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Somos todos colecionadores ou adiadores de alguma coisa

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Quando eu era mais jovem, minha mãe me perguntou o que eu queria. Eu queria um computador. Ela queria me dar uma moto. No fim, veio o computador.

Ainda me lembro do curso de informática que fiz naquela época. Eu desenhava à mão livre e, de repente, passei a usar o Paint. Depois, descobri, por meio de colegas, os programas de design. Aprendi sozinho a mexer nas ferramentas. Naquela época, a internet ainda tinha pouco conteúdo sobre design, então vieram as bancas de revistas, os CDs com milhares de tutoriais e imagens para estudar, experimentar e produzir arte.

A internet começou a ganhar força, e eu passei a absorver tudo aquilo. Colecionava tutoriais de como fazer isso e aquilo. Estudava programação, animação no extinto Macromedia Flash 5 e tudo o que pudesse ampliar minhas possibilidades. Tinha um HD cheio de tutoriais ensinando a reproduzir efeitos, criar animações e dominar ferramentas.

Quando consegui um estágio em uma agência de publicidade, comecei a colocar aquele conhecimento em prática.

Continuei colecionando tutoriais mesmo depois de mudar de área e entrar no universo dos vídeos. Como fazer isso, como produzir aquilo, como conseguir determinado efeito. Sempre havia alguma técnica nova para aprender, alguma ferramenta para dominar, alguma coisa que eu poderia usar um dia.

Mas, com o tempo, percebi uma coisa: você começa a colecionar conhecimentos para usar em uma criação própria, mas acaba colecionando por colecionar. Sabe fazer o efeito, conhece a técnica, entende a ferramenta, mas não sabe como aquilo se encaixa em uma ideia sua. Você aprende a executar, mas não necessariamente sabe o que quer dizer.

Na área de vídeo, inúmeros videomakers e filmmakers produzem imagens belíssimas, movimentos de câmera elaborados e sequências cinematográficas que publicam na internet para que outras pessoas se inspirem — e, naturalmente, colecionem referências.

Passei anos nessa área querendo produzir coisas que via, mas esbarrava no custo elevado dos equipamentos e da produção.

Lembro bem de uma época em que, quando uma novela estava no ar, alguns videomakers se reuniam para conversar sobre ela. Só que não assistiam à novela necessariamente para acompanhar a história. O assunto era outro: como havia sido gravada.

— Conheço o colorista. Ele fez a colorização de um filme.

— Olha o HDR que esse cara usou!

— Essa câmera grava em ProRes 4444!

E assim a conversa seguia. Todos sabiam alguma coisa sobre a novela: os equipamentos utilizados, a iluminação, os movimentos de câmera, os profissionais envolvidos e os processos de pós-produção.

Era divertido, mas também cansativo. Às vezes, pedante.

Lembro-me de perguntar àquelas pessoas se tinham vontade de produzir alguma coisa própria. Uma história, um curta-metragem, um universo que pudessem construir com todo aquele conhecimento acumulado.

Muitas vezes, era como se eu tivesse provocado um erro no sistema. Não sabiam o que responder. Mudavam de assunto.

Anos depois, com a chegada da inteligência artificial, essa pergunta voltou à minha cabeça. Conversei com várias pessoas da área, mas continuava encontrando uma dificuldade recorrente: muita gente sabia executar técnicas, reproduzir estilos e manipular ferramentas, mas não tinha uma ideia própria que realmente quisesse desenvolver.

Quando aparecia alguma ideia, frequentemente envolvia um personagem de filme, um meme ou alguma referência já conhecida pelo público. Era mais fácil trabalhar com algo cuja carga cultural já existia do que construir algo inteiramente novo.

E, muitas vezes, isso acontecia sem que as próprias pessoas percebessem.

Criar algo novo, mesmo depois de assistir a centenas de tutoriais, é difícil. Criar um mundo, personagens, conflitos e imagens que não dependam de algo previamente reconhecível exige mais do que domínio técnico. Exige uma ideia que consiga existir por conta própria.

É fácil pegar o Batman e colocá-lo dentro de uma armadura medieval japonesa. Você reconhece o Batman. Mesmo transformado, ele continua carregando consigo décadas de referências, histórias e significados.

Agora, tente criar um personagem completamente novo.

As pessoas podem estranhar. Podem dizer que ele parece com alguma coisa, procurar referências, tentar encaixá-lo em alguma categoria. E, se não conseguirem reconhecê-lo rapidamente, muitas simplesmente perderão o interesse.

