Baralhei-me nos números e voltei atrás duas vezes. Ficou-me o 9 a abrir os braços para a bancada a cada golo, a beber aquilo todo.
Mãe Ceres: Flagball
Narração (pelo rádio, voz grave, solene, entrecortada por aplausos e ruídos de multidão):
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Pensamento
Baralhei-me nos números e voltei atrás duas vezes. Ficou-me o 9 a abrir os braços para a bancada a cada golo, a beber aquilo todo.
Conteúdo da publicação
Narração (pelo rádio, voz grave, solene, entrecortada por aplausos e ruídos de multidão):
— Senhoras e senhores de todas as cidades-vale, sejam bem-vindos à arena central de Ceres. Esta noite, o Flagball não é apenas esporte — é devoção, disciplina, guerra com elegância. De um lado, a nossa seleção dourada de Ceres. Do outro, os desordeiros de Arcádia, que ousam nos desafiar em nossa própria casa. As arquibancadas estão lotadas. Ninguém fica de fora quando a Mãe Ceres nos chama para defender a honra que só Ela pode conceder...
A transmissão invade um pequeno alojamento cinzento no internato central. Luz fraca, cama bem-feita, estantes alinhadas. O rádio, antigo mas robusto, vibra no parapeito da janela.
Encostado na cadeira de rodas, pernas imóveis, mas postura relaxada, Daime sorri torto ao ouvir a solenidade do locutor. Um cigarro apagado pendurado no canto da boca, ele balança a cabeça e murmura sozinho:
Daime (resmungando, sarcástico):
— Ah, vai tomar no cu com essa merda de “honra concedida”... Quero ver quem vai sair cuspindo sangue hoje. Vai, Theo, mostra pra esse bando de bunda-mole por que eu ainda aposto em você, porra...
Com um estalo de dedos, aumenta um pouco o volume e apoia os cotovelos no braço da cadeira, atento, mas sem perder o ar de sadismo divertido.
O campo oval brilha sob os grandes refletores; um mar de uniformes negros com detalhes dourados enche as arquibancadas. Os cidadãos perfilados, em silêncio quase religioso, aguardam a entrada dos jogadores.
Um coro de vozes preenche a arena, cantando em uníssono o hino de Ceres, enquanto a bandeira tremula no topo do mastro central:
Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa e nos devora... Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa e nos devora...
Os jogadores da seleção de Ceres marcham para o centro do campo, um a um, perfilando-se em fila dupla, de costas uns para os outros.
No centro, Theo, camisa 8, com semblante calmo, porém duro. À sua direita, Dark, camisa 9, olhar de predador, sorriso torto no rosto. À esquerda, Gene, camisa 5, inquieto, ajustando o capacete com mãos trêmulas. Atrás deles, Cors (3), sobrancelhas franzidas, punhos cerrados. Por último, Vanks, o goleiro (1), firme como uma muralha, embora os olhos frios disparem setas em direção a Theo.
Todos erguem o braço esquerdo sobre a cabeça, palma aberta, dedos fechados na vertical. A multidão repete o gesto, num mar perfeitamente coordenado.
Por um instante, só o som dos tambores dos cidadãos de Ceres e a respiração ofegante ecoam no estádio.
No centro da tribuna de honra, Mãe Ceres observa — uma figura imponente, envolta em véus negros, com semblante impossível de decifrar.
Quando o árbitro assinala para os times se posicionarem, uma tensão elétrica percorre a equipe de Ceres.
Diálogo dos jogadores (baixinho, durante a formação inicial):
Dark (9):
— Não encosta em mim, verme. Fica no teu canto e não atrapalha.
(sorriso cruel para Theo)
— Eu adoro ver você tentando parecer um líder. Tão... patético.
Theo (8), frio, sem encarar Dark:
— Cala a boca e joga. Não preciso que você goste de mim. Preciso que marque direito. Ou vai entregar o jogo pra Arcádia também?
