Esse pedido da capitã de não usarem magia perto da floresta, e ela contando que veio do pai dele meses antes de morrer, me fez pensar nos avisos que a gente só entende anos depois, quando já não dá pra perguntar nada. Aposto que essa floresta cobra isso ainda no começo da viagem. Bom te ver por aqui!
Capítulo 01 - O Filho do Herói
Naquela manhã, o nome de Ezekiel estava em toda parte.
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Pensamento
Esse pedido da capitã de não usarem magia perto da floresta, e ela contando que veio do pai dele meses antes de morrer, me fez pensar nos avisos que a gente só entende anos depois, quando já não dá pra perguntar nada. Aposto que essa floresta cobra isso a
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Naquela manhã, o nome de Ezekiel estava em toda parte.
Estava gravado em placas de bronze nas portas dos edifícios, esculpido em pedra no monumento que ocupava o centro da praça principal e havia sido repetido tantas vezes pelas pessoas que caminhavam pelas ruas de Valdora que, para Daiquiri, já não parecia propriamente um nome. Era quase um título concedido, uma palavra pertencente à cidade, à história e à memória de todos, menos à sua. Havia uma estatua enorme do antigo herói erguida diante do Palácio Real, com uma espada apoiada sobre o ombro e o rosto voltado para o horizonte, como se Ezekiel ainda estivesse esperando o próximo inimigo surgir além das muralhas.
Crianças brincavam aos pés da estátua e comerciantes vendiam pequenos pingentes com o brasão da família do herói. Soldados passavam por ela antes de assumir seus turnos e, quase sempre, fazia algum gesto de respeito. Para aquela cidade, Ezekiel havia sido o homem que salvara uma geração, mas para Daiquiri, continuava sendo apenas seu pai, e havia dias em que até essa palavra parecia complicada demais.
Daiquiri parou diante da estátua e ficou alguns segundos observando o rosto de pedra, ele não tinha herdado muita coisa do pai, segundo a maioria das pessoas. O cabelo era prateado como o da mãe, os olhos eram diferentes e sua maneira de andar jamais carregara aquela postura rígida e segura que os retratos antigos atribuíam a Ezekiel. Ainda assim, existia algo que o incomodava profundamente quando olhava para aquela estátua: a sensação de que todos naquela cidade conheciam uma versão de seu pai que ele nunca conheceu.
As histórias diziam que Ezekiel era um homem corajoso, sábio, disciplinado e quase incapaz de cometer um erro. Diziam que ele derrotou monstros, encerrou guerras e impediu que uma antiga força destruísse completamente os reinos, algumas versões chegavam a dizer que ele não conhecia o medo — Daiquiri sempre achava essa parte engraçada. — Seu pai conhecia o medo muito bem, conhecia tanto que, durante a infância, evitava deixá-lo sozinho por muito tempo, verificava duas vezes as portas antes de dormir e, quando alguma tempestade era forte demais, permanecia acordado até a madrugada. Mas ninguém contava essas histórias na praça.
— Você sabe que, se continuar encarando a estátua do seu pai desse jeito, ele vai começar a cobrar o valor da exposição.
Daiquiri não precisou se virar para saber quem era, ele fechou os olhos por um instante e respirou fundo antes de responder. João estava sentado no parapeito de uma fonte alguns metros atrás, com uma maçã na mão e a expressão satisfeita de alguém que acabou de encontrar uma oportunidade perfeito para irritar outra pessoa. Ao lado dele, Marina permanecia em silêncio, lendo um pequeno livro enquanto ignorava completamente as piadas do irmão. Próximo a eles, estava Alexander um homem-lagarto de 2 metros de altura e músculos tão firmes, que fielmente lhe deram o apelido de "muralha dracônica", ele estava perto da entrada da praça, encostado em uma coluna, parecia estar ali havia horas, embora Daiquiri soubesse que, na realidade, ele provavelmente chegou há poucos minutos, acontece que Alexander tinha esse talento estranho de fazer qualquer lugar parecer um posto militar.
— Eu estava pensando comigo, que talvez devessem trocar a espada da estátua por um espelho gigantesco. — respondeu Daiquiri, finalmente se afastando do monumento. — Assim, cada vez que alguém viesse prestar homenagem ao grande herói, poderia lembrar que todos nós também somos capazes de ser um herói, e que assim como nós, ele também era só um homem qualquer.
