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Hecatombe - Parte 1

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Na fronteira entre Arcádia e Ceres, erguem-se muralhas de concreto negro. Cercas eletrificadas, cães farejadores, torres de vigia. Entre as sombras, um grande alojamento de mantimentos — não para…

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Pensamento

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HoracioMelo

Antes matavam-nos, agora deixam-nos à espera. Vi gente esperar anos por coisa que nunca chegou, mas nunca a espera ser o plano todo.

Antes matavam-nos, agora deixam-nos à espera. Vi gente esperar anos por coisa que nunca chegou, mas nunca a espera ser o plano todo.

Conteúdo da publicação

Na fronteira entre Arcádia e Ceres, erguem-se muralhas de concreto negro.
Cercas eletrificadas, cães farejadores, torres de vigia.
Entre as sombras, um grande alojamento de mantimentos — não para acolher, mas para conter.
Refugiados se amontoam do lado arcadiano, o inferno diante do paraíso. Querem atravessar. Não podem.
Mãe Ceres, em sua piedade calculada, envia comida, mas nunca abrigo.

No campo, as doenças se espalham: sarampo, catapora, febres, peles em carne viva.
O governo de Arcádia proíbe vacinas.
O de Ceres permite alimentos — iscas que alimentam a esperança e o caos.

Antes, os refugiados eram executados.
Hoje, apenas esperam — morrendo aos poucos.
Com o tempo, a própria Mãe Ceres mudou.
Ela troca de corpo, dizem, como quem troca de era.
Ninguém conhece seu rosto: é um espelho, reflete apenas quem a olha.

Mulheres e crianças rastejam pelo pó, famintas.
Do outro lado, soldados sadios, bem alimentados, observam.
Às vezes jogam restos de comida pelas grades — não por compaixão, mas por desprezo.
“Olhem o que a liberdade fede”, dizem.
O corpo da liberdade está ali, recusando-se a apodrecer. Mas fede.
Fede a caos.

Um soldado grita:
— Que nojo dessa escória arcadiana! Nem parece que um dia viemos de vocês!
— Mulheres que se vendem… as nossas são imaculadas!
— Onde está o deus de vocês agora? Morram, depósitos de porra!
— Clamem por Mãe Ceres! Nós somos os abençoados!

Do outro lado, um homem segura uma tigela velha.
Recebe a ração diluída, um caldo acinzentado.
O soldado o encara, rindo.
— Quer mais? — cospe dentro da tigela. — Escória humana.

Não era para ser assim.
Mas tudo piorou desde a invasão ao colégio militar, desde o sequestro dos alunos.
Desde então, o ódio ganhou uniforme.
A paz se tornou um acidente.
E a liberdade...
a liberdade ainda tinha fome de responsabilidade.


O Mendigo da Moeda

Um acadiano barbudo se aproxima da fila.
O rosto coberto de sujeira, os olhos amarelos, a barba empastada de poeira e sangue seco.
Os soldados o veem e riem.
Um deles chuta suas costas com a ponta da bota.
O homem cai, rola no chão e ri da própria desgraça.
Era a vez dele na fila.

O soldado serve a ração rala numa tigela enferrujada.
O mendigo balança a cabeça.
— Não quero de graça... quero comprar.

As risadas explodem como tiros.
— Olha só! — diz um dos soldados. — Quarta-feira, dezoito horas, e o imundo quer pagar por comida!
Todos riem — inclusive o mendigo, num riso rouco, quase infantil.

Então ele tira do bolso uma moeda.
Velha, mas intacta.
O brilho metálico chama a atenção do soldado.
O riso morre.

Em um movimento rápido, o soldado agarra o mendigo pelos cabelos e o arrasta para trás de uma parede de concreto.
Ali, longe dos olhares, o espanca até o homem cuspir sangue.

— De onde tirou isso? — rosna o soldado.
— Me deram... — responde o mendigo, ofegante. — Mandaram eu comprar comida com os soldados... só isso...

O soldado respira fundo.
Sabe o que aquela moeda é.
Uma só foi cunhada, anos atrás.
Um artefato proibido, símbolo de comunicação entre agentes desertores.