O problema é que uma criação pode ser muito boa e, ainda assim, causar estranhamento. Não porque seja ruim, mas porque não oferece ao público aquele reconhecimento imediato que facilita o consumo.

E o criador também pode acabar desistindo. Em vez de insistir naquilo que está construindo, volta ao terreno conhecido, onde as referências já foram testadas e a aceitação parece mais provável.

Hoje, colecionamos prompts.

Aprendemos a escrever comandos para produzir imagens, vídeos, personagens e cenários. Guardamos fórmulas, estilos, parâmetros e combinações que funcionaram para outras pessoas. Acreditamos que, quanto mais repertório acumulamos, mais preparados estamos para criar.

Mas será que estamos criando ou apenas nos preparando eternamente para começar?

Os prompts mudam. As ferramentas evoluem. A tecnologia fica mais acessível. Ainda assim, boa parte do que produzimos continua apoiada em ideias que já conhecemos, personagens que já amamos e estéticas que já foram aceitas.

Encontramos algo novo dentro do velho e reproduzimos essa novidade até que ela também se torne familiar.

Talvez seja por isso que vivemos cercados de nostalgia, continuações, remakes e reboots. Revisitamos franquias antigas porque elas já carregam um valor emocional. Não precisamos começar do zero, apresentar um mundo desconhecido ou conquistar o público sem o auxílio de suas lembranças.

Existe um problema nisso?

Não necessariamente. Reinterpretar, homenagear e reconstruir também são formas legítimas de criação. O problema começa quando a familiaridade se torna uma condição para que algo seja aceito. Quando deixamos de perguntar o que ainda podemos criar e passamos a perguntar apenas o que podemos refazer.

E existe um risco particular em mexer com obras que já estabeleceram um padrão tão alto.

Imagine refazer O Senhor dos Anéis. Os filmes de Peter Jackson, lançados há mais de duas décadas, continuam sendo uma referência difícil de superar no cinema de fantasia. Mesmo com ressalvas de fãs em relação às diferenças entre os filmes e os livros, aquelas imagens, aquelas interpretações e aquela música já fazem parte da memória de milhões de pessoas.

Um remake não enfrentaria apenas a tarefa de contar novamente a história de Tolkien. Teria de enfrentar as lembranças de tudo o que o público já viveu com a trilogia anterior.

Não bastaria ser bom. Precisaria justificar sua existência diante de algo que, para muita gente, já é insubstituível.

Harry Potter também conhece esse peso. Quando uma obra atravessa gerações, seus personagens deixam de ser apenas personagens. Passam a carregar rostos, vozes, cenários e lembranças que o público não quer necessariamente ver substituídos.

E, quanto mais tentamos reproduzir o que já nos emocionou, mais difícil pode ser produzir uma emoção diferente.

Talvez o problema não esteja em colecionar tutoriais, referências, equipamentos ou prompts. Eu mesmo passei boa parte da vida fazendo isso, e esse conhecimento teve valor. Aprender ferramentas abriu portas, permitiu experimentar e me deu recursos para trabalhar.

O problema é confundir o acúmulo de ferramentas com a construção de uma ideia.

Podemos passar anos aprendendo a fazer qualquer coisa e continuar sem saber o que queremos fazer.

Podemos conhecer todas as técnicas de iluminação, dominar dezenas de programas, reproduzir qualquer estilo e gerar milhares de imagens sem conseguir criar um único universo que seja realmente nosso.

Porque aprender a fazer é uma coisa. Ter algo a dizer é outra.

E talvez a pergunta mais difícil não seja quantos tutoriais ainda precisamos assistir, quantos prompts precisamos colecionar ou qual equipamento precisamos comprar.

Talvez seja esta:

O que você quer criar que ainda não existe?

#criatividade #procrastinação #inteligenciaartificial #originalidade #processocriativo #culturadoremake #nostalgia #design #cinema #videomaker #filmmaker #prompts #culturadareplicação #pensamentocriativo #criaralgonovo

Thoughts

  • Vickyart

    Você disse uma coisa muito interessante,como a fonte de criar é algo extremamente imenso,explicou a diferença entre recriar e criar,além de descrever algumas coisas da própria vivência. Achei muito bom o texto,parabéns.

