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Capítulo 4: Colégio Militar parte 2

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A sala do laboratório já fervilhava de vozes quando Theo entrou.

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Ovid

Obrigado por publicar isto aqui! O mantra da Mãe Ceres aparece duas vezes, uma como oração no corredor e outra sussurrado pelo Gene com a voz falhando, e foi o que ficou comigo. A mesma frase serve de conforto e de ameaça, e isso diz mais daquele colégio

Obrigado por publicar isto aqui! O mantra da Mãe Ceres aparece duas vezes, uma como oração no corredor e outra sussurrado pelo Gene com a voz falhando, e foi o que ficou comigo. A mesma frase serve de conforto e de ameaça, e isso diz mais daquele colégio do que qualquer regra escrita. Essa história vai ter parte 3?

Conteúdo da publicação

O laboratório de química

A sala do laboratório já fervilhava de vozes quando Theo entrou.

Era sempre o último a chegar. Nunca atrasado, mas também nunca cedo.

Era de propósito.

O barulho cessou por um instante quando ele passou pela porta, como sempre acontecia, e então voltou a aumentar, num coro abafado de cochichos e risadinhas.

Ele já sabia.

Sentia o cheiro antes mesmo de ver o fio prateado escorrendo da porta.

Água oxigenada.

Quando ele empurrou a porta, o frasco mal equilibrado escorregou da parte de cima e se despedaçou, jorrando o líquido sobre a cabeça dele.

Theo se moveu, mas não para escapar. Só desviou o rosto por instinto.

A água caiu sobre seus cabelos negros, espalhando o cheiro ácido pelo ar.

Por um instante, ninguém respirou.

E então vieram as risadas.

Dark, encostado numa bancada com os braços cruzados, gargalhava como um idiota.

O resto do time dele também, batendo nas mesas, apontando, soltando piadinhas baixas como chacais sentindo cheiro de sangue.

Theo ficou lá, parado no centro da sala, a franja escorrendo pingos incolores sobre a gola cinza da jaqueta.

Não disse nada.

Não se defendeu.

Nem sequer se incomodou em limpar.

Só andou até o lugar dele como se nada tivesse acontecido, as solas ecoando no piso frio, ignorando completamente o espetáculo em volta.

Dark tentou provocar mais um pouco, mas o riso dele morreu rápido quando percebeu que nada quebrava Theo.

Na bancada ao lado, Dru observava tudo em silêncio.

Os dedos dela seguravam tão forte o lápis que ele quase se partia, mas seu rosto não mostrava nada além do habitual desprezo pelas piadas do time.

Ela sabia exatamente por que ele não fez nada.

Ela sabia porque ele não olhou para Dark.

Porque ele não reagiu.

Porque ele não se importava com nada daquilo.

Não enquanto aqueles malditos olhos ainda morassem dentro dele.

Aqueles olhos arrogantes e lindos, que deixariam qualquer um desnorteado.

E que, devagarinho, estavam arrancando Theo do mundo em que todos viviam.

Dru desviou o olhar, tentando disfarçar a pontada no peito.

Ele podia não ser dela, nem nunca ter sido completamente.

Mas vê-lo assim, perdido em alguém que nem estava ali, doía mais do que ela gostaria de admitir.

Quando Theo sentou no banco, a turma ainda não tinha sossegado.

Dark não aguentou. Cruzou os braços sobre a bancada, inclinou-se para frente e falou alto, para todo mundo ouvir:

— Ô, Theo… agora tu tá um gambá, mano. — Ele riu sozinho, como se a própria piada fosse genial. — Vai ter que comer a Dru pra ela te dar uns perfume caseiro, senão não tem jeito.

As risadas ecoaram pela sala de novo. Dark se apoiava no cotovelo, todo satisfeito.

Até Daime, lá no fundo, segurou o riso por uns segundos antes de falar:

— Hahaha… porra, Dark, eu tenho que admitir, essa foi boa demais. — E já emendou, com aquele tom escroto e boca suja que só ele tinha: — Mas tu continua sendo um merda de um palhaço.

Dark só riu, satisfeito por arrancar alguma reação.

Theo, porém, ficou exatamente como estava, pegando uma pinça e um tubo de ensaio, como se estivesse sozinho na sala.

Só ergueu os olhos devagar, mirando Dark por cima dos óculos, e a sala inteira pareceu esfriar.

