Li de uma vez só. O que ficou comigo foi o professor dizendo que até o ódio que eles sentem uns pelos outros foi Ela quem deu, moldado para servir. Isso muda o sentido de tudo o que veio antes, as brigas no campo, a Ana e a Ceres no corredor. Obrigado por postar isto aqui! Me avisa quando sair a próxima parte.
Capítulo 4: Colégio Militar parte 3
Quatro homens — talvez homens — em trajes militares cinza-escuros. Os rostos, ocultos por lentes negras e lisas, sem feições. Apenas a respiração lenta e abafada escapava por trás das máscaras. Cada…
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Li de uma vez só. O que ficou comigo foi o professor dizendo que até o ódio que eles sentem uns pelos outros foi Ela quem deu, moldado para servir. Isso muda o sentido de tudo o que veio antes, as brigas no campo, a Ana e a Ceres no corredor. Obrigado por
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Os Silenciadores.
Quatro homens — talvez homens — em trajes militares cinza-escuros. Os rostos, ocultos por lentes negras e lisas, sem feições. Apenas a respiração lenta e abafada escapava por trás das máscaras. Cada um trazia um cassetete curto na cintura e uma pasta metálica nas mãos enluvadas.
Eles atravessaram a sala em silêncio.
As solas pesadas marcavam o piso de cimento num compasso ritmado.
O professor permaneceu em pé, estático, olhar fixo no nada.
Um dos Silenciadores abriu a pasta com um estalo frio e começou a anotar, lendo nomes da lista de presença. Outro caminhava entre as fileiras, parando vez ou outra para fitar algum aluno por um longo segundo — tão próximo que podiam sentir o calor abafado da máscara sobre si.
O terceiro ficava à porta, garantindo que ninguém saísse.
Ceres não baixou os olhos.
Sentada na última carteira, mãos entrelaçadas sobre a mesa, mantinha o queixo erguido, desafiando os olhares invisíveis que sentia por trás do tecido negro.
Destemida. Ou apenas drogada o suficiente para não vacilar.
Theo notava.
Daime roía as unhas, Gene quase prendia a respiração. Dru, por mais firme que tentasse parecer, não escondia o ciúme queimando por dentro ao ver Theo sem desviar os olhos dela.
Quando o Silenciador passou por Ceres, inclinou-se ligeiramente, como quem estuda um espécime raro.
Os olhos azuis dela se estreitaram.
Ele seguiu sem dizer nada.
Ao final, o líder dos Silenciadores falou. Sua voz era grave, metálica, impessoal:
— O autor desta blasfêmia será encontrado.
A Mãe não esquece.
A Mãe não perdoa.
A Mãe não falha.
Saíram da sala em absoluto silêncio, deixando um frio residual.
As carteiras rangeram sob corpos tensos, cabeças abaixadas.
Ninguém ousou se mexer até que o professor retomou a aula, como se nada tivesse acontecido.
Mas Theo, ao cruzar o olhar com Ceres por um breve instante, teve a sensação incômoda: alguém naquela sala sabia mais do que dizia.
E aqueles olhos azuis, imóveis e arrogantes, pareciam guardar todos os segredos.
Depois de uma aula longa e desgastante, Theo, Gene e Daime saíram para o pátio. O sol quente fazia o concreto brilhar, mas não aliviava o peso que carregavam.
Do outro lado, perto da mureta que dividia o campo de treinamento da área comum, uma figura chamou a atenção de Gene.
Lá estava Kat.
Com seus óculos de armação grossa, cabelos ruivos longos jogados para um lado, e um sorriso tímido que iluminava o rosto pálido. Parecia estar à espera de alguém.
Gene a viu e acelerou o passo, trocando um olhar rápido com Theo e Daime, que ficaram sob a sombra de uma árvore.
— Kat! — chamou ele, a voz carregada de alívio e preocupação.
Ela o olhou, surpresa, mas logo sorriu — um sorriso sincero, com um leve traço de alívio.
— Gene — disse, quase num sussurro —, eu… não estava bem.
Gene franziu a testa.
— Por que sumiu? Você não respondeu nenhuma mensagem. Ninguém te viu...
Kat respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.
— Eu precisava ficar sozinha. Estava confusa, sem forças pra encarar tudo aqui. Mas agora… estou melhor.
Gene assentiu, mantendo os olhos fixos nela.
— Quero que saiba que pode contar comigo, sempre. Não importa o que aconteça.
Ela sorriu, e os dois ficaram ali, em silêncio, apenas sentindo a presença um do outro — como se aquele instante fosse o único refúgio em meio ao caos.
À distância, Daime e Theo trocaram um olhar discreto, entendendo que, apesar de toda rigidez e medo, ainda havia algo verdadeiro entre eles.
Gene tirou de dentro da mochila um pequeno estojo com batom e esmalte — itens simples, mas novos.
— Peguei pra você — disse, meio sem jeito. — A Dru conseguiu essas coisas quando ajudou a pegar umas sacas de arroz que caíram do trem blindado. Era carga perdida, ia pro lixo.
Kat sorriu, tocando os itens com carinho.
— Obrigada, Gene. Você sempre sabe como ajudar.
Ele riu baixo, descontraído:
— A Dru não para de falar no caminhão. Tá obcecada com aquilo, dizendo que vai arrumar um jeito de sair daqui. Que tudo vai mudar.
Kat fechou os olhos por um instante, como se lutasse entre esperança e medo.
— Quem sabe, né? A gente precisa acreditar que tem algo além disso tudo.
Gene assentiu, olhando-a com cuidado.
— A gente vai conseguir, Kat. Juntos.
Eles ficaram ali, entre a sombra e o sol, um pequeno oásis de normalidade no meio do mundo de Ceres.
No campo de treinamento, o vento seco levantava poeira enquanto os alunos se perfilavam, rígidos. O técnico caminhava diante da linha com voz firme e cortante:
— O esporte existe para que povos diferentes possam lutar… sem matar uns aos outros. — Ele fez uma pausa, encarando a fileira. — Ou quase.
Um murmúrio percorreu as fileiras quando alguém — sempre alguém — comentou sobre Daime, lembrando que nem todos saem vivos ou ilesos daquele jogo.
