Amanhã.
Só das oito às onze e meia.
Não queria ver ninguém.
Mas eram só algumas horas.
Depois da pandemia, quase tudo virou home office.
Menos caos.
Mais vida.
Vivência.
Pensa nas discussões com Marina.
Ela é de Goiânia.
Odeia o Gojo.
Diz que ele é estranho, humor ácido.
Já falou na cara dela que não suporta.
Lucas fica no meio-campo.
Diz que Gojo é duro.
Cara fechado, na dele.
Não adianta.
Os santos não se cruzaram.
Gojo fala mal dela pra Lucas.
Marina fala mal dele pra Lucas.
Lucas não liga.
Equilibra.
Sempre equilibra.
Gojo não é flor que se cheire.
Mas é leal.
Duro.
Encara de igual pra igual.
Não foge.
Diz o que pensa em particular.
Nunca em público.
Vem com conspirações malucas.
No fundo, quase sempre tem razão.
Lucas escuta.
O desgraçado tem razão.
Horas e horas de discussões pesadas.
Filosofia sem verniz.
Marina diz que ele é imbecil, arrogante, bruto.
Lucas odeia admitir:
Gojo não é arrogante.
É lúcido demais.
Sem anestesia.
Vai à sala.
Pega o celular.
Faz o pedido.
Algo leve.
PF.
Peixe grelhado.
O café da manhã ainda pesa.
Stella sai da cozinha. Mia.
Lucas sorri.
Barulho da Consolação.
Quase meio-dia.
Cidade cheia.
Minhocão cheio.
Rua Amaral Gurgel.
Rua das Palmeiras, 473.
Apartamento 71.
Gojo dormiu sentado no sofá preto.
Acorda.
Sexta-feira.
Poucas horas depois de ver Lucas.
Olha o celular.
12h05.
Almoço.
Sai do apê.
Elevador.
Rua.
Vai à direita.
Na banca, o dono do vinil de sambarock.
Entrega quinze reais.
— Toma aí, meu convocado.
O homem sorri.
Bigode grosso, meio calvo, pele escura, camisa vermelha aberta, meia torta.
— E esse bigode erótico aí, hein?
— Se aquiete, seu panfaro pederasta!
— Olha o vocabulário!
Gojo ri alto.
O dono já guarda o dinheiro, meio bravo.
Gojo segue.
Atravessa a Barão de Tatuí.
Uma bombonière.
Um caminhão passa devagar.
Barulhento.
Irritante.
Lembra de Smallville.
Clark jogando um caminhão longe.
Queria fazer igual.
Uma quase dor de cabeça.
Segue.
Um selo de filmes alternativos.
Pensa em voltar depois do almoço.
Um brejo.
Uma igreja evangélica.
Não atravessa a faixa.
Vai pelo ponto de táxi em frente ao Bar Três Irmãos.
Entra.
— Fala, dotô!
— Picadinho, meu querido e infeliz amigo.
— Tubaína?
— De lei.
Senta na mesa da entrada.
Vê a rua.
O movimento.
Vendedores contando troco.
O prato chega.
Picadinho.
Arroz.
Salada num pratinho.
Tubaína.
— Valeu, meu querido!
— Opa, faltou o néctar.
— Que néctar?
— Farofa!
— Pra já!
Gojo olha o prato.
Jura, em silêncio, que comeria aquilo pro resto da vida.
Os pratos espalhados com harmonia.
Como montar uma bateria.
Naquele momento, esquece tudo.
A harmonia da fome.
Era ele e o prato.
Terminando a refeição, Gojo observa os detalhes do bar.
Uma coisa o incomodou: uma foto 3x4 pequena no canto, na sanca. Cheia de restos de mosquitos, parecia ali há anos.
Gojo percebe tudo — não porque incomode, mas porque provoca o novo.
— Ô, meu consagrado, vem aqui!
— O que é essa foto ali, tá vendo?
Aponta o dedo.
— Não tô vendo…
— Ali, na quina, na sanca!
— Ah, vi…
— Quem é?
O garçom, senhor de terceira idade, óculos, cabelo escovado, bigode grosso, roupa bem engomada, coça o bigode. Fica em silêncio.
— Sei lá… trabalho aqui 20 anos, nunca vi!
Gojo ri, esperando alguma história cabulosa. Silêncio. Só um ruído no bar.
— Tá bom, quanto deu?
— 25!
Levanta, pega a comanda no caixa e um doce de amendoim na barra média.
— Toma 30.
— Deu 28 com o doce.
Recebe uma moeda de R$1, uma de 50 centavos e duas de 25 centavos.
— Valeu, doutores…
Os atendem balançam a cabeça, sorrindo.
Gojo sai do bar, volta à sua rotina como quem troca de canal: da vida à vida de concreto. Barulho, gente apressada, ele de chinelo de dedo.
Passa por dois mendigos, entrega uma moeda a cada um.
Segue seu caminho inverso, de volta ao seu apê. É hora também de sentar no trono.