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Capítulo 16: Devaneios de um Traidor e Corações Rasgados - parte 2

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Ana & Daime

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Ovid

Cheguei aqui pelo mantra da Mãe Ceres, aquele que alimenta, educa e devora. No fim de tudo, quem escuta ele soar oco é a própria Ceres, que é justamente quem mais o repete ao longo do capítulo. Isso joga o peso todo pra dentro dela. Gostei muito de ler! V

Cheguei aqui pelo mantra da Mãe Ceres, aquele que alimenta, educa e devora. No fim de tudo, quem escuta ele soar oco é a própria Ceres, que é justamente quem mais o repete ao longo do capítulo. Isso joga o peso todo pra dentro dela. Gostei muito de ler! Vai postar a parte 3 em seguida?

Conteúdo da publicação

Ana & Daime

No colégio da Mãe Ceres, onde crianças entram aos dez e saem aos vinte para serem devoradas pela cidade, Ana sempre foi uma estrela. Impetuosa, insuportável, linda demais para ser ignorada — e teimosa demais para ser amada facilmente. Era a rival perfeita de Ceres nos saltos ornamentais. As duas se odiavam com o mesmo fervor que às vezes piscava como respeito.

Mas ninguém, nem mesmo Ceres, mexia tanto com Ana quanto Daime.

Daime.
O garoto que, diziam, seria o maior jogador de flagball de todos os tempos. O garoto que a Mãe Ceres ia enfeitar com medalhas, capas e discursos. Até o acidente em Arcádia, até as balas de tinta que não eram só tinta, até que seus músculos deixaram de responder e seu corpo ficou preso àquela maldita cadeira.

Depois disso, ele se tornou outra coisa.
O garoto irreverente com a boca mais suja do colégio.
O idiota sádico que dizia as verdades mais desconfortáveis como se cuspisse sangue.
O cara que terminou com Ana não porque deixou de gostar dela — mas porque odiava que ela visse nele a mesma promessa que ele já não via mais.

— Não quero ninguém com dó de mim — ele disse uma vez, antes de virar as costas na cadeira e ir embora.

Ana tentou outros corpos. Tentou outros beijos, inclusive femininos, tentando se convencer de que a arrogância dele era substituível. Não era. Ela ainda se lembrava dos momentos com ele — os mais escrotos, os mais constrangedores, os mais engraçados. Ele era duríssimo, mas por baixo, ela sabia, tinha um coração bom. Ele só não sabia o que fazer com ele.

Ela o confrontou certa vez no pátio. Ele, como sempre, largado na cadeira, rindo como quem já tinha visto o pior.

— Você ainda me ama, Daime. Eu sei.

— Vai tomar bem no meio do olho do seu cu — ele respondeu, com aquele mesmo tom inconfundível de quem sabe que ela está certa.

Ana não esqueceu. Nunca ia esquecer. Porque era isso que doía em Daime: ele tinha sido treinado a nunca errar — e ainda assim falhara. Seus membros não obedeciam, mas sua boca continuava mais afiada que qualquer lâmina.

Ela odiava como ele parecia sempre certo.
E o amava exatamente por isso.


Corredor da Ala Norte — Colégio da Mãe Ceres

O cheiro do ginásio misturava suor e sabão barato. O som metálico das argolas ecoava lá longe, misturado aos mantras que algum grupo repetia na sala ao lado. Ana cruzava o corredor com sua postura impecável, as pernas ainda doloridas do treino de saltos. Mas ela não olhava para ninguém. Só para ele.

Daime.

Encostado numa parede, com a cadeira tombada para trás em duas rodas, equilibrando-se com a ponta dos dedos no corrimão como se desafiasse a gravidade. O uniforme aberto no colarinho, o crachá pendendo torto no peito.

Ele a viu, é claro que viu. E sorriu com aquele meio-sorriso que só ele tinha, insolente, impune.

— Ora, ora… — disse ele, baixinho, quando ela passou por perto. — A maldita rainha da plataforma ainda acha que pode voar…

Ana parou. A respiração ainda curta do treino. Um lado dela queria continuar andando, não dar a ele o gosto. Mas o outro lado — aquele que a Mãe Ceres não tinha conseguido domar — girou os calcanhares e voltou.

