A mãe talvez seja o primeiro contrato social biológico. Ela alimenta, protege, educa e prepara sua cria para um mundo cujo destino ela mesma desconhece.
Existe uma espécie de escassez em tudo isso. Como naquele “Pedaço de Mim”, do Chico Buarque: a mãe vive com uma parte de si sempre projetada para um futuro que ainda não existe. Ela se preocupa antes mesmo que exista um problema. Quer a melhor escola, a melhor roupa, o melhor médico, os melhores amigos. Quer preparar o filho para tudo, sabendo, no fundo, que não poderá controlar tudo.
Ela não tem tempo para nada, mas sempre encontra tempo para aquilo que ama.
E nem todas nasceram prontas para ser mães. Algumas só encontram outra forma de exercer essa maternidade quando chegam os netos. Talvez exista ali uma segunda chance: não para apagar o passado, mas para perdoar a si mesma por aquilo que não soube fazer antes. Quando jovem, muitas vezes faltava experiência, paciência ou simplesmente tempo. Havia filhos para criar, trabalho, contas, casa, responsabilidades. Algumas fizeram tudo sozinhas. Outras tiveram companheiros que ajudaram pouco ou quase nada.
Depois os filhos crescem.
E começa outra incerteza.
Você pode ensinar valores, mostrar caminhos, plantar princípios, mas nunca saberá exatamente o que aquela criança será quando adulta. Você pode plantar a melhor semente possível, mas não conhece completamente o terreno onde ela vai crescer nem o clima que encontrará pela frente.
O filho também se torna espelho da mãe, mas não é sua cópia. Pode carregar seu caráter, suas virtudes, seus defeitos, suas feridas. Pode honrar aquilo que recebeu ou escolher outro caminho. E essa talvez seja uma das maiores angústias da maternidade: amar profundamente alguém que, um dia, terá liberdade para escolher quem será.
A mãe acompanha, orienta, tenta proteger.
Mas chega uma hora em que precisa soltar.
E talvez seja justamente aí que esteja a grandeza desse primeiro contrato: ela entrega ao mundo alguém que passou anos tentando proteger do próprio mundo.
Claro, sou homem. Não sei como é ser mãe.
Mas reconheço uma quando vejo.