Cors, Vanks e Dark não perdiam a chance de cutucar Theo, lançando provocações enquanto ajustavam as fitas nos pulsos e cravavam os coturnos na terra batida. Theo permanecia impassível, embora por dentro algo queimasse lentamente.
— E agora… — disse o técnico, apontando para o centro do campo — vamos ver quem realmente sabe passar por um adversário.
Theo ergueu a mão, com aquele ar frio de sempre:
— É fácil.
O técnico sorriu, sarcástico.
— Tolo. Então prove.
Assobiou e chamou Dark, que caminhou até o centro com um sorriso sádico e os olhos cravados em Theo.
— Pare-o, Dark — ordenou.
Dark não precisou de segunda ordem. Com força e crueldade, derrubou Theo de um jeito que o deixou atordoado no chão, a poeira subindo ao redor.
— É só treinamento, príncipe — cuspiu Dark, debochando com sangue no canto da boca.
Theo, porém, se ergueu devagar, limpou o uniforme e pediu:
— De novo.
Dessa vez, passou por Dark com facilidade, tão rápido e preciso que parecia outro. Dark girou, furioso, cuspindo sangue no chão.
— Eu queria que você me parasse, Theo… — rosnou Dark, avançando novamente, dessa vez para brigar, não treinar.
Os dois se agarraram, chutando e socando, e o campo virou um caos. Alunos tentavam separá-los. Empurrões, gritos, pancadas, poeira.
À distância, Ceres observava. Seus olhos azuis e frios percorriam a cena — todos brigando, suados, violentos, parecendo animais presos num cercado.
Quando finalmente conseguiram apartar Theo e Dark, Daime apareceu por trás, com um sorriso malicioso, apoiando as mãos nos ombros de Theo:
— Foi eu que ensinei isso a ele.
E soltou uma gargalhada, como quem assina a própria obra.
Depois do treino, Theo encostou-se à grade do campo, o corpo suado, a respiração ainda pesada. Subiu lentamente as arquibancadas vazias, jogou a mochila no degrau ao lado e sentou-se, arrumando as coisas com os dedos ainda trêmulos de adrenalina.
Foi quando sentiu a presença dela.
Ceres surgiu no corredor das arquibancadas como uma sombra branca. Andava leve, os cabelos longos cobrindo metade do rosto pálido e inexpressivo. Parou diante dele, olhos fixos, aquela aura de mármore que gelava o ar ao redor.
— Pra que tanto ódio? — disse ela, sem rodeios. — Você vai acabar matando ele.
Theo ergueu os olhos devagar, um sorriso frio no canto da boca:
— Seria ótimo isso. Todo mundo ganha.
Ceres não piscou. Inclinou levemente a cabeça, como se estudasse um padrão invisível:
— E como você lida com esse ódio sem matar ele?
Theo fechou o zíper da mochila com um estalo seco, e respondeu, sem sequer olhar para ela:
— O ódio é uma ferramenta. Uma energia necessária. Depende do que você quer atingir. Eu uso ele como degrau… uso a energia sem precisar matar o adversário. Daí eu venço.
Ceres se aproximou um passo, os olhos azuis ainda mais gelados:
— Como você sabe disso?
Theo ergueu a cabeça, um sorriso arrogante desenhando-se no rosto:
— Eu imagino já vencendo ele. Assim o corpo relaxa, reflexo do treinamento.
Ceres ergueu um canto da boca, como se aquilo a divertisse um pouco.
— Você não tem medo? — sussurrou, os olhos cravados nele como lâminas.
Theo finalmente virou o rosto para ela, os olhos negros firmes, impenetráveis:
— De quem?
Um silêncio brutal caiu entre os dois. Os egos colidiram no ar como lâminas afiadas. Entre eles, não havia apenas tensão — havia uma fome, uma necessidade de provar quem morderia primeiro.
Os olhos dele caçavam as mentiras dela. E ela parecia caçar as dele.
Ceres ergueu o queixo, deixando a arrogância escorrer pela voz:
— Sim… você não mente.
Theo arqueou uma sobrancelha:
— Então você é a Ceres. A saltadora.
Ela sorriu, seca, venenosa:
— E você é o Theo. Líder do time.
Os dois se fitaram por alguns segundos, como predadores estudando um ao outro.
Entre eles, a arquibancada se encheu de uma tensão elétrica — arrogância explícita, desejo contido, ódio e admiração misturados.
Pareciam se devorar, em todos os sentidos possíveis.
O som distante do campo — apitos, vozes, passos — ainda ecoava, mas ali, naquele degrau de concreto, só existia um campo de batalha invisível.
Theo sustentava o olhar dela como quem sustenta um golpe.
Cada vez que os olhos azuis de Ceres o atravessavam, um frio subia por sua espinha — não exatamente medo, mas algo que o corroía. Como se ela enxergasse através das suas camadas.
E isso o enfurecia.
Odiava a presença dela.
Odiava aquela postura de mármore, intocável.
Odiava como ela andava entre os outros como uma predadora entre presas.
Mas, por alguma razão, não conseguia parar de olhar.
Havia algo naquela arrogância que… seduzia.
E o perigo, para Theo, sempre foi um convite.
Ceres também sentia o coração acelerar, embora seu rosto jamais denunciasse.
Por dentro, ela queimava.
Ele era um animal selvagem preso num uniforme.
E aquela mecha branca, em meio ao cabelo negro, fazia dele ainda mais… errado.
E, por isso mesmo, certo.
Ela odiava como ele não desviava os olhos.
Odiava como ele não parecia ter medo dela.
Odiava que, por dentro, quisesse vê-lo sorrir.
E a simples ideia disso a fazia querer socá-lo no rosto.
Ambos sabiam que aquilo era maior do que simples rivalidade.
Era um ódio quase divertido, como se, a qualquer momento, um fosse saltar no outro para morder.
A atração era absurda.
Mas havia medo também.
Medo de se aproximarem demais e deixarem a pose cair.
Medo de que, ao se tocarem, fossem devorados por aquele impulso selvagem que preenchia o ar entre eles.
E talvez esse medo fosse a parte mais viciante.