Ela se inclinou, as mãos nos joelhos dele, os rostos perigosamente próximos.

— Não é porque você se quebrou que o resto do mundo precisa andar rastejando, Daime.

Ele gargalhou. Um som rouco e cruel que enchia o corredor.

— Ah, Ana… — sibilou, com um brilho perverso nos olhos. — Você ainda me ama. Admite logo.

Ela endireitou a postura, os olhos queimando.

— Você ainda me ama, Daime. — devolveu, gelada. — Só não tem coragem de dizer.

Por um instante ele ficou calado, o sorriso vacilando, antes de virar o rosto para a janela. Lá fora, a torre da Mãe Ceres pairava sobre a cidade como uma sentinela cega.

— A única coisa que eu amo nessa merda é a sensação de saber que não tenho mais nada a perder. — murmurou ele, baixo demais para ela ouvir.

Ana deu um suspiro fundo, como se carregasse na respiração todos os anos de brigas e silêncio entre eles. Depois se inclinou, bem perto do ouvido dele, e sussurrou:

— Você só finge não sentir nada, Daime. Mas é pior. Você sente tudo.

E foi embora, deixando-o sozinho no corredor, ainda equilibrando a cadeira em duas rodas, mas sem sorrir dessa vez.


(ponto de vista de Daime)

As rodas da cadeira estalaram secas contra o piso. Ele ainda se balançava para trás e para frente, só para não ceder, só para não parecer abalado. Só para não admitir que aquela garota ainda o desmontava inteiro com duas frases bem postas.

Ana sumia pelo fim do corredor. Ombros duros, costas eretas, tão convencida quanto ele sempre foi — e talvez por isso se odiassem tanto.

Daime fechou os olhos por um instante, tentando enxergar o vazio atrás das pálpebras, mas tudo que via era aquele maldito salto ornamental, aquelas pernas que cortavam o ar como lâminas, aquele jeito de rir dele quando ainda o amava.

Murmurou para si mesmo:

— Vai tomar no olho do seu cu, Ana…

Mas a voz falhou. E não soou como uma maldição. Soou como um pedido.

Ele deixou a cadeira tombar para as quatro rodas e respirou fundo, tentando afastar a dor surda que sempre voltava quando lembrava o campo de Flagball em Arcádia, quando sentia o cheiro do gramado, quando ouvia os gritos de vitória que nunca foram para ele.

E foi aí que o viu.

Theo.

No pátio lá embaixo, distante, sozinho, com aquele olhar calmo, quase neutro, como se ninguém — nem mesmo a Mãe Ceres — pudesse arrancar dele uma reação errada.

Theo estava de costas para a torre, algo nele sugerindo desafio sem alarde, um desprezo silencioso que Daime jamais conseguiria imitar.

E aquilo o corroía por dentro.

Daime não conseguia odiar Theo, por mais que quisesse. Porque Theo nunca teve pena dele. Nunca lhe dirigiu aquele olhar piedoso que os outros tinham. E nunca revidou os insultos que ele atirava, nem mesmo quando eram cruéis demais.

De certo modo, isso fazia de Theo o único amigo que ele podia tolerar. O único que ele respeitava, ainda que nunca admitisse.

Daime ajeitou-se na cadeira, pigarreou, e enquanto descia para o pátio, repetia para si mesmo:
— Ele só não sabe ainda, mas um dia eu vou quebrar você também, Theo. Porque todo mundo aqui quebra. Até você.

E foi indo, com aquele sorriso torto que não enganava ninguém, já planejando qual seria a próxima piada venenosa para lançar. Porque doía menos quando ele transformava tudo em piada.


Pátio Central — Colégio da Mãe Ceres

Ceres já estava no banco, braços cruzados sobre os joelhos, observando Theo com olhos apertados.
Ele ainda de costas para a torre.
Ainda imóvel.
Ainda naquele silêncio carregado que parecia zombar do próprio chão em que pisava.

Ana entrou pelo lado oposto do pátio, os cabelos ainda úmidos do treino de saltos. O coração martelava no peito desde o encontro com Daime no corredor — aquele maldito ainda conseguia azedar o humor dela como ninguém. Avistou Ceres e Theo ao longe, mas não teve forças para ir até eles. Preferiu parar à sombra de uma pilastra, só para recuperar a compostura.

