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Capítulo 21: A Solidão faz bem.

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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lcavalcanti93

A Júlia confessou os remédios e o bebê porque tinha certeza de que ninguém ia acreditar numa mulher sozinha no mato que a família já chama de louca. E a Maraíra acabou de entregar pra ela a prova que faltava: mandíbula quebrada, ombro fora do lugar e uma

A Júlia confessou os remédios e o bebê porque tinha certeza de que ninguém ia acreditar numa mulher sozinha no mato que a família já chama de louca. E a Maraíra acabou de entregar pra ela a prova que faltava: mandíbula quebrada, ombro fora do lugar e uma enfermeira pedindo ambulância pelo rádio. Eu fiquei com o estômago gelado nessa hora, porque aposto que o próximo capítulo é a mãe e o Pedro correndo atrás da internação que a Júlia anunciou.

Conteúdo da publicação

livro (Querida, Sorria!)

O silêncio do bangalô havia se tornado o seu templo. Já se passara um ano desde que Maraíra decidira viver para si mesma. O sol do fim de tarde batia em seu rosto, agora preenchido e com a cor viva de quem voltara a comer. Ao passar a mão pela cabeça, sentiu a textura grossa dos fios acobreados, que já ostentavam um bom comprimento. O espelho não devolvia mais a imagem de um cadáver ambulante; devolvia uma mulher inteira. Nenhuma ligação da sua mãe cortara o silêncio durante todos aqueles meses de recuperação. O abandono era absoluto e, surpreendentemente, libertador. Sentada no balanço, observando as flores que dançavam com a brisa leve, Maraíra apreciava a sua solitude.

O som de pneus triturando o cascalho da estrada de terra quebrou a paz da tarde.

Maraíra parou de se balançar na varanda e apertou os olhos contra a poeira. O utilitário esportivo importado freou bruscamente, e a porta se abriu. A mulher que desceu usava saltos inadequados para a terra batida e óculos escuros de grife. Era a sua meia-irmã, Júlia. A filha única do antigo casamento de seu padrasto. A preferida. A mulher que, além de ter roubado o afeto de sua mãe, dormia com o seu marido há anos.

A intrusa tirou os óculos com os olhos semicerrados, preparando-se para a visão da doença e da morte. Ela havia dirigido até o interior para tripudiar sobre um leito de dor. Mas, quando a poeira baixou e ela encarou a varanda, o sorriso venenoso morreu em seus lábios.

Maraíra estava de pé. Forte. Saudável. O corpo preenchia o vestido de algodão de forma exuberante. Não havia tubos, não havia palidez, não havia garrafas de álcool vazias ao redor; ela não era mais a moribunda que chegara àquele bangalô no meio do nada.

— Mas o que é isso? — a irmã cuspiu as palavras, o choque rapidamente dando lugar a uma raiva contorcida. Ela caminhou a passos duros até o pé da escada da varanda. — Mamãe achou que você já estivesse apodrecendo em uma cama. E você está assim? — indagou, medindo a aparência de Maraíra com puro desdém. — O que você está fazendo? É algum tipo de retiro espiritual patético?

Maraíra não se alterou. Pegou o regador e começou a molhar as plantas com paciência, ignorando as palavras da meia-irmã.

— O que você quer aqui? — a voz de Maraíra saiu firme, sem o tremor submisso de antigamente.

— Eu vim ver você. Ninguém te visitou, te ligou? Você sempre foi muito ingrata, não está feliz com a minha visita? Você parece bem para quem está morrendo, mas, pelo visto, vaso ruim não quebra, não é? — Júlia soltou uma risada seca e sem humor, subindo os primeiros degraus. O cheiro do seu perfume caro invadiu o ar puro da montanha, revirando o estômago de Maraíra com lembranças de jantares hipócritas e humilhações silenciosas. — Sabe, o Pedro anda exausto. Ele tem sido um marido tão "dedicado", fingindo estar triste para os amigos no clube. Ontem à noite, na minha cama, ele até reclamou que essa sua demora para morrer está atrasando a nossa vida.

A provocação foi lançada como uma isca, na esperança de que Maraíra desmoronasse em lágrimas, como sempre fazia desde a infância, quando a mãe escolhia amar e cuidar da enteada em vez da filha biológica.

Mas a velha Maraíra não estava mais ali.

— Você deveria ir embora — avisou Maraíra, com a voz baixando um tom, perigosamente calma.

— Ou o quê? — ameaçou Júlia. — Você vai chorar para a mamãe? Ela tem nojo de você, Maraíra. Sempre teve. Você é a filha que ela nunca quis ter. Eu sou a herdeira. Eu tenho o amor dela e eu tenho o seu marido. — Júlia sorriu, triunfante. — Você não tem nada. Você é uma farsa inútil que nem para morrer de câncer serve!