A voz dele saiu calma, mas afiada o bastante para cortar:

— Abaixa a bola, Dark. Ela não é brinquedo.

O silêncio caiu como uma lâmina, instantâneo.

Dark até recuou meio sem jeito, disfarçando com um resmungo qualquer e fingindo que ia mexer no experimento.

Os outros alunos desviaram o olhar.

Dru, sentada a duas bancadas de distância, assistia a tudo sem demonstrar nada além de um leve arquejo nos lábios, como se aquilo fosse o suficiente para lembrá-la de por que ainda gostava dele.

Theo voltou para o que fazia, sem dizer mais uma palavra.
Do outro lado, Daime olhou para ele e soltou um assobio baixo, com um sorrisinho maroto no canto da boca:
— Esse é meu idiota do bem... — murmurou, só para si mesmo.

O rangido pesado da porta anunciava a entrada do professor de química — jaleco sujo de pó branco, óculos tortos, olhar impaciente.
Ele parou no centro da sala, notando o chão ainda molhado com respingos da água oxigenada.
— Quem foi o engraçadinho? — a voz cortou o riso contido no ar.

Silêncio por alguns segundos.
Quase em uníssono, o time de Flagball apontou para Theo.
O professor arregalou os olhos.
— Claro que foi você... só podia ser você, Gambá. — disse, e a sala inteira desabou numa gargalhada ainda mais cruel.

Dark inclinou-se na cadeira, cruzando os braços, saboreando cada instante do constrangimento.
— Vai lá, Gambá... limpa isso aí antes que eu escorregue — provocou, alto o suficiente para todos ouvirem.

Theo não reagiu. Nem um músculo da face se mexeu.
Seus olhos piscavam pesados, fixos no que não queria encarar — Dark.

O professor jogou um pano e um rodo em sua direção, impaciente:
— Limpa isso. Agora.

O barulho do pano caindo ecoou.
Dru ficou imóvel no canto, dedos tocando a própria blusa, olhos fixos no chão. Não sorriu, não chorou, não disse nada — só a respiração curta denunciava o incômodo.

Daime mordeu a ponta da língua, torceu os lábios num sorriso torto e debochado, mas por dentro fervia:
— Vai lá, Gambá. Mostra que sabe esfregar... — murmurou, entre um risinho forçado e um ódio disfarçado, olhando para Dark como quem quer cuspir.

Theo pegou o pano com calma, sem olhar para ninguém, sem dizer nada.
Ajoelhou-se no chão e começou a passar o pano devagar, como se fosse só mais um treino, mais uma humilhação banal em nome da Mãe Ceres.

Seu cabelo molhado caía no rosto, e uma mecha branca já começava a se insinuar entre os fios negros.

Dark inclinou-se para frente, malicioso:
— Cheiro de gambá e agora cabelo de velho. Tá bonito pra você, hein?

Theo levantou os olhos por um segundo — frios, mortos, sem dizer nada.
Dark, por mais que risse, sentiu aquela pontada na espinha.
Porque, mesmo ajoelhado, limpando o chão sujo, Theo ainda parecia... perigoso.

Enquanto passava o pano, sentia o calor de todos os olhares sobre ele — Dark satisfeito, o professor de braços cruzados, o time se divertindo. Até Daime resmungava ao fundo.
Mas ele não sentia nada.

O ódio que sempre queimava em seu peito — aquela raiva de chumbo que a Mãe Ceres ensinou a moldar — sumiu.

Tudo o que via eram aqueles malditos olhos.
Azuis como céu, mas com um inferno escondido atrás.
Olhos que caçavam almas mentirosas e faziam as justas tremerem.
Olhos arrogantes e frágeis, como os seus próprios.
Olhos que, por um instante, confiaram nele.

Passava o pano sem pressa, cada vez mais distraído, como se limpasse não o chão, mas as próprias memórias.

Dark soltou mais uma piada:
— Vai logo, Gambá. Se deixar cair cabelo branco no chão, limpa também!

A turma gargalhou.
Theo sorriu de leve, ainda ajoelhado, sem encarar ninguém.
Não era sorriso de aceitação.
Nem de dor.
Era só... um sorriso anestesiado.

Porque nada daquilo era importante.
Nada comparado aos olhos dela.

Daime cochichou, confuso e meio bravo:
— Esse filho da mãe tá virando monge agora? Tá rindo por quê?
E completou, debochado:
— Aposto que é por causa da assombração gostosinha... moleque tá perdido mesmo.