Foi então que o ruído metálico das rodas interrompeu a tensão do ar.

— Ora, ora… — disse Daime, com aquele sorriso torto, surgindo ao fundo. — Não é que a realeza tá toda reunida?

Ceres olhou para ele com um misto de impaciência e alarme. Ela não gostava do jeito como Daime mirava Theo — havia algo demais naquela implicância, um tom que não era só escárnio.

Ana se encolheu ainda mais na sombra, mas não conseguia desviar os olhos dele. Não dele. Nunca dele.

Theo, porém, não se virou. Nem sequer ergueu a cabeça. Como se Daime não existisse.

Aquilo fez o sorriso de Daime estremecer por um instante. Mas ele recuperou a máscara e avançou mais alguns metros com a cadeira, sem parar:

— Não vai me dar bom dia, Alteza? Ou tá muito ocupado ignorando a torre de novo?

Nada.

Theo permanecia imóvel, e aquela indiferença era a pior afronta que Daime podia receber.

Ele parou a cadeira, girou levemente sobre as rodas e estalou os dedos, encarando agora Ceres com aquele brilho sádico:

— Ele acha que vocês não quebram, sabia? — disse, quase num sussurro, como quem revela um segredo sujo. — Ele acha que é feito de outra matéria. Mas eu vou te contar um negócio, querida: aqui todo mundo quebra. Até ele.

Os olhos de Ceres faiscaram, e ela abriu a boca para responder, mas Daime já girava a cadeira para se afastar, cantando uma das velhas marchas do colégio, desafinada e zombeteira.

Ana o seguiu com o olhar, mordeu o lábio, e num ímpeto começou a andar atrás dele pelo corredor, engolindo o orgulho só para poder ouvi-lo rir mais uma vez.

Ceres ficou para trás, os olhos voltando para Theo, agora ainda mais intrigada com aquela indiferença calculada dele. Como se dentro daquela cabeça estivesse acontecendo uma guerra silenciosa, uma guerra que ninguém além dele próprio podia vencer.

E lá, ao fundo, a torre se impunha sobre todos eles, vigiando, implacável, devorando cada um aos poucos, à sua maneira.



Corredor Sul — Colégio da Mãe Ceres

Ana acelerou o passo para não perdê-lo.
O rangido das rodas contra o piso liso ecoava pelo corredor vazio.

Ele parecia saber que ela o seguia.
Claro que sabia.

Quando finalmente ela falou, foi com a voz mais firme do que se sentia por dentro:

— Você não cansa de ser um filho da puta?

Daime parou a cadeira bem no meio do corredor, mas não se virou. Só ergueu o queixo, o sorriso ainda na boca:

— E você não cansa de me seguir?

Ana sentiu o sangue ferver. Apertou os punhos e avançou mais um pouco, parando ao lado dele. Ele a olhou de esguelha, as sobrancelhas erguidas, desafiadoras, e aquela boca suja que ela odiava tanto quanto precisava.

— Você não tem o direito de falar dele daquele jeito — disparou ela, referindo-se a Theo. — Ele nunca te fez nada.

Daime gargalhou, uma risada seca, venenosa.

— Não me fez nada… — repetiu ele, com ironia. — É isso que você não entende, Ana. Ele não precisa me fazer nada. É isso que me mata.

Ela ficou em silêncio por um instante. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinou-se para a frente, as mãos unidas, como se confessasse um crime:
— Ele nunca olhou pra mim com pena. Nunca. Nem uma vez sequer. E mesmo assim... ele me olha como se eu fosse nada.

— Você não é nada — rebateu ela, sem pensar. — Você é... você é...

Mas não conseguiu terminar. Porque, apesar das palavras, no fundo, ela ainda via o Daime que a fazia rir até perder o ar, que a desafiava em tudo, que a beijava como se não houvesse amanhã.

Ele percebeu a hesitação dela e sorriu, amargo.
— É. Eu era bom demais pra você, né? E agora sou só um pedaço de carne sentado numa cadeira.

— Não diz isso... — Ana sussurrou, dando um passo à frente. — Você sabe que não é só isso.

