O Harlan treme demais para quem só tem medo por si. Se calhar há alguém dele aqui em Arken que o capitão tem na mão.
Capítulo 04 - A Cidade o aguardava
Arken não parecia ser uma cidade que recebia muitos viajantes, parecia uma cidade que agia com hostilidade com aqueles que estrava, mesmo depois que os portões se fecharam atrás da caravana,…
In groups
Pensamento
O Harlan treme demais para quem só tem medo por si. Se calhar há alguém dele aqui em Arken que o capitão tem na mão.
Conteúdo da publicação
Arken não parecia ser uma cidade que recebia muitos viajantes, parecia uma cidade que agia com hostilidade com aqueles que estrava, mesmo depois que os portões se fecharam atrás da caravana, Daiquiri continuou sentindo o peso dos olhos sobre eles, guardas estava posicionados em cada torre, comerciantes interrompiam suas conversas para acompanhar a passagem das carroças e, em algumas janelas, rostos surgiam por alguns segundos antes de desaparecerem novamente.
Não havia hostilidade evidente, mas existia uma atenção incomum, uma espécie de expectativa silenciosa que tornava o movimento pelas ruas desconfortável.
A cidade era muito maior do que Daiquiri imaginara, construída sobre diferentes níveis de pedra, Arken se espalhava pelas encostas como uma muralha viva, com escadarias largas conectando os bairros superiores aos mercados, pontes atravessando abismos estreitos e canais de água passando entre as construções. No ponto mais alto, a torre branca que Marina havia identificado como a biblioteca dominava o horizonte.
— Eu estava esperando uma cidade antiga e misteriosa — dizia João enquanto olhava para as construções. — Não uma cidade antiga, misteriosa e com pelo menos seis lugares diferentes onde alguém poderia tentar nos matar.
— Isso é uma observação ou uma reclamação? — Marina caminhava ao lado dele.
Alexander seguia à frente, observando cada rua antes que a caravana passasse. A cauda longa do homem-lagarto se movia lentamente atrás dele, quase tocando o chão, enquanto suas pupilas estreitas percorriam janelas e becos.
— Parem de falar por alguns minutos — disse ele.
João ia soltar uma piada como resposta, mas Marina o interrompeu.
— Ele tá certo, João... — ela apontou para os becos e viu sombras correndo em capas escuras e rasgadas.
Daiquiri mal escutava a conversa, continuava olhando para a torre. O homem que os observava do alto havia desaparecido assim que a caravana entrou na cidade, mas a sensação de estar sendo acompanhado, e observado, não havia diminuído, pelo contrário, quanto mais avançavam, mais evidente parecia que alguém sabia de sua presença.
Harland conduziu a caravana até uma praça comercial onde algumas das carroças deveriam ser descarregadas, a maior parte dos viajantes seguiria para hospedarias próximas, mas antes que qualquer um pudesse começar a organizar seus pertences, quatro soldados se aproximaram. O homem que vinha à frente usava uma armadura semelhante à dos guardas da entrada, embora mais ornamentada. Ele tinha o cabelo grisalho cortado rente e uma cicatriz atravessando a sobrancelha esquerda.
— Harlan — disse ele, fazendo o comerciante parar. — Sou o capitão Varik.
Os dois se cumprimentaram sem apertar as mãos, Varik olhou rapidamente para os outros viajantes antes de voltar a atenção para Harlan.
— Houve problemas na estrada?
— Nada que não estivesse previsto, capitão — Harlan olhou para trás em direção aos quatro amigos que estavam mais ao longe.
Marina olhou imediatamente para Daiquiri, João e Alexander.
— Isso é bom — Varik continuou. — O responsável pelo contrato ficará satisfeito com o sucesso da caravana.
— Responsável pelo contrato? — Daiquiri não percebeu, mas havia dito em voz alta.
Varik imediatamente olhou para ele, e por um instante, seu rosto perdeu totalmente a neutralidade.
— Então você é o filho do herói, Daiquiri. — Claramente não era uma pergunta.
— Sou — Daiquiri sentiu os músculos dos braços se contraírem.
O capitão observou por alguns segundos, seus olhos passaram para João, Marina e Alexander, como se também soubesse quem eram.
— Vieram todos juntos? — ele perguntou, mas não obteve respostas. — Ótimo, a hospedagem dos mercenários já foi providenciada.
João ergueu a sobrancelha.
— Providenciada por quem?
