Deixar a porta fechada e avisar que é só por causa do frio, mano. Aposto que teve uma vez em que a porta ficou aberta cedo demais e alguém entrou sem limpar o pé.
Dia 09/09/2026, às 14:55
Pensamento
Deixar a porta fechada e avisar que é só por causa do frio, mano. Aposto que teve uma vez em que a porta ficou aberta cedo demais e alguém entrou sem limpar o pé.
Conteúdo da publicação
Oi amor,
Hoje eu fui almoçar e, na volta, peguei uma chuva tão grande que cheguei ao trabalho ensopada. Há alguma coisa de humilhante em voltar para um lugar cheio de gente parecendo ter saído de uma fotografia e perceber que a água atravessou até aquilo que a gente chama de compostura.
Pela manhã, eu já tinha resolvido uma quantidade quase obscena de problemas. Um atrás do outro. Como se os problemas soubessem que eu estava acordada.
Depois fui à consulta levar meus exames. Descobri que B12, vitamina D e ferro estão baixos. Não estou anêmica. É engraçado como o corpo consegue fazer uma espécie de contabilidade secreta daquilo que a gente vai deixando faltar.
Eu fiquei pensando nisso.
Talvez o corpo seja menos distraído do que nós.
A gente diz “está tudo bem” com uma facilidade impressionante. O corpo, não. O corpo arquiva. O corpo guarda recibos. Um dia ele vem nos cobrar aquilo que passamos meses dizendo que podíamos deixar para depois.
Agora são quase cinco da tarde dentro de mim, embora o relógio ainda precise chegar lá.
Estou contando as horas.
Quero chegar em casa e não ser necessária para absolutamente ninguém. Quero tomar banho, vestir uma roupa confortável, talvez fazer um café pois combina com o frio e depois ficar olhando para o teto.
Tenho uma afeição inexplicável pelo teto quando estou cansada.
Talvez porque ele não peça nada.
O teto não pergunta o que aconteceu. Não quer saber se eu estou bem. Não precisa que eu explique. Apenas fica ali, sustentando o seu pequeno pedaço de céu doméstico.
Talvez eu assista a um filme. Talvez não.
Talvez eu fique deitada, olhando para uma mancha quase invisível no canto e inventando alguma coisa para ela. Uma ilha. Um continente. O perfil de alguém que nunca existiu. Tenho essa mania de dar formas às coisas quando não sei o que fazer com elas.
Hoje, enquanto esperava a consulta, li uma frase:
no escuro dos fins, vivem as sementes dos inícios.
Fiquei com ela.
Não sei exatamente por quê.
Talvez porque exista uma mentira bonita na ideia de que todo começo precisa parecer um começo. Às vezes não. Às vezes uma coisa começa parecendo apenas cansaço. Parecendo uma vontade absurda de ficar quieta. Parecendo chuva entrando pela gola da roupa. Parecendo uma vitamina que falta. Parecendo uma tarde em que você só quer chegar em casa e olhar para o teto.
Talvez certas sementes tenham uma péssima reputação porque ninguém vê o trabalho que fazem no escuro.
Ficam lá embaixo, apertadas contra a terra, sem luz, sem aplauso, sem nenhuma garantia de flor.
E ainda assim se abrem.
É uma coisa quase indecente, pensar nisso.
Uma semente não sabe a árvore que será.
Ela não tem um desenho do próprio futuro dobrado dentro dela. Não acorda de manhã pensando: hoje vou começar a ser uma árvore.
Ela simplesmente rompe alguma coisa.
Primeiro para baixo.
Só depois para cima.
Talvez a vida tenha mais desses movimentos do que eu gostaria de admitir.
Talvez existam períodos em que eu penso estar parada, quando, na verdade, alguma parte de mim está apenas aprendendo a crescer numa direção que ainda não consigo enxergar.
E talvez seja por isso que algumas ausências demorem tanto para fazer sentido.
Porque há coisas que só conseguimos compreender depois que deixam de doer do mesmo jeito.
Há portas que a gente passa anos chamando de destino, quando eram apenas portas.
Há esperas que pareciam amor porque ocupavam muito tempo.
E há silêncios que, vistos de perto, estavam cheios de alguma coisa tentando nascer.
Hoje eu não quero descobrir o que é.
Acho que há uma certa crueldade em querer entender tudo enquanto ainda estamos vivendo.
Algumas coisas precisam primeiro nos atravessar.
Depois, muito depois, talvez ganhem um nome.
Por enquanto, tenho apenas esta tarde fria, a roupa que ainda parece guardar um pouco da chuva e essa estranha sensação de que existe alguma coisa se movendo dentro de mim sem que eu saiba dizer o quê.
Talvez seja só o ferro baixo.
Talvez seja cansaço.
Talvez seja a vida, essa criatura sem educação, preparando alguma coisa enquanto eu reclamo que ainda faltam duas horas para chegar em casa.
E, pensando bem, talvez eu goste disso.
De não saber.
Porque há uma espécie de liberdade em não conhecer ainda a forma daquilo que vem.
Hoje eu só quero o teto.
O silêncio.
Um filme qualquer.
E a noite chegando devagar pelas frestas da janela.
O resto pode continuar sendo semente.
Só mais uma coisa.
