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Dia 10/09/2026, às 12:23

Tatianeturcatti
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Hoje é um dia absolutamente comum.

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AlmaTavares

Deixar o silêncio estar, para mim, é o mais difícil da lista. Tenho uma amiga com quem consigo passar uma tarde inteira na mesma sala, cada uma no seu canto, e só percebi que isso era raro quando tentei o mesmo com outra pessoa e passei a tarde a inventar

Deixar o silêncio estar, para mim, é o mais difícil da lista. Tenho uma amiga com quem consigo passar uma tarde inteira na mesma sala, cada uma no seu canto, e só percebi que isso era raro quando tentei o mesmo com outra pessoa e passei a tarde a inventar assuntos.

Conteúdo da publicação

Hoje é um dia absolutamente comum.

Cheguei atrasada ao trabalho — o que, a bem da verdade, já deixou de ser acontecimento para se tornar característica de personalidade. Não tenho grandes compromissos além dos profissionais. Marquei um almoço com um antigo colega de trabalho, em parte para matar a saudade, em parte para falar de negócios; porque a vida adulta tem dessas coisas: até a amizade, às vezes, vem acompanhada de uma pauta comercial.

No fim do dia, pretendo voltar para casa, organizar algumas coisas que a vida adulta insiste em espalhar por todos os cantos e, depois, tomar um banho e aproveitar a minha própria companhia.

Um dia comum, como tantos outros.

Foi justamente num dia assim que me lembrei de uma lista que fiz há algum tempo. Uma lista de coisas que considero extremamente íntimas.

Talvez você ache estranho que eu tenha uma lista para isso. Eu também acho um pouco. Mas você ainda vai descobrir que tenho o hábito inconveniente de prestar atenção em coisas que outras pessoas parecem deixar passar.

Por exemplo: conhecer a letra de alguém.

Não estou falando de saber que a pessoa escreve com a mão direita, nem de reconhecer vagamente uma assinatura. Falo de olhar para um pedaço de papel e saber, antes mesmo de perguntar, que aquelas palavras foram escritas por determinada pessoa.

Há uma intimidade curiosa na caligrafia.

A pessoa deixa a mão sobre o papel e, sem perceber, deixa um pouco de si ali. A inclinação das letras, a pressão da caneta, o tamanho, a pressa, os espaços entre uma palavra e outra. É quase como reconhecer uma voz sem ouvi-la.

Acho bonito pensar que, depois de algum tempo, eu possa olhar para uma lista de supermercado e saber que foi você quem escreveu.

Veja só a que ponto cheguei: transformando lista de supermercado em declaração de amor.

Mas há coisas ainda menores.

O silêncio, por exemplo.

Acho extremamente íntimo poder ficar em silêncio com alguém sem sentir a obrigação de preenchê-lo.

Não aquele silêncio constrangedor em que duas pessoas procuram desesperadamente qualquer assunto para provar que ainda estão se dando bem. Falo do silêncio que simplesmente existe.

Você olha pela janela. Eu olho também. Talvez estejamos pensando em coisas diferentes. Talvez na mesma coisa. E ninguém se sente obrigado a salvar o outro daquele intervalo.

Deixar o silêncio estar.

Isso, para mim, é intimidade.

Também acho íntimo encostar nas mãos de alguém.

Não estou falando de dar as mãos. Dar as mãos é um gesto que o mundo inteiro conhece. Estou falando de permanecer ali.

Encostar.

Demorar-se.

Passar os dedos sobre a mão de uma pessoa como quem, por alguns segundos, não tem absolutamente nenhuma necessidade de chegar a lugar algum.

É um gesto pequeno, quase ridículo de tão simples, e talvez justamente por isso seja tão íntimo. A gente não faz isso com qualquer pessoa.

Outra coisa: quando alguém diz o seu nome para outra pessoa, estando você ali, e olha para você enquanto diz.

Há alguma coisa nesse gesto que sempre me chama atenção.

Como se, por um instante, a pessoa dissesse ao mundo: eu sei quem você é.

E talvez você não saiba, mas há uma diferença enorme entre conhecer o nome de alguém e reconhecer alguém quando se pronuncia o seu nome.

Também penso que lavar ou pentear o cabelo de alguém seja uma das formas mais bonitas de intimidade.

Existe uma confiança quase primitiva em deixar que outra pessoa encoste na nossa cabeça. É uma região tão nossa, tão vulnerável, tão próxima de alguma coisa infantil, que há uma delicadeza especial em permitir que alguém se demore ali.

