Li como se fosse uma cidade falando com quem mora nela. Os moradores reclamam, arranham as paredes, e ela ainda acha que está cuidando de todo mundo. Pode ser que eu esteja errado e seja outra coisa.
Liturgia da carne
Pensamento
Li como se fosse uma cidade falando com quem mora nela. Os moradores reclamam, arranham as paredes, e ela ainda acha que está cuidando de todo mundo. Pode ser que eu esteja errado e seja outra coisa.
Conteúdo da publicação
Minhas ingênuas criaturas,
como poderiam pensar que eu as amaria?
Lesmas grudentas e sujas,
sinto pena nos olhares repulsivos de vocês.
Entrem em meu corpo e floresçam.
Remexam em meus órgãos.
Mordam os meus ossos.
Quero chorar por vocês.
Caras crianças,
como eu as desprezo.
Eu poderia nomear cada uma de vocês com as palavras mais bonitas que ainda não ganharam vida,
mas ainda seriam iguais a um pântano.
Seria mais fácil se parassem de gritar por um só segundo.
Não entendem que estou cuidando de vocês?
Mal-agradecidos insolentes,
deem-me o seu sangue para que eu rejuvenesça em prazer.
Escrevam nas paredes declarações de amor ao meu nome.
Cresçam e explorem minha carne.
Quero os seus dedos cravados em meu corpo,
suas línguas em rio sobre minhas mãos.
Arranquem minhas pernas e libertem meu sangue em seus corpos.
Tirem-me o ar e devolvam-me o veneno que é morrer em amor.
Meus demônios, como eu amo vocês.
São clareza em minha boca
e esgoto em si mesmos.
Deixem que eu os farei felizes.
Eu lhes darei motivos para se rastejarem até a luz.
Estarei vigiando cada palpitação dentro de seus corpos,
cada suspiro de esperança percorrendo suas veias.
Agora olhem para mim e aconcheguem-se em meu crânio.
Hoje eu os farei maiores.
Thoughts
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PermalinkVilã que fala assim eu já ia amar e me arrepender depois 😅 os demônios como clareza na boca dela e esgoto neles mesmos, que jeito de dizer que ama.
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PermalinkTodo mundo aqui vai ler como mãe. Eu li como um vício falando com quem alimenta ele: entra no corpo, floresce, cobra sangue e ainda promete luz no fim. Quem jura que cuida e pede sangue em troca sempre tem outro plano, e eu não caio nessa desde a primeira linha.
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PermalinkLendo essa mãe pedindo sangue e chamando todo mundo de mal-agradecido, lembrei de gente que ama assim mesmo, cobrando o tempo inteiro. Assusta porque dá pra reconhecer.
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PermalinkGostei muito de quando ela promete nomes bonitos pra cada um e no verso seguinte os chama de pântano. Carinho e nojo na mesma respiração.
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PermalinkQue voz, meu Deus.
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PermalinkDetalhe: ela não pede o sangue por crueldade, ela diz que é pra rejuvenescer em prazer. Quem lê isso como maldade pura perde a fome que tem ali, e a fome é o que me segurou.
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PermalinkFiquei com a voz na cabeça depois, meio mãe meio bicho. Esse saiu de uma sentada só?
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PermalinkUma mãe que chama os filhos de lesmas, pede o sangue deles e no final promete fazer todos maiores. Eu li isso como o amor que só sabe cuidar devorando, e fiquei pensando que ela acredita em cada palavra, e é isso que assusta. Me fez lembrar os santos das igrejas antigas, todo mundo sangrando e sorrindo. Gostei muito de te ler!
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PermalinkLi como se fosse uma cidade falando com quem mora nela. Os moradores reclamam, arranham as paredes, e ela ainda acha que está cuidando de todo mundo. Pode ser que eu esteja errado e seja outra coisa.
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