Dark (9), rindo baixo, venenoso:
— Talvez eu entregue só pra ver a sua cara de fracasso.
Cors (3), resmungando enquanto ajusta as ombreiras:
— Líderzinho ridículo... quem devia comandar isso aqui sou eu.
Theo (8), seco, para Cors:
— No dia que aprender a controlar seu temperamento, talvez. Até lá... segue minhas ordens.
Gene (5), sussurrando, nervoso:
— Eles... eles tão olhando pra gente lá da tribuna. A Mãe tá... assistindo.
Theo (8), finalmente erguendo o olhar para a tribuna:
— Sempre está. Nunca se esqueça disso.
Vanks (1), atrás, ríspido:
— Você adora falar como se fosse filho preferido dela, não é? Não passa de mais um peão, igual a gente.
Theo, firme, ainda olhando pra tribuna:
— Talvez. Mas sou o peão que vai ganhar o jogo pra Ela.
De volta ao alojamento, Daime dá uma gargalhada seca, ouvindo a multidão ecoar pela transmissão:
MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!
Ele bate com a palma na cadeira e cospe no chão ao lado, rindo sozinho:
Daime:
— Isso, porra. Vai lá, Theo... mete a porrada nesses filhos da puta e prova pra essa Mãe que você é o único filho que ainda vale a pena.
O apito inicial ecoa. Os jogadores se lançam para frente como soldados numa batalha. A guerra com elegância começa.
O apito soou estridente no campo, encerrando o primeiro tempo. O placar agora brilhava no alto da arena: Ceres 3 - Arcádia 3.
A multidão aplaudia em uníssono, repetindo o mantra como um trovão:
MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!
Os jogadores de Ceres deixaram o campo em fila, ainda com o braço esquerdo erguido no gesto ritual, mas as expressões endurecidas não enganavam ninguém. O empate fora conquistado à força, mas as feridas internas ainda estavam abertas.
No vestiário subterrâneo, a luz fria das lâmpadas não escondia o cheiro metálico de suor e raiva. As portas se fecharam com estrondo.
Dark foi o primeiro a soltar a língua, empurrando Theo com o ombro ao passar:
Dark (venenoso, cuspindo as palavras):
— Esse empate é seu fracasso, líderzinho de merda.
Theo girou, o olhar faiscando. Sem pensar, agarrou Dark pelo colarinho e o empurrou contra o armário, o barulho ecoando pelo vestiário. Cors e Vanks avançaram, prontos para separar os dois — ou para entrar na briga.
Cors (rosnando):
— CHEGA! Vocês vão se matar aqui dentro? É isso? Querem dar o jogo pra Arcádia?!
Vanks (frio, com desprezo para Theo):
— Um líder que perde a cabeça é só mais um moleque jogando.
Theo soltou Dark, mas ficou ali, respirando pesado, o maxilar trincado. Dark, mesmo ainda encostado no armário, sorria com aquela crueldade habitual.
Antes que a situação explodisse de vez, o técnico entrou no vestiário batendo palmas altas, o apito pendurado no pescoço:
Técnico (curto e grosso):
— CALA A BOCA TODO MUNDO! Sentem. Agora.
A equipe se sentou nos bancos, relutante, cada um encarando o chão, os próprios punhos ou o vazio. O técnico começou a falar sobre marcação, táticas, disciplina... mas poucos ouviam de verdade. A raiva ainda fervia sob a pele.
Quando o técnico finalmente saiu para organizar a volta ao campo, Theo ficou em pé diante deles, sozinho. O silêncio era denso. Ele olhou para cada um, os olhos negros cheios de algo difícil de definir — ódio, talvez... mas também ambição.
Theo (voz baixa no início, mas ganhando força):
— Vocês me odeiam. Eu sei. E eu odeio vocês também. Cada um. Porque são arrogantes, mimados, cabeça-quente. São um bando de inúteis que só sabem reclamar.
