livro ( Querida, Sorria!)
Maraíra encontrou a mulher vasculhando os armários da cozinha com a destreza de quem procurava algo muito específico.
— Você pode ficar — avisou Maraíra, parando no batente da porta. — Vou te mostrar o quarto de hóspedes. Mas saiba que eu tenho câmeras em todos os cômodos.
Mirian parou. Com o braço bom, fechou a porta de um armário de vidro e deu de ombros, o olhar divertido ignorando completamente a ameaça.
— A sua casa é linda. Mas me diz uma coisa... a rica aqui não tem bebida?
Maraíra franziu o cenho, olhando para os hematomas roxos no rosto da mulher e para o gesso no braço.
— Você quer beber álcool nesse estado?
— É exatamente pelo estado em que eu estou que eu preciso beber — Mirian abriu um sorriso torto, que repuxou o corte em seu lábio. — Você é a rica com câncer, eu sou a quebrada. Me diz que você tem uns remedinhos na sua farmacinha pra gente misturar com uísque.
O absurdo da proposta fez o peito de Maraíra ceder. Era um desrespeito absoluto com a situação dela, e, ironicamente, gostava da sinceridade da visitante.
— Você não se ofende? — Maraíra perguntou, enquanto caminhava até o bar da sala e pegava uma garrafa de Bourbon. — Em ser chamada daquele jeito lá fora. De puta.
— Tem poder nesse nome, sabia? — Mirian puxou duas taças de cristal pelo bocal, sentando-se no tapete macio com um gemido abafado de dor nas costelas. — O problema não é o nome. O problema é quando esquecem de pagar.
As horas derreteram na madrugada. Entre doses de uísque caro e analgésicos fortes, a distância entre a herdeira e a prostituta evaporou no tapete da sala.
Mirian levou a taça aos lábios, o gelo estalando no vidro. O olho roxo parecia ainda mais escuro sob a meia-luz do abajur.
— Aquele homem lá fora... ele achou que me quebrando, eu ficava — comentou Mirian, a voz perdendo a ironia pela primeira vez. Ela tocou o colete nas costelas levemente. — Fiquei anos na cama dele, acreditando na casinha com cerca branca que ele prometia toda vez que terminava. Hoje, eu arrumei a mala. Ele não gostou de ver o brinquedo criando perna.
— E o dinheiro que ele disse que você roubou? — perguntou Maraíra.
— Eu sou puta. Homem nenhum toca em mim de graça. — Mirian bebeu um gole longo, os olhos cravados no fogo imaginário da lareira apagada. — Aquele "pau pequeno"!
As duas gargalharam alto.
— Não o roubei. Ele descobriu que eu estou indo embora e quer que eu fique. Tentou usar a força, o medo, as ameaças, e agora me acusa de roubo — disparou Mirian. — É um "pau pequeno". Todo homem que não consegue ser realmente um homem tenta fazer isso aqui que você está vendo em mim. — Ela mostrou o braço quebrado e os hematomas no rosto. — Amanhã à noite estarei longe daqui — suspirou Mirian, olhando para a taça quase vazia. — O dinheiro estava na gaveta dele. Eu só peguei o pagamento atrasado de todos esses anos. Com ele, abro meu mercadinho na próxima cidade.
As duas mulheres já haviam esvaziado algumas garrafas e misturado analgésicos com álcool. Era madrugada, e Maraíra não se lembrava de ter se divertido tanto na companhia de outra mulher. Mirian era inteligente, tinha uma personalidade marcante e um jeito único de encarar a vida. Possuía um vocabulário extenso para palavrões, um repertório gigante de histórias engraçadas e inusitadas sobre o cabaré, e falava abertamente sobre a dificuldade de ter crescido sozinha. Não sentia pena de si mesma; ao contrário, transbordava orgulho. Ela via beleza na vida. Apesar de estar com o corpo machucado, fazia planos para o futuro e realmente parecia estar feliz.
Maraíra estava sentada confortavelmente em sua poltrona de grife, e Mirian, no chão, sobre o tapete macio, segurando o copo. Depois do riso, a mulher deu um longo suspiro. Sua voz ficou pesada, como se falasse de algo que realmente a rasgava por dentro.