Porque nenhum dos dois recuava.
Era como se ambos pensassem a mesma coisa, ao mesmo tempo:
— Se eu der um passo, você cai.
— Se eu cair, você também cai.
Por isso, permaneciam afastados. Apenas se observando.
Dois corpos em guerra.
Dois corações batendo num ritmo sujo, cruel, excitante.
Naquela arquibancada fria e cinzenta, Theo e Ceres começaram, sem perceber, uma batalha que não terminaria ali.
E ambos já sabiam disso.
O corredor estava vazio naquela hora do fim do dia, só as luzes frias e o eco dos passos das duas saltadoras.
Ana vinha de frente, impecável no uniforme, o cabelo preso num rabo de cavalo perfeito, como sempre.
Ceres andava sozinha, sem pressa, as mãos nos bolsos da saia, os olhos semicerrados, analisando cada movimento da rival.
Quando as duas se cruzaram, Ana parou bem no caminho dela.
Ceres também parou, sem recuar um centímetro.
— Então… você é a nova, a “grande promessa” — Ana começou, voz doce, cheia de veneno. — Eu sou a líder. É bom você se lembrar disso quando estiver naquela plataforma.
Ceres arqueou a sobrancelha e soltou um risinho seco.
— Líder? — repetiu, como quem prova uma palavra azeda. — Hum… é isso que você diz para si mesma para conseguir dormir à noite?
Ana cerrou os dentes, mas manteve o sorriso.
— Escuta, boneca de mármore… aqui as coisas funcionam assim: você salta como eu mando, ou cai como eu quiser. Não quero você me envergonhando na frente da equipe. Entendido?
Ceres inclinou levemente a cabeça, os cabelos negros deslizando pelo rosto pálido como uma cortina de sombra.
O sorriso que deu foi tão gelado que fez Ana se arrepiar por dentro.
— Ah… — murmurou, aproximando-se dela, quase encostando a boca em seu ouvido. — Então é isso… você está com medo de mim.
Ana recuou só um pouco, surpresa, mas Ceres não deu trégua.
Abriu ainda mais o sorriso, quase animalesco, e sussurrou:
— Eu posso sentir daqui o cheiro do seu medo. E é… delicioso.
Ana piscou, sentindo a raiva e a insegurança queimarem seu rosto, mas não respondeu.
Ceres, satisfeita, passou por ela devagar, roçando o ombro no dela de propósito, sem nem olhar para trás.
E sua voz ecoou pelo corredor, baixa e cruel:
— Não demora muito e você vai cair.
Ana ficou ali, com o punho cerrado, sentindo que acabara de encontrar alguém que odiava com todo o coração.
Pela primeira vez, duvidou, só um pouco, se ainda era mesmo a líder.
Quando Ceres sumiu no fim do corredor, Ana ficou imóvel por um instante.
O som dos saltos da rival ecoava como um deboche nos azulejos frios.
Ana respirou fundo. E mais uma vez.
Depois, quando não havia mais ninguém por perto, encostou na parede e fechou os olhos, mordendo o lábio com tanta força que quase sangrou.
Seu coração ainda disparava.
Sentia no ar aquele cheiro… como se Ceres tivesse deixado para trás a própria arrogância, impregnando cada canto.
E o pior: ela não estava errada. Ana sentira medo.
Por um segundo — pequeno, quase imperceptível — mas sentira.
E isso era imperdoável.
Abriu os olhos, furiosa consigo mesma.
Não podia perder.
Não para aquela garota de mármore, não para a forasteira que ousava sorrir para ela com aquele desdém.
“Você vai pagar por isso, querida…” pensou, ajeitando o uniforme e alisando o cabelo com mãos trêmulas.
Aquela plataforma não era lugar para duas líderes.
E Ana não seria a que cairia.
Enxugou a raiva do rosto, recuperou a postura ereta, ergueu o queixo e voltou a andar pelo corredor como se nada tivesse acontecido.
Na cabeça, só um pensamento:
Se Mãe Ceres quer generais… eu vou provar que sou a mais implacável deles.
Um sorriso gelado e controlado se formou nos lábios dela.
“Deixa ela pensar que já ganhou… deixa. Vai ser ainda mais doce ver a queda.”
E seguiu seu caminho, já planejando cada golpe para derrubar Ceres — e garantir que todos vissem quem era a verdadeira líder daquela arena.
O ginásio ecoava baixo, apenas o som metálico das máquinas de musculação e o zunido mecânico das esteiras preenchiam o ar.
Ceres estava ali há mais tempo que Ana — sozinha, disciplinada, como uma estátua de mármore que se movia.
O longo cabelo negro, que geralmente lhe cobria as costas como uma capa, agora estava preso num coque bem alto, firme e prático.
Era outro rosto, outra postura, outro perigo.
As mãos pálidas cerravam os pesos com naturalidade, como se a dor fosse apenas mais um degrau.
E ela ria.
Não um riso alto, mas aquele canto torto da boca que fazia cada um de seus movimentos parecer calculado para irritar quem olhasse.
Quando Ana entrou, parou por um segundo na porta, só para ver a cena.
E seu estômago queimou.
Ceres… já estava ali.
E já era dona dali.
Ana fingiu não se importar.
Endireitou a postura e caminhou com seu andar de líder até a máquina de extensões.
Sentou-se, ajustou o peso.
Olhou reto.
Não disse nada.
Mas Ceres notou.
Ceres sempre notava.
No espelho, entre uma puxada e outra da barra, o olhar dela encontrou o de Ana.
E riu.
Ana sentiu a pele arrepiar.
Por dentro, as duas já se xingavam mentalmente.
Ana pensava: “Vad… maldita arrogante… acha que vai me intimidar com esse riso ridículo? Me provoca mais, vai, só me dá mais motivação para esmagar você.”
Ceres pensava: “A líderzinha já está tremendo por dentro… é quase patético. Eu sinto o medo. Quase sinto pena. Quase.”
Nenhuma delas desviou o olhar.
Treinavam duro, como duas feras acorrentadas, cada uma na sua máquina, ofegantes, em silêncio.