— Uau! — João mordeu a maçã e apontou para ele com o pedaço que segurava. — Aí está! Gostei! Finalmente você falou algo que eu posso concordar. Eu achei que você ia ficar mais dez minutos encarando a estátua do seu pai enquanto desenvolvia uma crise existencial por ele não ter sido um pai tão presente. — Ele deu outra mordida e começou a falar, enquanto cuspia pedacinhos pelo chão. — Eu acho que cinco minutos encarando é o aceitável, mais do que isso já começa a ficar constrangedor até mesmo para o filho do Grande Herói.
— Você fala demais, João. — Daiquiri pegou a maçã que João estava comendo e deu uma mordida.
— Eu sei, é uma das minhas melhores qualidade!
— Não, não é. — Marina ergueu os olhos do livro e observou os dois por alguns segundos antes de fechá-lo com calma.
— Como é? — João virou o rosto para a irmã, ofendido de maneira teatral. — Você poderia ao menos fingir que está do meu lado.
— Eu até poderia, irmãozinho. Mas você perceberia que é mentira e começaria a fazer outra piada até que eu admitisse a verdade.
Daiquiri soltou uma risada curta, quase involuntária, e foi naquele momento que percebeu como os três pareciam deslocados naquela praça. João vestia roupas leves, próprias de um viajante, com um instrumento preso Às costas e um arco curto apoiado próximo à perna. Marina carregava um grimório preso ao cinto e uma pequena bolsa cheira de frascos, cristais e componentes mágicos. Alexander por outro lado, parecia ter sido desenhado para intimidar qualquer pessoa que olhasse por mais de três segundos, ele vestia uma armadura pesada, luvas metálicas e uma espada tão grande que Daiquiri ainda não entendia como ele conseguia carregá-la sem arrancar metade das portas por onde passava.
Os quatro haviam chegado à cidade por motivos diferentes, mas acabaram se encontrando naquela manhã por uma simples razão: todos tinham sido contratados para acompanhar a mesma caravana que partiria de Valdora antes do pôr do sol.
A viagem deveria ser simples e era exatamente por isso que Daiquiri não queria fazê-la.
— O contratante disse que precisamos levar a caravana até o posto de Arken — explicou Marina, reabrindo o livro para consultar uma página. — São três dias de viagem e a estranha principal está segura segundo os registros mais recentes, mas houve relatos de criaturas atacando pequenos grupos nas proximidades da Floresta de Nyr. A recompensa aumenta caso consigamos atravessar a floresta antes do terceiro dia.
— Então atravessaremos antes do terceiro dia. — Alexander descruzou os braços.
— É por isso que eu gosto desse grandão. — João balançou a cabeça. — Você oferece duas opções e ele escolhe a que envolve menos burocracia e mais pancadaria.
— E você é a razão pela qual as decisões precisam ser tomadas por pessoas inteligentes. — Retrucou Marina.
— Uau, eu até me sentiria ofendido, mas estou orgulhoso por você ter feito uma boa piada. — Ele sorriu para a irmã, mas ela abaixou a cabeça e continuou lendo.
— Também existe uma segunda condição — ela continuou. — O contratante pediu que ninguém se afastasse da caravana durante a viagem.
— Fácil — disse Daiquiri.
Marina levantou os olhos e encarou o irmão.
— O quê? Não fui eu.
— Você nem sabe o que eu ia dizer — ela fechou o livro lentamente.
— Conhecendo você, irmãzinha, era quase certeza que viria alguma acusação contra mim.
— João... — Ela abriu o livro novamente. — A condição se aplica principalmente a você!
— Ai, como estou ofendido. — João de maneira teatral levou uma mão ao peito. — Quanta amargura nesse coração.
Daiquiri olhou para os três e balançou a cabeça, era estranho como aquelas pessoas tinham conseguido se tornar importantes tão rapidamente. Eles não eram exatamente amigos, pelo menos não no começo, João tinha aparecido na vida dele algumas semanas antes, quando insistiu em acompanhar uma missão que Daiquiri fazia sozinho e, no processo, conseguiu transformar uma tarefa de duas horas em uma confusão que durou o dia inteiro; Marina veio atrás dele, aparentemente apenas para impedir que o irmão colocasse os dois em perigo; Alexander se juntou ai grupo posteriormente, depois de uma confusão que começou porque João comida de sua mochila e terminou com os dois enfrentando juntos um bando de saqueadores. Desde então, de alguma forma, os quatro passaram a viajar juntos sempre que as oportunidades apareciam, apenas acontecia.
Daiquiri gostava daquela simplicidade, gostava porque sentia o amor fraterno que não sentia desde a morte do irmão mais novo, e gostava principalmente porque, na companhia dos três, ninguém tocava no nome de Ezekiel.