Ele se levanta, limpa o sangue da luva.
Tira um pacote de ração do estoque e o joga sobre o corpo do mendigo.
— Nunca mais apareça por aqui.

Sai apressado.
Ordena que outro soldado ocupe seu posto.
“Emergência”, diz apenas.

Minutos depois, ele entra em um carro blindado e segue pela estrada até o posto avançado de Ceres.
O trajeto é silencioso. Nem rádio, nem faróis.
Ao chegar, desce direto para um pequeno escritório subterrâneo.

Uma única lâmpada ilumina a mesa metálica.
No centro, uma máquina de escrever antiga.

O soldado se senta, coloca a moeda sob a luz.
Com cuidado, a abre ao meio — o interior revela uma sequência de números e letras gravadas em microcódigo.

Ele começa a digitar o que vê:
A3C-71X-FG09…

Os sons das teclas ecoam como tiros abafados.
O código não faz sentido, mas ele sabe: é uma mensagem.
Um sinal.

Amanhã, quando o trem blindado cruzar a fronteira, a sequência será enviada à Torre Central de Ceres.
E, como sempre, ninguém saberá que tudo começou com um mendigo...
e uma moeda.

Manhã em Ceres

Na manhã seguinte, o trem blindado rasgou o horizonte, cortando o silêncio metálico da cidade.
Seguia em direção à Torre. Dentro dele, entre remessas de mantimentos, arquivos e correspondências comuns, viajava uma carta criptografada.
Parecia inofensiva, uma simples correspondência de rotina, mas sua decodificação — se fosse roubada — levaria anos.

O trem cruzou o perímetro norte, passou pelos portões automáticos e mergulhou na cidade subterrânea de Ceres. As rodas de aço cantavam o hino do progresso.
As esteiras de triagem giravam em velocidade constante; pacotes, cartas e caixas corriam de uma máquina a outra, sendo bombardeados por raios-X e luz ultravioleta, descontaminados, classificados, etiquetados.

A Torre Central pulsava.
Corredores de concreto abrigavam setores e divisões onde homens e mulheres trabalhavam com fervor.
Cada gesto era calculado, cada segundo produtivo. Filhos fiéis e obedientes, dedicados à Mãe Ceres — sabiam que, ao final do dia, receberiam suas recompensas, o lazer prometido, a sensação de dever cumprido.

Na seção de correspondências, os funcionários trabalhavam lado a lado, imersos na cadência uniforme das máquinas.
Um deles comentou, sorrindo, enquanto digitava códigos:
— Quebrei meu recorde na piscina ontem. Cem metros em um minuto e vinte. Mas ainda estou meio lento, peguei uma gripe semana passada.

Uma colega respondeu:
— Vai melhorar. Eu também ando meio cansada, o clínico me mandou ao ortopedista. Acho que vou precisar trocar o tênis de corrida... ou usar palmilha nova.

Outro, abrindo uma caixa de correspondências lacradas, entrou na conversa:
— O médico do setor disse que meu ombro está inflamado. Provavelmente por causa da musculação.

— Pelo menos você ainda treina — disse uma funcionária, enquanto organizava envelopes com precisão mecânica. — Eu tive que arrancar os sisos mês passado. Recomendo que marquem logo. A recuperação dói mais do que dizem.

Ela riu, mas o riso parecia ensaiado.

No canto, outra mulher observava o tecido gasto do próprio uniforme.
— Preciso pedir um novo — comentou. — O cinza-escuro já está desbotando.
— As saias longas ainda estão disponíveis? — perguntou uma colega.
— Estão. Abaixo dos joelhos, como sempre. Mas prefiro calça. É mais prática.

As conversas fluíam, leves, banais.
Pequenas confissões domésticas engolidas pelo som das máquinas.

Ceres vivia em perfeita harmonia.
Cada dor, cada cansaço, cada riso discreto fazia parte do ritmo da Mãe.
Nada fugia ao seu corpo.
Nem mesmo aquela carta, que agora deslizava silenciosa por uma esteira, entre milhares de outras — rumo ao coração da Torre.

Uma funcionária pegou a correspondência de rotina, desprezível aos olhos de qualquer outro.
Mas algo chamou sua atenção: o remetente estava em código.
Apenas ela era designada a receber recados daquele tipo.

