Para mim, essa é a pergunta mais idiota do mundo. E, como tem muita gente que a responde, escrever é pegar um papel ou sentar diante de um computador e escrever. Nem mesmo os escritores famosos parecem saber responder a essa pergunta. Falam sobre escrever como se fosse colocar sal na comida, dar descarga no banheiro, coçar a cabeça ou andar.
Escrever bem. Você tem que escrever todos os dias, como treinamento, ler e fazer workshops. Bem, nunca fiz nada disso. Nunca escrevi todos os dias. As aulas de escrita sempre me deixavam frustrado. As pessoas diziam que eu escrevia errado, que era muito prolixo, que precisava estudar a “jornada do herói”, que escrevia de um jeito estranho, sem estrutura.
Se eu escrevia, era durante pelo menos três dias por ano, ao longo de anos. E talvez nem isso.
Tinha textos escritos, mundos criados, mas não tinha quem lesse meus textos. Ninguém tem tempo para ler algo seu. Seus amigos são os piores leitores que você pode ter, porque conhecem seus defeitos. Gostam de você, mas não necessariamente gostam dos seus textos.
É como plantar sementes no terreno errado e colher silêncio.
São os piores apoiadores, mas faz sentido: fazemos o mesmo com os projetos deles. Nosso texto só ganha significado fora do nosso ciclo social, quando quem o lê não precisa gostar do escritor.
Quando finalmente chamamos a atenção, eles começam a prestar atenção em nós. Só então dirão: “Eu sabia que você conseguiria! Você sempre fez isso! Agora é sucesso!”.
Falam como se devêssemos alguma coisa a eles por não terem feito esforço algum para nos apoiar.
Seria como nos empurrar para uma lagoa cheia de hipopótamos e crocodilos. Você luta contra os crocodilos e os hipopótamos, sai vivo e inteiro, e então seus amigos chegam e dizem: “Eu sabia que você conseguiria!”.
E eles assistiram a tudo em silêncio.
Não sejamos cruéis com nossos amigos. Eles estão ocupados com suas vidas, assim como nós estamos ocupados com as nossas.
Na hora de escrever, não ligo para a gramática. Ligo para saber se aquilo me atravessa. Nem precisa de intelecto para isso, basta sentir. Nem precisa dizer o que sente, apenas se mova com a escrita.
Tinha muitos textos que ninguém havia lido. Alguns amigos que conseguiam ler meus textos diziam: “Você é demais! Você é foda!”.
Mas aí está a dúvida: eles falaram isso por pena? Porque o texto ficou legal? Porque são nossos amigos?
Isso é cruel.
Então vieram as IAs.
Nossa, claro que elas nos elogiam. O ser humano desconfia porque não está acostumado a receber elogios de ninguém. Mas, quando pedimos critérios sem viés, nem sempre a IA nos dá a resposta que queremos. Às vezes, ela nos oferece uma avaliação sincera, realista. Fiquei surpreso.
Quando a IA avalia meus textos, a questão costuma ser técnica, como um editor enxergaria o que escrevi. Os textos são avaliados comercialmente. Nesse aspecto, sou um fracasso.
Mas, se eu escrever como o mercado quer, serei apenas mais um autor esquecível, padronizado.
Nunca me vi como profissional. Sempre me vi como amador, porque sou livre de regras, quase totalmente livre de vieses acadêmicos. Não é que eu ignore o que já foi escrito ou estudado, mas não deixo que isso me guie. Escrevo fora das linhas, em lugares que não se deixam classificar.
Escrevi algo que, às vezes, nem parece distopia, mas é. Algo que parece reconhecível, mas também não é. Algo que ainda não foi datado, que existe nessa zona cinzenta, fora da estrutura e da jornada do herói.
Fiquei tão estranho com isso que passei a chamar essa ideia de “Jornada do Escravo”.
Aquele que fica. Que constrói quando tudo está perdido. Que permanece para fazer o pão de amanhã. Não se transforma em estátua, mas suporta o peso daquilo que permanece. Não destrói tudo, não põe fogo em tudo e depois espera que a fumaça de uma revolução seja confundida com rendição.
Isso parece uma droga literária, vícios e vieses em busca de uma catarse fácil. Afinal, o ser humano quer escapismo. O mundo já é realista demais. Mas preciso desse realismo, depois de anos e anos tomando o antibiótico da moral humana que acompanha a jornada do herói.
Ninguém percebe. Talvez eu esteja maluco, mas, para mim, o mundo está farto da jornada do herói. Hoje vemos países escravizados se revelando pelo mundo, sociedades com mais de cinco mil anos de história e luta, como a China e o Irã. Países e povos submetidos a estruturas que continuam de pé, que sobrevivem, que se adaptam e seguem adiante.
Há algo nisso que conversa com o que penso e chamo de Jornada do Escravo.
Foi assim que comecei a escrever a atmosfera, o folclore local, os cheiros, o misticismo que vai muito além de trevos de quatro folhas. Vai do sangue nos olhos ao gosto de sangue na boca. Da fissura da carne e dos ossos ao ato de escrever primeiro e só depois processar aquilo que fizemos.
Escrever sem olhar para trás.
Reler e achar que ficou legal. Depois, reler para entender como ficou e nem sequer lembrar que caralho foi aquilo que você fez para chegar ali. E perceber que ficou ainda melhor.
Fica tão crível que nem parece que foi você quem escreveu. Você não reconhece o demônio que libertou para escrever aquilo.
Comecei a escrever lendo apenas a primeira página de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Mas li do meu jeito: começo, frase de efeito, diálogo, descrição, conclusão. Depois disso, que seja o que Deus quiser.
Fiz um livro de 594 páginas. Pensei que era só isso.
Depois pensei: vou fazer um vídeo de 22 segundos com os personagens se mexendo.
Boom! Fiz 17 vídeos, com mais de três minutos e meio de duração.
Pensei que era só isso.
Boom! Veio o site.
Depois, o kit, com uma porção de itens.
A consistência é melhor que a perfeição. Desisti dessa obsessão. Larguei mão disso. Que se foda! Coloque essa desgraça no computador. Desafie-se. Esbraveje. Não olhe para trás.
Conserte o carro com o motor ainda ligado. Não pare.
Não existe momento perfeito para escrever bem. Existe coragem, mesmo com medo.
A perfeição é um nome bonito para dizer que desistimos, mesmo sem termos errado com perfeição alguma.
E quem diz se algo é perfeito?
Será o leitor que aguarda suas palavras. Com a sua jornada do herói ou não. Ele está esperando por elas.
Mas a parte mais difícil não é escrever.
É encontrar esse leitor enquanto ele ainda está vivo.
Um dos vídeos que fiz:
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