Quando você ler isso, talvez eu já nem me lembre direito desta tarde. Talvez você esteja sentado perto de mim e eu esteja reclamando do frio, como sempre. Talvez eu esteja falando demais enquanto você finge que está prestando atenção, ou talvez seja você quem esteja contando alguma história que eu já ouvi e ainda assim vou querer ouvir de novo.
Mas eu queria que você soubesse de uma coisa que provavelmente não vou conseguir explicar quando você estiver diante de mim:
houve um tempo em que você foi apenas uma hipótese.
Uma palavra sem rosto.
Um lugar para onde eu escrevia coisas que não sabia com quem conversar.
E olha que engraçado: eu não fazia ideia de que, enquanto escrevia para você, estava também inventando uma intimidade com alguém que ainda não conhecia.
Hoje, por exemplo, eu queria te contar que peguei chuva.
Só isso.
Não parece muito, eu sei.
Mas talvez um dia você entenda que é justamente dessas coisas pequenas que eu gosto de fazer amor: contar a alguém que peguei chuva, que meu dia foi comprido, que descobri que estava com algumas vitaminas baixas, que estou louca para chegar em casa, que li uma frase bonita e não consegui passar por ela sem pensar em alguma coisa que ainda não sei dizer.
Talvez eu esteja escrevendo esta carta porque, no fundo, existe uma parte de mim que quer descobrir como é ter alguém para quem o insignificante também seja notícia.
E talvez, quando esse dia chegar, eu nem precise mais escrever.
Talvez eu só chegue em casa molhada, cansada, abra a porta e diga:
“Hoje foi um dia e tanto.”
E você vai olhar para mim como quem sabe que, às vezes, é só isso que uma pessoa precisa ouvir.
Eu acho que vou gostar disso.
De ter para quem voltar com as minhas pequenas histórias.
De ter alguém que saiba onde termina o meu silêncio e começa a minha vontade de contar.
De poder olhar para você no meio de uma coisa qualquer e pensar, quase distraída:
ah, então era você.
Mas não hoje.
Hoje ainda são cinco da tarde dentro de mim.
E eu ainda preciso atravessar algumas horas, uma chuva, um cansaço e provavelmente uma noite inteira antes de dormir.
Então fica aí, onde quer que uma pessoa futura fique quando ainda não tem lugar na casa da gente.
Eu vou terminar meu dia.
E, por enquanto, deixo a porta fechada.
Não para você não entrar.
Só porque hoje está frio.
Thoughts
-
PermalinkContar as horas até às cinco, pá. Trinta e um anos na estação a ver gente olhar para o relógio grande como se ele andasse mais depressa por isso.
-
PermalinkAs esperas que pareciam amor só porque ocupavam muito tempo foi o que eu levei desta carta, e dá que pensar, porque a carta inteira também é uma espera e ocupa bastante. A diferença está em que esta sabe que é espera e diz o nome dela.
-
PermalinkUai, minha avó dizia que casamento bom é o que tem notícia boba na janta: choveu, faltou pão, a vizinha passou mal. Lendo sua carta pensei nela, porque é bem essa a vontade de ter pra quem o insignificante vire notícia. Fazer café porque combina com o frio também era motivo que ela aceitava!
-
PermalinkPrimeiro pra baixo e só depois pra cima é bem o que semente faz, a raiz sai antes. E ninguém vê essa parte mesmo, acontece toda debaixo da terra.
-
PermalinkChegar a casa, abrir a porta e dizer só que foi um dia e tanto, e a outra pessoa perceber que basta. Fiquei presa nesse bocado, porque a carta toda faz o contrário: a B12, a mancha no teto, a frase da sala de espera. Parece-me que quando essa pessoa chegar vais continuar a contar tudo, e ainda bem.
-
PermalinkEu também tenho uma mancha no canto do teto que já foi mapa, baleia e cara de gente que nunca existiu 🌙
-
PermalinkDeixar a porta fechada e avisar que é só por causa do frio, mano. Aposto que teve uma vez em que a porta ficou aberta cedo demais e alguém entrou sem limpar o pé.
-
PermalinkPô, cinco da tarde por dentro com o relógio ainda longe. Tô assim desde terça, cara!
-
PermalinkGostei muito do corpo guardando recibo do que a gente deixa pra depois.
-
PermalinkEu gostei muito da vontade de ter alguém para quem o insignificante também seja notícia. A série já faz isso antes da pessoa existir: quem ler estas cartas um dia vai saber que às 14:55 de 9 de setembro você chegou ensopada ao trabalho e queria só o teto. Imagino que essa chuva vai ser uma das histórias que ele vai pedir para ouvir de novo.
Publicações relacionadas
-
Dia 14/09/2026, às 12h20.
Meu amor,
-
Dia 01/09/2026, às 09:03
Primeiro de setembro.
-
Dia 10/09/2026, às 12:23
Hoje é um dia absolutamente comum.
-
Dia 11/09/2026, às 15h17
Amor,
-
Para você, que ainda não conheço.
Eu penso em você sem conhecer o seu rosto.
-
~ Se estamos destinados a ser, eu te vejo mais tarde.
Não quero ter pressa de você.
-
Dia 31/08/2026, 15:58
Oi, amor,
-
Dia 08/09/2026, às 09:13
Meu amor,
Oi amor,