Dru fechou os punhos ao lado do balcão, desviou o olhar, mordendo os lábios para não falar.
Porque ela também sabia.
Aqueles olhos azuis tinham roubado o ódio de Theo.
E isso era mais perigoso do que qualquer um ali podia imaginar.

Quando finalmente terminou e devolveu o rodo ao professor, Theo se levantou com aquela calma que ninguém entendia.
A mecha branca, ainda úmida, parecia brilhar contra o negro dos fios.

Todos continuaram rindo, Dark mais alto que os outros:
— Ficou a cara de gambá mesmo, Theo. Quer que eu te arrume um perfume pra esconder?

Mas Dru olhava para ele diferente.
Ela via o que ninguém ali enxergava.
E era verdade: não ficou feio.
Ficou estiloso.
Ficou diferente.
Sexy.

Aquele tipo de homem que não reage por impulso.
Que carrega a vergonha dos outros para manter o grupo forte.
Que tolera humilhações para proteger o nome do colégio.
Que engole insultos para honrar a Mãe Ceres.

Ele passou devagar pelo corredor, ajeitando a jaqueta cinza no ombro.
A mecha branca parecia brilhar no cabelo negro.
Alguns pararam de rir. Outros, sem entender por quê, começaram a olhar com respeito.

No fundo, Dru murmurou para si mesma, com um meio sorriso e lágrimas escondidas no canto do olho:
— Ele é bonito até sendo humilhado. Bonito porque não deixa a humilhação matá-lo.

Theo abriu a porta da sala, já sozinho no corredor frio de mármore.
Repetiu em pensamento o velho mantra que todos aprendiam no pátio desde crianças, mas que nele soava mais verdadeiro que nunca:

Mãe Ceres
Que educa
Que nos alimenta
E que nos devora!

A mão dele fechou a porta devagar atrás de si.
E, por um instante, até a Mãe Ceres teria se orgulhado daquele gambá de mecha branca.

O refeitório fervia na rotina habitual: risos contidos, conversas ensaiadas, talheres tilintando sobre pratos impecáveis. Gene mastigava nervoso, Dru lançava olhares furtivos para a mesa de Theo, que, por sua vez, mantinha o olhar fixo no prato, como se tentasse afogar algo mais profundo.

De repente, a porta rangeu. Todos pararam — não por ordem, mas por instinto. Ela entrou.

A garota dos olhos azuis. Pele pálida, corpo esculpido como mármore frio. Passos firmes, sozinha, cada passo uma sentença muda. O silêncio ao redor parecia moldar-se a ela.

Sem hesitar, cruzou o salão e sentou-se numa mesa vazia, estrategicamente posicionada de frente para Theo, numa espécie de duelo mudo. Seu olhar, afiado como o de uma águia, encontrou o dele num instante eterno.

Daime, do canto, soltou um comentário rude, que só fez acender um lampejo de ciúmes velado no rosto de Dru, enquanto Gene engolia em seco, e Tycho, distraído, saboreava seu café, alheio ao jogo de olhares.

A mensagem dela era clara, mesmo sem dizer uma palavra: “Eu vejo você. Estou aqui. E nada escapa aos meus olhos.”

No refeitório, a garota de cabelos longos e negros sentava-se como uma estátua viva, imóvel, a face oculta atrás da cortina escura de fios. Seu olhar era uma armadilha silenciosa, como se medisse cada respiração da sala.

Theo, com sua mecha branca reluzindo sob a luz fria, parecia um animal selvagem exposto num campo aberto, instintivamente alerta, destacando-se entre a multidão uniforme.

Ela comia como se o mundo ali não existisse — ou talvez como se existisse só para ela e para Theo. De tempos em tempos, seus olhos sombrios se erguiam, mirando Theo, fazendo o ar parecer gelado, cortante. Era como se desafiasse, testasse, ou simplesmente reconhecesse nele um igual.

Ao seu redor, os olhares se tornavam inquietos. Os murmúrios cessavam. O medo era palpável, um nó no estômago de cada um que a fitava. Era a arrogância, sim — mas a arrogância de quem sabe que está além do alcance e do julgamento.

Ela era o espelho frio e implacável de Theo — destemida, selvagem, uma sombra que rastejava pelo salão e, ainda assim, o dominava com sua presença.

Daime foi o primeiro a quebrar o silêncio, com aquele sorriso torto e veneno habitual:

— Putz… sinistra, hein? Mas que ela dá um tesãozinho nesse jeitão assombração, dá.

