Carregando…

Dia 01/09/2026, às 09:03

Tatianeturcatti
Pública 0 conversa 0 pensamento 35 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Primeiro de setembro.

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Primeiro de setembro.

Escrever a data me dá uma espécie de vertigem. Setembro sempre chega com uma delicadeza enganosa, porque parece apenas mais um mês, mas quando percebo já estou fazendo contas: quatro meses para dezembro, três para o fim do ano, pouco mais de cem dias para que este ano também vire lembrança.

Eu começo a sentir dezembro antes de ele existir.

É uma coisa meio física. Um frio pequeno na barriga, uma vontade de olhar para trás e outra, maior, de correr para frente. Dezembro me dá vontade de viver. Talvez porque seja verão. Talvez porque tenha festa, gente na rua, noites compridas e aquela sensação de que a vida, por alguns dias, fica menos apertada.

Eu gosto do cheiro de protetor solar.

Gosto de pele quente, cabelo molhado, roupa leve, céu demorando para escurecer. Gosto dessa impressão de liberdade que o verão me dá — embora eu nunca tenha descoberto exatamente de que, afinal, estou sendo libertada.

Mas ainda estamos em setembro.

E hoje eu acordei depois de uma noite ruim.

Estou com cólicas. Passei horas tentando dormir sem encontrar uma posição que não me incomodasse e, como se isso já não bastasse, o meu corpo resolveu me entregar também a sua versão mais sentimental. Durante esses dias eu fico assim: uma coisa perigosamente sensível.

Você ainda vai descobrir.

Eu posso estar andando na rua, uma criança sorrir para mim e, pronto, alguma coisa dentro de mim desaba.

Não é tristeza.

Às vezes acho que é o contrário. Talvez eu chore quando alguma coisa me lembra que ainda existe delicadeza no mundo.

Hoje, porém, a delicadeza ficou para depois.

Eu estava saindo para trabalhar quando percebi que não encontrava a chave.

Procurei.

E procurei de verdade — daquele jeito aflito de quem começa a procurar uma coisa e, cinco minutos depois, já está questionando a própria capacidade de organizar a própria vida.

Até que me ocorreu verificar a porta.

Eu não tinha trancado a casa.

E a chave estava pendurada do lado de fora.

Fiquei olhando para ela.

Não sei explicar por que algumas pequenas situações conseguem nos revelar tanto sobre nós mesmos. Talvez porque, diante de uma coisa tão banal, a gente não tenha tempo de construir uma versão bonita do que somos.

Eu simplesmente ri.

Peguei a chave e fui trabalhar.

Quando cheguei, a primeira música que ouvi foi Senti Saudade de Você, do Henrique & Juliano.

E eu senti.

Não uma saudade grande. Não dessas que doem.

Uma pequena saudade sua.

O que é uma coisa curiosa, considerando que você ainda não fez absolutamente nada para que eu sentisse sua falta.

Talvez seja por isso que eu tenha gostado dela.

Porque a saudade, quando ainda não tem memória, precisa inventar alguma coisa.

Fiquei pensando que, se você estivesse aqui, eu não escreveria isso.

Eu provavelmente chegaria em casa e contaria tudo enquanto você estivesse fazendo qualquer coisa — talvez tomando banho, talvez procurando alguma coisa na geladeira, talvez distraído com o celular.

Eu falaria das cólicas.

Você provavelmente faria alguma cara de preocupação.

Eu contaria da chave.

Você provavelmente riria.

Eu contaria que uma criança sorriu para mim e que quase chorei.

Talvez você já soubesse que isso acontece comigo.

E eu gosto de imaginar essas coisas pequenas.

Não o grande amor.

As pequenas coisas.

Porque o amor, quando ainda está distante, é muito fácil de idealizar. Difícil mesmo é imaginar alguém dividindo conosco uma terça-feira qualquer, uma dor de barriga, uma chave esquecida, uma música tocando cedo demais, um silêncio no meio da noite.

É disso que eu gostaria.

De alguém que conheça os acontecimentos sem importância.

Talvez seja por isso que estou escrevendo estas cartas.

Para que você saiba que, antes de ser alguém que te amou, eu fui uma mulher que existiu em dias como este.

Talvez seja isso que eu queira que você encontre aqui quando um dia ler estas páginas: não uma versão minha cuidadosamente escolhida para ser amada, mas a mulher que estava vivendo enquanto você ainda não tinha chegado.

Porque hoje eu não tenho nenhuma grande coisa para te dizer.

Tenho apenas este dia.

E talvez seja justamente isso que eu queira dividir com você.

Acho bonito pensar que, enquanto escrevo, você está vivendo uma vida que eu desconheço. Talvez esteja tomando café. Talvez tenha acordado mal-humorado. Talvez esteja trabalhando, dirigindo, rindo de alguma coisa que eu nunca vou saber. Talvez, neste exato momento, você também esteja começando setembro sem imaginar que, em algum lugar, uma mulher que ainda não conhece escreveu seu nome sem saber o nome.

Isso me dá uma sensação estranha.

Não de espera.

De possibilidade.

Você ainda é um lugar onde eu nunca estive.

E eu gosto de deixar assim por enquanto.

Há alguma beleza em não saber.

Hoje foi só o primeiro dia de setembro.

O ano começou a se despedir devagar, eu senti uma saudade sem passado e, por alguns minutos, tive vontade de que você estivesse aqui para ouvir minhas bobagens.

Só isso.

O resto pode esperar.

Até porque dezembro ainda está longe.

E você também.

Talvez, por enquanto, seja melhor assim.

Tenho quatro meses para viver antes que o ano termine.

E quem sabe quantas coisas podem acontecer nesse intervalo?

Inclusive você.

Related posts