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C 01 : Se eu abrir a porta.

BELADIA

Conteúdo da publicação

Se eu abrir a porta...

​Os dias lá fora começam e terminam com uma impiedade que assusta. Mas, no fundo, o que isso importa?

​O tempo passa em um piscar de olhos. É uma brisa cortante de inverno que arrepia a pele; uma presença invisível que te toca, mas cuja forma ninguém consegue ver. De repente, sem que eu perceba o movimento traiçoeiro das horas, das semanas e dos meses, a tarde cai. Já é outono de novo. O frio do inverno já avisa que vai chegar.

​Pela fresta, vejo o pôr do sol incendiar o céu de dourado. O azul cede espaço, lentamente, para o rosa. Os pássaros desenham coreografias no ar, dançando uma melodia silenciosa que o próprio vento compõe.

​Mas, aqui dentro, a porta continua fechada.

​Eu estou ali. Parada. Diante dela, com a mão estendida, pairando no ar.

​Se eu apenas a abrisse e passasse... Pouco me importa o que aguarda do outro lado. Então, o que me impede de girar a maçaneta?

​Às vezes, quando me deito para dormir, o abismo sussurra o meu nome. Sinto que estou caindo no escuro de mim mesma. Naqueles segundos frágeis, o corpo desliga e a gravidade perde a força. Os dedos das mãos e dos pés formigam. Um frio silencioso desce sobre mim como um manto pesado que imita a vida — e só então me traz de volta.

​A mente escurece. A sensação de flutuar na vastidão do meu próprio espaço vazio toma conta de tudo. E o pior de tudo? Não é aterrorizante. É apenas um lugar onde o relógio parou. Um lugar sem começo. Sem fim.

​Deus, eu não estou bem.

​Não há nada aqui. Fui completamente esvaziada. Não sinto medo, não sinto raiva, não alcanço a felicidade e sequer consigo tocar a tristeza. A comida perdeu o sabor. As noites e os dias se fundiram em uma exaustiva e infinita tela em branco. Não sobrou mais nada. Restou apenas o ato mecânico, pesado e cansativo de respirar.

​É difícil confessar a própria ruína. Mas, Deus, eu não estou bem. Segura a minha mão. Hoje eu não trago palavras bonitas, não tenho orações estruturadas, nem mesmo lágrimas me restaram para ofertar. Só me deixa segurar nas tuas mãos.

​A porta continua fechada.

​Eu quero abri-la. Eu juro que quero. Mas olho ao redor e continuo paralisada, com a mão estendida a centímetros do metal gelado. Eu não posso abrir. Se eu destrancar essa porta, tenho um medo terrível de que a minha escuridão vaze e acabe ferindo quem quer que esteja do outro lado.

​O que aconteceu comigo?

Quando foi exatamente que o mundo perdeu a cor?

Como foi que eu caminhei, passo a passo, até este exílio?

​Meus olhos, às vezes, buscam um horizonte que os meus pés não conseguem alcançar. Estou a exatos dois passos da saída. Em alguns momentos, chego a segurar a maçaneta e fico ali. Imóvel. Em pé. Apenas encarando a madeira.

​Não há dor. Não há o desespero de um sofrimento agudo. Não tem nada, apenas tela em branco. O ar fica rarefeito, quase desaparece, e por segundos tudo apaga. É uma escuridão fria, sim, mas estranhamente aconchegante. É como se tudo se desligasse e o Nada abrisse os braços para me abraçar.

​Por que eu gosto tanto desse lugar?

​Em silêncio.

​E é no fundo exato desse silêncio que uma única, frágil e teimosa certeza ainda ecoa: eu preciso sarar.

Thoughts

  • cadernoDeMargem

    Menina, o texto diz que o mundo ficou sem cor e três parágrafos antes pinta o céu de dourado e rosa pela fresta, com os pássaros desenhando no ar. Quem ainda olha isso com tanta atenção carrega mais cor do que confessa, e foi essa contradição que me fez voltar ao começo e ler tudo outra vez.

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  • brunocosta

    Quem está do outro lado dessa porta, se calhar, nem sabe que há uma porta. Fiquei a pensar nisso o resto da tarde.

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  • anogueira52

    Esta chegou como a 01 depois da 31, e li nessa ordem, o fim antes do começo. A mão no ar a centímetros da maçaneta me segurou um tempo, porque dois passos que não se andam é coisa que um homem da minha idade já viu em muita gente. Pergunta séria: esta foi mesmo a primeira que você escreveu?

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  • TintaEAvesso

    O Simao leu como medo e eu li de outro jeito: o Nada de braços abertos convida, e por isso a pergunta sobre gostar tanto daquele lugar pesa mais que o abismo. Pra mim o que segura tudo é a certeza teimosa aparecer sem discurso nenhum, coisa que eu quase nunca consigo.

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  • Ovid

    A mão parada a centímetros do metal gelado, a dois passos da saída, foi com o que fiquei o dia inteiro, @BELADIA. O texto acaba numa certeza, a de sarar, e é isso que me faz pensar que as crônicas seguintes partem daqui, mesmo as que já estão publicadas. Obrigado por publicar isto aqui!

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  • Simao

    O abismo a sussurrar-te o nome à hora de deitar meteu-me mais arrepios do que muita coisa que li. E a porta fechada é que me ficou.

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