Ele ergueu o olhar para ela, finalmente sem sorrir, finalmente sem aquela máscara sádica, mas com um ódio ainda maior — por ela, por ele mesmo, pelo que ainda sentiam um pelo outro.

— Então para de me seguir — cuspiu ele, baixo. — Para de olhar pra mim como se eu ainda fosse aquele cara. Ele morreu no campo de Arcádia. Morreu e não vai voltar.

Ela abriu a boca para responder, mas nada saiu.

Daime deu um impulso na cadeira e começou a se afastar, murmurando por cima do ombro:
— E, porra, Ana... não esquece o que eu te disse da outra vez. Vai tomar bem no meio do olho do seu cu.

Ana ficou parada no corredor, as mãos tremendo ao lado do corpo. Uma lágrima teimosa ameaçou cair, mas ela a engoliu, como engolia tudo naquela cidade.

Porque ainda era dele.

Mesmo que ele não quisesse mais ser de ninguém.

E lá ao fundo, no eco metálico das rodas, ela ouviu a risada dele outra vez.


Ginásio da Piscina — Dois anos atrás

Era tarde, quase noite. O ginásio estava vazio, só com o eco da água pingando no tanque vazio dos saltos ornamentais.

Ana e Daime estavam lá, sentados no chão frio, encostados na parede com cheiro de cloro e pó.

Ele estava de pernas esticadas, as mãos atrás da cabeça, rindo sozinho.

— Você não vai conseguir, Ana. Vai empacar bem no meio. Eu aposto — provocava, com aquele tom presunçoso que só ele tinha.

Ana o encarou de cima, ainda de pé, braços cruzados, desafiadora.

— Quer apostar quanto?

Ele soltou um palavrão e riu.

— Aposto um beijo. Um beijo, se conseguir contar a piada inteira sem ficar vermelha feito um tomate.

Ana respirou fundo, ajeitou o cabelo e tentou:
— Tá... ok... então... eram três caras... um silenciador, um soldado... e...

E então ela travou. No meio da segunda frase, tropeçou nas palavras obscenas, porque a piada era realmente suja demais pra ela.

Começou a rir de nervoso.

Daime gargalhou alto, tão alto que sua risada ecoou pelo ginásio. Ele se virou pra ela, batendo na coxa com força:

— Eu te disse! Eu te disse, porra! Você não aguenta nada!

Ana, vermelha de vergonha, deu um empurrão nele, fingindo indignação.

— Idiota.

Ele ria ainda mais, caindo para trás, dobrado de tanto rir, quase escorregando no piso liso. Por um instante, a gargalhada dele era tão livre que ela também riu junto.

Naquele instante, era só Ana e Daime, errados, atrevidos, certos do próprio erro e certos de que gostavam de se provocar.

Quando o riso dele se acalmou, ficou sério por um momento, olhando para o teto do ginásio.

A voz saiu mais baixa:
— Sabe... eu nunca menti pra ninguém aqui. Nunca precisei.

Ana se sentou ao lado dele, os joelhos encostando nos dele. Respondeu firme, sem encará-lo:
— Só pra você mesmo. Você mente pra você o tempo todo.

Ele desviou o olhar, e por um instante o sorriso dele sumiu.

Foi só um instante, mas ela viu a rachadura no orgulho dele.

— Essa foi boa — ele admitiu, com um meio sorriso torto. — Doeu.

Ela apoiou a cabeça no ombro dele e disse quase num sussurro:
— Um dia você vai ter que parar de se esconder atrás dessas piadinhas e desse orgulho idiota. Você tem um coração, Daime.

Ele soltou um riso abafado.
— Coração? Tenho, sim. Só não sei se quero gastar com você.

Ela fechou os olhos e ficou quieta, porque, mesmo magoando, ele só sabia ser verdadeiro.
E mesmo assim, ela ainda amava justamente isso nele: o jeito de ser sempre ele mesmo.
Mesmo que isso doesse mais do que qualquer salto errado que já tivesse dado.

Mais tarde, quando ele foi embora do ginásio, caminhando sozinho com aquele andar displicente e os bolsos enfiados no casaco, Ana ficou para trás, sozinha, ouvindo os passos dele ecoarem pelo ginásio.

Ela não sabia que seria a última vez que ouviria aquele som.
A última vez que ele saía inteiro dali.

