livro (Querida, Sorria!)
Já eram nove horas da manhã quando Vivi estacionou o seu carro, um Palio de quatro portas na cor cinza. As portas laterais apresentavam amassados recentes e antigos, e a porta traseira tinha um estrago tão grande que quase impossibilitava seu fechamento. O veículo estava sujo, ostentando uma grossa camada de lama nas laterais.
De longe, Vivi observou a cena pelo para-brisa: a porta da garagem do bangalô estava escancarada, e a dona da casa chutava furiosamente a porta da casa. Havia diversos objetos espalhados pelo quintal — roupas, pequenos móveis e cacos irreconhecíveis. Vivi suspirou, pensativa.
O neto, que até então estava quieto no banco de trás, pulou para o vão entre os bancos da frente e indagou:
— O que ela está fazendo, vovó?
— Hum... — Vivi avaliou a situação. — Ela está surtando.
— O que quer dizer essa palavra, "surtando"?
— É quando a gente deixa sair algo que estava guardado há muito tempo. Igual a você, quando fica com muita raiva, chora e grita. É uma frustração acumulada que precisa sair.
— Ah, é só birra. Pensei que só criança fazia birra — concluiu o menino, com a voz calma, enquanto assistia à mulher esbravejar ao vento.
— É, meu filho... adulto também faz birra — respondeu Vivi. Com um clique seco, ela trancou as portas do carro por dentro. Melhor esperar dentro do carro.