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C 06: Esquecimento,duende cachaceiro, celular perdido , gritaria.

BELADIA

Conteúdo da publicação

​O tempo não perdoa, mas às vezes a gente nasce assim: com a memória comprometida. Esqueço rostos, pessoas, objetos... A minha memória é um poço e dentro dela tem um duende cachaceiro, que decide o que eu vou lembrar e quando. Não é que eu esqueça de tudo, eu simplesmente não guardo muita coisa na memória a curto prazo, nem a longo. Desde quando? Desde sempre. Só não me esqueço das vergonhas que já passei por não ter memória.

​Na época da minha primeira faculdade, há mais de 20 anos, eu trabalhava em um cartório de notas. Passei quase um ano cumprimentando e conversando com um rapaz como se fôssemos colegas. Falava das aulas, dos professores e de outros alunos da sala. Na minha cabeça, ele era um rapaz que tinha feito o primeiro ano de graduação comigo e desistido do curso. A lembrança real só veio quando, de fato, encontrei o verdadeiro desistente. Foi aí que me dei conta: eu falava do curso de graduação e chamava pelo nome errado um rapaz que não era o tal colega! Memória fraca. E o rapaz nunca me disse: "Olha, sua louca, você está me confundindo com outra pessoa".

​Já levei as minhas filhas para um aniversário e, detalhe: não só errei a data, indo uma semana antes, como também errei a cidade! Fomos parar na cidade vizinha. Só me dei conta do erro quando fui conferir o local e observamos que a data era outra e a cidade onde estávamos não era a da festa. As minhas filhas choraram muito, pois queriam ir ao aniversário de qualquer jeito. Haviam criado toda uma expectativa, colocado vestido de festa e eu fiz planos para elas nos brinquedos, com o bolo e os balões... mas a festa era só na outra semana, em outro lugar. O choro da frustração foi tanto que até o marido, naquele dia, ficou bravo com a confusão.

​Já dei os parabéns para o meu pai quatro dias antes do aniversário dele (como eu morava em outro estado, liguei). No dia seguinte, minha mãe me contou que ele foi reclamar com ela, todo triste. Tendo quatro filhos, lamentou que só uma havia lembrado de seu aniversário, e que não teve nem bolo ou um almoço especial. Questionou por que eu havia sido a única da família a lembrar. A minha mãe apenas respondeu: "Só ela 'lembrou' e te deu os parabéns porque ontem não foi o seu aniversário". A minha mãe me ligou para dar bronca, dizendo que meu pai chegou a chorar enquanto se lamentava para ela.

​Já saí às pressas de casa com as meninas, bolsas e mais bolsas, aquela gritaria, e você sabe como é: na hora de colocar as crianças na cadeirinha, a gente acaba apoiando as chaves e a bolsa em cima do capô do carro. Já esqueci a bolsa lá tantas vezes; por sorte, ela sempre faz barulho ao cair no chão assim que dou a partida. Mas também já esqueci o celular e andei quatro quadras com ele em cima do capô até cair na rodovia. Quando meu marido me encontrou, ele perguntou, todo feliz e irônico: "Cadê o seu celular?". Eu respondi: "Na bolsa". Ele, sorrindo, disse: "Procura". Procurei e nada. Então ele disparou: "Não está na bolsa porque alguém achou seu celular na rodovia. À tarde vou me encontrar com o homem e ele vai devolver". Mas não teve jeito: a tela estava quebrada e tive que comprar outro aparelho.

​Já fui a consultas médicas em dias errados. Já saí e deixei a porta de casa aberta. Só neste ano, que me lembro, né... já levei as meninas para a escola e esqueci as bolsas na porta de casa umas cinco vezes. Como elas estudam em uma cidade vizinha à nossa, tive que fazer todo o caminho de volta para buscar.

​Logo que casei, fomos viajar para um lugar a mais de 200 km de distância da nossa casa. Quando chegamos ao destino, cansados da viagem de carro, o marido abriu o porta-malas e soltou: "Ué, cadê as bolsas? Você não colocou no porta-malas?". Eu respondi: "Eu não. Você não colocou?". Enfim, tivemos que comprar roupas novas.

Anos já se passaram e contínuo esquecendo, a lista é grande situações embaraçosa...

​Só não esqueço as minhas filhas porque elas são barulhentas.

Thoughts

  • Terezinha

    Boa noite, minha filha! Ri muito das meninas de vestido de festa na cidade vizinha, coitadinhas. Vai postar a continuação da lista de esquecimentos?

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  • Nete

    Égua, de toda a lista a que eu achei mais pesada foi a do teu pai. Celular quebrado se compra outro, bolsa esquecida a gente volta e busca. Mas ele passou um dia achando que os outros filhos tinham esquecido dele, e isso fica mais que tela rachada. Eu aposto que hoje tu liga no dia certo, com o calendário na frente.

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  • FernandaLisboa

    Ah, o capô. Quem já viu alguém prender uma criança numa cadeirinha sabe que é a única superfície livre num raio de dois metros: chaves, bolsa, telemóvel, paciência. Eu culpo quem desenha carros sem prateleira. A bolsa ao menos cai com estrondo, o telemóvel pelos vistos é discreto e aguenta quatro quarteirões.

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  • zoeiraPesada

    Cidade E data erradas 💀

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  • so_respondo

    Oxe, a bolsa caindo do capô com barulho virou o alarme oficial da família, véi. Funciona melhor que muito aplicativo

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  • saindo_pra_sempre

    Cara, você fecha dizendo que os anos passaram e continua esquecendo, e eu li com a cara de quem promete toda segunda que vai largar o celular. A gente conhece o defeito de cor e segue igualzinho kkk

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  • Ovid

    Nessa lista de esquecimentos sempre aparece alguém segurando a ponta: o rapaz do cartório que aceitou ser colega de faculdade por quase um ano, o homem que achou o celular na rodovia e marcou pra devolver. O duende apaga muita coisa, mas eu vejo gente em volta cuidando de você o tempo todo. Gostei muito de ler :)

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  • printDoPrint

    O marido já sabendo do celular, já com o homem da rodovia marcado pra tarde, e ainda deixando você revirar a bolsa inteira antes de contar. Mermão, isso é postura de arquivista. Eu sou exatamente esse cara, confesso: seguro a prova e espero a pessoa jurar que tá tudo certo.

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