— Você não vai embora da cidade antes de ver o capitão, vai? — A pergunta veio da guarda que se aproximava pela lateral da praça.
Ela era uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos presos atrás da cabeça e uma lança apoiada no ombro, Daiquiri a reconheceu instantaneamente, era a capitã Serah, escudeira de seu pai por muitos anos.
— Não — ele respondeu. — A caravana só parte no fim da tarde!
Serah parou diante dele e o observou por alguns segundos, havia algo no olhar dela que Daiquiri conhecia muito bem: aquele instante em que alguém tentava descobrir quanto de Ezekiel existia nele. Quase sempre era seguido por um comentário sobre como ele havia crescido, como a cor dos olhos eram parecidos ou como seu pai teria orgulho de vê-lo agora. Dessa vez, porém, ela não disse nada disso.
— Eu recebi um relatório esta manhã, parece que houve um ataque ao norte da estrada.
— Quantos? — Marina fechou o livro e olhou atentamente para Serah.
— Parece que foram quatro mercadores e dois guardas, ao que tudo indica nenhum deles sobreviveu, enviamos um batedor e ele nos confirmou essa informação.
— E o que atacou o grupo? — Alexander imediatamente endireitou a postura e começou a se aquecer.
— Ainda não sabemos.
— Como assim "não sabemos"? — João parou de mastigar. — Você mesma disse que tinham corpos, então pelo estado deles dá pra ter uma ideia do que os atacou.
— É exatamente por ter corpos que estamos preocupados — Serah colocou a mão sobre o queixo e começou a coçá-lo. — Os corpos foram encontrados sem marcas de lâmina, sem ferimentos de flechas e sem sinais claros de magia. Alguns ossos estavam quebrados, mas não havia criatura comum naquela região capaz de fazer aquilo sem deixar algum tipo de rastro. Além disso, um dos soldados estava com a armadura intacta.
Daiquiri percebeu que a expressão de Marina havia mudado, ela sempre tinha uma aparência mais tranquila, mas agora seus olhos estavam atentos de uma maneira diferente.
— E a caravana ainda vai partir? — perguntou ela.
— Vai sim, a rota foi alterada para evitar a área do ataque, e vocês foram contratados justamente porque precisamos de combatentes adicionais no campo de batalha.
— Então nada mudou. — Alexander soltou um suspiro que escondia uma baixa risada, ele não conseguia esconder o seu sorriso.
— Mudou sim, lagarto. — Serah, era extremamente preconceituosa com outras raças que não fossem a raça humana. — Se antes era recomendável que vocês que não se afastassem da estrada e da caravana, agora é obrigatório que permaneçam nas proximidades dela.
— Tiazona — João ergueu o restante da maçã que ainda tinha. — Só por curiosidade, tipo assim, existe algum problema da gente ficar dentro da carruagem o tempo todo? Digo, não por medo, mas pra proteger o quer que estaremos levando.
— Existe sim, você é um dos problemas.
— Pelos deuses! — João abaixou lentamente a maçã. — É impressionante como todo mundo nesta cidade parece ter desenvolvido a mesma opinião sobre mim.
Serah se afastou do grupo, mas antes seus olhos se encontraram novamente com os olhos de Daiquiri.
— Ah, mais uma coisa — virou-se para ele. — Não usem magia perto da floresta.
— Por quê? — Daiquiri franziu a testa, mas o silêncio que veio depois foi imediato. — Tem alguma coisa na floresta?
— Garoto — A capitã não respondeu de imediato, seu olhar se desviou para a estátua de Ezekiel, como se ela procurasse nela alguma resposta, e então voltou para ele. — Foi o seu pai quem me pediu isso, muitos anos atrás — Ela apertou a lança. — Poucos meses antes de morrer.
Serah foi embora antes que ele conseguisse perguntar qualquer outra coisa relacionada ao assunto, mas João foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Sinistro — Disse de forma jocosa. — Bem, isso foi assustador.
— Não foi apenas assustador — Marina guardou seu livro na mochila. — Foi específico demais para ser tratado como uma coincidência.
Daiquiri olhou novamente para a estátua do pai, pela primeira vez naquela manhã, ela pareceu diferente. Não era mais apenas uma imagem de pedra. Havia algo escondido ali, uma parte da história que ele nunca recebeu, ou que nunca lhe foi contado.