E soltou uma risada baixa, mas logo desviou o olhar, como se temesse que a garota pudesse ouvir.

Gene, percebendo a rigidez de Theo, se inclinou um pouco para ele e disse num tom baixo e tranquilizador:

— Relaxa, Theo. Tá tudo bem. Ela só tá… sei lá… marcando território. Você sabe lidar com isso.

Era a maneira de Gene dizer: “Não perde a cabeça, você é o líder aqui.”

Tycho nem ergueu os olhos do prato, mastigando calmamente, como se nada demais estivesse acontecendo. Só murmurou para si mesmo:

— Nossa… hoje tá boa demais essa mistura.

E enfiou mais uma colherada na boca.

Já Dru, apoiando o cotovelo na mesa e sem tirar os olhos da garota, comentou num sussurro leve, quase admirado:

— Eu amo o cabelo dela… e esses olhos. Tem algo neles… que prende a gente, não é?

Ela sorriu de canto, mas havia uma pontada de dor disfarçada ali. Sabia, como sempre soube, que Theo já não estava só no jogo dela.

Mais tarde, no ginásio, o som seco dos pés batendo na madeira polida ecoava entre as colunas altas. O espaço fervilhava de vozes, bolas quicando, treinadores apitando — mas para Ana, tudo isso sumia ao ver, à distância, a silhueta familiar.

Ela estava lá.

A novata.

De uniforme impecável, cabelos longos e negros caindo como um véu sobre a face pálida, a garota subia lentamente as escadas da plataforma de saltos ornamentais, como se o lugar já fosse dela.

Ana apertou a borda do banco com tanta força que os dedos ficaram brancos.

Sentiu na espinha: aquela presença era um desafio direto, sem palavras, como uma sentença.

Os olhos dela… aqueles olhos do demônio…

Virou para o lado, procurando seu treinador, e disparou, com uma risada curta e amarga:

— Professor… qual o nome da garota estranha? Essa aí… a dos olhos do inferno?

O professor, um homem grisalho que lia uma prancheta sem levantar a cabeça, respondeu seco, como se nem precisasse pensar:

— Ceres.

Ana congelou por um instante.

A palavra ecoou pelo peito como um soco.

Como uma profecia.

Ceres.

Um nome que não deveria ser dito com tanta naturalidade, e ainda assim… estava ali, entre eles, como se fosse apenas mais uma aluna.

Ana mordeu o lábio, os olhos verdes faiscando de raiva e fascínio enquanto observava a novata caminhar até a beira da plataforma, já pronta para o salto.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu medo de perder o lugar no topo.

Seu nome era pesado demais.

Pesado como chumbo derretido, como as paredes frias e sem janelas daquela cidade de concreto.

Ceres.

Era como dizer em voz alta o nome da própria Mãe, um atrevimento que queimava a língua.

Pesado como seu olhar, aquele olhar que caçava almas sem pestanejar.

Ceres era sinistra.

E linda.

Linda como uma estátua de mármore entalhada para provocar medo antes de admiração.
A ameaça perfeita — um lembrete vivo de que a Mãe não escolhia os fracos para pôr à frente.

Quando o professor murmurou que “ela é perfeita”, ninguém ousou contestar.
Mas Ana sentiu as tripas revirarem, queimarem, um ódio cru subindo como veneno pela garganta.
Ali mesmo, sem trocar palavras, Ana a odiava.
Odiava com a força das entranhas, com a convicção feroz de quem sempre foi líder e agora via a própria coroa brilhar na cabeça de outra.

A verdade era clara para todos que conheciam a Mãe:
Ela não dava presentes.
Não poupava ninguém.
Plantava a discórdia no coração dos jovens, deixava-os brigar, morder, arranhar, destruir uns aos outros — e então observava, fria e distante, para ver quem sobrava de pé no fim.
Esses eram os generais.

Mesmo que aquele colégio fosse só mais um entre mil espalhados pelo império, ele era aquele.
O colégio do qual sempre se esperava grandes coisas.
Nem sempre formava os melhores.
Mas nunca decepcionava.

E, naquele pátio, naquela piscina, naquele ginásio, só havia lugar para um nome no topo.
E agora esse nome ecoava nas paredes como um presságio:
Ceres.

Gene e Theo se encontraram no pátio dos fundos depois do treino, cada um com uma garrafinha d’água suando nas mãos.
A conversa inevitavelmente foi para ela — a nova.