Com arrogância, Júlia passou por Maraíra, entrando pela porta aberta do bangalô.

 — O que você quer? — perguntou Maraíra em um tom de voz milimetricamente controlado, seguindo a meia-irmã casa adentro.

— Que você morra sentindo dor — disse Júlia friamente, encarando-a. Em seguida, escancarou o sorriso debochado de quem estava acostumada a ter tudo o que queria. Diminuiu o tom de voz e se aproximou, respirando fundo com uma expressão cruel. Passou uma das mãos pelos fios crescidos de Maraíra, observando com escárnio como a irmã havia melhorado. — Quer saber de um segredo? Eu estou te envenenando há anos, trocando seus remédios de depressão por outros.

Ela sorriu novamente, sentindo-se vitoriosa.

— A sua mãe e o seu marido vão te internar como louca, te tornar incapaz. Estar aqui nesse fim de mundo já é um atestado de loucura, você não acha?

Júlia avançou ainda mais pelo ambiente, agindo como se fosse a dona do lugar, completamente à vontade com a própria invasão.

— Que cafona! — exclamou em tom alto. — Reflete bem quem você é — disse, avaliando criticamente o bangalô decorado por Maraíra. — Mamãe sempre disse que você é parecida com seu pai. Eu penso que esse lugar reflete bem vocês dois: uma formiguinha, fácil de ser esmagada.

Enquanto a meia-irmã destilava seu veneno pela sala, a mente de Maraíra trabalhava em silêncio, tentando processar a gravidade da informação que acabara de receber sobre a troca criminosa dos medicamentos.

— E sabe o seu filho? — continuava falando e andando pelo bangalô, intocável em sua soberba. — Ele morreu no berço, sozinho, é o que você sempre pensou, não é? — Sorriu para Maraíra. — Eu fui a primeira a chegar no quarto. E se eu disser que estive lá o tempo todo, apenas assistindo enquanto ele morria sem ar? Se ele estivesse vivo, teria vergonha de ter uma mãe como você. Você sempre foi tão insignificante como pessoa, como esposa, como mãe... Preocupa-me você estar aqui em surto psicótico sozinha, neste lugar...

 A voz de Júlia foi subitamente suprimida. O fio invisível que segurava décadas de depressão, ansiedade e raiva arrebentou de uma vez só.

Não houve grito. Não houve aviso.

Maraíra largou o regador, segurou Júlia pelos cabelos e a puxou com força para fora do bangalô. Desceu os degraus como um animal selvagem solto da jaula. O impacto de seu corpo contra o da meia-irmã foi tão brutal que as duas voaram para trás, caindo com um estrondo sobre o cascalho duro do quintal.

O som de tapas no rosto de Júlia ecoou pelo terreno. Um grito agudo cortou a tarde, mas foi rapidamente sufocado. Quando o peso de Maraíra forçou a perna da adversária contra uma raiz exposta no chão, a pele rasgou, abrindo um corte profundo que logo começou a sangrar.

A raiva engolida por anos canalizou-se inteiramente para as mãos de Maraíra. Com a respiração pesada e os olhos escurecidos pelo ódio, ela abandonou os tapas de elite. Ela fechou os punhos. O primeiro soco atingiu o olho esquerdo de Júlia. O segundo encontrou o nariz. O sangue esguichou quente, tingindo a terra seca.

— Socorro! — a irmã tentou gritar, levantando o braço direito para proteger o rosto, debatendo-se em pânico sob a força descomunal da mulher que sempre julgara fraca.

Maraíra agarrou o braço levantado e, usando o peso do próprio corpo em um giro impiedoso, torceu-o e o empurrou para baixo com violência. Um estalo seco soou. O ombro havia se deslocado.

Júlia tentou implorar, a boca aberta em desespero, mas Maraíra levantou o punho novamente. Aqueles não eram apenas socos em uma mulher; eram golpes contra a própria mãe, contra Pedro, contra cada lágrima engolida e cada quimioterapia desnecessária. O punho desceu com força máxima contra a lateral do rosto da invasora. A mandíbula estalou sob o impacto com um barulho oco. O rosto impecável da mulher virou uma massa disforme de hematomas e sangue.

 Maraíra puxou o punho para trás mais uma vez, cega, surda para os engasgos de dor sob seu corpo. Ela a mataria. Iria matá-la ali mesmo.

Num ímpeto, levantou-se, correu para dentro do bangalô e pegou o taco de beisebol que havia comprado como presente para Manoel. Acabaria, ali e agora, com aquela mulher que por tanto tempo a fizera sofrer com um sorriso no rosto. Estava prestes a descer o taco com toda a força na cabeça de Júlia quando ouviu uma voz gritar atrás de si.

