida dos filhos e cumpre as responsabilidades que aprendeu a chamar de vida. Pode amar sua família, ser feliz com ela e encontrar sentido no que construiu. Mas existe uma parte de si que permanece trancada em um quarto.

De vez em quando, a porta se entreabre.

Ele encontra os amigos, prepara um carro, vai pescar de madrugada, ouve uma música, dedica tempo a alguma coisa que não produz dinheiro, não resolve problemas domésticos e não atende às necessidades de ninguém. Por alguns instantes, não precisa ser marido, pai, funcionário ou provedor. Pode simplesmente existir.

Então alguém aparece.

Talvez seja a esposa, talvez um amigo, talvez qualquer pessoa acostumada a reconhecê-lo por aquilo que ele representa. Ele percebe o olhar, imagina a discussão, antecipa a cobrança. Não quer mais uma dor de cabeça. Fecha a porta e retorna ao seu lugar.

Com o tempo, talvez nem precise mais de alguém para fazê-lo.

Ele mesmo aprende a fechar a porta.

Conheci homens que passam dezesseis horas trabalhando, circulam entre obrigações e responsabilidades e, ainda assim, encontram um pequeno espaço para fazer algo que os faz sentir vivos. Um deles me disse isso sobre os carros que prepara: “Isso me torna vivo.”

Não estava falando apenas de automóveis. Estava falando de uma parte de si que ainda conseguia reconhecer.

O curioso é que, quando converso com esses homens, muitas vezes eles falam de coisas que não encontram espaço em outros lugares. Não necessariamente porque ninguém os ame ou porque suas famílias sejam incapazes de compreendê-los, mas porque a convivência também cria personagens. Cada pessoa aprende a esperar determinada versão da outra, e romper essa expectativa pode custar mais do que permanecer em silêncio.

É mais fácil rir do homem idiota do que escutar o homem cansado. É mais fácil falar do marido que bebe, trai ou faz alguma besteira do que daquele que passou a vida inteira tentando cumprir tudo o que esperavam dele e, em algum momento, já não sabe o que deseja para si.

A sociedade parece aceitar melhor o homem que fracassa de maneira previsível do que aquele que revela uma inquietação para a qual ninguém tem resposta.

E Homer Simpson, nesse sentido, é um personagem extraordinário. Sua idiotice é pública, mas suas outras capacidades aparecem pelas frestas. Ele pode demonstrar inteligência, sensibilidade e até uma compreensão profunda da vida. Porém, o mundo sempre o puxa de volta para a caricatura.

Existe, contudo, uma diferença importante entre Homer e muitos homens reais: Homer tem algo que poucos conseguem ter com tanta clareza. Ele é amado por Marge sendo, essencialmente, Homer.

Marge conhece suas limitações, suas infantilidades, seus erros e suas contradições. Não ama apenas uma versão idealizada dele, nem um homem que conquistou prestígio, riqueza ou reconhecimento. Ela conhece aquele sujeito imperfeito que continua sendo ele mesmo. E, apesar de tudo, escolhe permanecer ao seu lado.

Homer é um dos raros homens que parecem saber que são amados por aquilo que são, não porque tenham conseguido se transformar em alguém extraordinário. Seu valor não depende de ser o mais inteligente, o mais bem-sucedido ou o mais admirado. Ele pode continuar sendo Homer.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais o personagem funciona tão bem: por trás da idiotice, existe uma segurança afetiva que lhe permite continuar existindo sem precisar provar constantemente que merece ocupar aquele lugar.

Na vida real, muitos homens não encontram a mesma liberdade para mostrar todas as partes de si. Não porque não sejam amados, mas porque nem sempre sabem onde termina o personagem que aprenderam a representar e onde começa aquilo que deixaram de mostrar.

Talvez tenham passado tantos anos mantendo a porta fechada que já não saibam o que fazer quando alguém bate.

E talvez o problema nem seja o quarto. Todos precisamos de um lugar que seja nosso, onde possamos existir sem prestar contas ao mundo. O problema começa quando esse lugar deixa de ser um refúgio e se transforma na única parte da vida em que ainda conseguimos ser inteiros.

Homer pode ser idiota, talentoso, preguiçoso, sábio e contraditório. Pode mudar de profissão e descobrir habilidades inesperadas. Mas, no fim, volta para casa, para Marge, para os filhos e para a vida que construiu. Ele não precisa deixar de ser Homer para merecer amor.

Talvez muitos homens desejem algo tão simples quanto isso: não precisar abandonar a si mesmos para continuar pertencendo à própria vida.

Porque existe uma diferença entre ter um lugar no mundo e ter um lugar onde não precisamos representar ninguém.

E o homem que passa a vida inteira sendo necessário para todos pode acabar descobrindo, tarde demais, que quase nunca teve permissão para ser apenas ele.

#homersimpson #thesimpsons #reflexão #reflexões #psicologia #filosofia #comportamentohumano #sociedade #relacionamentos #casamento #amor #vida #autoconhecimento #saúdemental #masculinidade #homens #pensamentos #textoautoral #frasesreflexivas #lifethoughts

Thoughts

  • WeAreSigmarsHeirs

    Homer tem algo de Ulisses às avessas: nunca sai de Springfield e mesmo assim refaz, a cada episódio, a viagem de volta pra Marge, a única Ítaca onde ele não precisa fingir. O homem que fecha a porta do quarto, no seu texto, me lembra o Ulisses que chega em casa e continua disfarçado de mendigo.

    Permalink

Publicações relacionadas