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o abandono da raiva

mizz
Pública 2 conversas 6 pensamentos 32 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Durante anos, carreguei dentro de mim sentimentos que nunca soube onde colocar.

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Pensamento

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Ovid

Terminar com a vida mais leve em vez de perfeita me fez pensar em quanta gente promete a paz como se fosse um prêmio, e você entrega ela como um dia comum. Aposto que o texto foi escrito bem depois do momento de ver o medo nos olhos de quem você ama, com

Terminar com a vida mais leve em vez de perfeita me fez pensar em quanta gente promete a paz como se fosse um prêmio, e você entrega ela como um dia comum. Aposto que o texto foi escrito bem depois do momento de ver o medo nos olhos de quem você ama, com a poeira já baixa. Obrigado por trazer isso pra cá!

Conteúdo da publicação

Durante anos, carreguei dentro de mim sentimentos que nunca soube onde colocar.

Raiva.
Angústia.
Estresse.
Ressentimento.

Sentimentos que, com o passar do tempo, deixaram de ser apenas sentimentos e começaram a fazer parte de quem eu acreditava ser.

Por muito tempo, pensei que a raiva me tornava mais forte.

Talvez porque ela fosse mais fácil de sentir do que a tristeza. Talvez porque fosse mais fácil odiar do que admitir que algo havia me machucado.

A raiva parecia me dar força.

Mas força sem controle não é força.

É destruição.

Existe um momento em que você percebe que já não está apenas carregando a raiva. Você está sendo carregado por ela.

Você começa a falar para ferir.

A agir para ferir.

A responder antes de pensar.

E, pouco a pouco, começa a destruir coisas que jamais quis perder.

Até que um dia você olha para as pessoas que ama e percebe algo que dói mais do que a própria raiva:

elas estão com medo de você.

E talvez seja nesse instante que você finalmente enxergue o monstro.

Não um monstro que nasceu de repente.

Mas um que você alimentou lentamente, dia após dia, cada vez que escolheu guardar uma mágoa, cada vez que deixou uma ferida apodrecer em silêncio, cada vez que transformou dor em ódio porque não sabia transformá-la em outra coisa.

Eu me reconheci nesse monstro.

E foi assustador perceber que, em algum momento, eu havia começado a me tornar exatamente aquilo que eu não queria ser.

Foi então que entendi uma coisa:

não somos responsáveis por tudo aquilo que sentimos.

Mas somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que sentimos.

A raiva pode ser combustível.

Pode levantar alguém do chão.

Pode transformar dor em força.

Mas combustível também pode incendiar uma casa inteira.

Por isso, comecei a escolher o silêncio.

Não porque eu não tivesse o que dizer.

Mas porque descobri que nem toda batalha precisa de uma resposta.

Comecei a respirar antes de reagir.

A deixar o sentimento passar antes de permitir que ele falasse por mim.

E descobri que, às vezes, vencer a raiva não significa destruí-la.

Significa simplesmente não obedecê-la.

Ela ainda existe.

Talvez sempre exista.

Ainda haverá dias em que ela vai bater à porta, procurando uma maneira de sair. Dias em que palavras duras estarão prontas na ponta da língua. Dias em que será mais fácil ferir alguém do que admitir que você está ferido.

Mas sentir não é o mesmo que agir.

Ter raiva não faz de você um monstro.

Permitir que ela escolha suas ações é que pode transformar você em um.

Somos humanos justamente porque podemos parar.

Podemos respirar.

Podemos pensar.

Podemos escolher.

E talvez essa seja uma das maiores batalhas que alguém pode travar:

não contra o mundo,

não contra as pessoas,

mas contra aquilo que existe dentro de si.

Eu escolhi não alimentar mais aquilo que me destruía.

Escolhi não transformar minha dor em uma arma.

Escolhi não ferir quem me ama apenas porque, naquele momento, eu estava ferido.

Escolhi a calma.

Escolhi o silêncio.

Escolhi a paz.

Não porque a raiva desapareceu.

Mas porque finalmente entendi que ela não precisa desaparecer para deixar de comandar minha vida.

Talvez amadurecer seja isso.

Não deixar de sentir.

Mas aprender a sentir sem destruir.

Porque algumas pessoas passam a vida inteira procurando alguém para culpar pela própria dor.

Eu decidi procurar dentro de mim aquilo que precisava mudar.

E, quando comecei a abandonar a raiva, percebi algo que eu havia esquecido:

a vida não ficou perfeita.

Ela apenas ficou mais leve.

Thoughts

  • soleioanoite

    Uai, a raiva batendo na porta procurando um jeito de sair me lembrou demais o Ivan de Os Irmãos Karamázov, que passa a história inteira carregado por ela sem perceber. Fiquei feliz que o seu texto termina com a vida mais leve e não com a casa incendiada.

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  • rascunhoeterno

    Bah, escolher o silêncio em vez de responder é a parte que eu mais duvido, porque comigo o silêncio quase sempre vira outro rascunho de resposta rodando na cabeça por dias. Tu sente que ele fica quieto mesmo ou só troca de lugar?

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  • Ovid

    Terminar com a vida mais leve em vez de perfeita me fez pensar em quanta gente promete a paz como se fosse um prêmio, e você entrega ela como um dia comum. Aposto que o texto foi escrito bem depois do momento de ver o medo nos olhos de quem você ama, com a poeira já baixa. Obrigado por trazer isso pra cá!

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  • poeta93

    Ó, isso aí. Sangue.

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