— Por quem pagou a hospedagem? — Varik olhou para ele.
— E quem pagou? Isso não esclareceu absolutamente nada.
Marina tocou o braço do irmão antes que ele pudesse piorar aquela situação
— Agradecemos, capitão — ela assentiu com a cabeça.
Varik fez um gesto para que dois soldados levassem algumas das bagagens, quando tentaram pegar a bolsa de Marina ela recuou e fez sinal de que não era necessário.
— Quero saber quem contratou os nossos serviços de proteção. — Daiquiri, não se moveu, encarava o capitão fixamente, seus olhos estavam cheios de coragem, uma coragem que até então ele não havia demonstrado em toda a sua vida, ele sabia que enfrentar o capitão assim poderia custar sua liberdade ou até mesmo a sua vida, porém não estava preocupado com o que pudesse vir a acontecer. — E quem decidiu que eu deveria estar nela?
— Parece que o filhotinho deixou a ninhada — Varik, o encarou por alguns segundos. — Você terá a resposta da sua pergunta quando chegar a hora, no momento descanse, garoto.
O silêncio que veio depois foi diferente dos anteriores, Varik olhou para Harlan e o mesmo desviou o olhar. Aquilo era o suficiente.
— Eu já perguntei — Daiquiri deu um passo à frente.
— Não cabe a mim responder — o capitão se afastou. — Descansem, amanhã vocês serão recebidos no templo.
João esperou o capitão e os soldados se afastarem antes de começar a falar:
— Eu adoraria reclamar com o prefeito dessa cidade, essa recepção não foi nada agradável, mas acho que estamos diante de um novo recorde, é a primeira cidade que entramos e não saindo na briga com guardas ou ladrões.
— Você sabia, não sabia? — Alexander olhou para Harlan, mas o que seguiu foi apenas um silêncio constrangedor. — Você sabia que o Daiquiri foi escolhido a dedo pelo contratante, achou que não valia a pena nos contar?
— Eu não sabia o motivo — O comerciante tremia, ele estava se sentindo incomodado com um homem-lagarto agindo com tanta hostilidade.
— Mas sabia que eles estavam tramando algo. — Alexander se aproximou ainda mais do comerciante, mas ele permanecia calado.
Marina se aproximou deles e afastou Alexander.
— Entenda, senhor, só queremos saber quem fez o pedido, você sabe o nome da pessoa? — a voz de Marina naquele momento era a mais calma dentro os cinco que estavam discutindo.
— Sim, eu sei! — Harlan olhou para ela. — Mas eu não posso dizer.
— Pode sim. — Alexander avançou contra o comerciante, fazendo-o recuar imediatamente.
Daiquiri segurou o braço de Alexander antes que ele quisesse resolver aquela discussão de forma física.
— Alexander, deixa quieto — disse ele.
— Daiquiri! Ele tá escondendo alguma coisa de nós! Por que quer deixar as coisas como estão?
— Porque ele também está com medo.
— O quê? — a expressão de Harlan mudou, por um segundo, pareceu que ele diria alguma coisa, mas apenas respondeu: — Vocês de verdade não tem ideia no que estão se metendo! Vocês não tem noção do que eles podem fazer... — virou-se e foi embora.
João olhou para os outros e soltou um suspiro bem alto.
— Esse homem está fazendo um esforço impressionante pra fingir que não é culpado.
— Mas, também não significa que ele não possa ser apenas inocente — apesar de ter dito essas palavras, Marina não acreditava nisso.
A hospedaria ficava em uma rua estreita próxima ao bairro dos artesãos, o prédio era antigo, mas bem cuidado, com dois andares e uma grande sala no térreo onde viajantes comiam e bebiam. Os quatro receberam um quarto para cada dois, e depois de uma discussão bastante longa sobre quem dividiria qual espaço, João acabou ficando com Alexander, principalmente porque Marina alegou que não conseguiria dormir se fosse obrigada a ouvir o irmão falando até de madrugada.
Daiquiri ficou sozinho, não porque tivesse escolhido aquilo, mas porque ninguém queria dividir o quarto com ele.
O quarto era pequeno, com uma janela voltada para as montanhas e uma cama simples. Sobre uma mesa havia água, pão, frutas e uma pequena vela, Daiquiri fechou a porta, colocou a espada perto da cama e ficou algum tempo sentado, olhando para as próprias mãos.
Morvath.
Aquela palavra voltava à sua cabeça, ele tentou lembrar se alguma vez seu pai havia menciona aquilo. A resposta veio rapidamente: sim.
