Carregando…

Capítulo 18: Fábio

BELADIA
Pública 0 conversa 0 pensamento 28 votos positivos 0 voto negativo 1 série

livro ( Querida, Sorria!)

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

livro ( Querida, Sorria!)

Fábio havia comparecido ao velório de seu avô Agenor e, após algumas semanas, precisou retornar à região pessoalmente. Seu avô lhe deixara uma carta com um último e irrecusável pedido: que o neto cuidasse da transição legal da fazenda, orientasse a abertura do inventário e garantisse, de forma inquestionável, a segurança financeira da filha e das netas. Fábio não delegaria essa tarefa aos seus advogados ou a qualquer assessor executivo. Pelo respeito e amor profundo que nutria pelo avô, faria questão de resolver cada detalhe burocrático e estrutural com as próprias mãos, como um pedido de desculpa pela ausência que a distância e o tempo lhe impuseram.

Isso não era uma concessão simples para um homem com a sua agenda. Fábio era um dos maiores nomes do agronegócio nacional, CEO de um império multimilionário que englobava dezenas de milhares de hectares de plantio de soja, confinamentos de gado de elite, uma rede própria de silos de armazenamento e uma frota logística pesada voltada para a exportação. Acostumado a comandar conselhos de administração em salas climatizadas, ali ele era apenas o neto de Agenor.

Naquele dia, havia passado horas inspecionando cercas, conferindo o maquinário antigo e analisando as divisas das terras. Sua calça jeans estava suja de terra, e as botas de cowboy carregavam o barro vermelho da lida pesada. A caminho da sede, parou sua caminhonete em frente a uma loja de insumos no centro da pequena cidade. Foi então que, do outro lado da rua, ele a viu.

Encostada em um jipe 4x4, usando um vestido laranja florido de grife que destoava completamente da poeira local, uma mulher conversava animadamente com o entregador que acomodava sacos de insumos no porta-malas.

O coração de Fábio errou a batida, acelerando da mesma forma incontrolável que sempre fazia quando os olhos dele a encontravam. Será que realmente é ela? — pensou.

Sua memória viajou até a primeira vez que a vira: Maraíra tinha apenas quinze anos. Fora em uma festa de debutante de alguma socialite cujo nome ele sequer lembrava. A mãe de Fábio o obrigava a frequentar algumas festas da alta sociedade; ela queria que o filho fizesse amigos nesse círculo social, mas ele nunca gostara daquelas reuniões nem das pessoas que ali estavam. No entanto, a imagem da garota de vestido rosa, com os cabelos ruivos caindo em cascata pelas costas, ficara cravada em sua mente. Era a jovem mais linda que já vira. Ela era uma convidada como ele, mas Fábio não tivera coragem de se aproximar. Três anos depois, em outro evento da alta sociedade, seus caminhos se cruzaram novamente. Ela estava ainda mais deslumbrante. O coração dele batera tão forte contra as costelas que o ar lhe faltara; e, mais uma vez, a hesitação o vencera.

Dois anos após esse segundo encontro silencioso, Fábio viu o anúncio nas colunas sociais de economia. Ao ler a notícia na tela do computador de que o herdeiro da família Correia havia se casado com ela, uma raiva súbita se apoderou dele. Com força, arremessou a xícara de café que estava sobre a mesa contra a parede, estilhaçando a porcelana. Um silêncio pesado pousou sobre a sala. Seu peito doeu, esmagado pelo peso irreparável da própria inércia. A constatação amarga de nunca ter dado um único passo à frente, de nunca ter tido a coragem de se apresentar para aquela garota, fincou raízes em sua mente, assombrando-o por muito tempo.

Depois disso, ele ainda a vira de longe em alguns eventos de gala, mas nunca foram formalmente apresentados. Maraíra tornara-se uma lembrança silenciosa em seu coração. Ele sabia quem era ela, enquanto ela sequer desconfiava da existência dele.

Com o tempo e o próprio amadurecimento — Fábio já havia chegado aos trinta e oito anos e acumulado sua cota de relacionamentos passageiros — anos atrás, logo após o casamento dela, decidira erguer um muro invisível, afastando-se de tudo que pudesse trazer qualquer proximidade com ela. Quando percebia a presença de Maraíra em alguma festa, simplesmente dava um jeito de ir embora.

E agora ela estava ali, no meio do nada. Mais magra, com os cabelos curtos. O que aconteceu com você? — pensou ele. Por que a herdeira da alta sociedade estaria comprando insumos em uma cidadezinha rural?

Movido por um instinto quase protetor, Fábio deu alguns passos em direção ao outro lado da rua, mas, antes que a alcançasse, viu Maraíra se despedir do entregador, entrar no jipe e seguir em direção à saída da cidade.

Ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos. Tinha uma vistoria urgente para fazer nas divisas das terras do avô e não podia atrasar o próprio cronograma. Talvez sua mente estivesse lhe pregando uma peça; não poderia ser ela. Deu partida na pesada caminhonete e pegou a estrada principal de terra batida, o caminho mais rápido para a sua rota na fazenda. Deixando que o acaso cuidasse do resto.

 

Related posts