Ou: o dia em que o marido mandou quinze mil reais e a potência foi embora.
Três anos depois, o rapaz já não era o mesmo.
Aquele sujeito que antes olhava para mulheres bonitas como quem observa um bolo numa vitrine de confeitaria francesa agora traçava até bolo sem açúcar.
Mulheres lindas, mulheres ricas, mulheres que tinham mais imóveis do que ele tinha pares de meias.
O rapaz entrava em cafés, frequentava apartamentos luxuosos e, certa vez, apareceu usando o chinelo do marido de uma mulher casada.
O chinelo era enorme.
O homem parecia um turista perdido numa loja de calçados.
— Você não tem vergonha? — perguntou o Diabo, sentado na beirada da cama.
— Vergonha de quê?
— Você está usando o chinelo do marido dela!
— E daí? O pé dele é maior que o meu.
O Diabo levou as mãos ao rosto.
— Eu criei você para destruir a moral, não para destruir o bom senso.
Mas havia uma coisa que o rapaz ainda não conseguia dominar.
O marido.
Não o marido presente, naturalmente. Esse ele sabia evitar com a habilidade de um gato que ouve o barulho de uma vassoura.
O problema era o marido ausente.
Naquela manhã, o rapaz estava no quarto de uma mulher casada. A luz entrava pelas cortinas, havia roupas espalhadas pelo chão e o ar-condicionado trabalhava como se estivesse tentando congelar as provas de um crime.
Ela estava deitada, tranquila, mexendo no celular.
O rapaz, por sua vez, tentava manter a dignidade de um homem que tinha chegado até ali sem saber exatamente como.
Então o telefone dela tocou.
Era o marido.
Estava no Chile, a trabalho.
— Oi, amor! — ela disse, com uma naturalidade que faria um ator de novela pedir aulas.
O rapaz congelou.
O marido começou a conversar sobre o dia, perguntou se ela havia dormido bem e comentou que estava com saudades.
O rapaz olhou para o teto.
Havia uma pequena rachadura na pintura.
Ele decidiu estudá-la.
A mulher continuou conversando, perguntou se ele havia almoçado e disse que também estava com saudades.
O rapaz começou a suar.
Não era culpa, exatamente. Tampouco era arrependimento. Era uma sensação profundamente inconveniente de estar participando de uma reunião familiar sem ter sido incluído na pauta.
Então veio o golpe final.
— Ah, amor, obrigada! — ela disse, sorrindo para a tela. — Já vi aqui.
O marido acabara de transferir quinze mil reais para a conta dela.
Quinze mil.
O rapaz sentiu o próprio organismo abrir uma planilha de custos.
O homem estava no Chile, trabalhando, sentindo saudades da esposa e mandando quinze mil reais para ela.
E ele estava ali, no quarto, tentando não pensar no dinheiro.
Pensou.
Pensou muito.
Pensou tanto que a natureza decidiu suspender temporariamente suas atividades.
O Diabo apareceu no pé da cama.
— Não acredito.
— Cala a boca.
— O homem mandou quinze mil reais.
— Eu vi.
— Quinze mil!
— EU VI, CARALHO!
O Diabo pegou uma calculadora.
— Você sabe quanto eu precisaria roubar para produzir esse efeito?
O rapaz atirou um travesseiro nele.
A mulher desligou o telefone e percebeu que o ambiente havia mudado.
— Está tudo bem?
— Claro.
— Você parece estranho.
— Estou refletindo sobre a economia global.
Ela riu.
O rapaz também riu.
Mas havia uma verdade que ele não queria admitir: não era a beleza dela que o deixava desconfortável. Era a materialização de tudo aquilo que, anos antes, ele acreditava que o desqualificava.
O dinheiro estava ali, dentro do quarto, mesmo sem o marido.
E, pela primeira vez, o rapaz descobriu que até o demônio podia sofrer de uma forma muito particular de disfunção: a comparação social.
Enquanto isso, no térreo do edifício, o porteiro observava a entrada.
Ele conhecia a mulher.
Conhecia o marido.
Conhecia o carro que chegava, o carro que saía, o entregador de flores, o motorista particular e até o sujeito que aparecia usando um chinelo grande demais.
O porteiro tinha ciúmes.
Não porque fosse apaixonado por ela, necessariamente. Era um ciúme burocrático, quase patrimonial. A mulher era casada com um homem que mandava quinze mil reais do Chile, morava num apartamento magnífico e ainda assim recebia visitas que faziam o porteiro perder a fé na humanidade.
— Esse mundo está perdido — murmurou.
O colega do turno da tarde perguntou:
— O que foi?
— Nada.
— Você parece irritado.
— Estou trabalhando.
O porteiro voltou os olhos para a câmera.
Não podia contar nada.
Não podia comentar com o síndico, não podia fazer piadas com os moradores e muito menos mandar uma mensagem anônima ao marido.
Tinha aluguel para pagar, contas atrasadas e uma filha estudando para o vestibular.
Se abrisse a boca, poderia perder o emprego.
E o emprego pagava muito menos que quinze mil reais.
O porteiro respirou fundo.
Na tela, o rapaz apareceu no elevador, ajeitando a camisa e calçando os sapatos.
O chinelo do marido havia ficado no apartamento.
— Filho da puta — sussurrou o porteiro.
O colega voltou a perguntar:
— O que foi?
— O ar-condicionado.
— O quê?
— Está muito frio.
E continuou trabalhando.
Naquela noite, o Diabo encontrou o rapaz numa padaria.
Ele estava sentado diante de um bolo de chocolate, olhando para a cobertura.
— Então? — perguntou o Diabo. — Valeu a pena?
O rapaz demorou a responder.
— Não sei.
— Como assim?
— Foi bom. Foi divertido. Mas aquela ligação...
O Diabo suspirou.
— Você queria comer o bolo sem saber que havia uma conta bancária do outro lado da mesa.
— Exatamente.
— Pois é. O problema de abandonar a inocência é descobrir que o mundo não fica mais simples. Você apenas passa a conhecer outras formas de complicação.
O rapaz pegou o garfo.
— Pelo menos eu não fiquei olhando pela vitrine.
O Diabo sorriu.
— Isso é verdade.
O rapaz cortou um pedaço generoso.
Mordeu.
Mastigou.
E então disse, com a serenidade de um homem que finalmente compreendera sua própria natureza:
— QUE BOLO GOSTOSO, PUTA QUE PARIU!
O Diabo começou a chorar.
— Você está emocionado?
— Não. Minha glicemia está em quatrocentos.
O rapaz caiu na gargalhada.
Naquela noite, a padaria fechou às dez.
O porteiro cumpriu seu turno.
O marido continuou no Chile.
A mulher dormiu tranquilamente.
E o rapaz descobriu que a vida adulta não era uma escolha entre ser santo e ser canalha.
Era uma coleção de decisões ruins, decisões boas, consequências inesperadas e contas que alguém precisava pagar.
Ele havia comido o bolo.
Mas, dessa vez, não conseguiu esquecer quem estava pagando a confeitaria.
Moral da história: a mosca finalmente aprendeu a pousar no bolo. Só não esperava que a padaria tivesse um departamento financeiro, câmeras de segurança e um porteiro com princípios morais superiores aos de todo mundo.
E, no inferno, o Diabo continuou diabético.
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