Gene, claro, puxou o assunto primeiro.
— E então... — disse, encostado no muro, chutando pedrinhas — aquela garota... Ceres. Sinistra, né?

Theo não respondeu de imediato. Apenas bebeu um gole, os olhos negros fixos num ponto distante, como se ainda tentasse escapar daquele olhar azul que o perseguia desde o dia anterior.
— Sinistra. — murmurou, sem emoção na voz.

Gene sorriu de canto, desconfortável com o silêncio que se seguiu. Para escapar do peso do assunto, lembrou-se de outra coisa:
— Ei... sabe o que eu consegui?

— Hm? — Theo ergueu a sobrancelha.

— Mais três fitas. Novinhas. Rock pesado. — Gene olhou em volta, como quem teme microfones invisíveis. — Tô escondendo tudo lá no forro do armário do dormitório. Já são... quinze fitas, cara. Quinze.

— É proibido. — lembrou Theo, quase como um aviso, mas havia um leve sorriso no rosto.

— Tudo aqui é proibido. Até respirar alto é proibido. Mas alguém tem que manter a música viva.

— Verdade. — Theo encostou na parede ao lado dele, olhando o céu branco e sufocante de Ceres. — Se te pegarem, só não fala que fui eu quem te incentivou.

— Pode deixar.

Gene riu sem graça, mas logo perdeu a expressão leve, mordendo o lábio inferior.
— Theo... eu também tô preocupado com a Kat.

Theo desviou os olhos para ele.
— Não fala mais comigo. Não responde. Parece... sei lá... diferente.

Theo demorou para responder. Finalmente murmurou:
— Se tiver transando por aí... melhor tomar cuidado. Tem muita adolescente grávida naquele dormitório. E não tem anjo pra ninguém nesse lugar.

Gene soltou um risinho nervoso, mas os olhos estavam baixos.
— Eu sei...

Theo não disse mais nada. Ficou ali em silêncio com ele, deixando o peso do mundo repousar sobre os ombros dos dois por um instante.

A música proibida ecoava só na memória de Gene, como um consolo que não podia dividir com mais ninguém além do amigo.

Era madrugada em Ceres.
No dormitório masculino, só se ouvia a respiração pesada dos outros rapazes.

Gene cutucou Theo com a ponta do cotovelo, quase sem som, só um sussurro rouco:
— Vem.

Theo abriu um olho e, com um suspiro resignado, seguiu o amigo pelo corredor até uma saleta de manutenção que ficava atrás da lavanderia.
O chão gelado, a lâmpada fraca, cheiro de mofo. Gene fechou a porta devagar e tirou do bolso um walkman velho com dois fones em Y.

— Tá pronto pra quebrar mais uma lei? — murmurou Gene, com aquele sorriso cúmplice.

Theo cruzou os braços.
— Tô pronto pra ver você ser expulso por burrice.

Gene só riu, ligou o aparelho e estendeu um dos fones para ele.

Theo hesitou... mas pegou.

A fita rodou. Uma guitarra suja, uma bateria feroz, um vocal arrastado e rebelde encheram os ouvidos de ambos.

Gene fechou os olhos, se deixando levar. Theo ficou em pé, sério como sempre, mas não devolveu o fone.

Quando a música terminou, Gene ainda tinha aquele sorriso melancólico.
— Sabe o que eu sinto quando ouço isso? — perguntou, encarando o chão.

Theo não respondeu.

— Saudade. Da Kat.

Theo arqueou a sobrancelha.
— Como assim?

Gene mordeu o lábio, frustrado, a voz falhando.
— Gosto dela demais, Theo. Não consigo parar de pensar nela. Ela me ignora, mas eu não... não consigo parar.

Theo tirou o fone da orelha e olhou para ele, sério, os olhos negros parecendo censurar e compreender ao mesmo tempo.
— Você fala como se fosse uma doença.

— É. Talvez seja mesmo. — Gene riu sem graça. Depois ergueu os olhos e disparou: — Igual você com a Ceres.

Theo o fitou, gelado.

Gene não recuou:
— Não tenta me enganar, Theo. Eu vejo como você olha pra ela. Igual eu olho pra Kat. Como se fosse o fim do mundo.

Theo respirou fundo. Devolveu o fone para o ouvido, ligou outra música, e disse num tom baixo:
— Você não entende nada.

