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Rock City - parte 9

aleroz
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Nas viradas da música, Pearl canta:

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Nas viradas da música, Pearl canta:

How do I get you alone?

Ela olha diretamente para Gojo.

Ele continua tocando, olhando de volta, mas parece não entender absolutamente nada do recado.

O álcool já começa a subir para a cabeça de Pearl.

Que cuzão filho da puta... Vou ter que ficar nua no palco pra você me ver?

Ela suspira.

Nesse instante, tira a jaqueta. Está quente demais.

Calma, Pearl... É só a jaqueta. Kkkkk.

O show continua.

Uma música.

Duas.

Três.

No total, são quase dez.

Quando terminam a última, a plateia começa a gritar:

— Mais uma! Mais uma! Mais uma!

Pearl olha para Lucas.

Ele quer encerrar.

É um imprevisto atrás do outro. Para Lucas, aquilo já passou da conta.

Pearl então olha para Gojo.

Ele está atrás da bateria.

Ela faz apenas a leitura labial:

Little Sophie... Você consegue?

Gojo entende.

Pearl fica alguns segundos parada, quase atônita. O álcool deixa seus pensamentos mais lentos, mas alguma coisa dentro dela ainda está completamente desperta.

Ela volta para a frente do palco.

Abaixa-se e mexe nos pedais.

A guitarra começa a produzir uma textura mais grave, com bastante ganho e pouca definição nos agudos. Um som escuro, arrastado, quase preguiçoso.

Gojo olha para ela.

Reconhece imediatamente.

Pearl segura o microfone.

— Galerinha do Mau da Sarajevo...

A plateia responde com gritos.

— Essa música nunca sai do estúdio. Eu construí junto com o Gojo, aquele filho da puta ali. Desgraçado... Ele me ajudou muito. Acreditou em mim.

Celulares se levantam.

Assovios.

Gritos.

Um deles se destaca:

— YEAHHHH!

Outro:

— GOSTOSA!

Pearl apenas balança a cabeça, como quem não acredita naquilo.

Volta para a guitarra.

— Essa aqui é um hard rock meio dark. Então... Rafael, segura essa sequência. Lucas, entra depois. Vai seguindo o ritmo.

Lucas olha para ela.

Não há partitura.

Não há ensaio.

Apenas algumas indicações rápidas.

Ele respira fundo e acompanha.

Rafael observa Pearl tocar a primeira sequência. Aos poucos, entende a estrutura: uma base simples, repetitiva, deixando espaço para a guitarra de Pearl conduzir a atmosfera.

Gojo apenas ri atrás da bateria.

Ele conhece aquela música.

Conhece aquele momento.

E conhece Pearl o suficiente para saber que aquilo não vai sair exatamente como foi gravado.

A Sarajevo começa a ficar em silêncio.

Pearl toca a introdução.

O trecho inicial de Little Sophie é sombrio e preguiçoso, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer, mas nunca acontecesse.

Pearl canta:

Little Sophie runs through the rain...

A guitarra permanece quase suspensa.

Então:

Barefoot...

Gojo entra com a bateria.

A música ganha peso.

While chasing in a hurricane.

A bateria fica mais pesada.

O baixo de Lucas acompanha.

Rafael segura a harmonia.

Pearl cuida do resto.

O som cresce.

É uma música sobre uma criança atravessando adversidades enquanto o mundo simplesmente continua funcionando ao redor dela.

A vida não para para ajudá-la.

Não há uma mão invisível esperando para salvá-la.

Ela apenas corre.

E o mundo assiste.

Como entretenimento.

Jess filma tudo.

Ela já ouviu aquela gravação antes mesmo de Gojo.

Sabe que Pearl criou alguma coisa especial.

Agora, olhando para a amiga no palco, sente orgulho.

Gojo, atrás da bateria, observa Pearl.

Ele ainda não sabe sobre o pai dela.

Não sabe do câncer.

Não sabe por que Pearl praticamente desapareceu da loja e do estúdio.

Ele apenas percebe que há alguma coisa errada.

Durante meses, sempre a vê reservada, recatada, escondida atrás de uma guitarra ou de alguma tarefa no estúdio.

Então, de repente, Pearl começa a tomar conta de tudo.

Da loja.

Do estúdio.

Dos equipamentos.

Do lugar que pertence ao pai.

Aquela garota que odeia ser chamada de garota se torna o centro de tudo quase de uma hora para outra.

Gojo percebe.

Mas prefere ficar na dele.

Se ela não quer contar, ele não pergunta.

Quando quiser falar, ela fala.

Pearl sabe exatamente por que está cantando daquela maneira.

Seu pai continua internado no Hospital do Câncer de São Paulo.

As idas e vindas da UTI.

Os cuidados paliativos.

Aquela espera que parece menos um tratamento e mais um ensaio para a morte.

Um corpo sendo lentamente vencido.

Uma lápide ainda viva.

Às vezes, Pearl deseja que aquilo termine logo.

O pensamento a faz sentir culpa.

Mas é sofrimento demais.

Até as pequenas coisas mudam. O pai já não urina como antes. Quando urina, é pouco e muito escuro.

Pearl continua cantando.

A voz começa a falhar.

Ela não para.

As lágrimas aparecem.

O delineador preto começa a escorrer junto com elas, deixando o rosto ainda mais escuro.

Para quem assiste, parece parte da performance.