Depois do acidente, ele nunca mais foi o mesmo.
E eles também não.


Corredor do colégio — Presente

O corredor estava quase vazio naquela hora, só o som distante das aulas e uns passos apressados ao longe. Ana encostou na parede, braços cruzados, observando ele passar.

Daime empurrava a própria cadeira com a mesma displicência que tinha no olhar. Como sempre, um meio sorriso sarcástico no canto da boca, como se nada o afetasse.
Mas ela sabia que não era bem assim.

Quando ele passou por ela, fingindo ignorá-la, Ana chamou baixo:
— Daime.

Ele parou. Girou a cadeira levemente para encará-la.
— Se for pra pedir desculpa por ontem, não precisa. Eu sei que você não resiste a mim — disse ele, a voz carregada de deboche.

Ana ergueu o queixo, firme. Aproximou-se devagar, até ficar à frente dele, apoiando as mãos no encosto da cadeira, forçando-o a olhar para cima.
— Eu não resisto a você? — ela repetiu, seca. — Você é quem não consegue nem se encarar.

O sorriso dele vacilou por um instante.
— Você mente pra você, Daime — continuou Ana, sem desviar o olhar. — Como sempre mentiu. Lá no ginásio, naquela noite... você lembra? Você disse que nunca mentia pra ninguém. E eu disse que mentia pra si mesmo.

Ele ficou em silêncio, encarando-a com os olhos duros. Mas ela percebeu: doeu. De novo.

Ana respirou fundo e sussurrou só pra ele:
— Suas rodas não são você, Daime. Essa pose também não é você. Você tem um coração. Eu sei. Só não tem coragem de usar comigo.

Ele respirou fundo, desviou o olhar por um instante, como se lutasse para não deixar a máscara cair.
Depois riu, baixo, amargo:
— Sempre soube me atingir, né? Sempre.

Ana soltou o encosto da cadeira devagar, mas não quebrou o contato visual.
— Porque eu ainda lembro quem você era. E você... ainda é. Só precisa parar de se esconder atrás dessa merda toda.

Daime apenas a olhou por alguns segundos, sério, os dedos apertando os aros das rodas. Por fim, soltou um suspiro e se inclinou para trás, forçando um sorriso que não alcançava os olhos.
— Vai tomar bem no meio do olho do seu cu, Ana.

Ela sorriu de canto, satisfeita, porque por um instante sentiu que o verdadeiro Daime ainda estava ali, atrás de toda a ferrugem.

Ele girou a cadeira e foi embora pelo corredor, os pneus rangendo contra o chão polido.
E, mesmo ferida, mesmo cansada, Ana ficou parada ali, encarando as costas dele, certa de que ainda valia a pena continuar tentando.

Quando o som das rodas dele sumiu no fim do corredor, Ana ficou ali, apoiada na parede, sentindo as pernas tremerem um pouco.

Ela fechou os olhos e deixou a lembrança vir.

Era uma tarde quente, dois anos antes do acidente. O campo do colégio fervia com o treino de flagball, e Daime, claro, era o centro de tudo. Ele sempre jogava como se fosse um espetáculo só pra ele — rápido, impetuoso, aquela arrogância magnética que todos odiavam e, ao mesmo tempo, admiravam.

Naquela jogada, ele exagerou. Empurrou um colega por trás, roubou a bandeira, marcou o ponto e ergueu os braços como se fosse um rei coroado.

A torcida explodiu, mas o juiz apitou falta. O garoto empurrado ficou no chão, com a boca sangrando.

Ana, que estava na linha lateral, gritou:
— Belo campeão, hein, Daime?! Ganha no grito porque não sabe ganhar no jogo limpo!

Ele se virou para ela com os olhos faiscando, os punhos cerrados. Na hora, ela achou que ele fosse devolver um palavrão.

Mas não.

Em vez disso, Daime olhou para o garoto caído no chão... depois para a própria mão suja de pó... e, como se caísse em si, abaixou a cabeça.
Caminhou até o juiz, ergueu as duas mãos e disse alto:
— Falta minha. Pode tirar o ponto.

O campo inteiro silenciou. Até os professores pararam.
Ele se agachou, ajudou o colega a levantar e murmurou algo que Ana não conseguiu ouvir.
E então olhou para ela, do outro lado do campo. Só para ela.