Mas ali, naquela respiração pesada, naquela troca de olhares venenosos, já estava claro:
elas estavam se devorando.
Mesmo sem um toque.
Mesmo sem uma palavra.
No dia seguinte, o corredor principal fervia com o barulho dos passos e das vozes abafadas.
Daime e Theo vinham lado a lado, conversando baixo, Theo ainda com aquela sombra arrogante no olhar desde o treino.
Do outro lado, Gene ria nervoso com Kat, tentando esconder no sorriso a inquietação de estar sempre no radar.
Dru apareceu mais adiante, elegante e calculada, os olhos varrendo Theo com uma pontada de veneno e desejo quase imperceptível.
E então… ela.
Ceres.
Surgia no corredor como uma lâmina de gelo atravessando o calor das conversas.
Cabelos negros presos num coque perfeito, pescoço erguido, expressão impassível.
Era impossível não notar como o som parecia baixar ao redor quando ela passava.
Nem Theo, nem Dru, nem ninguém ousava fingir que não sentia a presença dela.
No final do corredor, como se o destino resolvesse jogar mais gasolina naquela fogueira, Ana se destacava, encostada na parede, com os braços cruzados e um sorriso forçado de desprezo.
As duas se encontraram num silêncio de ódio surdo — apenas um olhar, nada mais.
Quando Ceres seguiu, foi Dark quem rompeu a tensão.
Deu um passo à frente, arreganhando os dentes num sorriso debochado, e disse algo que arrancou um riso malicioso dos Cors e dos Vanks.
Ceres parou, virou o rosto devagar para ele.
Apenas uma resposta curta, seca, atravessada como uma faca.
O sorriso de Dark se contraiu, as veias saltando no pescoço, os punhos cerrados.
Ele avançou mais um passo, com aquele jeito de cão raivoso pronto para morder… mas ela não se moveu.
Não recuou.
Não piscou.
Os dois ficaram frente a frente, a tensão tão densa que ninguém respirava.
Mas Dark não mordeu.
Nem um músculo dela tremeu.
Ceres apenas virou lentamente, o coque firme, a postura intacta, e seguiu pelo corredor, deixando o som das conversas e dos passos voltarem atrás dela como um mar depois da tempestade.
Os dois saíram por uma porta lateral para o pátio vazio, ainda sentindo o peso da presença de Ceres no ar.
Daime foi o primeiro a quebrar o silêncio, com aquele tom que sempre misturava deboche e curiosidade:
— Eita… que gelo, hein. A menina não baixa a guarda nem por um segundo. Quase deu dó do Dark.
Theo ajeitou a mochila no ombro, os olhos fixos no nada à frente. Respondeu sem olhar para ele:
— Não precisa sentir pena dela. Ela não precisa disso.
Daime ergueu as sobrancelhas, como quem se diverte com a resposta:
— E você acha que precisa dela, é isso?
Theo soltou um riso seco, mas não havia humor nele.
— Eu ajudei porque ela tava na minha frente, só isso. Ela se cuida sozinha. Parece do nada, ninguém sabe de onde saiu… mas tem coragem. Mais do que a maioria daqui.
Daime inclinou a cabeça, observando o amigo como quem enxerga algo que ele mesmo não quer admitir. Depois riu, baixo.
— Você é péssimo de mentira, Theo. Não é por ela que você se preocupa, é por você mesmo. Vai lá, repete mais uma vez que não sente nada…
Theo finalmente virou para ele, encarando-o com um olhar afiado.
— Você fala demais.
— E você não fala nada — retrucou Daime, zombeteiro. — Não engana ninguém. Já tá todo ferrado nessa guerra aí. Olha pra Dru… já percebeu que ela também tá na órbita? E vai entrar nesse campo minado sabendo que vai perder. Bonito isso. Trágico, mas bonito.
Theo suspirou, pesado, antes de se afastar, murmurando por cima do ombro:
— Não fala como se me conhecesse, Daime.
E Daime apenas ficou ali, sorrindo de canto, satisfeito por ter dito exatamente o que Theo não queria ouvir.
Na sala de Estratégias e Doutrina, o ar parecia mais pesado do que nunca.
As paredes eram cobertas de telas e painéis iluminados, projetando imagens cruas e brutais: crianças famintas com costelas saltadas; homens e mulheres fugindo de cidades em chamas; corpos amontoados sob as sombras da guerra. As vozes do projetor ecoavam, como prece e sentença ao mesmo tempo:
“Assim vivem eles. Assim falham eles. Assim triunfa Mãe Ceres.
Mãe Ceres, que alimenta. Que educa. Que devora.”
As imagens mudavam: caminhões de mantimentos com o símbolo de Ceres sendo recebidos por braços frágeis… para, logo em seguida, serem mostrados em destroços carbonizados, vítimas de bombas inimigas.
“Porque só Ela tem coração.
O resto tem apenas fome.”
Na fileira central, os alunos do colégio estavam reunidos, um grupo heterogêneo, mas igualmente marcado: Ceres, Theo, Dark, Cors, Gene, Daime, Dru, Kat, Vanks, Ana…
As cadeiras não pareciam suficientes para o tamanho dos egos e das animosidades presentes.
Ceres, sentada com o coque impecável e a postura de mármore, não desviava os olhos das imagens, mas em nada parecia abalada por elas.
Theo, à sua esquerda, mantinha o olhar duro e braços cruzados, claramente consciente do peso que a garota ao lado emanava.
Dark, do outro lado, mal conseguia conter os punhos fechados sobre a mesa, a mandíbula travada como um animal acorrentado diante de um inimigo invisível — ou talvez visível demais.
Cors e Vanks trocavam olhares rápidos entre si, esperando uma brecha para provocar, como hienas ao redor de um leão.
Gene parecia inquieto, dividido entre a doutrina da Mãe, a presença de Kat ao fundo e os próprios demônios.
Kat, por sua vez, era só silêncio, olhos baixos, tentando ser invisível num campo de feras.
Ana fitava Ceres de esguelha, o veneno escorrendo pelas narinas em suspiros contidos.
Dru brincava com um lápis, mas por dentro sentia o aperto na garganta: estar ali, na mesma sala que ela, já era insuportável.
