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 CAPÍTULO 04: O Caldo e as Lembranças

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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livro (Querida, Sorria!)

Já estava anoitecendo quando Maraíra acordou novamente. Seu corpo estava fraco, mas o estômago pedia comida. Levantou-se com dificuldade e, com passos lentos, foi até a cozinha ampla e aberta do bangalô. Sentou-se na bancada e puxou o recipiente com o caldo que Vivi havia deixado pela manhã. Nos últimos dias, aquele era o único alimento que não a fazia vomitar. O caldo era cheiroso, tinha uma consistência cremosa e um gosto delicioso. Maraíra pegou uma colher ali próxima e começou a saboreá-lo, até que uma lembrança bateu à sua porta.

— Esse caldo ela fazia para o cachorro? — Ela empurrou o recipiente para longe na bancada. — Que audácia! Ela está me trazendo comida de cachorro há três dias? — resmungou, tomada pela indignação.

Ela, que sempre degustara as melhores refeições nos restaurantes mais caros do país, agora recebia de uma estranha a mesma comida feita para um animal. Mas, pensando bem... a receita era incrivelmente saborosa. O estômago roncou mais alto que o orgulho. Puxou o recipiente de volta e deu uma colherada generosa. Era realmente muito bom.

No dia seguinte, tiraria satisfações com aquela mulher.

Qual era mesmo o nome dela?, pensou Maraíra. Ela chegou a me falar? Acho que não... Não importa.

Continuou tomando o caldo até raspar o fundo do recipiente.

Alimentada e finalmente sóbria, Maraíra olhou ao redor. A casa estava uma bagunça. A louça estava lavada e guardada, mas havia roupas espalhadas por todos os cantos. Já fazia semanas desde que chegara àquele bangalô recém-construído. Lembrava-se vagamente de que fora Júlia quem a trouxera, provavelmente apostando que ela morreria ali, sozinha e sem qualquer assistência médica.

A estrutura do bangalô era lindíssima. Aquele fora um de seus melhores projetos pessoais; ela sempre teve bom gosto e sabia que havia feito um ótimo trabalho na construção do lugar. Contudo, apesar de toda a beleza ao redor, a única coisa que Maraíra sentia era uma dor aguda no peito e lágrimas que teimavam em cair.

Aos poucos, conforme os dias passavam e ela se via mais sóbria e desintoxicada da mistura de álcool e remédios, sua mente voltava a ficar clara e lúcida. A beleza silenciosa do bangalô, o vento balançando a copa das árvores e o canto dos pássaros funcionavam como uma âncora, trazendo-a de volta para o mundo real. Um mundo onde ela era um ser humano, onde sua vida e sua saúde importavam.

Seus pensamentos vagavam pelo passado e esbarravam no presente. Enxergava seus erros e as escolhas de sua vida pregressa como uma sentença cruel, mas, naquele exato momento, teve uma certeza inabalável: já havia pago tudo o que devia. Daquele dia em diante, sua vida seria apenas sua. Suas escolhas seriam feitas por ela e para ela. Nunca mais aceitaria viver daquela forma.

Chega de mentiras, pensou.