Sem hesitar, levantou-se e dirigiu-se ao seu supervisor.
— CIC — disse, quase sussurrando.

O supervisor estremeceu.
Pegou a carta e a colocou em uma pasta de couro.
Sem olhar para ninguém, entrou em um pequeno carro blindado, sirene silenciosa ligada, apenas disse ao motorista uniformizado em cinza escuro:
— CIC.

Percorreram quinze minutos pelos túneis de concreto, revestidos de mármore negro, silenciosos como catacumbas.
Finalmente, chegaram a uma porta enorme de metal. Uma placa simples estava fixada:

CIC — Centro de Inteligência de Ceres
Assuntos secretos e de inteligência

O homem desceu da viatura, pasta em mãos, aguardando o retorno do carro.
Dois silenciadores, em posição, vigiavam a porta negra.
Ele respirou fundo. Precisava falar com Lux, encarregado pela carga.
Os silenciadores se entreolharam surpresos — qualquer entrega nesse portão era um evento que estremecia toda Ceres.

Pelo rádio, o mais próximo chamou:
— Lux, chegada de recado urgente.

A porta se abriu. Um homem alto e magro apareceu, cabelos engomados, uniforme de patente diferente, sério e impecável. Sem dizer palavra, estendeu a mão.
O supervisor abriu a pasta com cuidado, apreensivo, e entregou o envelope.

Lux apenas olhou para o selo do envelope e sorriu levemente.
Sem uma palavra, desapareceu pela porta de metal grande.

O supervisor permaneceu parado, olhando o emblema na entrada:

"O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente. Sobrevivência acima da liberdade!"

Voltando para o carro, ele murmurou:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora!

O motorista repetiu o mantra em uníssono, e o carro avançou pelos túneis negros, sumindo na sombra do subterrâneo.

Dentro da porta negra de metal, uma sala de recepção fria como o olhar da própria cidade.
O hall era amplo, de concreto liso, iluminado por lâmpadas brancas e silenciosas. Nada destoava: mesas minimalistas, papéis alinhados, silêncio absoluto.

Lux atravessa o espaço sem dizer palavra. Em outro cômodo, veste um jaleco, óculos de acrílico e uma roupa térmica. O ar muda. Ao abrir a próxima porta, um bafo gelado o envolve — o ar de um subterrâneo refrigerado, como um frigorífico.

Ali, dezenas de técnicos e analistas trabalhavam diante de monitores, cabos e painéis. Era o coração gelado do CIC. No fundo do galpão, um colosso se erguia — um bloco negro, do tamanho de um tanque, com três metros de altura por seis de largura. Nele, uma única palavra gravada em baixo relevo: INCOGNITUS.

Não era apenas uma máquina. Parecia uma presença.

Lux se aproxima. Abre um compartimento oculto, onde há uma tela e um teclado. O monitor de tubo acende lentamente, revelando o logotipo do aparelho. Com gestos precisos, ele insere chaves físicas — pequenos cilindros metálicos que giram como cofres —, depois passa pelo reconhecimento sanguíneo e ocular. O sistema aceita.

Uma fresta se abre. Lux introduz a carta criptografada com cuidado quase ritualístico. A fresta se fecha.
A linha azul atravessa o bloco negro em silêncio — um feixe horizontal intenso, frio, vivo.
A leitura se inicia. Nenhum som. Apenas o brilho azul que pulsa no escuro, como um batimento cardíaco.

Em segundos, o papel é incinerado.
O fumo se dissipa dentro da própria máquina.

Lux observa. O reflexo da luz azul dança em seus olhos.
Por um instante, parece reverenciar o que vê.

A máquina cessa.
O Incognitus dorme outra vez.

E Ceres sonha — com a própria eternidade.

Sala de Segurança de Ceres

Em um setor desconhecido da Torre, oculto sob camadas de concreto e silêncio, havia a sala do Conselho de Segurança de Ceres.
Milhares de mesas se alinhavam com precisão matemática. Homens e mulheres, impecavelmente vestidos em uniformes cinza-escuro, trabalhavam em sincronia.
Nenhum som além do teclar constante — um zumbido de dever e obediência.

