Pronto. Você tem um livro morto.
Todo livro nasce morto, mesmo que você tenha feito a gestação dele. Você escreveu, corrigiu, editou, diagramou, fez cópias e até deu algumas amostras para alguém. Mas, sem uma editora por trás, seu livro pode continuar ali, parado, esperando por leitores que nunca chegam.
Você entrega um exemplar a um conhecido e escuta:
— Vou ler, sim! Estou sem tempo agora, mas assim que puder, eu leio.
E o tempo passa.
Então você decide procurar um curso de como vender livros e aprender a fazer marketing da sua obra. De repente, começam a aparecer anúncios nas suas redes sociais, como se alguém tivesse descoberto sua necessidade.
“Vamos vender seu livro!”
“Vou ensinar você a encontrar canais de venda e levar sua obra até o leitor.”
Você encontra cursos de escrita, de marketing, de divulgação, de posicionamento e de tudo o que possa existir entre escrever um livro e conseguir vendê-lo.
Aparecem pessoas dizendo que venderam mais de 50 mil livros, que publicaram 17 best-sellers e que conhecem o segredo para você alcançar o mesmo resultado.
Tem curso para fazer curso de como vender curso.
Todos parecem ter uma fórmula mágica.
Confesso que isso às vezes me incomoda. Parece aqueles cursos de como alcançar o primeiro milhão. A pessoa que vende o curso realmente pode ter conquistado seu primeiro milhão, mas, se um bilionário entrar nesse mercado e conseguir vender cursos suficientes, poderá ganhar outro bilhão.
Pense também naquele bilionário envolvido em um escândalo financeiro de proporções gigantescas. Será que ele largaria seu salão requintado, seu salmão e seu vinho caro para ensinar trinta pessoas a ganhar dinheiro na internet?
E aquele sujeito que se apresenta como bilionário, mas parece ter uma estrutura de apenas trinta funcionários contratados? Ele tem mesmo um bilhão disponível na conta? Ou o patrimônio anunciado depende da avaliação de empresas, participações e ativos que podem valer mais ou menos conforme o mercado?
Uma coisa é ter patrimônio avaliado em um bilhão. Outra é ter um bilhão disponível para gastar.
É fácil confundir as duas coisas quando alguém precisa vender a imagem de que descobriu o segredo do sucesso.
Come churrasquinho e arrota caviar.
Mas vamos voltar ao nosso livro morto.
Tudo bem, você encontrou um curso de como vender livros. Pode ser que o professor realmente saiba o que está fazendo. Pode ser que você aprenda técnicas úteis de divulgação, descubra novos canais de venda e consiga alcançar leitores que jamais encontraria sozinho.
O problema não é o curso existir.
O problema é imaginar que aprender a vender um livro seja suficiente para fazer uma carreira literária acontecer.
Um escritor independente precisa deixar de ser apenas escritor. Precisa aprender a empreender, administrar dinheiro, divulgar seu trabalho, encontrar leitores e financiar a própria produção.
O curso funciona como uma aula de direção para quem quer tirar a carteira de motorista. Ele ensina a passar as marchas, a respeitar as regras de trânsito e a conduzir o veículo.
Mas não vai guiar você até o destino. Não vai pagar sua gasolina, abastecer seu carro ou consertá-lo quando quebrar.
Ele ensina a dirigir. O caminho continua sendo seu.
Pode funcionar. Pode não funcionar. Você pode fazer tudo corretamente e ainda assim não conseguir o resultado que esperava.
Por isso, um escritor independente precisa financiar seus projetos dentro de suas possibilidades reais. Sonhar é bom. Querer chegar ao tapete vermelho, receber prêmios, dar entrevistas em podcasts, participar de sessões de autógrafos e jantar com gente do meio literário é perfeitamente compreensível.
Mas essa parte visível talvez represente apenas 10% do trabalho necessário. Os outros 90% podem ser feitos longe das câmeras, sem aplausos e sem ninguém perguntando como está seu livro.
Às vezes, você vai precisar lavar pratos, trabalhar como garçom, manobrar carros ou fazer qualquer serviço que pague rapidamente para financiar aquilo que realmente deseja construir.
