Ar-condicionado no talo.
Moletom do Tool.
Caneca com café gelado.
Camisa social, calça, cabelo amarrado.
Gojo na sala de T.I.
Servidores de nota fiscal por todos os lados. Tudo funcionando como relógio. Harmonia de máquinas. Luzes piscando em sincronia.
Vistorias nas telas. Números e mais números.
Processos, monotonia — e pagam muito bem.
Ninguém enche o saco.
Só o funcionário novo.
Pró-atividade tóxica. Quer mostrar serviço. Mais um burocrata bosta.
Gojo lembra do tio que se matou. Sem esperança. Sombra do sistema.
Mais um que virou estatística sem propósito. Setembro Amarelo… mas e o resto do ano?
Sentado na mesa burocrática, Gojo espera a varredura, caça erros.
Mal sabem que tudo aquilo cabe num pendrive que ele mesmo programou.
Naquele dia era presencial.
Lembra do dia em que subestimaram sua inteligência.
Alguém trocou o carregador do celular dele.
Não era o fato de serem iguais.
Era o detalhe: trocaram por um detonadíssimo. Cabo amarelado, descascado, parecendo que sobreviveu a Tchernobyl.
Preferia que tivessem roubado o celular inteiro.
Mas aquilo… aquilo foi ofensa.
Como se ele não fosse perceber.
Como se fosse idiota.
Gojo soca a mesa.
Descobriu quem foi.
Tem câmera no T.I. E ele sabe.
Só não o faz de idiota.
Olha de novo para os servidores.
A sincronia das luzes.
Sistema funcionando. Se funciona, a grana entra.
O celular vibra no silencioso.
Mensagem da Pearl.
“Oiee, Gojo…”
“Pode me ajudar?”
“Aquela canção… Little Sophie”
“Ainda hoje!”
Gojo se acalma. Só olha a tela.
— Qual é, caraleo…
Respira.
“Fala, garota!”
“Não me chame de garota!” 😡
“Então fala, mulher!”
“Pode pintar aqui?”
“Como assim? Hoje?”
“Como assim como assim? Me ajuda!” 🥺
Gojo ri.
— Ai, ai… essa mina é um barato que sai caro.
“Pode vir? Não vou conseguir dormir, tô com ansiedade!”
“Dorme, ué.”
“Gojo, será que tô pedindo ajuda pra FDP errado, é?”
“Olha, sua grossa! Grossa que nem cano de passar bosta! Grossa que nem coxa de Panicat!”
“KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK”
“Por favor, me ajuda!”
“Que horas?”
“Só chegar. Tô no estúdio. Me chama no zap!”
“Tenho medo!” 😨
“Toma vergonha. Um homem grande desse com medo, me poupe!”
“Sou grande, mas não sou dois. Não sou à prova de bala, né.”
“Vem ou não vem?”
“Eu vou, mulher.”
“Isso aí!” ❤️😍
19 horas.
— Chega! Tô indo! — disse alto dentro da sala.
Gojo sai da sala gelada. Outros funcionários ainda em movimento.
Relatórios já entregues. Corretos. Certos. Sem erros.
Alguns olhares de orgulho pela rapidez do Gojo.
Trabalho redondo, cheiroso, bem elaborado.
O funcionário novo com um sorrisinho de inveja.
Gojo sorri de volta, mas pensa:
Toma no cu, seu arrombado.
— Bem, tô indo. Qualquer coisa me mandem um zap.
Os relatórios estão aí, prontos. Sem erro.
Amanhã fica fácil destrinchar, é intuitivo.
Mochila nas costas, pega o celular.
“Tô indo, mulher!”
“Ehhhhhh!”
Caminha pelo corredor do escritório na Paulista.
Elevador.
Uma moça entra com uma caixa nas mãos.
Gojo sente. Foi demitida.
Clima pesado.
Ela parece segurar o choro.
Gojo sorri de leve. Uma piscada curta.
Ela relaxa os ombros num suspiro solto.
Esboça um sorriso.
Um bonequinho cai da caixa.
Gojo pega.
— Peguei na primeira quicada.
Ambos riem.
Depois ficam em silêncio, olhando as paredes do elevador.
Portaria.
Crachás — ou coleiras do sistema.
— Boa noite.
— Boa noite.
Saem em direções opostas.
Estação Trianon.
Ainda na escada, Gojo tira a camisa social.
Camisa de força burocrática.
Por baixo, uma regata simples e surrada. Segunda pele.
Passa desodorante. Respira.
Na plataforma, vê um adesivo na parede:
“MAIS AMOR, POR FAVOR!”
Gojo ri sozinho, em meio às pessoas.
Em voz alta, meio louco do estresse:
— Amor não se pede. Se dá!
O metrô chega.
Ele entra, se posiciona, olha o reflexo no vidro.
O espelho diário de todo mundo.
O espelho que pergunta:
Vou conseguir pagar a conta?
O aluguel?
O cartão?
A viagem de duas semanas parcelada em doze vezes com juros?
Gojo não tinha nenhuma conta.
Só fingia que tinha.
— Espelho, espelho meu… tem alguém com mais pressa do que eu?