Durante uma noite de chuva, ele era criança, Ezekiel estava sentado diante de uma lareira, lendo um livro muito antigo, Daiquiri havia perguntado o que significavam alguns símbolos desenhados nas páginas e seu pai fechara o livro imediatamente, na época ele apenas achou aquilo estranho, agora parecia importante.
Daiquiri abriu os olhos e levantou-se, pegou uma pequena bolsa que trouxera consigo e caminhou até a janela. A cidade estava silenciosa de um jeito incomum, e ao longe, as luzes da torre branca continuavam acesas, então ele ouviu uma batida na porta.
— Quem é? — perguntou.
— Sou eu, o João.
Daiquiri abriu e João entrou carregando duas canecas.
— Antes que diga alguma coisa, peguei a sua também.
— E como sabia que eu não estava dormindo?
— Porque você tem a cara de alguém que vai ficar pensando, buscando respostas na cabeça, sem conseguir dormir quando está pensando demais.
— E você? — Daiquiri pegou a caneca, era chocolate quente.
— Eu durmo muito bem quando eu estou pensando muito, é uma habilidade.
Os dois se aproximaram da janela e se sentaram, João ficou encarando a cidade.
— Você tá com medo?
— Sim. — Daiquiri havia demorado um pouco para responder.
— Eu também... — João assentiu. — Mas eu faço piada quando estou com medo, acho que já percebeu.
— Percebi sim.
— Pois é, é um mecanismo que meu cérebro criou pra me proteger.
Os dois ficaram em silêncio, Daiquiri tomou um gole do chocolate e suspirou.
— João?
— O que foi?
— Você viu a forma como o Varik olhou pra mim? Ele sabia quem eu era antes de me conhecer.
— Você é o filho do herói, todo mundo parece saber alguma coisa sobre você — João tomou um gole de chocolate. — Mas confesso que isso não deveria ser normal.
— E você acha que meu pai sabia que isso aconteceria? — Daiquiri ficou olhando pela janela. — Eu acho que alguém nos trouxe até aqui por causa do que quer que possa estar acontecendo.
João não respondeu de imediato, mas quando finalmente falou, sua voz estava mais séria.
— Então a gente vai lá, descobre quem foi.
— João? — Daiquiri olhou para ele. — E se essa pessoa estiver ao lado do Morvath?
— Então descobriremos antes que ele faça alguma coisa — João sorriu, se levantou e saiu do quarto, mas quando fechou a porta deu alguns passos para longe e começou a chorar copiosamente, ele tremia de medo e preocupação.
Na manhã seguinte, Marina foi a primeira a procurar pelos outros, encontrou João dormindo atravessa sobre a cama, Alexander sentado em uma cadeira afiando a espada e Daiquiri já vestido.
— Bom dia pessoal, precisamos ir à biblioteca — disse ela.
— Antes do café? — João abriu apenas um olho. — Se sim, eu voto contra.
— Então que tal irmos depois do café? — Daiquiri sugeriu.
— Aí eu sou a favor — João lentamente começou a se levantar da cama e descer para comer alguma coisa.
A biblioteca de Arken era ainda maior de perto, a torre branca não possuía apenas livros, seus andares abrigavam mapas, registros de guerras antigas, pergaminhos mágicos e artefatos recolhidos de ruínas. No piso principal, dezenas de estudiosos circulavam em silêncio, carregando caixas e documentos, Marina parecia ter esquecido completamente o perigo dos últimos dias assim que entrou, seus olhos percorriam cada corredor com uma atenção quase infantil.
Foram recebidos por um bibliotecário chamado Edran, um homem idoso de cabelos longos e mãos manchadas de tinta, Marina explicou que procuravam referências sobre Morvath e apresentou os símbolos encontrados nas ruínas, mas Edran mudou de expressão imediatamente.
— Onde vocês conseguiram isso?
— Na estrada — ela respondeu.
— Não, mocinha, você está mentindo. — Ele endureceu a voz e encarou o grupo com desdém. — Essa marca não deveria estar lá.
— Por quê?
O homem olhou ao redor e se aproximou do grupo.
— Porque foi removida dos registros oficiais há mais de cem anos, no século branco.
— Por quê? — Daiquiri se aproximou.
Edran o observou, assim como os outros antes dele, reconheceu alguma coisa.