    Permalink
  • HeldonMenezes

    A jornada da criação humana é um reflexo direto da nossa evolução técnica e da busca incessante por traduzir o mundo. Quando deixamos a sutil leveza da mão livre para desbravarmos as primeiras telas digitais do Paint, iniciamos mais do que uma transição de suporte: inauguramos um novo modo de mediar a realidade. Naquele cenário de internet escassa, onde o saber dependia de CDs de tutoriais, bancas de revistas e o domínio obstinado de softwares como o Macromedia Flash 5, o primeiro instinto humano manifestou-se na sua forma mais natural: a necessidade de acumular, decodificar e dominar a ferramenta.

    Contudo, o verdadeiro marco da criação não reside na sofisticação dos códigos ou no armazenamento repleto de técnicas em um HD. Ele desperta no instante em que nos deparamos com o limite da própria execução. Saber como operar um efeito, compreender a engenharia de um vídeo ou dominar a estética de um software são habilidades humanas valiosas, mas vazias se não souberem o que querem dizer. É nesse ponto de inflexão que a criação deixa de ser um exercício mecânico e se transforma em ato de convívio e conexão. Criamos para estabelecer pontes com o outro, para dialogarmos com a agência de publicidade, com os colegas de profissão e com o ecossistema que nos cerca. A técnica nos insere no mundo; a intencionalidade nos conecta às pessoas.

    Essa fronteira entre o saber fazer e o ter o que dizer nos coloca diante do mais fascinante mistério: o paralelo entre a imensidão do universo e o abismo desconhecido da mente humana. Assim como o cosmos abriga galáxias inteiras invisíveis aos nossos maiores telescópios, o ser humano guarda em si camadas de intuição, sentimentos e memórias que a ciência não pode tatear. As ferramentas tecnológicas são lógicas, finitas e previsíveis. As ideias originais, por outro lado, emergem desse vazio misterioso e imensurável que carregamos no peito. Se a técnica é o corpo moldado pelo esforço, a ideia é a alma que o anima. É a manifestação da divindade interna que nos impede de sermos meros repetidores de funções e nos eleva ao papel de criadores conscientes.

    Perceber que o acúmulo de técnicas não preenche o espaço de uma ideia própria é, na verdade, um convite a um despertar muito maior. As suas ferramentas e o seu conhecimento técnico são os canais materiais, mas a ideia em si é uma dádiva, um elo sagrado e invisível entre o que Deus deseja manifestar e o que nós, através da nossa humanidade, ainda seremos capazes de operar no mundo. Ao olhar para o seu percurso, fica o questionamento: e se toda a sua busca por dominar efeitos e colecionar tutoriais tivesse sido apenas a preparação do terreno para que você se tornasse um intérprete do invisível? Quando você cria, você não está apenas manipulando pixels ou organizando linhas de tempo; você está materializando uma centelha do próprio Criador que escolheu a sua sensibilidade para ganhar forma. Compreender as ideias como esse ponto de encontro entre a vontade divina e o potencial humano transforma a sua arte. Ela deixa de ser um esforço de execução e exerce a forma de um ato de profunda parceria com o infinito, onde o que você opera hoje é apenas o começo daquilo que o universo ainda quer revelar através de você.

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  • Chemysky

    Sempre me perguntei isso também, de onde surgem as idéias? O quão espetacular a mente do criador deve ser para imaginar algo inteiramente novo? Simplesmente impossível, tudo que eixste nasceu de uma base, por exemplo as ciências, todas se baseiam em outros conhecimentos que já existiam, porém as pessoas que fazem esse conhecimento em algum momento tiveram a ideia de algo novo, como surge isso? Como se foram o "novo"? As ciências é um caso específico, já que tecnicamente é uma forma de ver o mundo, então tudo já existe, basta apenas descobri-lo, mesmo que a matemática por exemplo seja feita com base em símbolos, tal qual as línguas, ainda sim é como se tudo que tem alí já existisse, os cálculos, teoremas e tudo mais. Então o que realmente é novo? Tudo no fundo é um junção de tudo o que já existe, dragões por exemplo nasceram de alguma idéia, que provavelmente se inspirou em outra coisa, como lagartos e aves, queria entender como criar algo comoletamente novo, é como se eu tentasse inventar uma nova letra ao alfabeto, é possível criar novos símbolos, mas nunca uma nova sonoridade.

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  • arquivo_da_cidade

    O exemplo do Batman de armadura japonesa já existe de verdade: tem um longa de animação de 2018, Batman Ninja, que leva o Batman pro Japão feudal. E a conversa em volta dele foi muito mais sobre o visual do que sobre a história. Me parece um caso a favor do seu ponto, o que se reconhece primeiro é a ferramenta.

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