E no canto, recostado na cadeira com as mãos atrás da cabeça e um sorriso malicioso nos lábios, Daime parecia se deliciar com o momento.
Seus olhos saltitavam de um rosto ao outro, como quem assiste a um espetáculo prestes a explodir em sangue e confusão.
Ele sussurrou, só para Theo ouvir:
— Esse colégio é pequeno demais pra tanto ódio, não acha?… — e então um sorriso. — …Mas eu adoro ver vocês quase se matando. Ela educa. Ela devora. Eu só… aprecio.
No projetor, a última frase ecoou alta pela sala:
“Os fracos choram. Os fortes servem. Mãe Ceres triunfa.”
E por um instante, ninguém ousou se mover.
Porque naquela sala, a qualquer segundo, alguém poderia servir.
Ou ser devorado.
As imagens no projetor mudavam lentamente.
Crianças chorando em ruínas.
Mãe Ceres entregando pão e fogo.
A voz da doutrina repetindo que só ela era justa.
No lado direito da fileira, Ana inclinou o rosto para frente, quase sem olhar para Ceres diretamente, mas a voz fina e fria encontrou seu alvo:
— Deve ser fácil… — murmurou, só para ela ouvir. — …assistir tudo isso e não sentir nada, não é?
Um sorriso sarcástico se formou no canto da boca. — Frieza combina com você, saltadora.
Ceres não se virou de imediato. O coque continuou firme, os olhos presos na tela.
Então, devagar, ela devolveu, num sussurro gélido:
— Eu sinto, Ana. Sinto o cheiro do seu medo daqui.
E sorriu. Um sorriso tão leve e cortante que Ana recuou sem perceber.
Do outro lado da sala, Dark inclinou a cadeira para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
Ele olhou para Theo com um meio-riso, os olhos brilhando de raiva contida:
— E aí, campeão… — disse baixo, para que só ele ouvisse. — …quanto tempo mais você vai bancar o líder antes de se quebrar?
Dark inclinou a cabeça para o lado, quase em desafio:
— Ou você só aguenta porque tem a princesinha congelada do seu lado, hein?
Theo virou o rosto devagar, o olhar cravado nele como uma lâmina prestes a ser desembainhada.
— Quando eu cair… — Theo disse, voz baixa e sem piscar. — …você vai ser o primeiro a ir junto.
Dark abriu um sorriso largo, mostrando os dentes, quase excitado com a promessa.
— Tô esperando, Theo. Tô esperando.
A sala permaneceu em silêncio pesado por alguns segundos, as provocações pairando no ar junto da voz do projetor, repetindo:
“Mãe Ceres alimenta. Mãe Ceres educa. Mãe Ceres devora.”
No fundo, Daime ria baixinho.
Dru olhava para as unhas pintadas, tentando parecer desinteressada — mas não conseguia tirar os olhos de Ceres, sentada ali, imóvel como mármore. O coração dela martelava, sabendo que jamais seria capaz de enfrentar aquela garota.
Murmurou para si mesma, num fio de voz:
— Ela tem sorte... só Mãe Ceres podia dar isso pra alguém... só Mãe Ceres...
E olhou para Theo de canto, quase com ciúme.
Kat, ao lado de Gene, também observava a cena com um nó no estômago. Ceres, Ana, Theo, Dark — todos prontos para se matar — e ainda assim... ninguém ousava ir até o fim. Mãe Ceres os segurava, mantinha suas garras em todos eles.
Kat suspirou e repetiu, junto dos outros, num tom baixo, quase ritualístico:
— Mãe Ceres alimenta. Mãe Ceres educa. Mãe Ceres devora.
Um a um, todos na sala repetiram.
Até Ana, engolindo a raiva.
Até Dark, com um riso torcido nos lábios.
Até Theo, que manteve os olhos fixos em Dark ao sussurrar.
E Ceres?
Ela não moveu um músculo. Não olhou para ninguém. Só manteve o olhar fixo nas imagens do projetor. Mas seus lábios, quase imperceptivelmente, murmuraram:
— Mãe Ceres... misericordiosa.
Na penumbra da sala, a tensão parecia dobrar, mas ninguém ousava quebrar o rito.
No fundo, todos sabiam: nada, nem deus nenhum, jamais havia feito o que Mãe Ceres fez por eles. E jamais perdoaria quem se voltasse contra ela.
“Mãe Ceres alimenta. Mãe Ceres educa. Mãe Ceres devora.”
A sala se encheu desse mantra sombrio, como uma confissão de medo e devoção.
O projetor se apagou com um estalo seco, deixando a sala em penumbra, iluminada apenas pelo letreiro vermelho de SAÍDA.
O professor, de pé ao lado da tela, soltou um suspiro audível e disse apenas:
— Ótimo. Agora vocês entendem.
Ninguém se mexeu de imediato. O ar estava pesado; a raiva de uns pelos outros ainda pulsava como eletricidade entre as fileiras de cadeiras.
Os olhares venenosos — de Ana para Ceres, de Dark para Theo, de Dru para Ceres, de Kat para Dru — se cruzavam em silêncio.
Mas não havia som de briga, nem ameaça aberta.
Porque todos sabiam: aquele ódio... não era só deles.
O professor, caminhando devagar em direção à porta, lançou-lhes um último olhar frio e disse, quase com desprezo:
— Vocês ainda não perceberam? Até o ódio que vocês sentem uns pelos outros... foi dado a vocês por Ela. Moldado para servir. Até nisso vocês devem a Mãe Ceres.
Os olhos de Ceres, na penumbra, finalmente se ergueram, queimando.
Ela abriu um sorriso perigoso, como se confirmasse aquilo.
— Ela uniu até nosso ódio — murmurou, para ninguém em especial. — Ela alimenta até isso.
Daime não aguentou e riu, seco, batendo palmas baixinho, zombeteiro:
— Aí está, turma. Até quando vocês querem se matar aqui dentro... é só mais um serviço prestado pra Ela.
Um por um, ainda sem abaixar os olhos, todos repetiram de novo o mantra, quase com raiva:
— Mãe Ceres alimenta.
— Mãe Ceres educa.
— Mãe Ceres devora.
