Sempre que o espelho, a exaustão ou os olhares alheios me questionam que tipo de mãe eu sou, a resposta não vem em palavras doces. A minha mente traz uma imagem brutal e exata, gravada na memória de um vídeo de natureza: um filhote de veado atravessa a correnteza do rio, e um crocodilo avança para o ataque. A mãe não hesita. Ela nada com fúria, ultrapassa o filhote, posiciona-se como um escudo e, ali, imóvel, deixa-se devorar para que a cria alcance a margem. Se o rio fosse a vida e o predador fosse o destino, eu faria exatamente o mesmo pelas minhas filhas. Não há heroísmo nisso. Há apenas a crueza do amor materno.
É por isso que a expressão "mãe atípica" me ofende tanto. Antes do diagnóstico, vem a incredulidade dos que te cercam: "isso é coisa da sua cabeça, dá um tempo, ela não tem nada". Você já está sendo rotulada, aprisionada pelos conceitos de quem não vive a sua rotina. A vastidão dessa fúria protetora é encolhida a um conceito de prateleira, separada dos demais. Ela escancara uma pequenez diante de fatos inalteráveis, tenta me enfiar numa caixa — um rótulo silencioso que sufoca. Depois do diagnóstico, vem a cobrança das mesmas pessoas que te cercam: "você não percebeu como ela é diferente? Por que não tomou providências antes?". Mais uma vez, isso te isola e te faz se perder no próprio nome, dentro do julgamento e do atípico. E isso, para mim, não dá.
O diagnóstico, sim, eu aceitei. Foi no silêncio de uma madrugada, com o rosto encharcado pelas lágrimas do medo. Medo do desconhecido, pânico do futuro. Mas, naquela mesma noite escura, enquanto o mundo dormia, eu firmei um pacto com a minha realidade: aceitei que não sabia de nada. E que não importava o que viria pela frente no dia a dia, eu estaria ali. Para cuidar e amar. Se nada sei, preciso aprender para poder te ajudar. Não importava como fosse, eu saberia, porque até para discordar você precisa ter base.
A partir daquele momento, o amor virou urgência e foco. Transformou-se em madrugadas a fio dissecando pesquisas, traduzindo artigos científicos onde aprendi a ler e interpretar conceitos médicos. O que é terapia ABA? Para que serve uma rotina tão regrada? Fonoaudiologia e vários exercícios para fazer em casa. O amor virou a precisão do relógio: três horas, de segunda a sábado, em uma sala de espera te aguardando nas intervenções. O amor se mediu nas três trocas de neuropediatra, nas quatro trocas de neuropsicólogo. Nutricionista, musicoterapia, ecoterapia, terapia ocupacional... para que serve tudo isso? Evolução!!!
Cinco escolinhas diferentes, porque tudo precisava estar em ressonância, em absoluta simbiose com o seu desenvolvimento. Foram relatórios mensais lidos e dissecados, questionamentos feitos parágrafo por parágrafo. Louca? Sim, eu sou, e sinceramente eu não me importo com esse rótulo. Esse rótulo de mãe louca, chata, metódica e crítica me define bem.
Um ano se passou. Dois anos, três anos. Quatro anos imersos nessa rotina exaustiva. Até que as primeiras palavrinhas começaram a se formar — e como festejamos naquele dia! O social começou a acontecer, as crises foram diminuindo. A evolução... a tão sonhada, suada e desesperadamente esperada evolução, finalmente se materializou diante dos meus olhos.
Eu só tenho uma certeza no meio de todo esse tufão: foi Deus quem te deu a mim. Ele confiou a sua vida nas minhas mãos, e eu vou tentar fazer o meu melhor absoluto. Eu não sou perfeita, não sou boa e nem tenho o coração manso como o pai de Cristo Jesus. Meu amor é terreno e feroz. Se fosse preciso, e eu não tenho a menor dúvida disso, eu queimaria o mundo inteiro por vocês.