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C 0012: Tarde de chuva, dor de cabeça e o "não toque no meu corpo, meu corpo minhas regras"

BELADIA
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 São dezessete horas e quarenta minutos. O celular toca. É uma chamada de vídeo do meu marido. Assim que atendo, a tela é tomada pela minha filha aos prantos, berrando: "Mamãe! Mamãe!", enquanto ele tenta, com certa dificuldade, prendê-la na cadeirinha do carro. Ele fala comigo visivelmente tenso, chateado com a situação:

— Para de gritar, as pessoas estão olhando! — ele diz a ela, e logo se volta para mim. — Estou há quase dez minutos tentando colocar ela dentro do carro.

O trajeto da escola até em casa dura cerca de trinta e cinco minutos, e ela vem chorando e gritando sem parar o caminho inteiro, enquanto eu, no celular, tento acalmá-la.

Quando finalmente passam pela porta, o cenário é de exaustão absoluta. Meu marido caminha direto para a sala, se joga no sofá e coloca uma almofada sobre o rosto, como se quisesse apagar o mundo. Pergunto o que houve, e a resposta sai abafada pelo tecido:

— Eu tô com dor de cabeça. Tá chovendo, o trânsito estava horrível e ela veio gritando da escola até aqui. E não era nada... ela só queria chorar e gritar porque a mãe não foi buscá-la.

Respiro fundo. Pego-a no colo e acalento; a maternidade não tem pausa para dor de cabeça. Vou para a cozinha e preparo a janta para as meninas, enquanto ele continua no sofá, com a almofada no rosto, recuperando-se da batalha no trânsito. Elas jantam, a tempestade infantil parece ter passado, e a casa volta a ter algum silêncio. O diagnóstico materno, no fim das contas, é simples e certeiro: era fome.

É quando decido olhar as agendas escolares. As duas estão brincando. Lá está um recado da professora em uma das agendas, que faz minha mente voltar a acelerar: "Mãe, o dinheiro não veio para o lanche. Tem que fazer o PIX até as 20h. O livro de Ensino Religioso também não está na escola e nem na bolsa."

Largo a agenda, vou revirar a mochila e procurar o dinheiro que eu tinha certeza absoluta de ter mandado. Não encontro. Pego o celular, faço o PIX para a cantina da escola e me viro para a minha filha, questionando com aquela paciência que a gente tira não sei de onde no fim do dia:

— Filha, a mãe te mostrou o dinheiro quando colocou na agenda. Eu até escrevi o recado para a professora junto com você. O dinheiro do lanche, seu e da sua irmã, estava bem ali...

Ela me olha e diz, com toda a convicção do mundo:

— Não estava. Eu conferi com a professora.

Fico parada por um segundo. A certeza dela me irrita.

— Então, onde foi parar o dinheiro que a mãe te deu? Eu coloquei na agenda!

Ela me olha e dá de ombros. Começo a dar aquele sermão.

— Mês passado, no primeiro dia que levou o cartão pré-pago, que eu havia feito especialmente para pagar os lanches da escola para evitar justamente esse tipo de problema, você perdeu.

— Mas eu achei o cartão — ela argumenta com teimosia.

— A professora achou o cartão no pátio depois que toda a sua sala foi ajudar você a procurar! — falo com impaciência.

— Mas não esquece, mãe... — ela tenta argumentar.

Eu corto, assumindo o modo interrogatório:

— Você abriu a bolsa antes de entrar na sala?

— Não.

— E você pegou a agenda quando chegou na sala e fez o quê?

— Coloquei embaixo da carteira e, na hora do lanche, fui pegar o dinheiro e não estava.

Respiro fundo de novo. A cota de paciência já operando no cheque especial.

— E esse livro de Ensino Religioso? É o livro daquela tarefa que você fez hoje pela manhã?

— Não, o trabalho que fiz hoje, o do chocalho, era de Artes.

— E o que tinha na pasta rosa? Aquela tarefinha de escrever uma história, dentro da pasta rosa não tinha mais nada?

— Não, aquele trabalho é de Português.

Vou para o escritório. Começo a tirar todos os livros delas e a arrumar a estante inteira, à procura do tal livro de Ensino Religioso, enquanto continuo o sermão no modo automático:

— A gente tem que ser responsável no pouco, para poder ter muito! Você perdeu o dinheiro do lanche, agora o que eu vou fazer? Não vou mais mandar dinheiro, você vai levar apenas o lanche de casa!

Ela, que tem sete anos, vem e começa a me ajudar a procurar o livro. Eu já tinha arrumado todos os brinquedos e os livros que estavam jogados no escritório. É quando ela solta, na maior naturalidade:

— Eu devolvi a agenda do Benjamim hoje.

Paro de arrumar a estante e olho para ela.

— Que agenda?

— A agenda do Benjamim, que estava desde ontem na minha bolsa.

— Por que a agenda do Benjamim estava na sua bolsa?

— Eu não sei — responde, dando de ombros.

— A sua agenda estava com ele? — pergunto.

— Não, a minha também estava na bolsa.

Meu marido, que a essa altura já tinha saído debaixo da almofada e analisava o material escolar, levanta os olhos e me pergunta:

— Você escreveu o recado na agenda dela?

— Escrevi, sim. Por quê?

— Então você escreveu na agenda errada. Porque na agenda dela não tem recado seu, só o da professora informando que não havia dinheiro.

A ficha caiu. Um silêncio pesado tomou conta de mim. Eu coloquei o dinheiro e escrevi o recado caprichado... na agenda do coleguinha.

Ela olha para mim e pergunta:

— Você não leu o nome na agenda?

Eu respiro fundo.

Mais alguns minutos se passam tentando digerir o meu próprio erro, e chega a hora do banho. A mais velha toma banho sozinha, mas a mais nova, de quatro anos, precisa de supervisão.

O termômetro marca quinze graus. Está frio e o banho precisa ser rápido. E é aí que começa o segundo round: choro e gritos da caçula, que se recusa a ter supervisão. No auge do seu desespero no banheiro, ela me solta a seguinte frase:

— Não toca no meu corpo! Meu corpo, minhas regras!

Respiro fundo.

— Foi você quem disse que ninguém pode me tocar! — ela fala chorando.

Engulo o riso de nervoso. Tomou banho chorando porque eu, impiedosamente, a ignorei. Sequei-a chorando, vesti-a chorando. Na cama, dormiu em cinco minutos, abraçada com o pai. O diagnóstico materno, no fim das contas, é simples e certeiro mais uma vez: é só sono.

Thoughts

  • LeandroPocas

    A de sete anos a perguntar se não leste o nome na agenda. Eu tinha fugido para a cozinha 😂

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  • Ovid

    No meio do sermão, a de sete anos foi para a estante ajudar a procurar o livro, e isso diz muito dela. Levou bronca por um dinheiro que não sumiu por culpa dela e mesmo assim ficou do seu lado. Eu imagino que foi ali, lado a lado, que ela ficou à vontade para contar do Benjamim. Criança solta a peça que falta quando a gente para de perguntar.

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  • anogueira52

    Boa tarde. Busco minha neta na escola e conheço esse choro de quando quem aparece no portão não é quem ela esperava, não tem conversa no carro que resolva. Gostei muito de ver a senhora contar o próprio tropeço com essa calma, o interrogatório livro por livro, cada vez mais certa, até o recado aparecer na agenda do Benjamim.

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