Se eu abrir a porta...
Os dias lá fora começam e terminam com uma impiedade que assusta. Mas, no fundo, o que isso importa?
O tempo passa em um piscar de olhos. É uma brisa cortante de inverno que arrepia a pele; uma presença invisível que te toca, mas cuja forma ninguém consegue ver. De repente, sem que eu perceba o movimento traiçoeiro das horas, das semanas e dos meses, a tarde cai. Já é outono de novo. O frio do inverno já avisa que vai chegar.
Pela fresta, vejo o pôr do sol incendiar o céu de dourado. O azul cede espaço, lentamente, para o rosa. Os pássaros desenham coreografias no ar, dançando uma melodia silenciosa que o próprio vento compõe.
Mas, aqui dentro, a porta continua fechada.
Eu estou ali. Parada. Diante dela, com a mão estendida, pairando no ar.
Se eu apenas a abrisse e passasse... Pouco me importa o que aguarda do outro lado. Então, o que me impede de girar a maçaneta?
Às vezes, quando me deito para dormir, o abismo sussurra o meu nome. Sinto que estou caindo no escuro de mim mesma. Naqueles segundos frágeis, o corpo desliga e a gravidade perde a força. Os dedos das mãos e dos pés formigam. Um frio silencioso desce sobre mim como um manto pesado que imita a vida — e só então me traz de volta.
A mente escurece. A sensação de flutuar na vastidão do meu próprio espaço vazio toma conta de tudo. E o pior de tudo? Não é aterrorizante. É apenas um lugar onde o relógio parou. Um lugar sem começo. Sem fim.
Deus, eu não estou bem.
Não há nada aqui. Fui completamente esvaziada. Não sinto medo, não sinto raiva, não alcanço a felicidade e sequer consigo tocar a tristeza. A comida perdeu o sabor. As noites e os dias se fundiram em uma exaustiva e infinita tela em branco. Não sobrou mais nada. Restou apenas o ato mecânico, pesado e cansativo de respirar.
É difícil confessar a própria ruína. Mas, Deus, eu não estou bem. Segura a minha mão. Hoje eu não trago palavras bonitas, não tenho orações estruturadas, nem mesmo lágrimas me restaram para ofertar. Só me deixa segurar nas tuas mãos.
A porta continua fechada.
Eu quero abri-la. Eu juro que quero. Mas olho ao redor e continuo paralisada, com a mão estendida a centímetros do metal gelado. Eu não posso abrir. Se eu destrancar essa porta, tenho um medo terrível de que a minha escuridão vaze e acabe ferindo quem quer que esteja do outro lado.
O que aconteceu comigo?
Quando foi exatamente que o mundo perdeu a cor?
Como foi que eu caminhei, passo a passo, até este exílio?
Meus olhos, às vezes, buscam um horizonte que os meus pés não conseguem alcançar. Estou a exatos dois passos da saída. Em alguns momentos, chego a segurar a maçaneta e fico ali. Imóvel. Em pé. Apenas encarando a madeira.
Não há dor. Não há o desespero de um sofrimento agudo. Não tem nada, apenas tela em branco. O ar fica rarefeito, quase desaparece, e por segundos tudo apaga. É uma escuridão fria, sim, mas estranhamente aconchegante. É como se tudo se desligasse e o Nada abrisse os braços para me abraçar.
Por que eu gosto tanto desse lugar?
Em silêncio.
E é no fundo exato desse silêncio que uma única, frágil e teimosa certeza ainda ecoa: eu preciso sarar.