E foi pensando nisso que me lembrei de uma garota.
Ela era linda e, quando me contou que era escritora, quase brilhava ao falar sobre isso. Não falava apenas de escrever um livro. Falava de viver da escrita. Suas redes sociais estavam sempre cheias de publicações interessantes. Era alguém que estava construindo alguma coisa, tentando encontrar seu espaço.
Uma amiga dela comentou:
— Mas você é garçonete...
Sim, ela era garçonete.
Mas não se enxergava apenas naquela rotina. Aquilo era uma parte da vida que precisava enfrentar enquanto tentava construir outra. Ela fazia o corre, publicava conteúdo, investia em links patrocinados, pagava cursos e procurava orientação para conseguir chegar a algum lugar.
Imaginei aquela garota como uma heroína usando uma capa.
Só que a capa também podia virar um avental.
Eu não vi uma garçonete que queria ser escritora.
Vi uma escritora.
E me senti pequeno diante dela, mesmo sem saber se um dia alcançaria seus sonhos.
Imaginei aquela garota chegando em casa depois de um dia cansativo, querendo escrever, mas sem forças. Talvez chorasse de frustração por não conseguir produzir aquilo que desejava. Talvez tentasse escrever algumas linhas, parasse, respirasse fundo e dissesse a si mesma:
— Amanhã é outro dia.
Em algum lugar da casa, havia um pote de alumínio que um dia fora uma lata de achocolatado. Ela havia escrito a palavra “SONHOS” em vermelho, usando um pincel atômico.
Ali dentro, guardava o dinheiro que juntava para pagar os serviços de uma editora que custavam R$ 22 mil.
Ela morava com os pais. Eles acompanhavam sua trajetória, mas talvez nem sempre soubessem o que perguntar. Afinal, ela sempre poderia responder:
— Estou escrevendo.
É difícil explicar o que você faz quando o resultado ainda não pode ser mostrado.
Um engenheiro pode apontar uma construção e dizer que participou daquele projeto. Um médico pode apresentar sua trajetória profissional, os atendimentos que realizou e as responsabilidades que assumiu. Um advogado pode mostrar seu escritório, sua equipe e os casos em que trabalhou.
E uma escritora?
Como ela mostra uma ideia?
Como apresenta algo que ainda não existe fisicamente, algo que talvez só ela consiga enxergar por enquanto?
Como convence alguém a acreditar em uma obra que ainda não encontrou leitores?
O livro está sendo escrito, mas ninguém o vê. O trabalho existe, mas não há um prédio, uma máquina ou uma sala cheia de funcionários para demonstrá-lo. Há páginas, arquivos, revisões e uma pessoa tentando transformar aquilo que imagina em alguma coisa que os outros possam ler.
Enquanto isso, o mundo continua perguntando o que ela faz.
É justamente aí que muitos cursos entram em cena.
Alguns ensinam técnicas que podem ajudar. Outros tentam convencer você de que o problema está na sua falta de disciplina, na sua zona de conforto ou na sua incapacidade de agir.
Você precisa escrever! O tempo está passando!
É verdade. O tempo está passando.
Escrever sob pressão pode funcionar para algumas pessoas. Um curso pode ajudar você a sair da inércia, estabelecer metas e criar uma rotina. Mas nem sempre o problema é estar preso a uma zona de conforto.
Às vezes, você precisa ampliar sua zona de conforto.
Pense naquela garota. Ela mora com os pais e pode aproveitar a estrutura da casa enquanto tenta construir sua carreira. Isso não significa que terá essa condição para sempre. Significa que, naquele momento, existe uma oportunidade concreta que pode ajudá-la a conquistar algo.
Por que tratar toda segurança como um obstáculo?
Por que imaginar que, para provar que deseja alguma coisa, você precisa tornar sua vida mais difícil?
Nem todo mundo precisa abandonar o emprego, sair de casa, contrair dívidas ou se colocar em uma situação de desespero para demonstrar comprometimento com seus sonhos.
Às vezes, a melhor estratégia é justamente preservar as condições que permitem continuar tentando.
Mas existe uma coisa que muitos cursos deixam em segundo plano: a rotina.