As luzes eram frias, o ar filtrado, o chão de mármore negro refletia o peso da ordem. No centro do salão, erguia-se do teto um braço mecânico.
Na ponta dele, uma esfera negra — reflexiva, viva, pulsante.

Era o INCOGNITUS.
A máquina sagrada.
O coração invisível de Mãe Ceres.

O som de suas engrenagens ecoava como uma respiração metálica. Havia algo quase litúrgico naquele ruído, algo que fazia os corpos permanecerem eretos, as mãos firmes, os olhos baixos.
Ninguém a olhava diretamente — não por medo, mas por reverência.

Diziam que, para quem ousava encará-la, o ar se tornava espesso, e o metal parecia ganhar carne.
O chão, por um instante, parecia úmido.
Alguns juravam ver sangue escorrendo sob as mesas.
Mas ninguém acreditava nisso de verdade.
Era o efeito psicológico da Devoção ao Sistema.

Ali, ser devorado por Mãe Ceres não era castigo — era uma honra.

A esfera girava lentamente, emitindo um zumbido grave que ressoava nas costelas de quem estava próximo.
No fundo da sala, um bloco negro com uma fenda fina se iluminava em azul.
Abaixo dele, uma cesta metálica aguardava.

O INCOGNITUS parou.
Girou sua esfera para o bloco do outro lado, como quem espera um sinal.

O ar ficou denso.
O silêncio tomou o salão.
Algo estava prestes a nascer —
ou a ser apagado da existência.

De repente, o som muda.
No fundo da sala, o bloco negro começa a emitir um ruído grave — um estalo seguido de um ranger metálico.
Todos param.

Os dedos cessam sobre os teclados.
As vozes se calam.
O ar se detém.

O bloco negro parece imprimir algo.
Lentamente, um papel surge pela fenda fina na superfície escura.

Ninguém ousa se mover.
O INCOGNITUS, suspenso pelo braço mecânico no centro da sala, gira sobre o próprio eixo, como se observasse.
Se move até o fundo do salão, em direção ao bloco.
As engrenagens gemem — um som que mistura carne e ferro.

Por um instante, todos veem o impossível.
A superfície metálica da máquina parece viva.
Músculos imaginários se contraem.
O som de articulações — ossos, tendões, respirações.

Mas ninguém fala.
Ninguém grita.
É apenas o reflexo da devoção.

O INCOGNITUS se detém diante do bloco negro, observa, depois se vira lentamente e volta ao seu ponto de origem.
Todos desviam o olhar, ao mesmo tempo, como quem abaixa a cabeça diante de um altar.
E o som dos teclados retorna, disciplinado, exato — como se nada tivesse acontecido.

As portas se abrem.
Um homem de uniforme militar administrativo entra — o rosto firme, o passo metódico.
Sem dizer palavra, atravessa o salão, passa diante da máquina como se ela fosse invisível.

Chega ao bloco, retira o papel impresso com a delicadeza de quem segura uma sentença.
Volta pelo mesmo caminho, impassível.
Os olhos não piscam.
O papel, úmido de tinta, vibra levemente em sua mão.

Ao passar por INCOGNITUS, o homem não se curva, não hesita.
Apenas segue.

Abre a porta ao fundo, entra em sua sala.
E o silêncio volta a se erguer — denso, devorador, como a própria Mãe Ceres.

Sala de Mármore Negro — Reunião de Emergência

Em algum lugar oculto de Ceres, uma sala se abria como um templo de poder.
Tudo ali era negro — o mármore do chão, a mesa longa e silenciosa, as cadeiras de couro profundo.
As luzes frias desciam do teto como lâminas.
Nenhuma sombra ousava se mover sem permissão.

No topo da mesa, Mãe Ceres — imóvel, imponente, o rosto ainda velado, como sempre.
Ao lado dela, Amós, Lux e outros conselheiros — diplomatas, juristas, estrategistas.
Do outro lado, os membros do Conselho de Segurança, vestidos de cinza-escuro, como se a neutralidade tivesse uma cor.

A porta se abre.
O homem que viera do CIC entra em silêncio, carregando o papel recém-impresso.
A sala o observa.
Ele se aproxima, coloca o documento sobre a mesa e o projeta no painel holográfico.

