Na descida, pensa, aliviada, que não vai abrir o estúdio hoje. Somente a loja, que o tio deve abrir, de instrumentos musicais. Alguns estúdios estão em reforma.
Na entrada da loja, antes, tem uma porta.
— Pearl! Eu sei que é você.
— Jojo.
— Isso são horas, garota!
Pearl odeia ser chamada de garota.
— Bem... não sou mais garota, tio.
— Não interessa. Você nem avisou que dormiria fora.
— Desculpe, estava tocando... e...
— Já pra dentro e tome um banho!
Pearl entra pela loja, já aberta, com alguns clientes observando.
Ela sobe as escadas, grilada.
Já toma um banho.
Cantarola:
“I want you to stay
Till I'm in the grave”
Hummm hummm hummruumm
Hummm hummm hummruumm
Hummm hummm hummruumm
“But if it's forever, it's even better
I'll love you till the day that I die
Till the day that I dieeeeeeee”
Pensa naquela noite.
Gojo a chamou, mesmo sem querer.
O beijo.
O Bar do Bahia.
O frango a passarinho.
A garota do metrô que pediu uma foto.
Sai do banho, veste sua roupinha de casa, aquela calça jeans fina e curta e uma camisa branca folgada, sem o sutiã.
Cai sobre a cama.
Olha para cima.
Sorri.
Hummm hummm hummruumm
Hummm hummm hummruumm
O celular acende e toca.
Era Jess.
No WhatsApp:
— Oi, miga. Me conta. Como foi?
— Foi demais. Fomos pro bar.
— Ué... beber mais?
— Comer alguma coisa.
— Rolou?
— Rolou o quê?
— Tchaca-tacha na nutcha, o ilariê?
— Não! Não assim...
— Como assim? Você não perde tempo.
— Não sei...
— Como assim não sabe?
— Bem... ele me viu como eu sou. Me enxergou.
— Ihhh... olha a conversa cheia de doce.
— Ele nem é bonitão.
— Ah, não?
— Pode ter aquela pose de serião de gelo, cabelo grande até o ombro, tatuado... mas você era mais ativa!
— Não sei... congelei. 😶
— Sei que você tá fissurada nele. Mas apaixonada... você?
— Jess... para!
— Eu sei que você tá vermelha.
Pearl começa a rir.
— Sei lá. Deixei seus instrumentos na casa do Lucas.
— O quê?
— O Gojo disse que vai me entregar hoje mais tarde.
— Nossa... vocês vão se encontrar!
— Jess...
— Você tá apaixonada. Admite!
— Para, Jess. 🙄
— Tem mais... eu dormi com o Lucas. No gato!
— Mas você é uma vaca leiteira mesmo!
— Você que é uma vadia que agora tem dono!
— RS.
— Não tem dono, sua piranha!
— RS.
— Sei lá... Estávamos sozinhos. Ele conversou comigo. Tomamos vinho.
— Vinho? Que coisa de brocha!
— RS.
— Mas ele era um gato. Eu e ele sozinhos... Não deu, miga.
— Vai fundo!
— Bjs. Te amo, vadia!
— Bjs. Te amo, quenga velha.
Apartamento das Palmeiras — Vila Buarque
Gojo está apenas no celular. Liga para Lucas.
— Fala, seu infeliz, mal-amado.
— E aí, cara. Tô com os instrumentos aqui.
— Passo aí pelas 16h30. Tenho que fazer um rolê pra levar isso.
— Ué, como assim?
— Como assim? Levar minha batera e levar a guitarra, ué. Pra Pearl.
— Você nunca me contou sobre ela. Falei com a Jess.
— Jess? Ah, sim... a amiga dela.
— Gata, hein...
— Sim. As duas são lindas.
— Jess... Peguei aqui em casa.
— Óbvio que sabia. Sei que as coisas não andam bem com você... Prefiro que você saia desse relacionamento de anos à distância, cara.
— Sei disso. Sei que você não gosta da Marina... e nem ela de você.
— Relacionamento à distância é bom para os quatro, né...
— KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
— Seu corno!
— Sua mãe, aquela égua de cara parida.
— A sua... aquela que pega na minha! KKKKKK
— Sério... Busca aí depois. Tô cheio de coisa pra fazer. Tem um trampo rolando, tenho que entregar na segunda-feira...
— De boa. Semana que vem, vamo tirar um som aqui no apê. Chamo a Pearl.
— Opa, pode chamar mesmo.
— Falou, cara de cu.
— Cara de cu tem sua mãe!
Gojo desliga.
Olha para a sala ampla.
Os puffs.
A cadeira suspensa.
A muda de palmeira.
Os três telescópios.
Os instrumentos espalhados pelo apartamento.
O baixolão.
O cajón.
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