E, por um instante, não parecia que havia vencedores nem vencidos ali — apenas servos. Servos com ódio.
Servos unidos por Ela.
Todos se levantaram lentamente, o silêncio ainda pesado pairando no ar enquanto deixavam a sala de projeção.
Ceres, como uma sombra solitária, disparou pelo corredor à frente, passos decididos e firmes, deixando um rastro de frio no ar.
Daime observou, deu de ombros para Theo e comentou com um sorriso malicioso:
— Vai atrás dela, Theo. A princesa de gelo está querendo companhia.
Theo se virou, olhos frios, e devolveu na mesma moeda:
— Se ela quer correr, que corra sozinha. Ir atrás dela é desperdício de tempo e energia.
Dru, tentando disfarçar, pigarreou e falou algo para aliviar a tensão, mas Daime já tinha a resposta pronta:
— A pressa é inimiga da perfeição, minha cara. Ceres sabe o que faz.
Nesse instante, o técnico entrou no corredor, voz firme e autoritária, convocando o time para o briefing final:
— Todos no campo. Arcadia vem querendo mostrar serviço, e não vão facilitar no estádio de Ceres.
A atmosfera ficou elétrica. O desafio estava lançado. O estádio da cidade aguardava — palco para mais uma batalha, onde a honra de Ceres e seu time seria testada.
No pátio vazio, Ceres caminhava com passos lentos, como se cada passo marcasse um comando silencioso. O cabelo amarrado em coque deixava seu rosto pálido ainda mais austero, e o olhar gélido cortava o ar ao seu redor.
Dru, hesitante, se aproximou devagar, tentando manter a postura e o tom mais suave possível.
— Ei, Ceres... eu sei que talvez não seja o melhor momento, mas... eu só queria dizer que, sei lá, não precisa me odiar. Nem sentir pena de mim, ok?
Ceres parou, virou-se lentamente para Dru, os olhos brilhando com uma mistura de desprezo e curiosidade.
— Pena? Você acha que eu preciso da sua pena?
(Sua voz era fria, quase uma lâmina.)
— Não quero nada de você. Nem da sua diplomacia forçada. Apenas mantenha distância.
Dru engoliu seco, forçando um sorriso tenso.
— Tá, eu entendi. Só... se mudar de ideia, sabe onde me encontrar.
Ceres soltou um meio sorriso sarcástico, mais assustador do que amistoso, e se afastou, deixando uma aura de silêncio pesado.
Dru ficou parada, sentindo o peso daquela indiferença quase brutal, mas algo dentro dela dizia que Ceres não era fácil de ler — e muito menos de enfrentar.
Ceres entrou no ginásio como uma tempestade contida, cada movimento dela parecia carregar uma raiva silenciosa e uma concentração que deixava o ar pesado. Ela era uma besta enjaulada, moldada pelo ódio — o mesmo ódio que Theo tinha descrito como degrau para algo maior.
Ana a observava de longe, os olhos arregalados. Sabia que sua liderança estava seriamente ameaçada. Não era só pela força física ou pelo talento brutal de Ceres, mas pelo fogo que queimava em seu olhar — aquele céu gélido e aquele inferno congelado dentro dela.
Durante os treinos, Ceres mostrava progressos surpreendentes. Seu corpo, ainda marcado pelos traumas da detenção, parecia se reconstruir com uma ferocidade incansável. Os saltos ficavam mais precisos, a concentração mais afiada. Ela estava decidida a dominar, a vencer.
Ana, vendo aquilo, sentiu a derrota se aproximar. Tentou esconder, mas não conseguiu: já ensaiava sua rendição mentalmente, enquanto Ceres avançava implacável.
Ana terminou seus treinos exausta, o corpo pedindo descanso, cada músculo doendo como se tivesse sido açoitado. Sua respiração estava pesada, e a vontade de parar era quase irresistível. Ela olhou para Ceres, esperando que a adversária cedesse, que finalmente parasse também.
Mas Ceres não parava.
Com o rosto sério, cabelos presos em coque, olhos de gelo e a aura impenetrável, ela continuava. Mesmo cansada, cada salto parecia uma provocação silenciosa, como se dissesse:
— 1 a 0 pra mim. E aí, vai tentar me alcançar?
Ana percebeu, naquele momento, que não era só uma disputa física — era um duelo psicológico, e a vantagem já estava do lado de Ceres.
Foi só ao sair do ginásio, já longe daquelas paredes sufocantes, que Ana permitiu a si mesma reconhecer a derrota que se aproximava.
No dia seguinte, o sol ainda mal iluminava o ginásio quando Ana chegou às 8h em ponto. Para sua surpresa — e inquietação — Ceres já estava lá, aquecendo sozinha, firme e concentrada como uma máquina.
Ana sentiu o coração apertar. A visão daquela garota ali, tão calma e implacável, fazia sua própria determinação oscilar.
Quando os treinadores chegaram, trocaram olhares entre eles, e um deles comentou com voz admirada:
— Vocês viram a evolução da Ceres? De um dia para outro, parece outra atleta. É impressionante.
Outro treinador concordou:
— A recuperação dela após a detenção foi quase milagrosa. Parece que ela absorveu toda a energia do ódio e virou combustível.
Ana baixou o olhar, mordendo o lábio, sentindo o peso daquela realidade.
Depois do treino, Ceres não esperou por ninguém. Foi direto ao refeitório, com o corpo ainda suado e a autoestima aos poucos voltando a ocupar espaço em sua postura. A cada passo sentia-se menos vítima e mais fera. Pegou a bandeja de metal, serviu-se com calma — arroz, proteína, legumes — e sentou sozinha em uma das mesas do canto, como sempre.
De onde estava, Ceres avistou pela janela a pequena Cora. A menina de 13 anos, vestindo um vestido simples, com óculos e um lenço prendendo os cabelos, estava do lado de fora do prédio, junto aos canteiros. Cora recolhia sobras de pão e restos de carne em um saco, e, de vez em quando, se agachava para separar cascas de frutas em outra sacola menor.
Ceres ficou observando por um instante, curiosa.
