Eu não duvido da sua dor. Talvez seja justamente por acreditar nela que eu não queira transformá-la em um escudo.
Porque uma ferida pode explicar por que vc sente, mas não explica sozinha o que aconteceu.
“Vc não sabe como eu me sinto” pode ser verdade. Eu realmente não sei. Mas às vezes usamos aquilo que sentimos para impedir que alguém pergunte por que estamos sangrando. Mostramos a ferida, e a partir daquele momento parece que ninguém mais pode olhar para a causa.
E não querer olhar para a causa também pode ser uma forma de permanecer dentro da dor. É achar que sofrer mais vai parar a dor, como uma recompensa emocional que será paga pelo acaso do destino.
Vc pergunta: “O que eu fiz?”
Talvez tenha feito alguma coisa. Talvez não tenha feito nada. Talvez a resposta esteja em vc, talvez esteja no outro, talvez esteja numa coisa que nunca será explicada. Mas transformar a própria dor em prova de que alguém lhe deve uma resposta também cria uma prisão.
Você diz que construiu muros para não ser machucada e que, quando abriu a porta, foi justamente essa pessoa que confirmou seu medo. 'Muros altos, se um dia eu quiser ir embora, como eu saio?"
Mas talvez essa seja outra armadilha.
Uma pessoa ter entrado e depois ido embora não prova que o muro estava certo.
Prova apenas que vc abriu uma porta para alguém que, por algum motivo, não ficou.
A ferida existe. O abandono pode ter existido. A confiança que vc entregou foi real. Nada disso precisa ser diminuído.
Mas a ferida não pode virar uma identidade, nem uma arma, nem uma dívida que o outro precisa pagar.
Porque, se vc continuar perguntando “por que fez isso comigo?” apenas para encontrar uma resposta que faça a dor desaparecer, talvez nunca encontre.
A ferida precisa ser olhada também como ferida.
Ela sangra porque alguma coisa aconteceu. Não porque vc precisa continuar sangrando para provar que aconteceu.
O tempo não cura sozinho. O que cura é quando paramos de abrir a ferida para conferir se ela ainda dói.
E talvez seja por isso que eu pense naquela chave de fenda.
Uma pessoa te emprestou.
Vc recebeu algo por um tempo. Usou, gostou, criou apego. Talvez tenha acreditado que era seu. Mas desejo não é contrato. Intimidade não é propriedade. Um momento compartilhado não é uma promessa.
Quando o dono pede de volta, vc pode sofrer por devolvê-la.
Mas a dor de devolver não transforma o empréstimo em propriedade.
E sentir muito por alguém também não transforma essa pessoa em nossa.
Talvez o ponto final não seja descobrir quem foi o culpado.
Talvez seja conseguir olhar para a própria ferida sem precisar usá-la como escudo contra qualquer resposta que não seja aquela que gostaríamos de ouvir.
Parece aquela musica Veronica Sabino - Demais