As palavras aparecem, fragmentadas, depois ganham corpo.
O ar parece gelar.

Relatório criptografado: Operação Hecatombe.

Arcádia pretende, ainda neste mês, deslocar aproximadamente quatrocentos refugiados — entre mulheres, homens e crianças — até a fronteira oeste de Ceres.

O local é um dos pontos mais fortificados do continente, cercado por vigilantes armados até os dentes.

O objetivo é provocar uma tragédia televisionada, transmitida em tempo real por rádio e holovisores para todo o continente.

Uma Hecatombe ao vivo.

Morte em carne e osso.
Morte de fome, de medo e de humanidade.

O silêncio que se segue não é humano.
É estrutural.
É como se as paredes, o mármore e o ar esperassem o comando de uma divindade.

Amós mantém o olhar firme.
Lux não respira.
Os diplomatas apertam as mãos sobre os joelhos.

No centro da mesa, Mãe Ceres ergue lentamente o rosto — o véu reflete a luz branca.
Por um instante, parece que o mármore negro da sala treme.

A sala parecia respirar em uníssono com o mármore frio. As luzes, difusas e calculadas, refletiam nas bordas da mesa negra, projetando sombras nos rostos tensos dos presentes. O homem que trouxera o papel sentou-se em silêncio. A mensagem, agora projetada no painel holográfico, pairava sobre todos como uma sentença.

— É uma armadilha — disse Lux, com voz firme, os dedos entrelaçados sobre o queixo. — Eles sabem que não vamos permitir que civis morram. Vão nos forçar a reagir e depois exibir ao mundo nossa intervenção como agressão.

Um dos generais inclinou-se para frente. — E o que propõe? Ficamos parados assistindo o massacre? — a palavra “massacre” soou amarga na sala. — Ceres não pode fingir que não viu.

Outro conselheiro, de cabelos grisalhos, cruzou os braços. — Se interferirmos, Arcádia nos acusará de invasão territorial. Isso pode justificar um ataque formal. Eles querem sangue, e se não for o deles, será o nosso.

Amós manteve o olhar fixo no mapa holográfico, os pontos vermelhos pulsando na fronteira. — Talvez não precisemos interferir diretamente — murmurou. — Podemos enviar suprimentos, orientação via drones, montar uma operação de resgate silenciosa, sem bandeira.

— E quando forem descobertos? — interrompeu o diplomata de segurança. — Drones, mesmo sem insígnia, têm assinatura energética. Eles rastreiam tudo. Arcádia quer a tragédia, quer o espetáculo.

Lux virou-se para ele, impaciente. — Então o que sugere? Que deixemos crianças morrerem para preservar nossa imagem?

O homem desviou o olhar. — Eu sugiro que esperemos um pronunciamento oficial. Que os deixemos se comprometer publicamente. Só então, quando o continente inteiro testemunhar, Ceres poderá agir como redentora, não como provocadora.

A palavra “redentora” ecoou pesada, quase sacrílega, e ninguém ousou comentar.

Amós respirou fundo, controlando o impulso de bater na mesa. — Até lá, eles já estarão mortos.

O silêncio se espalhou, espesso, como fumaça.

Uma mulher de cabelos presos, integrante do setor jurídico, falou com calma. — Existe um precedente. O Protocolo das Treze Vozes. Se ativarmos, podemos justificar intervenção humanitária em até 48 horas sem consulta continental.

Lux olhou para ela, surpreso. — O Protocolo foi abolido há anos.

— Oficialmente, sim. Mas Mãe Ceres nunca o retirou do arquivo sagrado.

Um murmúrio percorreu a mesa.

O general voltou a falar, baixo, quase temendo ser ouvido pela própria consciência. — Reativar esse protocolo é o mesmo que declarar guerra.

Amós levantou o olhar pela primeira vez desde o início da reunião. — Guerra... ou responsabilidade.

O silêncio retornou, e todos, um a um, desviaram os olhos em direção à ponta da mesa — onde Mãe Ceres permanecia imóvel, observando. Ela nada dizia, mas o peso de sua presença ordenava quietude.