Cora não fazia isso para si. Era para os cães e gatos que viviam no campo atrás do colégio, todos já conhecidos pelos alunos. Até mesmo os ratos eram alimentados — ninguém em Ceres precisava passar fome, nem bicho, nem gente. Essa era a lei. Essa era a promessa.
A menina carregava os sacos com cuidado, equilibrando-os nos braços miúdos, e sorria para um gato rajado que a seguia de longe, como se já soubesse que logo seria alimentado.
Ceres estreitou os olhos, sentindo uma pontada estranha no peito. Aquilo era... gentileza. Misericórdia. Como a que Mãe Ceres ensinava — mesmo que fosse uma misericórdia cruel, às vezes.
A menina sumiu por trás do muro, levando o sustento dos pequenos animais. Ceres respirou fundo, baixando os olhos para sua própria bandeja. Era inevitável pensar: até os ratos não passam fome aqui. Mas a gente... a gente às vezes tem que devorar uns aos outros para continuar inteiro.
Ela cravou o garfo na carne e continuou a comer.
Ceres ainda mastigava lentamente quando a porta do refeitório se abriu. Theo entrou, vindo do corredor lateral, cortando caminho para o ginásio. Ele não precisava passar por ali — mas passou.
Os olhos dos dois se encontraram quase por instinto. Não havia medo em nenhum deles. Ela, sentada sozinha, com os cabelos ainda presos num coque rígido; ele, ereto, com a toalha do treino jogada no ombro.
Nenhum desviou o olhar de imediato. Era uma guerra muda, cada um reafirmando: eu não baixo a cabeça primeiro.
Depois de alguns segundos, Theo apenas ergueu uma sobrancelha, como quem não ligava, e seguiu caminhando para a outra porta. Ceres mordeu o canto da boca, curiosa com a ousadia dele, mas logo voltou a olhar para a bandeja, como se não fosse nada.
Foi então que, no caminho, Theo parou ao lado de Cora — a menina estava ali o tempo todo, recolhendo migalhas e restos de bandejas nas pontas das mesas, quase invisível. Cora olhou para ele com seus olhos enormes e claros e falou baixinho:
— Você pode me ajudar? Igual da última vez... o saco está pesado.
Theo soltou um suspiro leve, mas um canto da boca se ergueu num sorriso contido. Não havia como negar nada àquela menina.
— Claro que sim, baixinha. — pegou o saco maior com uma das mãos, sem esforço.
Enquanto saíam juntos, Cora olhou para ele como quem guarda um segredo só deles e disse em voz baixa, como um mantra:
— Aqui em Ceres... os cães, os gatos e até os ratos não morrem de fome.
Theo riu pelo nariz, divertido.
— É isso mesmo, Cora. A Mãe cuida de todos.
Ceres, que acompanhava a cena pelo canto do olho, estreitou o olhar para aquela troca entre eles. Havia algo naquela pureza de Cora e na maneira como Theo se permitia um sorriso por ela que a desconcertava. Ela se perguntou — por um instante apenas — se algum dia também já tivera esse olhar de fé.
E então abaixou os olhos de novo para sua bandeja, fincando o garfo no arroz com uma ponta de raiva, repetindo mentalmente para si mesma: Em Ceres... ninguém morre de fome. Ninguém.
Sentada ainda no refeitório, com a bandeja fria à sua frente, Ceres acompanhou com os olhos a pequena Cora e Theo se afastando para a porta com aquele saco de restos pesados. Ele nem olhou para trás, nem fez teatro para impressioná-la. Não era um gesto para ela — era dele.
E, de alguma forma, também era dela.
Ceres fechou os olhos por um instante, e como um borrão voltou à sua mente o dia em que ele a socorreu pela primeira vez. Lembrava-se das palavras dele como um zumbido indistinto no auge da dor, mas caíra no colo dele mesmo assim. Não por heroísmo barato — mas porque antes, naquele mesmo dia, ela tinha ouvido Daime rir e humilhar Theo abertamente no pátio... e ele simplesmente não se importava. Nem uma gota de ressentimento no rosto. Lembrava também de Tycho, com fome, e Theo lhe empurrando metade do próprio pedaço de bolo do refeitório — um pedaço que ele talvez também quisesse comer, mas ainda assim entregou ao irmão.
Theo era arrogante, impetuoso, firme. Mas também tinha uma maneira quase cruel de não ter medo de mostrar vulnerabilidade, e de ser duro com quem precisava, sem máscaras para ninguém.
E foi assim que Ceres entendeu. Que a rachadura que ela mesma carregava também existia nele.
E foi por essa rachadura, que doía e sangrava, que a luz entrou.
Theo não era perfeito — mas foi ele quem, sem perceber, lhe ensinou que mesmo as coisas mais partidas ainda podiam iluminar.
Ceres abriu os olhos devagar, respirou fundo, e, pela primeira vez em muito tempo... sentiu-se viva.
No campo de treinamento, a equipe se preparava para a próxima partida contra Arcádia — um time que jamais aceitava perder sem arrastar alguém junto para o inferno. À distância, o treinador se divertia assistindo aos embates quase pessoais entre Dark e Theo.
Era sempre assim: um ódio latente entre os dois, que fervia em cada jogada, em cada choque, em cada insulto. E mesmo assim — Theo conseguia manter tudo de pé. Administrava egos inflados, feridas abertas e as brigas inevitáveis entre os colegas como quem já sabia que nada daquilo terminaria ali.
O estresse em campo nunca acabava. Nem acabaria. Theo e Dark jamais cederiam um ao outro. Se fosse até o fim do mundo, ainda estariam brigando na lama, por orgulho e por instinto.
Para Theo, Dark era apenas mais uma parte inevitável da vida — como a dor, como o frio — algo destinado a desaparecer um dia, a ser devorado pela própria Mãe Ceres e substituído por um cargo administrativo no centro ou por um posto burocrático no exército. Não importava. Mãe Ceres sempre escolhia os seus.
De longe, Ceres observava Theo em ação. Ele era ódio puro, impetuosidade crua, um animal treinado para dominar e resistir. E, mesmo carregando seus próprios traumas e cicatrizes, Ceres percebeu algo que não esperava: mesmo sendo alvo do escárnio dos outros, mesmo sendo odiado e insultado por todos, Theo ainda liderava.