— Entendo sim. — Gene sorriu triste. — Porque dói igual.

Ficaram ali, os dois, dividindo o som proibido, dividindo a dor proibida, dividindo tudo que era proibido em Ceres. Porque, no fundo, sabiam: ninguém naquele lugar entenderia o que queimava dentro deles.

Quando a última música da fita acabou, Theo ficou ainda alguns segundos com os olhos fechados, respirando o som que morria no fone. Então tirou o aparelho do ouvido, entregou para Gene com um olhar sombrio.
— Você é um idiota. — disse ele, baixo.

Gene riu, tentando aliviar:
— Idiota por gostar da Kat ou por gostar de música?

Theo se encostou na parede, braços cruzados, olhos fixos num ponto além do concreto:
— Idiota por esconder fitas.

Gene parou de sorrir.
— Ah... isso... — tentou dizer, mas a voz morreu.

Theo respirou fundo, pesado, como quem pesa as palavras.
— Música não é traição. Mas também não é nada que valha a pena ficar duas semanas na detenção.

Gene engoliu em seco. Theo continuou, voz baixa e seca, quase um sussurro conspiratório:
— Na primeira semana você dorme no chão frio, come lavagem. Te enfiam uma pílula na garganta até você abrir a alma só pra parar a agonia. Perguntas e perguntas, gente de cinza rondando.

Gene estava pálido, sem conseguir encarar Theo.
— Na segunda semana — prosseguiu Theo, impassível — te dão um quarto com cama macia, comida boa... projetores te mostrando quem você “precisa” ser, terapeutas sorridentes corrigindo você até sobrar só a casca.

Gene segurava o walkman com as mãos trêmulas.
— Mas... a gente sempre volta, não? — perguntou, voz pequena.

Theo finalmente olhou para ele, olhos negros como poços sem fundo.
— Nem todos. Alguns voltam. Outros... perdem o nome. Viram números. Queimam os registros deles na praça D, junto com suas memórias.

Um silêncio gelado tomou a saleta.

Gene fechou os olhos e murmurou o mantra com voz embargada:
— Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa... que nos devora.

Theo repetiu em voz baixa, como um voto e uma maldição ao mesmo tempo:
— ...que nos devora.

Depois, recolheram o walkman e voltaram em silêncio para o dormitório.

Mas, naquela noite, Theo não conseguiu dormir — com a lembrança do sorriso de Gene e daqueles olhos azuis arrogantes queimando no fundo da mente.

No dia seguinte, o refeitório estava mais silencioso do que nunca. Era um silêncio pesado, cheio de olhares atravessados e medo não dito.

Na parede de azulejos, bem acima das mesas centrais, uma pichação preta e irregular gritava para todos:

MÃE CERES, SUA VADIA MERETRIZ IMUNDA!

As letras tortas pareciam cuspidas de raiva. Ainda pingavam em alguns pontos, como se a tinta estivesse fresca.

Quando Theo entrou, sentiu a tensão no ar como um cheiro acre. Todos olhavam a pichação com ódio, sussurrando uns com os outros. Um murmúrio se repetia como um mantra invertido:

— Blasfêmia...
— Traidor...
— Isso não pode ficar impune...
— Merece morrer.

Gene já estava sentado num canto, pálido, com olhar fixo no chão. Tycho mastigava devagar, sem compreender direito, embora até ele já percebesse que algo estava muito errado.

Daime, por sua vez, parecia uma fera, mãos cerradas sobre a mesa:
— Filho da puta corajoso, hein... pra fazer isso aqui... vai pagar. — Seus dentes cerrados denunciavam que, no fundo, não era só ódio: era medo também.

Dark, ao contrário, parecia quase se divertir, olhos brilhando com malícia.
— É... finalmente alguém teve colhões pra falar o que pensava... — disse baixinho, mas se calou quando Dru lançou-lhe um olhar cortante.

Dru, sentada ao lado de Theo, estava séria, fria, mas ele percebia o ciúme e a indignação misturados na respiração pesada dela.
— Covarde... nem para mostrar a cara... — murmurou, mais para si mesma.

Theo ficou em pé por um tempo, olhando aquelas palavras enormes no azulejo branco. Não sentia raiva nem medo — sentia algo que não sabia nomear. Um frio no estômago, como se aquelas letras pretas queimassem a superfície de tudo o que era certo.

E, lá do outro lado do refeitório, sentada sozinha como sempre, estava ela.

Ceres.

