Eu detesto saber que hoje é terça-feira
O ser humano é o único animal que foi castigado a passar por crises existenciais. Seria muito bom poder viver a vida sem saber que hoje é uma terça-feira.
Afinal, terças-feiras não existem. Terças-feiras são uma invenção, uma forma que os seres humanos encontraram para organizar a contagem do tempo, regular o trabalho. Seria bom viver sem saber que hoje é terça, que amanhã é quarta e que faltam quatro dias para o fim de semana.
Vejam as aves no céu. Será que elas têm ideia de que dia da semana é hoje? Obviamente não.
As aves acordam e se preocupam com o que precisam fazer. Estou com fome? Comerei. Preciso migrar para o norte? Ótimo, vou começar isso hoje mesmo. Tenho necessidade de um parceiro para me reproduzir? Beleza, farei uma dança do acasalamento nesse exato momento.
Aves não fazem planos para terça-feira, porque terça-feira é uma convenção do ser humano.
Acredito que a vida começou a ser difícil quando os seres humanos decidiram que hoje é terça-feira.
Agora eu me preocupo em ir trabalhar amanhã. Me preocupo se vou casar e construir minha família antes dos 30. Me preocupo se finalmente vou conseguir sair dessa cidadezinha minúscula do interior para conseguir crescer na vida.
Existir é muito difícil. Ter noção da sua própria existência é mais difícil ainda.
A “não existência” é uma ideia muito atrativa. Como deve ser bom!
Será que esse é um dos motivos pelo qual os seres humanos gostam de dormir?
Quando você dorme, é a coisa mais parecida com a “inexistência” que chegamos. Não pensamos, não nos preocupamos, não nos afligimos. Ainda existimos, é verdade, mas não temos noção disso.
Quando estou tendo um dia horrível, quando está tudo errado, quando só quero parar de sentir, eu durmo. Eu me forço a dormir. Então eu esqueço. Eu não penso, eu não sinto. Estou inerte, anestesiada diante do mundo.
Mas o dormir não é para sempre.
Eu vou acordar uma hora ou outra. Recupero a consciência ainda com os olhos fechados, percebo que acordei e repito para mim mesma:
“Não me deixa acordar hoje, Deus.”
“Por favor, me faz voltar a dormir.”
Abro os olhos.
Olho para o teto.
Pego o celular.
5h10.
Terça-feira.
Choro.
Mas por que isso?
Por que esse anseio pela morte? Por que a não existência parece tão atrativa?
Logo os seres humanos, a raça superior, dotados de uma coisa chamada “instinto de sobrevivência”: uma força biológica e evolutiva que atua como um sistema automático de preservação da vida. Diferentemente de outros animais, que respondem de forma predominantemente orgânica aos estímulos, os humanos combinam esses impulsos primitivos com a capacidade cognitiva e a tomada de decisão.
Como esses seres racionais conseguem ir tão contra a própria natureza ao pensar em morrer? Ao passar horas imaginando como isso resolveria todos os problemas?
Contraditório, não?
Talvez aquilo de que mais nos gabamos, sermos seres “mais evoluídos”, com um poder intelectual nunca visto antes, tenha sido também um dos nossos maiores castigos.
Foi o motivo de descobrirmos que hoje é terça.
Foi o motivo de descobrirmos o futuro, as cobranças, os prazos, os “e se”, os “quando” e os “ainda não”.
Foi o motivo de descobrirmos uma das maiores dores que um ser humano pode sentir: a dor de, em algum momento, olhar para a própria existência e não conseguir encontrar sentido nela.
A morte me parece prometer coisas tão bonitas e fascinantes. Mas acho que a que mais me cativa é a “paz”.
Sem preocupações. Sem problemas. Sem choro. Sem dor.
Só a paz.
A paz de não saber que hoje é terça.
Às vezes, morrer parece lucro.
A vida se tornou tão pesada que a ausência dela parece mais confortável do que a própria existência.
Acho que eu seria uma das pessoas dentro da caverna de Platão. Saberia que há vida lá fora, que é diferente, mas talvez eu ficasse na caverna, no meu conforto. Preferiria viver na ignorância a viver nas incertezas dessa vida. Provavelmente seria mais feliz.
Mas eu sei que existe um mundo do lado de fora.
E, por mais que às vezes eu queira fechar os olhos e não acordar, recupero a consciência. Abro os olhos, pego o celular:
5h10.
Terça-feira.
Merda.
Considero que esse seja o verdadeiro castigo de ser humano, saber que estamos vivos enquanto estamos vivos. Saber que o tempo passa. Saber que amanhã existe. Saber que um dia tudo acaba.
Imaginar o futuro.
Contar os dias.
Dar nome às coisas.
Terça-feira.
Quarta-feira.
Quinta-feira.
Hoje mesmo são 5h20 de uma terça feira.
Mas quem inventou isso? As aves do céu não fazem a mínima ideia do que seja isso.
As aves não sabem que têm que construir uma carreira antes dos trinta.
Não sabem que deveriam ter a vida resolvida.
Não sabem que estão atrasadas.
Elas só acordam e vivem.
Talvez eu devesse fazer o mesmo.
Mas são 5h38 da manhã.
Eu tenho aula, preciso levantar da cama.
E, infelizmente, eu sei que é terça-feira.
Sei que amanhã é quarta.
Sei que existe um futuro.
Sei que existem cobranças.
Sei que existe dor.
Não posso simplesmente esquecer que é terça-feira.
Não posso voltar a ser uma ave, nem viver sem saber que amanhã existe.
Eu sei que agora são 5h52 da manhã, Eu sei demais.
Então, por enquanto, eu durmo.
Talvez seja isso que eu procuro quando durmo.
Não a morte.
Não o fim.
Apenas alguns minutos em que eu não preciso ser ninguém.
Não preciso casar.
Não preciso trabalhar amanhã.
Não preciso sair da cidade.
Não preciso descobrir o sentido da vida.
Só preciso dormir.
Só preciso esquecer que se passaram exatos 47 minutos desde que tocou o despertador das 5h10. Só para esquecer, por algumas horas, que existe uma terça-feira esperando por mim.
Amanhã ela ainda estará lá.
Mas agora não.
Agora eu fecho os olhos.
6h. Merda, perdi o ônibus.
Uma grande ansiedade enche meu peito.
Burra. Irresponsável. Levanta, idiota.
Não adianta mais, perdi o ônibus.
Mas o que faço com isso que sinto no peito? Como é que perco isso também?
Aperto os olhos com força.
Por um momento, esqueço de tudo.
Abro os olhos.
Quarta-feira.
Pelo menos a terça passou.