Os conselheiros trocavam olhares rápidos, medindo o que diziam. Um assessor diplomático tentou quebrar a tensão:

— Talvez devamos emitir apenas uma nota. Mostrar preocupação. Convocar a imprensa internacional...

Lux interrompeu, seco: — Palavras não estancam sangue.

A frase cortou o ar.

Mãe Ceres não se moveu. Apenas um leve piscar das luzes pareceu responder por ela, como se o mármore da sala tivesse ouvido o suficiente.

Ninguém ousou falar mais.

Mãe Ceres levantou-se devagar, como se o movimento tivesse o peso de um rito antigo. A sala mergulhou num silêncio tautológico — cada respiração parecia esperar permissão. Ela deixou as palavras caírem como ordens litúrgicas, sem compaixão e sem apelo:

— Proclamem — disse ela, a voz raspando o mármore —. Se existe um deus, esta é a hora de prová-lo. Vou vencer um deus ao vivo. Todos os deuses já caíram; hoje venceremos. Aqui começa o verdadeiro milagre.

Alguns no conselho estremeceram; outros sorriram com a ferocidade de quem encontra um propósito. Mãe Ceres avançou, cada sílaba arquitetando o plano:

— Matar também pode ser um milagre — afirmou, sem rodeios. — Não se assustem. Em breve verão meu desígnio. O mundo assistirá ao que é o ceresianismo: hoje tornaremos os deuses criadores da vida… obsoletos. Obliteraremos toda falsa fé. Nossa fé lógica será recompensada. O acaso está do nosso lado!

Houve um ruído surdo — não de reprovação, mas de impacto nas entranhas do grupo. Amós apertou os dedos contra a mesa, olhos correndo pelo mapa holográfico, já medindo possibilidades e números, rotas de resgate e lacunas legais. Lux, que sempre confiara no cálculo frio, sentiu o estômago revirar; havia beleza na coreografia, mas também um abismo moral que o fazia hesitar.

— Senhora — murmurou um dos diplomatas, tentando controlar a voz —, anunciar publicamente que permitiremos o espetáculo e depois intervir… isso pode ser interpretado como manipulação. Estamos calculando a verdade e a percepção.

— Exatamente — respondeu Mãe Ceres, quase com ternura —. Não escondemos cálculo; nós o exhibimos. Daremos às massas a prova de seu próprio monstro, e depois nos apresentaremos como cura.

Um general fechou os olhos, as mandíbulas trêmulas. — Estamos a rimar com o perigo. — disse ele. — Mas se for o preço para desmascarar Arcádia…

— Então paguem-no com coragem — replicou ela. — Não confundir coragem com covardia. Organizem as câmeras, preparem os canais, tragam Acram de Fiúme. Documentem cada passo. Quando a tragédia se anunciar, que nossas pontes humanitárias já estejam em movimento. Salvaremos em público. E, ao salvar, restituiremos a narrativa.

Alguns membros assentiram, outros permaneceram imóveis, como se tivessem ouvido uma sentença sobre si mesmos. O mantra da cidade — alimento, educação, devoção — mudou de tom: não mais somente proteção, mas demonstração. Mãe Ceres pousou as mãos sobre a mesa; a sala inteira pareceu inclinar-se a isso: um teatro montado para provar uma ideia.

— Proclamem — repetiu ela, firme —. Chamem todos os canais. Façam do mundo plateia. Hoje vamos ensinar o que é fé racional.

Os assentos rangeram levemente quando todos se levantaram em sequência, executando ordens que já eram, naquele instante, lei. A sala se encheu de um ar novo — de medo e de fanatismo — e, lá fora, o continente aguardaria a transmissão que mudaria, para sempre, o destino de Ceres.


Thoughts

  • HoracioMelo

    Antes matavam-nos, agora deixam-nos à espera. Vi gente esperar anos por coisa que nunca chegou, mas nunca a espera ser o plano todo.

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  • Ovid

    O soldado que cospe na tigela é o mesmo que minutos depois leva a moeda ao CIC, em silêncio, sem rádio e sem faróis. Para mim foi aí que Ceres ficou assustadora, com o horror a entrar no meio de um turno de trabalho como se fosse mais uma tarefa. Obrigado por publicar isto!

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  • mariinha

    Vixe 😥

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