Meu amor,
Não tem como começar essa carta sem falar do tempo.
Hoje amanheceu frio por aqui. Muito frio. Daqueles dias em que a cama parece fazer um pacto silencioso com a gente para não deixar ninguém ir embora. Foi difícil levantar. Fiquei alguns minutos negociando com o despertador, com o cobertor, com a vida.
Mas pensei em uma coisa:
ainda bem que eu não estava dormindo com você.
Porque sair da sua conchinha em dias frios, eu suponho, deve ser uma espécie de tortura.
E olha que engraçado escrever isso para um homem que eu ainda nem sei quem é.
Você pode estar acordando hoje em qualquer lugar do mundo. Talvez esteja com sono. Talvez tenha levantado cedo demais. Talvez esteja tomando café sem imaginar que, a alguns quilômetros de distância, uma mulher que você ainda não conhece está escrevendo sobre você.
Estamos vindo de um feriado prolongado.
Eu e a Hanna e a Ingrid — duas pessoas que, provavelmente, um dia você vai conhecer — decidimos fazer um fim de semana de garotas. Alugamos um chalé no Mirante do Sana e passamos três dias enfiadas naquele cantinho de céu, longe de quase tudo.
Às vezes, amor, tudo o que a gente precisa é disso.
Ir para o meio do nada.
Estar acompanhada de pessoas boas.
Desligar o celular por algumas horas.
Ouvir música.
Tomar vinho.
Rir de coisas que provavelmente não teriam a menor graça se fossem contadas para outra pessoa.
Ficar olhando para o nada e, pela primeira vez em algum tempo, não sentir necessidade de preencher o silêncio.
Foi bonito.
Foi leve.
E talvez por isso tenha sido tão estranho voltar para a realidade no domingo.
Porque, enquanto eu ainda carregava no corpo a sensação boa daqueles dias, recebi uma notícia que partiu alguma coisa dentro de mim.
Eu perdi a Karen.
Você ainda não sabe quem é a Karen.
Um dia talvez eu te conte sobre ela olhando fotografias. Talvez você conheça algumas das histórias. Talvez você entenda, pela forma como eu falar dela, que existem pessoas que não precisam permanecer muitos anos na nossa vida para ocupar um espaço enorme nela.
Ela tinha 26 anos.
E morreu em um acidente de moto no sábado à noite.
É estranho escrever isso.
Mais estranho ainda pensar.
Porque, até poucos dias atrás, Karen era uma pessoa viva no mundo. Tinha planos, trabalhos, vontades, dias pela frente.
Agora existe apenas nas lembranças de quem a amou.
E eu ainda consigo me lembrar do último sorriso.
Do último abraço.
É muito estranho pensar que aquela pessoa que, tão recentemente, estava aqui, agora esteja apenas em algum lugar que eu não consigo alcançar.
Eu gosto de acreditar que existe um plano espiritual.
Gosto de pensar que ela está em algum lugar bonito, onde a vida não machuca, onde não existe despedida, onde talvez ela ainda esteja sorrindo daquele jeito que eu conheci.
Talvez seja uma forma de suportar.
Talvez seja fé.
Talvez seja simplesmente a maneira que encontrei de não aceitar que algumas histórias terminem tão cedo.
Hoje ainda são 9h13 da manhã.
Eu já estou no trabalho.
E, no final do dia, vou até a casa da família dela.
Vou oferecer meu abraço.
Não sei exatamente o que vou dizer.
Talvez não diga nada.
Talvez algumas dores não precisem de palavras. Talvez precisem apenas de alguém disposto a ficar ali por alguns minutos, dividindo o silêncio.
Não vai ser fácil.
Mas eu preciso ir.
Talvez porque existam momentos em que amar alguém também significa aparecer quando não existe absolutamente nada que você possa fazer para consertar as coisas.
E eu fiquei pensando em você.
Sim, em você.
No meio de tudo isso, me peguei imaginando onde você acordou hoje.
Onde será que você está?
O que fez nesse feriado prolongado?
Você viajou?
Ficou em casa?
Encontrou seus amigos?
Trabalhou?
Dormiu até tarde?
Está tomando café agora?
Quais são os seus planos para hoje?
Será que você acordou bem?
Será que está feliz?
Será que está vivendo alguma coisa bonita que ainda vai fazer parte da nossa história?
Ou será que hoje você também está atravessando alguma coisa difícil e eu sequer sei?
É curioso pensar que, enquanto eu escrevo sobre você, você existe em algum lugar sendo completamente desconhecido para mim.
Você tem uma rotina que eu não conheço.
Pessoas que eu nunca vi.
Lugares que eu nunca visitei.
Histórias que ainda não ouvi.
Talvez exista alguém hoje que tenha acabado de conversar com você e não faça ideia de que um dia você será o amor da minha vida.
Talvez você tenha passado por mim em algum lugar.
Talvez não.
Talvez nossas vidas ainda estejam completamente distantes, cada uma seguindo sua própria direção, como duas estradas que ainda não encontraram o mesmo cruzamento.
Mas tem uma coisa bonita nisso tudo.
Hoje é menos um dia na direção do nosso encontro.
Você continua não sabendo que eu existo.
Eu continuo não sabendo quem você é.
E, mesmo assim, de alguma maneira estranha, o tempo está trabalhando para nós.
Enquanto você vive o seu dia, eu vivo o meu.
Enquanto você constrói a sua vida, eu construo a minha.
E talvez seja exatamente assim que tenha que ser.
Eu não quero que você chegue para me salvar da minha solidão.
Não quero que você seja a resposta para uma vida que eu ainda não aprendi a viver.
Quero que você chegue quando nós dois já tivermos vivido o suficiente para saber que amor não é alguém vindo preencher um espaço vazio.
É alguém chegando e dizendo:
“Eu gosto da vida que você construiu. Posso morar um pouco nela?”
Então, meu amor, onde quer que você esteja hoje:
espero que esteja bem.
Espero que esteja vivendo.
Espero que esteja cuidando de você.
E, se por acaso o seu dia também estiver difícil, espero que alguém te abrace.
Porque hoje eu aprendi, mais uma vez, que a vida é absurdamente frágil.
A gente nunca sabe qual abraço será o último.
Qual conversa será a última.
Qual manhã será a última.
Por isso, enquanto você não vem, eu quero continuar prestando atenção.
No frio.
No café.
Nas pessoas.
Nas viagens.
Nos meus amigos.
Nas perdas.
Nas pequenas alegrias.
Nos dias comuns.
Quero guardar tudo.
Porque um dia, quando você estiver aqui, eu quero poder te contar como era a minha vida antes de você.
E talvez você leia esta carta e sorria ao descobrir que, em uma terça-feira fria de setembro, enquanto eu ainda não sabia o seu nome, eu já estava imaginando onde você teria acordado.
E pensando:
“Hoje é menos um dia até eu encontrar você.”
Não vejo a hora.