Uma escolha estética.

Uma personagem.

Mas não é.

É Pearl.

Uma garota contra o mundo.

A música chega ao fim.

A última frase sai quase como um grito:

Her last is a scream.

Silêncio.

Então, o último acorde.

Pearl abaixa lentamente a guitarra.

Gojo e Pearl se olham.

Ela está triste.

Ele está sorrindo.

Não porque não percebe.

Mas porque sabe que aquela foi uma apresentação extraordinária.

Lucas pega o microfone e decide encerrar de uma vez.

— Obrigado, galera da Sarajevo! Desculpa pelo incômodo e pelos atrasos. Valeu!

A plateia protesta, querendo mais.

Começa o som mecânico.

Os músicos começam a guardar os instrumentos.

Gojo pega uma garrafinha de água e entrega para Pearl.

Ela bebe, ainda com os olhos marejados.

Gojo observa.

Ele entende que alguma coisa dói nela.

Mas não pergunta.

Seria invasivo.

Já é difícil tirá-la do estúdio e colocá-la naquele palco, diante de desconhecidos.

Ele não quer transformar aquilo em um interrogatório.

Do lado de fora da Sarajevo, os cases ficam encostados perto da parede.

A fila para entrar ainda dá volta no quarteirão.

Os dois esperam pelos Ubers.

Mas cada um vai para um lado.

Gojo olha para Pearl.

— Pearl, você é demais. O show arrebentou.

Pearl vira o último gole da garrafa.

Ainda está alta.

Jess se aproxima e coloca a jaqueta sobre os ombros dela.

Pearl nem percebe.

— Eu te levo pra casa. Você encheu a caveira hoje.

Pearl não responde.

Continua olhando para Gojo.

Ele sorri.

Ela espera alguma coisa.

Gojo, completamente alheio ao que está acontecendo na cabeça dela, começa a falar abobrinha.

Pearl perde a paciência.

— Cala a boca, Gojo!

Ela se aproxima.

E o beija.

Um beijo intenso.

Quando se afasta, fica alguns segundos diante dele.

Gojo permanece completamente atônito.

Pearl o encara.

— Seu beijo... tem gosto de maconha?

Gojo pisca.

— O quê?

Pearl não responde.

Vira-se e começa a descer a Augusta, chorando.

Jess e Lucas ficam parados, olhando para Gojo.

Os dois estão indignados.

Jess dá um tapa no ombro dele.

— Agora corre atrás dela!

Lucas dá outro empurrão.

— Vai! Vai, some daqui! Vai atrás dela, seu cuzão!

Gojo finalmente reage.

Desce a Augusta.

A calçada está lotada de jovens.

Ele procura Pearl no meio da multidão.

Vê apenas o rastro dela, andando depressa.

Gojo acelera.

Finalmente a alcança e toca em seu ombro.

Pearl se vira imediatamente.

— Não me toque, seu desgraçado!

Nesse instante, um grupo de jovens percebe a situação.

Um deles segura Gojo pelo colarinho.

— Ele tá te molestando, moça?

Pearl olha para eles, séria.

— Não. Gente, ele só foi cuzão comigo. Eu conheço ele.

Os jovens percebem que é uma briga de casal.

Gojo permanece em silêncio.

Qualquer coisa que diga naquele momento provavelmente será usada contra ele.

Eles o soltam.

— Foi mal.

O grupo vai embora.

Pearl e Gojo ficam novamente sozinhos no meio da calçada.

Silêncio.

Gojo respira fundo.

— Desculpa, Pearl... Foi muito de surpresa.

Ela olha para ele.

— É... Eu fumei maconha mais cedo, sim. Como você é babaca, cara.

Gojo solta uma risada curta.

— Pearl...

Ele olha para ela.

— Eu te respeito pra caralho.

Os dois ficam em silêncio.

Por alguns segundos, parece que estão novamente no estúdio.

Como se Pearl estivesse na cabine da mesa de som e Gojo estivesse do outro lado, no estúdio.

Uma conversa antiga.

Sem precisar dizer muita coisa.

Gojo continua:

— Eu vim atrás de você porque eu me preocupo com você.

Pearl olha para a Rua Augusta.

Jovens passam rindo.

Música sai dos bares.

Carros atravessam a rua.

A madrugada continua normalmente.

Ela olha novamente para Gojo.

— Me leva pro lugar mais podreira da Augusta que tenha cerveja de garrafa.

Gojo sorri.

— Só se você dividir comigo um frango a passarinho, como a Grace Kelly fez em Ladrão de Casaca, em Mônaco.

Pearl franze a testa.

— O quê?

— Foi um filme que eu assisti bêbado. Achei fascinante.

Pearl começa a rir.

Gojo ri também.

E os dois continuam andando pela Augusta.

Thoughts

  • bancadaVazia

    Corre, Gojo.

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  • Ovid

    O delineador escorrendo e a plateia achando que era parte do show me fez pensar no tanto de gente que é aplaudida no pior dia sem ninguém ao lado saber. Aposto que a Jess, filmando tudo, vai ser a primeira a perceber que não era performance. A Little Sophie correndo descalça na chuva ficou pra mim como a Pearl inteira nesse capítulo.

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  • mariinha

    Vixe, ela beija o gojo e sai chorando Augusta abaixo, e ele nem sabe do pai dela ainda. A Little Sophie tu escreveu de verdade?

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