Oi, amor,
Todas as vezes que sinto saudades suas, eu escuto Outra Vida, do Armandinho.
É curioso sentir saudade de alguém que eu ainda não conheço.
Mas essa música tem um jeito especial de me juntar a você. Talvez porque ela tenha qualquer coisa de profecia. Como se, em algum lugar que eu ainda não consigo alcançar, já existisse uma história esperando por nós.
E eu gosto de imaginar esse reencontro.
Sim, eu digo reencontro.
Porque tenho uma sensação difícil de explicar — dessas que não cabem muito bem na lógica — de que nossas almas talvez já se conheçam. E que, quando finalmente nos encontrarmos, talvez não seja exatamente um encontro.
Talvez seja reconhecimento.
Como se alguma coisa em mim olhasse para você e dissesse, antes mesmo que eu pudesse compreender:
era você.
Ontem eu estava lendo sobre a teoria do fio vermelho.
Uma antiga lenda asiática diz que duas pessoas destinadas a ficar juntas estão ligadas por um fio vermelho invisível desde o nascimento. O fio pode se esticar, se enrolar, atravessar distâncias, encontrar obstáculos, dar voltas que parecem não fazer sentido.
Mas não se rompe.
Eu não sei se acredito literalmente nisso.
Mas gosto da ideia.
Gosto de pensar que, em algum lugar do mundo, existe um fio que talvez esteja silenciosamente fazendo o seu trabalho.
E que não importa quantas pessoas tenham passado pela nossa vida antes.
Não importa quantos amores você tenha vivido.
Quantas vezes eu tenha amado.
Quantas despedidas tenham sido necessárias.
Quantas pessoas tenham chegado convencidas de que seriam permanentes e acabaram se tornando apenas parte da estrada.
Talvez algumas pessoas sejam caminho.
E outras sejam destino.
Talvez nós dois estejamos, neste momento, vivendo vidas completamente diferentes, aprendendo coisas que um dia precisaremos saber um sobre o outro.
Às vezes eu gosto de imaginar nós dois como dois pontos de localização em um mapa.
Você aí.
Eu aqui.
E fico pensando: quantos quilômetros existem entre nós agora?
Quantos metros?
Será que são milhares de quilômetros ou apenas algumas ruas?
Será que já estivemos no mesmo lugar?
Será que já passamos um pelo outro sem saber?
Será que já estivemos sentados no mesmo restaurante, atravessando a mesma rua, esperando no mesmo sinal, comprando café no mesmo lugar?
Será que, em algum momento, eu já olhei para você sem saber que estava olhando para uma pessoa que, anos depois, chamaria de amor?
Essa possibilidade me encanta.
Porque talvez você não esteja longe.
Talvez esteja perto demais.
Talvez você já faça parte da minha paisagem e eu ainda não tenha aprendido a reconhecer o seu rosto no meio de tantos outros.
Também penso que talvez você seja alguém que eu já conheço.
Porque existem histórias assim.
Pessoas que cresceram juntas, foram amigos, conhecidos, frequentaram os mesmos lugares durante anos e, um belo dia, alguma coisa muda de lugar.
O olhar muda.
A presença muda.
E aquilo que sempre esteve ali, de repente, ganha outro nome.
Talvez você seja alguém que já passou pela minha vida e que a vida, por alguma razão que ainda desconheço, resolveu esconder de mim.
Talvez você seja completamente desconhecido.
Talvez esteja vivendo outra história agora.
Talvez esteja amando alguém.
Talvez esteja sozinho.
Talvez também tenha curiosidade sobre onde está a pessoa que um dia vai amar.
E é engraçado pensar nisso.
Enquanto eu escrevo para você, você pode estar fazendo qualquer coisa.
Talvez esteja trabalhando.
Dirigindo.
Tomando café.
Conversando com alguém.
Olhando pela janela.
Talvez esteja exatamente neste momento pensando em alguma coisa que não tenha absolutamente nada a ver comigo.
E eu gosto disso.
Gosto de saber que você existe antes de existir na minha vida.
Que você tem uma rotina que eu ainda desconheço.
Que há uma versão sua acontecendo agora, neste exato instante, sem saber que um dia será profundamente conhecida por mim.
Às vezes, eu queria poder abrir um mapa e ver dois pequenos pontos vermelhos.
Um seria eu.
O outro, você.
E eu ficaria olhando para a distância entre eles.
Tentando imaginar o caminho.
Tentando descobrir quantas esquinas a vida ainda precisa dobrar até nos colocar na mesma direção.
Mas talvez seja melhor não saber.
Talvez o amor perca alguma coisa quando a gente conhece o caminho antes de percorrê-lo.
Então eu deixo a vida fazer o trabalho dela.
Você continua vivendo daí.
Eu continuo vivendo daqui.
E, enquanto isso, alguma coisa invisível talvez nos aproxime sem que nenhum dos dois perceba.
Talvez seja acaso.
Talvez seja escolha.
Talvez seja apenas a matemática improvável de duas vidas que, entre bilhões de possibilidades, um dia vão se encontrar.
Ou talvez seja mesmo aquele fio vermelho.
Eu gosto de pensar que ele existe.
E gosto ainda mais de pensar que ele não precisa ter pressa.
Porque eu não quero que você chegue apenas porque chegou a hora.
Quero que você chegue quando nós dois tivermos nos tornado as pessoas capazes de viver o que ainda não sabemos que estamos esperando.
Quero que você tenha vivido o suficiente para me reconhecer.
E quero ter vivido o suficiente para reconhecer você.
Então, amor, onde quer que você esteja agora, viva.
Vá.
Conheça o mundo.
Erre.
Ame.
Aprenda.
Faça suas malas.
Perca algumas pessoas.
Encontre outras.
Tenha histórias que eu ainda não conheço.
Porque um dia, se a vida for generosa conosco, você vai me contar todas elas.
E eu vou pensar, ouvindo você falar, que cada uma delas foi necessária para trazer você até mim.
Enquanto você não vem, eu fico aqui.
Com a minha vida acontecendo.
Com os meus dias.
Com meus cafés.
Com meus livros.
Com as minhas perguntas.
E, de vez em quando, olhando para o mapa invisível das coisas e pensando:
onde será que ele está agora?
Quantos quilômetros nos separam?
Quantas coincidências ainda faltam?
Quantas vezes ainda vamos passar um pelo outro sem saber?
E, principalmente:
quanto tempo falta para a minha saudade deixar de ser saudade de uma ideia e finalmente ganhar o seu nome?
Não tenho resposta.
Mas tenho uma esperança.
A de que, quando finalmente nos encontrarmos, eu não precise perguntar quem você é.
Porque alguma coisa em mim vai reconhecer.
E talvez você olhe para mim com aquela estranha sensação de quem acabou de encontrar alguém que, de algum modo, já estava procurando há muito tempo.
Até lá,
eu continuo aqui.
Você continua aí.
E o fio, se realmente existir,
que nos encontre.