Estação… Station… Clínicas!
Gojo desperta do devaneio.
Passou a Consolação sem perceber.
Dois minutos. Um mundo inteiro.
Sai da estação em estado de êxtase.
— O Instituto do Câncer parece um Megazord!
Um Megazord!
Isso, um Megazord!
Repete com voz grossa:
— MEGAZORD!
Ri alto.
Chega em frente ao estúdio.
Mensagem no zap:
“CHEGUEI… lá ele!”
“Descendo!”
A porta pequena se abre.
— UUUUUOOOOOOO!!! — Gojo, com a voz grossa.
— AAAAAAAA! Que susto! Não faz isso! Não faz isso!
Gojo ri com a alma.
— Olha só… ahahahah… a sua cara!
— Para de rir de mim!
Ela meio que sorri, desconcertada.
— Você é muito engraçada, viu?
— Entra logo!
Ele entra. A porta se fecha.
Sobem a escada.
— Tem bolo? — pergunta Gojo.
— Tem macarrão e nuggets!
— Que nojo, arghhh!
— Arghhhh… — risos tímidos.
Param no meio da escada.
— Que porra é essa?
Silêncio.
Gojo aciona um gatilho em Pearl.
Ela tem refluxo com sons de nojo.
Ele percebe.
E insiste.
— Arghhhh…
— Arghhh… para! — risos contidos.
— Arghhhhhhhhh…
— Arghhhhhhhhhhh… para! — mais risos, nervosos.
De repente, ambos caem na gargalhada.
— Como é que é, mulher?! AHAHAHAHA!
— Eu tenho ruminação de refluxo!
— Arghhhh…
Pearl bate no ombro dele, envergonhada.
— Nossa… que charme!
— Me ajuda, por favor. Com música… esquece isso!
— Você é muito engraçada!
Sobem novamente.
Chegam ao estúdio.
Gojo observa a mesa de som, cheia de canais.
— Nossa… parece uma nave!
— Senta aí. Acabei de escrever.
Gojo senta. Gira na cadeira.
— Nossa, você tá muito agitado. Que irritante você é, hein.
— Tá bom, sério… super sério. Se eu rir agora… não.
— Não. Se você rir, eu vou embora.
Pearl enche as bochechas de ar, tentando não rir.
Gojo segura o riso por dentro.
Uma lágrima escapa do olho dela.
Ela fica vermelha tentando segurar.
Gojo olha pro teto.
Ver Pearl vermelha só piora tudo.
— Bem… aqui está. Pode ler e me falar o que achou?
Gojo pega o papel.
Lê em silêncio.
— Não liga pros meus garranchos, tá…
— Pensei muito no que você disse tempos atrás…
— Bem… aquilo mesmo. Não vai ficar metido!
Ele olha fixo para o papel.
Sabia que precisava dizer com cuidado.
Levanta os olhos. Pearl morde os lábios.
Ele volta ao papel.
Respirações lentas. O ar-condicionado preenchendo o silêncio.
— E aí… o que achou? — pergunta, envergonhada.
Silêncio. Gojo permanece pensativo.
— Posso sugerir algo?
Ela não cria expectativa. Parece já ter entendido que ele não gostou.
— Deve.
— No início… uma guitarra preguiçosa. Sem compromisso. Entediada.
Tempo lento.
Na introdução da letra, a voz entra cansada, como se a vida fosse uma entidade consciente, estagnada no ócio, sem ter o que fazer.
Pearl observa.
— Essa vida olha tudo como quem observa uma formiga no nada, na chuva.
A pequena Sophie está descalça, na chuva.
Ele faz uma pausa curta.
— Aí entra a bateria. Encaixada. Como passos difíceis, mas rítmicos.
A vida vê algo vindo… um furacão.
Ele se corrige.
— Quer dizer… uma mudança natural, violenta, provocada pelo acaso.
Pearl continua em silêncio.
— Aqui, a entidade decide ver o rosto da… — ele hesita — Sophie.
Gojo percebe o incômodo dela com a palavra garota. Ajusta.
— Sophie chora sangue. Ela carrega algo que fere a alma. Um destino.
Algo inevitável.
Ele olha o chão, procurando palavras.
— Parece que ela ensaia um sentimento. Como se soubesse que vai ser forte no futuro… mas ainda não consegue sentir inteiro.
Pearl fixa o olhar nos lábios de Gojo enquanto ele fala.
— A entidade escuta o grito dela. Um grito pedindo respostas que ninguém tem.
E, de certa forma, a entidade brinca com isso… por ela ter gritado.
Ele levanta o olhar, agora mais seguro.
— Aqui entra uma guitarra pesada. Do jeito que só você sabe fazer.
Sua voz encaixa. Como se a entidade sentisse o grito, mas não se abalasse.
Ele faz um gesto com a mão, como se desenhasse o som.
— A entidade sente o que ela sente. Entra na mente dela. Quer senti-la por dentro.
É íntimo. Quase como chamá-la de Pequena Sophie.
Guitarras mais pesadas. Viradas de bateria.
Hard rock com algo dark.
— Sua voz funciona muito bem aqui… talvez só um pouco menos forte.
