livro (Querida, Sorria!)
Maraíra não derramou uma única lágrima, nem sentiu qualquer choque ao ler os relatórios que começaram a chegar. Seus inimigos sempre a tiveram como uma mulher louca, deprimida e sem coragem. Apesar de ela ter estudado economia e arquitetura por hobby, sempre lhe impuseram o papel de tola, de uma mera socialite inofensiva. Eles não estavam preocupados com o que ela poderia fazer ou do que seria capaz, pois, para eles, Maraíra era apenas uma coitada se escondendo no interior. O que a preencheu, no entanto, foi o prazer tático e frio de quem tem a lâmina no pescoço do inimigo. Ela não estava mais lidando com emoções; estava lidando com dados concretos, planilhas, contratos e balanços patrimoniais.
Organizou cada extrato bancário, o emaranhado de transações internacionais e a teia de holdings financeiras. Ela mapeou o caminho exato do dinheiro: contas de passagem no Panamá que lavavam os desvios através de notas fiscais de consultorias fictícias, desaguando em empresas de fachada nas Ilhas Cayman. Guardou cada foto e cada laudo em pen drives criptografados e servidores em nuvem, configurando cópias de segurança com gatilhos programados para disparar dossiês completos para a grande imprensa caso algo lhe acontecesse.
Redigiu os próprios termos da separação para o advogado revisar e protocolar na Justiça. Ela sabia perfeitamente que Pedro jamais aceitaria o divórcio de forma pacífica, pois isso significaria perder a sua fonte de riqueza. A ruptura precisaria ser arrancada dele por meio de um processo litigioso implacável ou de uma emboscada perfeita. Para isso, usaria uma isca: ela o ameaçaria e, em seguida, estrategicamente recuaria para colocar o plano em ação. Cego pela própria arrogância, Pedro acreditaria estar ganhando. E seria exatamente nesse momento de falsa vitória que perderia não apenas o que tinha, mas também tudo o que havia roubado dela. Era apenas uma questão de lançar a isca no segundo exato.
No fundo, Maraíra ainda nutria o desejo silencioso de que sua mãe a apoiasse nessa guerra. Mas, caso a lealdade materna falhasse mais uma vez em favor das aparências corporativas ou da atual família, ela já havia traçado a sua contingência. O peso de suas ações no conselho era a arma financeira para exigir a neutralidade da mãe. Se isso não bastasse, Maraíra sabia exatamente como usar as informações recém-descobertas para manter a matriarca ocupada lutando dentro da própria casa, impedindo-a de atrapalhar o andamento do divórcio.
Mais um mês chegou ao fim, e a gaiola psicológica que antes a aprisionava estava inteiramente desmontada dentro de si. O arsenal estava pronto e engatilhado. Ela não era mais uma mulher buscando a morte ou fugindo da vida; era uma estrategista aguardando o momento exato para atacar.
Os dossiês enviados pelo detetive eram um esgoto a céu aberto, revelando que a palavra "confiança" não existia naquela família. Seu padrasto mantinha uma amante que, na verdade, era uma segunda esposa de longa data. Sua mãe estava sendo enganada duplamente, pois a enteada que ela tanto amava não só sabia do caso, como frequentava a casa da outra família. O rastreamento de ativos expôs a fraude de forma incontestável: o padrasto roubava o patrimônio da esposa, drenando os fundos da empresa por meio de falsos pagamentos e ocultando o capital em uma holding offshore no nome da filha, devidamente blindada em um paraíso fiscal inalcançável para a Receita. Essa era a munição pesada que Maraíra usaria contra a mãe quando chegasse a hora.
A teia de traições formava um ecossistema patético de parasitas. Pedro roubava Maraíra sistematicamente e mantinha um caso de anos com Júlia. No entanto, o próprio Pedro era feito de tolo, já que a quebra de sigilo provou que Júlia financiava uma vida amorosa paralela, gastando o dinheiro dele com modelos e cantores. Ninguém era leal a ninguém. A mãe de Maraíra acreditava ter o marido e os negócios sob rédeas curtas, mas era apenas uma idosa alienada, governando um império de ilusões.
Um sorriso letal desenhou-se nos lábios de Maraíra, e um velho ditado lhe veio à mente: cobra engolindo cobra.
Faltava apenas que alguém fosse estúpido o suficiente para tentar destruí-la mais uma vez. Pois, agora, ela estava pronta para lutar e fazer cada um deles sangrar.
Caminhou lentamente até a varanda e sentou-se no balanço, observando as flores que dançavam com a brisa leve.
O som de pneus de um utilitário importado triturando o cascalho rasgou o silêncio. Era Júlia, sua meia-irmã, vindo buscar o próprio fim.