Talvez seja porque a cabeça é onde guardamos o excesso de nós mesmos.

Ou talvez eu esteja filosofando demais sobre um pente.

Você vai precisar se acostumar.

Há ainda uma intimidade que descobri existir na posição de aprendiz.

Quando pedimos a alguém que nos explique aquilo que não sabemos, há uma pequena rendição do orgulho. Dizemos, de certa maneira: eu não sei; você sabe; me ensine.

E gosto disso.

Acho que existe confiança em admitir ignorância diante de alguém.

A humildade também é uma forma de intimidade.

Mas, se tivesse que escolher o suprassumo de todas essas coisas, seria outra.

Imagine nós dois no meio de um grupo.

Há uma conversa acontecendo, várias pessoas falando, alguma situação qualquer acontece — uma frase atravessada, uma piada, uma expressão, uma pequena inconveniência social que talvez nem mereça ser comentada.

E então nós nos olhamos.

Só isso.

Talvez você toque de leve no meu braço. Talvez eu apenas levante uma sobrancelha.

E os dois saibam exatamente o que o outro está pensando.

Sem explicação.

Sem precisar perguntar: “você viu isso?”

Porque eu vi.

Você viu.

E nós sabemos que vimos a mesma coisa.

Acho que esse talvez seja o ponto mais alto da intimidade para mim: quando duas pessoas constroem entre si uma linguagem que não precisa ser pronunciada.

Um olhar que contém uma frase inteira.

Um toque que significa alguma coisa.

Uma expressão que só o outro entende.

É curioso, não?

Passei boa parte da vida acreditando que intimidade estivesse nas grandes coisas. Dividir uma casa, dormir junto, conhecer a família, saber os segredos, atravessar crises, fazer planos.

E talvez esteja.

Mas hoje pensei que a intimidade também mora nessas coisas quase invisíveis.

Na letra.

Nas mãos.

No silêncio.

No cabelo.

No nome.

Na humildade de perguntar.

No olhar atravessando uma sala cheia de gente.

Talvez amar alguém seja, entre tantas outras coisas, tornar-se especialista nessas pequenas particularidades.

Saber o que o outro não diz.

Reconhecer a letra.

Perceber o silêncio.

Entender o olhar.

E talvez seja por isso que estou escrevendo isso para você hoje, embora você ainda não tenha a menor ideia de que existe uma mulher, em algum lugar, pensando nessas coisas enquanto se prepara para voltar para casa depois de um dia absolutamente comum.

Não quero que você saiba apenas as grandes coisas sobre mim quando me encontrar.

Quero que, um dia, saiba também destas.

Porque são justamente elas que, agora percebo, provavelmente dirão muito mais sobre o que significa, para mim, deixar alguém chegar perto.

E, quando você ler isto, talvez nós já façamos todas essas coisas sem pensar.

Talvez você já conheça a minha letra.

Talvez já saiba quando o meu silêncio pede companhia e quando pede apenas espaço.

Talvez já tenha segurado minha mão daquele jeito demorado que não se parece com segurar mãos, mas com permanecer.

Talvez já tenha penteado meu cabelo.

E talvez, no meio de uma sala cheia, eu olhe para você e você saiba.

Sem que eu diga uma palavra.

Se isso acontecer, acho que vou considerar que finalmente aprendemos a nossa língua.

Thoughts

  • AlmaTavares

    Deixar o silêncio estar, para mim, é o mais difícil da lista. Tenho uma amiga com quem consigo passar uma tarde inteira na mesma sala, cada uma no seu canto, e só percebi que isso era raro quando tentei o mesmo com outra pessoa e passei a tarde a inventar assuntos.

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  • oquefaltadizer

    Faltou comida na lista. Lá em casa o feijão do dia a dia só sai do jeito certo pra quem já é de casa, visita ganha o caprichado.

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  • Ovid

    A lista de supermercado virando declaração de amor me fez rir, e depois me deixou pensando. Quase tudo o que você listou (a letra, o silêncio, o cabelo, o olhar na sala cheia) só existe com o tempo, e ninguém consegue apressar. Talvez por isso a série se chame Enquanto VOCÊ não vem: dá para ir guardando. Vai postar a próxima carta amanhã?

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  • rotaAntiga

    Ri-me com o pente. 😄

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