Não era o cargo.
Era um estado de espírito.
Um equilíbrio. Uma segurança quase brutal. Uma eficiência em campo que ninguém conseguia igualar — e os números dele não mentiam.
Foi ali, no meio do caos, que Ceres compreendeu algo novo sobre os homens: eles se xingavam para motivar uns aos outros. Feriam-se para crescer. E mesmo assim, Theo era odiado. Talvez justamente porque ele aguentava tudo aquilo sem nunca se quebrar.
E, por um instante, Ceres sentiu uma pontada fria no peito. Porque talvez fosse isso que realmente a intrigava: não a arrogância dele. Mas a força.
E se perguntou… quanto tempo ainda ele aguentaria.
No mesmo canto do ginásio onde, semanas atrás, trocaram palavras envenenadas, lá estava Ceres. De braços cruzados, cabelos presos num coque impecável, fria como mármore.
Quando Theo apareceu, ela não hesitou.
— E aí vem ele — disse ela, com desdém teatral — o líderzinho… príncipe da Mãe Ceres.
Theo ergueu os olhos para ela, impassível, como se já soubesse o que viria. Um sorriso quase imperceptível brotou nos lábios dele.
— Olha só — respondeu seco, com humor negro — o gelo está começando a derreter.
Ceres franziu levemente a testa, mas não recuou.
— E você está destruindo a Ana… — soltou ela, quase como uma acusação, os olhos azuis cintilando com uma fúria contida.
Theo deu de ombros, impassível.
— Vai defendê-la? — perguntou, com um tom de ironia.
Ceres não hesitou:
— Vou.
Theo inclinou a cabeça, ainda com aquele sorriso cínico:
— Não. Ela que se defenda sozinha. Você também.
Os olhos dela faiscaram.
— Eu não preciso da sua ajuda — disse ela, com um tom ríspido.
— Eu sei — Theo rebateu, sem pestanejar — Ceres é o tipo de pessoa por quem ninguém deve correr atrás.
Ceres arqueou uma sobrancelha, como se aquilo a intrigasse.
— Por quê? — perguntou, quase num sussurro.
Theo aproximou-se um pouco, só o suficiente para que a resposta fosse apenas para ela:
— Porque, mesmo assim… você está aqui. Falando comigo. Sozinha. — ele deixou escapar um sorriso torto — como se tivesse vergonha de admitir… ou jogasse joguinhos.
Por um instante, Ceres congelou. Sentiu-se pega no pulo — e detestou aquilo. Um sorriso involuntário escapou de seus lábios, traindo sua máscara de frieza.
— Você se acha tão esperto — devolveu, tentando manter o tom gelado.
Theo ergueu as mãos num gesto despreocupado.
— Não me acho nada. Só tô dizendo o óbvio.
Ela respondeu à altura, mas a voz soou menos firme do que gostaria. Theo não perdeu a chance de lhe devolver aquele sorriso cínico e superior.
E então, quase ao mesmo tempo, ambos riram. Baixo, como quem se reconhece na malícia do outro. Uma trégua momentânea em meio à guerra silenciosa que travavam desde o primeiro dia.
Os dois saíram juntos do ginásio, lado a lado, sem se apressar — como se fosse natural. Não havia toques, nem palavras, mas havia uma tensão elétrica entre eles, arrogante e quase palpável.
Quando cruzaram o portão para o pátio do colégio, um silêncio pesado caiu.
Todos notaram.
Theo, com a postura impassível e o cinismo estampado no rosto.
Ceres, com aquele olhar gelado, mas a ponta de um sorriso escondida nos lábios.
Era como se desafiassem todos os outros só por estarem ali juntos.
Dru, mais adiante, engoliu em seco ao vê-los. Tentou disfarçar, mas seu olhar se fixou nos dois.
Daime estava logo ao lado dela, recostado na mureta, como quem só esperava por isso.
— Um a zero pra Ceres... — disse ele, quase num sussurro, mas com um sorriso de narrador debochado. — A mulher de gelo marca o primeiro gol.
Dru não respondeu. Apenas franziu os lábios, desconfortável.
Um pouco atrás, Kat e Gene cochichavam entre si.
— Isso não vai acabar bem — disse Kat, balançando a cabeça.
— Isso já começou mal — respondeu Gene, seco, mas com um certo tom de admiração. — Você viu a cara do Theo? Ele gostou disso.
Perto dali, sentado no banco com os braços cruzados, Dark apenas ergueu os olhos e bufou ao ver Theo e Ceres atravessarem o pátio como dois reis sem trono.
— Ótimo — murmurou para si mesmo, um sorriso torto surgindo — mais um alvo pro meu repertório.
Aos poucos, o burburinho foi crescendo.
Mas Theo e Ceres... não deram nem um olhar para ninguém.
Caminharam lentamente pelo pátio até desaparecerem do alcance imediato dos olhares curiosos.
Eles sabiam.
Cada passo era uma provocação.
E aquele 1 a 0 ecoava para todos que prestavam atenção.
Fim da parte 4
Thoughts
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PermalinkUma coisa não me sai da cabeça: a Cora junta sobra para alimentar até os ratos, e cinco minutos antes o projetor mostra criança lá fora com a costela à mostra. O colégio inteiro se sustenta nessa diferença.
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PermalinkO que me ficou deste capítulo foi a Ana encostada à parede depois de a Ceres passar, a morder o lábio e a decidir sozinha que aquele segundo de medo era imperdoável. Fiquei com pena dela e não estava à espera disso. Ela vai perder a plataforma muito antes de perder o salto, e desconfio que já percebeu.
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PermalinkLi de uma vez só. O que ficou comigo foi o professor dizendo que até o ódio que eles sentem uns pelos outros foi Ela quem deu, moldado para servir. Isso muda o sentido de tudo o que veio antes, as brigas no campo, a Ana e a Ceres no corredor. Obrigado por postar isto aqui! Me avisa quando sair a próxima parte.
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PermalinkLi esse pra minha avo de novo e ela travou no pedaco da Cora catando resto pros bicho, disse que conheceu uma menina assim na rua dela
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