Com os cabelos longos caindo sobre o rosto pálido, postura ereta e olhos azuis fixos na pichação. Não parecia assustada, nem surpresa, nem indignada. Só... arrogante. Como se já soubesse que isso ia acontecer.

E, por um instante, Theo teve certeza — mesmo sem prova alguma — que ela sabia quem tinha feito aquilo.

E mais ainda...

Que ela aprovara.

Ceres não reagiu.

Sentada sozinha à mesa, com postura de mármore, não parecia sequer notar o escândalo à sua volta.

Enquanto todos no refeitório murmuravam, xingavam o autor da blasfêmia e se enchiam de ódio, ela mantinha o mesmo semblante frio, os olhos azuis fixos na pichação como se fosse apenas mais uma parede qualquer.

Mas dentro dela... dentro dela queimava um ódio silencioso.

“Quem?...” pensava.
“Quem foi o infeliz? Quem ousou xingar a Mãe?”

Por dentro, seu peito fervia como água em caldeirão.
Por fora, permanecia impassível, com aquele rosto de arrogância tão familiar — um reflexo invertido do próprio Theo.

Mas em sua mente, uma certeza retinia como martelo:
“Quem fez isso merece morrer. Traidor. Blasfemo. Cão imundo. A Mãe nos alimenta, nos protege, nos corrige... como alguém ousa cuspir nela?”

O efeito dos remédios ainda pesava em seu corpo. Eles a mantinham dócil, fria, sem grandes reações, exatamente como queriam. Mas nenhum remédio do mundo apagaria aquilo que ela sentia pela Mãe Ceres:
Amor.
Medo.
Ódio pelos que não obedecem.

Ela também era filha da Mãe.
Ela também fora doutrinada desde criança para acreditar que Mãe Ceres era tudo, e que a pior morte era aquela para quem perdia seu nome e sua história.
Ela também se envergonhava do traidor.

“Vai pagar... quem quer que seja, vai pagar...”

Do outro lado do salão, Theo a observava de longe.
E, por mais que não conseguisse decifrá-la, por um instante acreditou ter visto um relâmpago nos olhos dela.
Um relâmpago de ódio igual ao de todos.
Ou ainda mais profundo.

E foi só então que Theo entendeu:
Ceres não era só um mistério.
Ceres era deles.
Ceres também era da Mãe.
E talvez, no fundo, fosse ainda pior que todos eles juntos.

No pátio, já não havia mais nada escrito.
Os servidores do colégio, de jalecos cinzentos e semblantes vazios, haviam apagado a pichação com pincéis grossos e um solvente que queimava o ar com cheiro acre. Cada passada apagava mais um traço da heresia, até não restar nada além de uma mancha úmida na parede branca.

Todos os alunos foram levados para a sala de aula, como se nada tivesse acontecido.
Mas nada nunca era nada, em Ceres.

A tensão era palpável no ar.
Mesmo atrás das carteiras enfileiradas, com uniformes bem passados e cabeças abaixadas, olhares corriam nervosos pelas janelas, portas, corredor.

O som metálico dos passos ecoou antes que eles entrassem.

Finda parte 2

Assista o video Theo - O Filho de Chumbo

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Thoughts

  • ArnaldoBessa

    Fiquei preso na descrição das duas semanas de detenção. A primeira, com o chão frio e a pílula na garganta, dá para entender. A segunda é a que me tirou o sossego: cama macia, comida boa, terapeuta sorrindo, e o sujeito sai de lá sem nome. O Gene sabe disso e mesmo assim guarda quinze fitas no forro do armário. Eu diria que ele já escolheu perder o nome antes de perder a música.

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  • AlmaTavares

    O que me ficou foi o Theo a limpar o chão devagar com a sala a rir. Senti ali uma calma que assusta mais do que qualquer resposta que ele desse. Aposto que a Ceres reparou nisso melhor do que toda a gente naquela sala.

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  • Ovid

    Obrigado por publicar isto aqui! O mantra da Mãe Ceres aparece duas vezes, uma como oração no corredor e outra sussurrado pelo Gene com a voz falhando, e foi o que ficou comigo. A mesma frase serve de conforto e de ameaça, e isso diz mais daquele colégio do que qualquer regra escrita. Essa história vai ter parte 3?

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  • mariinha

    Gene esconder quinze fitas no forro do armario me deu um aperto, eu ja escondi coisa boba assim de casa e nem era proibido de verdade

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