— Eu o conheço há muito tempo... Nunca cumpriu as promessas que me fez. O amor foi morrendo. Eu já sentia aquilo, mas não sabia nomear. Olhando para o espelho, percebi: ele me fazia sentir como um lixo... E sabe por que ele fazia isso? Porque eu deixei. Nunca foi bom de cama, sempre teve pau pequeno, sempre mentiu, e eu o amei. Fingi não ver os defeitos dele e fui me deixando ser tratada como um lixo... Só que agora, tenho apenas uma certeza: a vida é só uma, e eu vou ser feliz nessa vida, porque eu mereço ser feliz. — Ergueu o copo e deu mais um gole na bebida.
Mirian engoliu a seco antes de continuar:
— Aí, comecei a trabalhar de verdade... Sabe, eu sou puta, e por muito tempo gostei de ser. Os homens me pagam, e eu cobro para tocarem o meu corpo. Esse dinheiro que o "pau pequeno" diz que eu roubei sempre foi meu. É o pagamento pelo meu trabalho. Vou abrir um mercadinho para onde eu vou. Vou me dar uma casa, um nome, uma família. Eu realmente fui feliz no cabaré por um tempo, mas agora não sou mais, por isso quero mudar. Eu posso. Porque eu sou a única que pode fazer algo por mim. E você vai ver — falou, abrindo um sorriso vingativo —, quando eu estiver estabelecida por lá, vou pagar alguém para vir aqui quebrar o braço dele, as costelas e deixar o olho roxo, igualzinho ele fez comigo.
Quase como se fosse um mantra para si mesma, ela completou:
— Eu sempre pago as minhas dívidas. — E, com resignação, suspirou, virando o resto do copo.
Maraíra ficou em silêncio, rodando o âmbar da bebida na taça. Ela olhou para Mirian. Uma mulher moída de pancada, sem família, sem sobrenome, que ainda assim estava sorrindo, forçando a saída da própria gaiola com o dinheiro do próprio sangue.
Lentamente, Maraíra levou a mão à cabeça e passou os dedos entre os fios de cabelo.
— Sabe os remédios que nós tomamos hoje com a bebida? — a voz de Maraíra soou oca, como um eco no fundo do copo.
— Os seus de dor?
— A quimioterapia.
Mirian assentiu, solidária. Levantou levemente a taça, como se fizesse um brinde fúnebre.
— Os remédios são reais — continuou Maraíra, o olhar fixo em um ponto cego do tapete. — O câncer, não.
A mão de Mirian congelou no meio do caminho. Ela baixou a taça devagar, a expressão dura substituindo o sorriso.
— Eu subornei uma clínica — Maraíra não olhava para a outra mulher. A confissão saía como veneno sendo drenado. — Falsifiquei as biópsias, paguei médicos. Comprei o protocolo de infusão e deixei injetarem o veneno nas minhas veias só para convencer os outros de que eu estava morrendo. Nas primeiras semanas, eu vomitava até rasgar a garganta. Depois, acordava com tufos de cabelo no travesseiro. Fiquei raquítica. Quase morri três vezes.
O silêncio na sala ficou denso, pesado o suficiente para sufocar. Mirian observava a mulher de grife à sua frente, tentando processar o nível de automutilação que estava ouvindo.
— Mas como? — Mirian estreitou os olhos, a mente afiada de quem conhecia os piores tipos de homens trabalhando rápido. — O 'pau pequeno' do seu marido e a sua mãe parecem do tipo que controlam até a água que você bebe. Como caralhos você pagou uma clínica inteira e tomou veneno na veia sem eles descobrirem?
Maraíra soltou uma risada fria e sem humor.
— Eu acho que eles sabiam da verdade. Eles queriam tanto que a narrativa da esposa doente fosse verdade que nunca questionaram. Ele assinou as transferências para o meu médico corrupto sempre com um sorriso. Pensando bem, ele sempre soube que não era verdade. Ficaria bonito em um jornal: "esposa morre de câncer"... Eu sou patética — afirmou, com um sorriso triste no rosto. — Queria tanta atenção dele, ser amada... Pedro sempre controlou tudo, o dinheiro, mas eu tenho uma conta em meu nome, como pessoa física, onde venho depositando um bom dinheiro que é só meu desde que era adolescente e ganhava mesada; após casar, a mesada continuou. Sou formada em economia e arquitetura, e falo três idiomas além do meu nativo... Eu sou muito patética.