Ele respira fundo.
— A gente vê a Sophie desconfortável.
A vida percebe que há algo ali que não tem volta.
Pearl fecha os olhos por um instante. Uma pontada no peito.
Abre de novo. Séria. Atenta.
— É uma dor por sentir dor.
Uma dor que ela torce pra ir embora…
mas, se for, leva junto algo que ela não quer perder.
Ele para.
O silêncio volta. Só o ar-condicionado.
Nossa… aqui parece que a entidade volta ao seu tédio, mas agora dentro da cabeça dele.
Como no início do ritmo: preguiçoso, arrastado, a bateria como passos.
Ela acompanha Sophie, tenta justificar tudo com pensamentos do passado.
Nessa parte, a Vida vê um castelo perfeito e, depois, envelhecido, com vidros quebrados.
O castelo.
O estúdio.
Pensou ele.
— Um dragão…
Gojo percebe.
É o pai dela.
Tem algo errado ali.
Ele sente na respiração da pausa, no jeito dela.
Memorizou até aquele dente torto do lado esquerdo, entre o incisivo e o canino.
Aquilo o fascinava.
Ele sente — e não fala o que pensa sobre o dragão.
“Cada canto um reino,
cada sombra um amigo…”
Aqui parece que entram ele e a voz dela juntos.
— Nossas companhias e seguranças… novas lembranças, novas afirmações.
Pearl observa Gojo.
Sério, mas com algo leve por trás.
Barba por fazer.
Ela percebe que poucos têm acesso àquele lado dele.
Por fora: cara fechado, alto, braços tatuados — tudo fechado.
Por dentro: outra coisa.
Lembra das bandas preferidas dele.
The Beatles, pela alma.
Tool, pela carne: sangue, ossos, dor, sofrimento, desespero, ódio de tudo e sentimento por tudo.
Uma banda de camadas profundas, subsolo do agonia.
Não é à toa que ela tem medo dos clipes.
Não havia demônios.
Havia muitos humanos demais.
— Sophie sofre. Não entende a Vida.
E a entidade Vida entende que ainda está entediada.
Sophie não vê a entidade.
Ela brada de ódio, querendo explicações.
— Aqui reinicia a parte pesada da música: bateria e guitarras.
Pearl suspira, se segura para não ferver em ódio.
Parece que Gojo a decifrou.
Isso a afeta.
Música Little Sophie:
Ela pensa:
Quem ele pensa que é?
Acha que me conhece?
Acha que sabe da minha dor?
Acha que consegue controlar esse fogo sem se queimar?
Ele está fazendo comigo o que a Vida faz!
Desgraçado filho da puta imundo. Eu cuspo no seu nome.
Ela pensa em expulsá-lo dali, como um cão, jogá-lo na rua fria de São Paulo.
Nem sabe se está chovendo lá fora.
Então, uma voz sensata atravessa a mente:
Mas ele veio.
Contra a vontade dele.
O único que te vê por dentro.
Que te tolera.
Ela lembra da letra:
“…cada sombra um amigo…”
Mas ele veio.
Ele sabe da ansiedade dela.
Veio vê-la.
O pai está com câncer.
Um câncer que o consome vivo.
Gojo não sabe disso, ela esconde.
Ela acha que ele desconfia de algo.
Ela quer que o sofrimento acabe.
Quer a morte do pai para cessar a dor —
mas pode perder tudo junto com o fim dela.
Gojo continua:
— Aqui, a entidade entra na vida de Sophie por tédio.
As frustrações, os medos, as perdas.
A Vida procura algo para se entreter com Sophie.
Ela grita, quer respostas.
Mas a Vida não está nem aí.
A Vida quer que ela agradeça por estar viva —
e por poder reclamar.
A Vida não deve nada a ninguém.
Não precisa ser justa.
Ela apenas é.
Pearl se segura.
Como queria socar a cara dele.
Mas ele foi o único que veio.
Que encarou.
A Vida deu sua resposta.
Não na música.
Na própria vida.
Silêncio.
Som do ar-condicionado.
Um suspiro.
Então, um som estranho:
Aaaaaaaoooooouuuuu…
— Que isso, mulher? — Gojo explode em riso.
— Para, Gojo! É meu estômago!
Aaaaaaaoooooouuuuu…
Gojo chora de rir.
Pearl não aguenta e ri junto.
— Para, para… para, Gojo!
— Deixa que eu peço dois burgões monstros com batata. Por minha conta!
— Tem macarrão instantâneo e nuggets.
Pearl tapa a boca dele.
— Não faz esses sons, idiota. Você sabe que me dá refluxo.
— Come isso não, mulher. Você é jovem, aguenta agora, mas a longo prazo isso te ferra.
Gojo mexe no celular e faz o pedido.
— Mas uma coisa… dá pra usar o som do seu estômago na música.
Esquece “Little Sophie”.
Vai chamar “Estômago Uivante”.
Pearl ri:
— Parece nome de banda de rock.
— Estômago Uivante!
Ambos riem.
A felicidade de pessoas sem ruído
parece tristeza em meio ao silêncio.
Não o tempo todo — isso seria tédio.
Mas eles vivem o presente.