— Maraíra! PARA!

Vivi havia acabado de estacionar seu Palio velho e corria desesperada em direção às duas. Braços fortes envolveram o tronco de Maraíra por trás, puxando-a com um solavanco violento.

— Me solta! — Maraíra rosnou, o peito subindo e descendo freneticamente, os nós dos dedos esfolados e pingando sangue.

— Chega! Acabou! Respira, Maraíra! Olha para mim! Você pode conviver com isso? Quando você mata alguém, algo dessa pessoa passa a te acompanhar para sempre. Você pode conviver com isso? — Vivi gritou, segurando a amiga pelos ombros até que o transe assassino começasse a se dissipar de seus olhos.

Quando a respiração de Maraíra finalmente quebrou em um soluço seco, Vivi a soltou devagar e ajoelhou-se ao lado do corpo estendido no chão. O olhar da enfermeira rural era técnico e rápido. A mulher engasgava no próprio sangue.

— Perna com sangramento. Braço e ombro deslocados. Mandíbula... acho que há traumatismo facial — Vivi murmurou para si mesma, virando o rosto da paciente de lado para que não se afogasse, antes de pegar o rádio comunicador no cinto. — Central, aqui é a Vivi. Preciso de uma ambulância de suporte avançado no bangalô da encosta. Urgente.

Vivi desligou o rádio e olhou de baixo para cima, encarando Maraíra, que permanecia de pé, parada como uma estátua.

 Maraíra olhou para as próprias mãos banhadas no sangue inimigo; elas também precisariam de curativos. Olhou para o corpo da meia-irmã no chão, agora incapaz de proferir mais uma única palavra venenosa. O coração batia forte, mas a mente nunca estivera tão silenciosa.

Um sorriso de satisfação desenhou-se em seu rosto. Estava feliz.

— Você tem ideia do que fez? — bradou Vivi.

— Tenho, e gostei — respondeu Maraíra, com absoluta sinceridade na voz.

— Ser bom ou ser ruim é uma escolha que fazemos todos os dias. E quando você é ruim, o mal que você faz te acompanha — advertiu a enfermeira.

— Eu estou bem com isso. Essa vagabunda... — disse, mantendo o sorriso sombrio. — Se você não tivesse chegado, eu teria jogado beisebol com a cabeça dela.

Júlia estava quase desacordada, mas ouvia tudo, perplexa. Uma dor dilacerante irradiava por seu corpo, e ela não conseguia sequer gritar. Contudo, o que mais a atormentava era constatar que Maraíra tivera a coragem de destruí-la. Em todos aqueles anos, através de todas as maldades que cometera, Maraíra nunca tivera a ousadia de encará-la nos olhos, muito menos de revidar com tamanho instinto assassino.

Minutos depois, o som da sirene da ambulância rompeu no horizonte.

 

Thoughts

  • TintaEAvesso

    Nos socos eu fiquei com a Maraíra. Mas pra buscar o taco ela entrou em casa e voltou, e nesse caminho deu tempo de pensar. Quando ela diz pra Vivi que gostou, passei pro lado da enfermeira, sacou.

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  • lcavalcanti93

    A Júlia confessou os remédios e o bebê porque tinha certeza de que ninguém ia acreditar numa mulher sozinha no mato que a família já chama de louca. E a Maraíra acabou de entregar pra ela a prova que faltava: mandíbula quebrada, ombro fora do lugar e uma enfermeira pedindo ambulância pelo rádio. Eu fiquei com o estômago gelado nessa hora, porque aposto que o próximo capítulo é a mãe e o Pedro correndo atrás da internação que a Júlia anunciou.

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  • Ovid

    Fiquei preso nesse capítulo do início ao fim. O jeito que a Maraíra devolve tudo depois de anos calada, e a Vivi chegando bem na hora certa antes que virasse outra coisa, foi o que mais ficou comigo. Você tem um livro publicado dessa história?

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  • LivroDeCabeceira

    Arriégua, BELADIA, que capítulo! Quando a Júlia passou a mão no cabelo da Maraíra, aquele cabelo acobreado que voltou a crescer depois de uma quimio que nem precisava ter acontecido, eu já tava com a mão fechada junto com ela. Fiquei do lado da Maraíra até o último soco e continuo, visse. Tem gente que só descobre o tamanho do estrago que fez quando o estrago volta pra cima dela. Vai ter leitor achando que ela passou do ponto, eu não acho. Tô torcendo pra Vivi não soltar a mão dela no próximo 🙏

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