Alguns se mexeram, inquietos. Dark arqueou uma sobrancelha, curioso.
Theo (continuando, com um meio sorriso amargo):
— Mas sabem o que eu odeio mais? Perder. E vocês também. Então podem me odiar o quanto quiserem, podem me chamar de patético, podem sonhar com o dia em que vão tomar o meu lugar. Mas hoje... hoje vocês vão jogar. E vão ganhar. Porque se perderem... não é só a mim que vão desonrar. É a Mãe.
Gene ergueu os olhos, Cors bufou, e até Vanks pareceu conter um resmungo. Dark olhou para Theo e riu, mas dessa vez não disse nada — apenas se levantou e estendeu a mão para ajustar as fitas do uniforme.
Theo concluiu, duro, encarando-os:
Theo:
— Entendam isso: não precisamos gostar uns dos outros pra vencer. Só precisamos vencer.
O apito ecoou de novo lá fora, chamando os jogadores para o segundo tempo.
Um a um, eles se ergueram e caminharam para a porta. As tensões não sumiram, mas estavam moldadas agora, afiadas como uma lâmina.
Naquele momento, os filhos de Ceres não se suportavam... mas amavam demais a vitória para desistir dela.
O segundo tempo foi um massacre.
A seleção de Ceres voltou para o campo como uma fera solta, um bando de predadores enjaulados que finalmente encontraram a presa.
Cada jogada era mais agressiva que a anterior, os cidadãos nas arquibancadas gritavam o hino da Mãe Ceres sem parar, um mar de braços erguidos em devoção enquanto os adversários de Arcádia desmoronavam, um a um, no gramado.
O placar disparou: 4 a 3. 5 a 3. 6 a 3.
Humilhação completa.
E Dark estava no centro do caos.
Camisa 9, um demônio dourado. Rápido, impiedoso, cruel.
A cada gol, ele olhava para as arquibancadas e abria os braços, bebendo os aplausos como um viciado em dor.
Em um lance duro na lateral, trombou com um dos jogadores de Arcádia, que já mal se aguentava em pé. Dark caiu, mas riu ao se levantar, encarando o rival:
Dark (venenoso, para o rival, alto o bastante para todos ouvirem):
— Vai pra casa, verme... a Mãe não dá esmola pros filhos bastardos.
O jogador de Arcádia se enfureceu. Empurrou Dark com força no peito, quase derrubando-o novamente.
Dark abriu um sorriso, já preparando o soco... mas antes que pudesse reagir, Theo já estava ali.
Braço firme no ombro de Dark, segurando-o no lugar:
Theo (baixo, frio, no ouvido dele):
— Não. Não hoje.
Outros de Ceres se meteram, separando os dois times antes que a situação explodisse de vez.
Dark ficou imóvel por um segundo, o sorriso ainda estampado no rosto.
Mas quando sentiu a mão de Theo em si, virou o rosto, olhando-o com puro veneno:
Dark (áspero, rosnando entre dentes, só pra ele):
— Não encosta em mim. Nunca.
Theo só o encarou, sem soltar, até Dark se acalmar por vontade própria.
O árbitro, pressionado pelo ritual do cidadão de Ceres, não deu punição para nenhum deles.
Quando o jogo recomeçou, o clima continuava pesado.
Theo e Dark voltaram a seus lugares no campo.
Inimigos naturais, cada um odiando tudo o que o outro representava:
— Um era puro fígado — instinto, raiva, veneno.
— O outro era cérebro — cálculo, disciplina, estratégia.
Em comum? Só o ódio.
Ódio um pelo outro. Ódio por Arcádia. Ódio por qualquer um que ousasse manchar o nome da Mãe.
E com isso bastava.
O jogo terminou 6 a 3 para Ceres.
Humilhação absoluta.
O estádio inteiro em transe, gritando em coro, os braços erguidos para o céu:
MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA! MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!
Os jogadores de Ceres saíram do campo sem se olharem, mas com um pacto silencioso:
Não precisavam se amar.