Imagine que você queira montar um negócio de salgados em casa. Você pesquisa receitas, aprende técnicas e descobre uma máquina capaz de produzir quatro mil salgados por hora.
Quatro mil por hora!
Parece fantástico.
Você compra a máquina, prepara o espaço e começa a imaginar o dinheiro entrando.
Mas então chega a segunda-feira.
Você precisa acordar cedo, preparar a massa, esperar esfriar, fazer o recheio, cozinhar e desfiar o frango, separar os ingredientes e acertar a proporção entre gordura e farinha.
Depois, precisa descobrir a temperatura adequada do óleo, manter a fritadeira perto dos 180 °C quando esse for o processo escolhido, organizar a produção e preparar os salgados para a venda.
A máquina pode produzir quatro mil unidades por hora nas condições adequadas. Mas a massa precisa estar na consistência certa, os ingredientes precisam estar disponíveis e o equipamento precisa ser abastecido corretamente.
Talvez você descubra que a máquina não comporta a sua ansiedade.
Ela tem uma capacidade de produção. Você tem uma capacidade de trabalho, um orçamento, um espaço e um tempo limitados.
E ainda falta vender os salgados.
Quem vai comprar? Como você vai divulgar? Quanto vai cobrar? Qual será o custo de cada unidade? Quanto sobrará depois de pagar os ingredientes, a energia, as embalagens e a manutenção?
A máquina não resolveu o negócio inteiro.
Ela resolveu uma parte dele.
O mesmo acontece com a escrita.
Você pode aprender a divulgar seu livro, construir uma audiência, criar anúncios e encontrar canais de distribuição. Mas ainda precisará escrever, revisar, publicar, divulgar novamente, administrar o dinheiro e lidar com a possibilidade de que o resultado demore a aparecer.
O curso pode ensinar o que fazer. Não pode executar a rotina no seu lugar.
E existe uma diferença enorme entre aprender uma técnica e conseguir incorporá-la à própria vida.
A rotina pesa.
Pesa porque você precisa repeti-la quando está cansado. Porque o entusiasmo do primeiro dia não se mantém intacto durante meses. Porque os resultados podem demorar. Porque, às vezes, você faz tudo o que planejou e não consegue avançar como gostaria.
Nenhum curso consegue garantir que você não vai fracassar.
Nem todo escritor será reconhecido. Nem todo artista conseguirá viver da própria arte. Nem todo empreendedor construirá uma empresa de sucesso.
Isso não torna inútil o esforço de quem tenta.
Significa apenas que precisamos parar de tratar o sucesso como uma recompensa automática para quem seguiu as instruções corretamente.
Todos podemos desejar construir alguma coisa dentro das nossas condições físicas, financeiras e materiais. Podemos aprender, melhorar, experimentar e aumentar nossas possibilidades.
Mas não precisamos de uma catarse fácil, daquelas em que uma grande decisão transforma tudo e, de repente, a vida começa a obedecer ao roteiro.
Onde está a Jornada do Herói?
Bem-vindo ao mundo real.
Aqui, você pode ser o protagonista da própria história sem ter controle sobre o desfecho.
Você pode trabalhar, estudar, escrever, economizar, errar e começar novamente. Pode encontrar pessoas que ajudem, oportunidades que não esperava e caminhos que nunca imaginou. Também pode descobrir que algumas portas não vão se abrir, mesmo depois de muito esforço.
E, no dia seguinte, ainda precisará levantar.
Talvez para trabalhar como garçom. Talvez para preparar mais quatro mil salgados. Talvez para revisar o capítulo que não conseguiu terminar na noite anterior.
Talvez para colocar mais algumas notas dentro daquele pote de achocolatado onde está escrito, em vermelho, “SONHOS”.
Essa é a parte que não cabe na propaganda do curso.
A Jornada do Herói promete uma história que caminha para a transformação.
A Jornada do Escravo começa quando você percebe que a vida não vai parar para que você realize seus sonhos.
Você precisa trabalhar para sobreviver e, dentro do tempo, do dinheiro e da energia que restam, tentar construir aquilo que deseja.
E talvez a sua maior luta não seja vencer o mundo.
Talvez seja conseguir preservar uma parte de si mesmo enquanto tenta viver nele.
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