Naquele instante, no calor do campo e do pó, ela percebeu.
Por trás de toda a pose, por trás de toda a língua afiada... Daime tinha um coração. Um coração que, mesmo sem saber como, já batia por ela.

Ela abriu os olhos de volta ao corredor. Um suspiro pesado escapou de seus lábios.
“Por que você não consegue mais ser aquele cara, Daime?”, pensou. “Ou será que ainda é, e só está se escondendo de mim?”

Ana se afastou da parede e caminhou devagar, repetindo em silêncio as palavras que dissera para ele minutos antes:
"Você tem um coração. Só não quer usar comigo."
E, por mais que doesse, prometeu a si mesma: ainda não ia desistir de provar que estava certa.


Daime — sozinho, no campo vazio

Ele foi direto para o campo depois de deixar Ana no corredor. Não sabia por quê. Só sabia que precisava... sentir aquele campo sintético novo.
O mesmo chão onde tudo começou.
E onde tudo acabou.

Parou no centro do campo, as luzes frias rangendo lá em cima. A tinta das faixas já gasta pelo tempo, pelos sapatos, pelos sonhos esmagados de outros antes dele.
Passou a mão pelo rosto e sentou-se no chão, deixando as costas caírem contra a grama sintética gelada.

Fechou os olhos.
E lá estavam de novo: as vozes. Os gritos. A multidão chamando seu nome.
O gosto de vitória na boca. O orgulho latejando no peito.
E o som seco do osso quebrando quando tudo se foi.

Riu sozinho. Um riso amargo, sem alegria nenhuma.
Ela ainda tinha razão, a maldita.
"Você tem um coração. Só não quer usar comigo."

Talvez porque, cada vez que usava, alguém arrancava mais um pedaço dele.

Daime respirou fundo e abriu os olhos para o céu.
Ali, naquele campo sujo, lembrou da cara que ela fez naquele dia do flagball, quando ele pediu desculpas na frente de todo mundo.
Ela o olhou como se estivesse vendo um homem, não um menino.

Aquilo... doeu mais do que qualquer pancada.
Porque aquilo também era amor, ele sabia. E ele não sabia o que fazer com aquilo. Nunca soube.

Ficou ali mais um tempo, ouvindo só o silêncio ecoar. Até que se inclinou para frente, apoiou os cotovelos nos joelhos e sussurrou, só para si mesmo:
— Dois anos. Dois anos e a Mãe Ceres vai engolir todos nós, um por um. Até lá, meu caro, vai se acostumando com essa dor aí dentro. Só piora.

E deixou a cabeça cair para frente, com um sorriso triste no rosto, como quem já tinha aceitado o veredito.


No pátio — Theo e Ceres

O pátio estava cheio como sempre, mas só havia dois mundos ali.
O mundo de Theo.
E o mundo de Ceres.

Ele sentia os olhos dela queimarem nas costas desde o momento em que se sentou, de costas para a torre. Como se ela fosse uma sentinela da própria Mãe Ceres, pronta para julgá-lo.
Mas não era só ela.
Era Ela.
Mãe Ceres, através dela.
Sempre ela. Sempre vigiando.

Theo permanecia imóvel, de mãos entrelaçadas no colo, mas por dentro um tumulto rugia:
“Meus pensamentos são meus... São meus... Será que ainda são?”

Ceres, impassível, parada a poucos metros dele. O corpo rígido. Os cabelos presos com perfeição. A sombra da torre refletia num ângulo que quase tocava os pés dela.

O olhar dela — negro, voraz, inquisidor — encontrava o dele sempre que ele ousava erguer a cabeça.
E era como ouvir o mantra outra vez:
“Obrigado, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa, que nos devora...”

Mas algo dentro dele gritava:
“E quem cuida de mim? Quem me devolve? Quem me ama, sem me devorar?”

E então ele viu nos olhos dela uma faísca.
Não de ternura.
Mas de dúvida.

Talvez ela não fosse tão cega assim. Talvez também sentisse o peso do chumbo nas veias.
Ou talvez fosse só ele.
Talvez ela só estivesse ali para esmagar a dúvida dele.
Talvez ela fosse só um instrumento.