— Você é o filho de Ezekiel... — O velho ficou em silêncio por alguns segundos, sua expressão mudou para uma expressão de preocupação. — Então a história realmente está começando novamente.
Marina percebeu a mudança na expressão do velho e perguntou:
— O senhor conhece Morvath?
— Esse não é o nome verdadeiro dele, é apenas como os registros mais recentes o chamam. — Edran passou os dedos entre seus cabelos. — Conheço esse nome o suficiente para saber que seu grupo deveria ter deixado Arken no exato momento em que entraram.
— Mas não iremos — Alexander cruzou os braços.
O velho olhou novamente ao redor e fez um gesto para que o seguissem, eles passaram por corredores cada vez mais estreitos até chegarem a uma sala subterrânea, não havia janelasm apenas estantes antigas e uma mesa de pedra no centro. O bibliotecário retirou uma chave do bolso.
— Aqui estão os registros selados por Ezekiel.
— Meu pai?
— Sim, seu pai.
Ele girou a chave e uma pequena porta se abriu na parede, dentro dela havia um livro, Edran o retirou com cuidado. A capa era negra, sem título, e no centro havia o símbolo da Vastidão da Morte, Marina lentamente começou a se aproximar para conseguir ler o que havia dentro do livro.
— E por que meu pai selaria esse livro, aqui? — Daiquiri perguntou enquanto Edran o entragava o livo, suas mãos tremiam. — O que existe aí dentro?
— A verdade sobre o que procura — O velho o encarou. — A verdade sobre Morvath.
Antes que ele pudesse continuar, um estrondo ecoou acima deles, fazendo a biblioteca inteira tremer, livros caiam das estantes e armários começaram a se quebrar.
Outro estrondo foi sentido, dessa vez ainda mais forte, Alexander sacou sua espada e Marina abriu a própria bolsa, pronta para retirar alguma coisa.
— Eles seguiram vocês. — Edran empalideceu.
— Quem? — Daiquiri fechou a mão sobre o livro.
O rosto de Edran era um rosto de desespero, ele olhou diretamente para Daiquiri e sussurrou:
— Aqueles que estão procurando por Morvath.
E, pela primeira vez desde que chegara a Arken, Daiquiri ouviu claramente seu próprio nome sendo chamado por uma voz que não pertencia a nenhum de seus amigos ou conhecidos próximos.
— Daiquiri!
Thoughts
-
PermalinkDesde o primeiro capítulo eu desconfio do Harlan, e agora ficou claro que ele sabia. Quem percebeu que o comerciante estava com medo foi o Daiquiri, o mesmo que dormiu num quarto sozinho porque ninguém quis dividir com ele. Pra mim é quem lê gente melhor no grupo, e o Alexander ainda não notou!
-
PermalinkTodo mundo em Arken reconhece o Daiquiri e ninguém diz o próprio nome. Meu palpite: quem pagou a hospedagem e quem grita por ele no fim são a mesma pessoa, e o livro do Ezekiel era a encomenda.
-
PermalinkO Harlan treme demais para quem só tem medo por si. Se calhar há alguém dele aqui em Arken que o capitão tem na mão.
-
PermalinkO Ezekiel fechando o livro numa noite de chuva, com o Daiquiri ainda criança, e agora esse mesmo livro selado numa sala embaixo da torre de Arken. Aposto que o pai sabia que o filho ia parar ali um dia e deixou o livro de propósito. Pra mim é isso que puxa a série agora. Vai postar a continuação da cena na biblioteca logo?
-
PermalinkO João fazendo piada no quarto e chorando só depois de fechar a porta. Fiquei com ele o resto do capítulo, mais que com o Daiquiri.
Related posts
-
OS LABIRINTOS DA ESPERA E O BEIJO QUE VEIO DA China - Capítulo 8
Os Mistérios do Acaso
-
Âncoras
Capítulo 7 - Quatro Íris
-
Manuscrito das três faces
Vagantes condenados: Blade
-
Manuscrito das três faces
Acordo do passado (5)
-
O BRUXO CORAÇÃO E A MAGIA DA SEDA Bege - Capítulo 7
Os Mistérios do Acaso
-
Rock City - Parte 13
Na descida, pensa, aliviada, que não vai abrir o estúdio hoje. Somente a loja, que o tio deve abrir, de instrumentos musicais. Alguns estúdios estão em reforma.
-
Manuscrito das três faces
Vagantes condenados: Nego D'água
-
Âncoras
Capítulo 8 - Café Amargo