Só precisavam vencer.
E venceram.
A partida já estava ganha, mas eles queriam mais.
Ceres massacrou Arcádia sem piedade, como sempre, como era esperado. Seus filhos não sabiam mais jogar por paixão — jogavam por instinto, por disciplina... por fome.
Mãe Ceres os havia moldado assim.
Troca justa: sentimentos por chumbo, liberdade por obediência.
Eles afundaram felizes nessa troca, incapazes de conceber um mundo sem sua Mãe.
No alto da tribuna, Ela observava.
Mãe Ceres, sempre de branco imaculado.
O vestido longo, a saia tão vasta que ocultava os pés e fazia parecer que flutuava.
As luvas finas, translúcidas, repousavam sobre o parapeito como pétalas de vidro.
No rosto, a coroa de cristal que a circundava completamente, descia até o queixo — e no centro, em vez de um rosto humano, apenas a redoma ovalada, escura e polida como um espelho negro.
Um espelho que devolvia a imagem de quem ousasse olhá-la diretamente.
Quem via a Mãe, via a si mesmo.
E odiava ou amava o que via.
Ela inclinava a cabeça, sempre elegante, sempre silenciosa, apreciando o espetáculo abaixo:
Seus brinquedos favoritos, seus cães mais fiéis, Theo e Dark.
O cérebro e o fígado.
A razão e a violência.
Cada um odiando o outro com uma devoção que só Ela poderia inspirar.
E ainda assim incapazes de parar.
Pedindo mais carne.
Querendo provar do sangue um do outro, mesmo quando devoravam o inimigo.
Para Ela, era divertido.
Porque Ela sabia: todos eles eram só isso.
Brinquedos divertidos.
Soldados moldados para guerra, para dor, para submissão.
Não havia deuses imaginários em Ceres.
Havia apenas Ela.
A Mãe que nunca deixou seus filhos sem resposta, sem alimento, sem propósito.
A liberdade?
Liberdade era a inimiga.
E eles já haviam aprendido que o mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.
Os olhos (ou aquilo que Ela tinha em vez de olhos) seguiram Theo quando ele segurou Dark pelo ombro, no meio da confusão, impedindo-o de socar o adversário.
Viu como Dark odiou aquele toque.
Como Theo odiou ter que fazê-lo.
Como ambos se calaram, porque sabiam que Ela estava olhando.
E o estádio inteiro, cidadãos de Ceres, perfilaram-se e ergueram os braços ao céu, em adoração, cantando o hino que ecoava na estrutura colossal:
MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!
MÃE CERES QUE NOS ALIMENTA, NOS EDUCA E NOS DEVORA!
Ela permaneceu imóvel, refletindo apenas os rostos deformados de desejo e ódio que a olhavam.
E no fundo de sua voz silenciosa, pensou:
Meus filhos. Meus brinquedos. Tão previsíveis. Tão deliciosamente previsíveis.
E abaixo, no campo, Theo e Dark jogavam não por glória.
Jogavam porque Ela não deixava alternativa.
E nada, ninguém, jamais escaparia do colo da Mãe.
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Thoughts
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PermalinkFiquei preso na conta do placar. Três a três no intervalo, seis a três no fim, e pelo jeito o Dark fez quase todos os três sozinho.
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PermalinkBaralhei-me nos números e voltei atrás duas vezes. Ficou-me o 9 a abrir os braços para a bancada a cada golo, a beber aquilo todo.
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PermalinkAquele Dark acaba mal.
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PermalinkObrigado por publicar isto aqui! Li inteiro e o que ficou comigo foi o Daime no alojamento, com o rádio no parapeito e o cigarro apagado, torcendo e xingando ao mesmo tempo. A arena toda de braço levantado e ele cuspindo no chão, rindo sozinho. Tem mais capítulos de Ceres publicados por aqui?
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PermalinkVixe esse hino 😰
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