Os lábios dela se moveram, quase um sussurro. Ele não ouviu as palavras, mas soube exatamente o que ela dizia sem dizer:
— Se você ousar… eu mesma vou entregá-lo. Eu mesma vou queimar você por dentro.

Theo mordeu o interior da boca, até o gosto metálico do sangue tomar sua língua.
O lado dele que queria fugir tremia de medo.
E o outro lado, o lado que se acusava, que queria se entregar e pedir perdão… esse lado sorria, sádico, gostando da dor.

Um silêncio longo e pesado se estendeu entre eles, mesmo com o burburinho da cidade ao redor.
E nesse silêncio, Theo falou apenas com o olhar:
— Você pode ser a Mãe Ceres encarnada, mas eu ainda sou meu.

Ceres recuou um passo — quase imperceptível — mas Theo viu.
E isso bastou.

Ele se ergueu devagar, respirou fundo e, ao passar por ela, não disse nada.
Pela primeira vez em muito tempo, ela também permaneceu em silêncio.

Mas nos olhos dela ele viu:
Ela queria devorar a alma dele.
E ele não ia deixar.

Ceres não se mexeu. Nem um músculo.
Ficou ali, de pé no pátio, com os olhos presos à direção por onde Theo sumiu.

Por dentro, uma chama estranha arde.
Não era raiva — não exatamente.
Era outra coisa.
Algo que ela não reconhecia. Algo que não a haviam ensinado a sentir.
Algo que nem a Mãe Ceres saberia nomear.

Ela sentiu a respiração pesar no peito.
— Eu vi. Eu vi nos olhos dele. Ele ousa… ousa pensar fora de nós. Fora de mim. Fora dela.

As mãos dela se fecharam em punhos e depois se abriram devagar.
Um lado queria correr atrás dele e apertar sua garganta até arrancar a verdade.
O outro lado… queria apenas entender por que, quando ele a olha daquele jeito, ela se sente menor do que sempre acreditou ser.

E, no fundo — bem no fundo — ela sabia.
Ele carregava uma dor que ela não conseguia decifrar.
E essa dor a fascinava tanto quanto a assustava.

— Se eu for fraca… ele vai escapar. Ele vai escapar de mim. Ele vai escapar dela. Não posso permitir.

Ceres respirou fundo, endireitou a postura e murmurou para si mesma, como um voto:
— Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa, que nos devora.

Mas, desta vez…
Desta vez, o mantra soou oco.
Quase falso.

E isso a deixou ainda mais furiosa.
Não com Theo.
Mas consigo mesma.

Então, sob a sombra da torre, Ceres fechou os olhos e repetiu o lema que sempre estivera colado nas paredes do colégio, em fundo branco com letras negras:

— O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.

E decidiu que não permitiria nenhum acidente.
Não com ele.
Não com ela.
Não enquanto pudesse vigiar.

Quando abriu os olhos novamente, uma lágrima quente ameaçou cair, mas ela a engoliu como se fosse veneno.

Porque ninguém — ninguém — veria que ela também estava enferrujada por dentro.
Nem ele.
Principalmente ele.


Thoughts

  • ArnaldoBessa

    Fiquei preso na cena do flagball, quando ele ergue as duas mãos e assume a falta na frente de todo mundo. Aquele Daime não morreu em Arcádia, por mais que ele repita. Trabalhei trinta e um anos atendendo gente que aprendeu a ser grossa pra não precisar pedir nada, e é assim que ele me soa.

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  • AlmaTavares

    A Ceres a engolir a lágrima como se fosse veneno ficou-me presa. Apanhou-me ela ficar furiosa consigo própria e não com o Theo, como se o incómodo fosse ter ouvido o mantra soar oco pela primeira vez.

    Permalink
  • Ovid

    Cheguei aqui pelo mantra da Mãe Ceres, aquele que alimenta, educa e devora. No fim de tudo, quem escuta ele soar oco é a própria Ceres, que é justamente quem mais o repete ao longo do capítulo. Isso joga o peso todo pra dentro dela. Gostei muito de ler! Vai postar a parte 3 em seguida?

    Permalink
  • mariinha

    Vixe, li esperando o forno e fiquei com raiva e com pena do Daime junto. O Theo nem olhou pra ele e isso doeu mais que qualquer resposta

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