Mirian soltou um assobio baixo, genuinamente impressionada, enquanto Maraíra rodava o gelo no copo.
— E sobre as sessões de quimioterapia... — Maraíra deu de ombros, o olhar ficando vazio novamente. — Eles nunca me acompanharam. Pedro dizia que ambientes de hospital eram "deprimentes" para a imagem dele. Minha mãe tinha nojo da minha aparência doente. Eu ia sozinha com o motorista. O médico me colocava na sala VIP, aplicava as drogas reais para garantir que os efeitos colaterais fossem visíveis e imprimia laudos falsos para eu levar para casa. Quando eu chegava vomitando e careca, o Pedro apenas sorria, crente de que eu não passaria do Natal.
— Por quê? — a voz de Mirian saiu num sussurro arranhado.
Com a voz reduzida a um sussurro quebrado, Maraíra tentou responder. No entanto, as palavras não vieram. Seus olhos encheram-se de lágrimas, que ela enxugou discretamente para que não rolassem pelo rosto. Ela simplesmente não soube responder à pergunta.
— E sabe... — Maraíra deu um longo suspiro tremido. — Ninguém se importou. Eu sempre fui uma covarde. Tentei me matar algumas vezes para chamar a atenção, mas ninguém ligava... Eu sou tão patética — engoliu o líquido de uma única vez. — Sempre deixei que me tratassem como lixo de graça e nunca cobrei nada — concluiu, com um suspiro profundo de tristeza, tentando sorrir enquanto enchia o copo mais uma vez.
As palavras pairaram no ar pesado da madrugada. Mirian, com seu olho roxo e as costelas trincadas, olhou para a mulher rica à sua frente, compreendendo intimamente que existem prisões muito piores e mais escuras do que os quartos de um cabaré. O silêncio compartilhado que se seguiu foi o único abraço honesto que Maraíra recebera em anos.
O céu começava a despontar em tons de violeta e dourado quando o som do motor do velho Palio de Vivi quebrou o silêncio da manhã. As duas mulheres haviam passado o resto da madrugada rindo, bebendo e despindo as próprias almas. Naquela sala espaçosa, cercada por garrafas vazias e confissões pesadas, as diferenças sociais haviam evaporado. Não havia mais a herdeira rica e supostamente terminal, nem a mulher do cabaré de corpo machucado. Havia apenas duas sobreviventes que, no fundo do poço de suas próprias vidas, encontraram um reflexo de força uma na outra.
Às seis da manhã, quando Mirian pegou sua bolsa para partir, Maraíra não viu uma estranha cruzando a porta de sua casa. O que havia começado como uma imposição constrangedora terminara como um dos vínculos mais profundos de sua vida. A amizade, improvável e repentina, fora forjada a ferro e fogo naquela fatídica noite de vulnerabilidade, onde o álcool anestesiou as dores físicas, mas trouxe à tona verdades curativas.
Maraíra caminhou até a varanda e, com um cuidado imenso para não pressionar as costelas fraturadas de Mirian, envolveu-a em um abraço apertado e genuíno.
— Que a vida te dê tudo o que você merece cobrar dela a partir de hoje — sussurrou Maraíra, com a voz embargada, mas firme.
Mirian retribuiu o toque com delicadeza e abriu um sorriso — aquele sorriso machucado, porém absolutamente invencível.
— E que você nunca mais esqueça de agredir quem te bate. Não se machuque, machuque quem te faz sofrer, Maraíra. Boa sorte.
A dona da casa ficou parada no umbral da porta, observando Mirian entrar no carro de Vivi. O Palio acelerou, levantando uma leve nuvem de poeira na estrada de terra, levando a mulher rumo a uma nova cidade, de onde partiria para sempre e recomeçaria sob seus próprios termos.
O veículo sumiu na curva e o bangalô voltou a ficar em silêncio. A brisa da manhã tocou o rosto de Maraíra. Pela primeira vez em muitos anos, ao olhar para o horizonte vazio, ela não se sentia solitária.