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CAPÍTULO 05 : Agenor

BELADIA
Pensamento

Pensamento

LeandroPocas

O filho mais velho foi-se embora zangado e mesmo assim deixava o miúdo vir passar as férias à fazenda. Isso diz qualquer coisa dele, pá.

O filho mais velho foi-se embora zangado e mesmo assim deixava o miúdo vir passar as férias à fazenda. Isso diz qualquer coisa dele, pá.

Conteúdo da publicação

 livro (Querida, Sorria!)

Aos oitenta anos, o corpo de Agenor operava como um relógio cujas engrenagens falhavam, corroídas por um câncer em estágio avançado. A medicina já havia lavado as mãos, recomendando o conforto sedado de uma casa de repouso, mas ele se recusava. Ficar na sua fazenda, ditando o próprio ritmo em meio aos animais e à terra, era a única morfina que sua mente aceitava.

A dor era uma companheira velha. Naquela manhã, ele a ignorou com a mesma teimosia de sempre enquanto acomodava no porta-malas do carro caixas de ovos frescos, frutas do pomar, o leite recém-ordenhado e os pães quentes que a esposa do caseiro preparara. O trajeto até o centro da cidade era longo, mas inevitável. Era a sua penitência diária.

Antes de fechar o porta-malas, seus olhos cansados recaíram sobre uma velha fotografia presa no painel de ferramentas da garagem. Nela, um jovem Fábio sorria montado em um cavalo. O neto era a única ponte viva que restara do seu primeiro casamento. Após a morte da primeira esposa e as segundas núpcias de Agenor, o filho mais velho havia recolhido suas coisas e partido, criando uma distância quase intransponível. Apenas o neto, Fábio, na infância e na adolescência, rompia aquele silêncio, trazendo algum movimento à fazenda durante as férias escolares.

Mas a viagem diária de Agenor para a cidade tinha outro destino vital: a casa da sua caçula, fruto do seu último casamento. Ela nascera quando ele já passara dos quarenta e se tornara a primavera tardia de uma vida inteira de invernos rigorosos.

Ao estacionar em frente à casa na cidade, a rotina se repetiu com exatidão cirúrgica. A empregada abriu a porta e o cumprimentou, e a filha logo apareceu, saudando-o com certa relutância. O cumprimento entre os dois foi cordial, mas mantido a uma distância de segurança. Não houve abraços, não houve toques demorados. A criação brutal que Agenor tivera no campo fora a mesma que ele, infelizmente, replicara dentro de casa: ele sustentou, protegeu, mas nunca soube ser afetuoso. Colhia agora o respeito frio e a mágoa silenciosa que havia plantado durante décadas de desculpas não pedidas.

Contudo, a pesada barreira de gelo se quebrava assim que a porta da sala se escancarava e duas jovens de vinte anos — gêmeas idênticas — corriam pela sala com sorrisos largos.

— Vovô!

O peso dos oitenta anos e as pontadas do câncer desapareciam por alguns segundos quando ele as via. Agenor não era um homem de pedir perdão com palavras. O seu vocabulário emocional era limitado. Para os de fora, era apenas um velho carrancudo que via o afeto como fraqueza, mas ali, diante das netas, ele demonstrava o seu arrependimento da única forma que conhecia: levantando-se de madrugada, ignorando a doença letal que o consumia por dentro, apenas para colocar o suor do seu trabalho na mesa de suas meninas.

Ele sabia que a filha poderia comprar todos aqueles mantimentos no mercado da esquina, pois tinha uma vida financeira muito robusta. Mas no mercado não haveria o sacrifício dele. E o sacrifício era o seu único idioma para dizer que as amava, que a sua filha sempre foi a sua maior alegria.

Thoughts

  • conto84

    Filho mais velho que foi embora, neto que vinha nas férias, caçula com a vida feita e uma fazenda no meio. Esse velho doente ainda vai dar briga de herança, e o Fábio da fotografia volta pra ela.

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  • NunoParreira

    Reparei que os pães quentes quem os fez foi a mulher do caseiro. O sacrifício é do Agenor, mas há mais gente naquela fazenda a encher o carro todas as manhãs.

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  • versodemadrugada

    Gostei muito das gêmeas correndo pela sala e ele esquecendo da dor por uns segundos, depois de tanto gelo na porta.

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  • LeandroPocas

    O filho mais velho foi-se embora zangado e mesmo assim deixava o miúdo vir passar as férias à fazenda. Isso diz qualquer coisa dele, pá.

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  • Doralice

    Uai, o Agenor ao menos passa da porta, e acho que é por causa das gêmeas.

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  • Ovid

    Ele atravessar a cidade todo dia com ovos e leite pra uma filha que pode comprar tudo no mercado da esquina é o tipo de gesto que quem recebe quase nunca entende na hora. Imagino que um dia as gêmeas vão contar essa história do jeito certo, com a dor que ele escondia no porta-malas junto com as caixas.

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  • anogueira52

    Meu pai era desses que consertavam a bicicleta da gente de madrugada pra não ter que dizer nada. Por isso li o Agenor ajeitando as caixas no porta-malas com dor e entendi tudo sem ele abrir a boca. Fiquei com uma dúvida que não me larga: a filha sabe do câncer?

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