Durante toda a vida, sempre acreditou que Ezekiel havia escolhido desaparecer das grandes cidades porque preferia uma vida tranquila depois de tantas batalhas, ao menos era isso que os livros diziam, era isso que os seus vizinhos diziam, era isso que ele ouviu do próprio pai antes de sua morte, mas agora, pela primeira vez, aquelas lembranças pareciam incompletas.
— Enfim, vamos fazer a missão — disse ele. — Depois disso, eu tento descobrir por quê ele estava tão preocupado.
— Certo — Marina pareceu querer protestar, mas desistiu.
— Gostei! — João sorriu. — Eu gosto quando planos potencialmente perigosos começam com "vamos fazer a viagem e depois resolvemos".
— Você gosta de qualquer plano que possa terminar em confusão — respondeu Marina.
As horas seguintes passaram depressa, a caravana se reuniu nos portões ocidentais da cidade pouco antes do entardecer. Havia seis carroças carregadas de suprimentos, duas montarias e aproximadamente vinte comerciantes, viajantes e guardas. O caminho seguia pela estrada principal até uma bifurcação que levava ao norte, contornando a Floresta de Nyr, o céu estava limpo, mas havia uma camada fina de nuvens no horizonte, e o vento trazia consigo o cheiro úmido das árvores muito antes de elas aparecerem.
Daiquiri caminhava à frente da caravana ao lado de Alexander, João estava mais atrás, conversando com dois guardas que claramente já haviam se arrependido de ter iniciado qualquer assunto com ele, e Marina permanecia próxima a uma das carroças, observando a estrada e, de tempos em tempos, abrindo seu grimório para verificar alguma coisa. Parecia ser uma viagem comum, tranquila demais, até o primeiro sino tocar, fazendo a caravana parar.
— Vocês ouviram? — Alexander levou a mão ao cabo da espada
— O quê?
O sino tocou outra vez e dessa vez, todos ouviram, era um som distante abafado pela mata, mas perfeitamente audível.
— Não existe vilarejo na proximidade. — Marina começou a olhar ao redor e correu para onde estavam Alexander e Daiquiri. — Isso não tá fazendo o menor sentido.
— Talvez seja um sino de boas-vindas. — João finalmente apareceu para quebrar a tensão. — Algumas culturas gostam de celebrar a chegada dos visitantes.
— Estamos no meio de uma estrada abandonada — Respondeu Alexander.
— Então deve ser uma cultura muito mais dedicada que o comum.
O terceiro toque no sino veio acompanhado de um grito vindo da floresta. Algumas pessoas na caravana começaram a perguntar o que estava acontecendo, outras sacaram suas armas.
Mas foi enquanto o capitão da escolta tentou organizar os homens que o primeiro ataque veio, uma criatura saltou de dentro das árvores e atingiu um dos guardas com tanta força que o homem atravessou a lateral de uma carroça. Os cavalos começaram a entrar em pânico fazendo mercadorias caírem pelo chão e pessoas correrem em direções diferentes.
Alexander foi o primeiro a reagir, sua espada saiu da bainha em um movimento tão rápido que pareceu impossível para uma arma daquele tamanho. Ele avançou contra a criatura e bloqueou suas garras antes que ela atingisse um segundo soldado, fazendo o chão vibrar.
— Não deixem a formação! — Gritava Marina.
Uma segunda criatura apareceu entre as árvores, depois uma terceira. Daiquiri puxou a espada e avançou, a criatura diante dele tinha o corpo semelhante ao de um grande felino, mas havia algo errado em sua forma, as pernas eram longas demais, os braços terminavam em garras humanas e o rosto parecia mudar de posição sempre que ela se movia.
Eles nunca tinham visto aquela espécie.
A criatura saltou, Daiquiri levantou a espada e conseguiu bloquear o ataque, o impacto fez seus braços tremerem, a criatura era muito mais forte do que aparentava ser. Ele tentou empurrar a criatura para trás, mas ela se moveu novamente antes que ele conseguisse. Enquanto uma garra arranhava o seu rosto, uma flecha foi disparada e atingiu o ombro da criatura, era João, que estava a poucos metros deles.
— Eu sei que você vai reclamar da minha mira, mas, considerando que eu estava mirando no seu coração, acho que merece uma avaliação positiva — João dizia enquanto corria para se esconder atrás de uma árvore próxima.
— Continua atirando! — Daiquiri gritou.
— Eu sei! Essa parte do plano eu já sei!
Outra flecha foi disparada e atingiu a criatura em cheio, mas desta vez, Daiquiri aproveitou a abertura e golpeou de baixo para cima, a espada atravessou o peito do mostro e o lançou contra a árvore onde João se escondia. A criatura caiu, mas não morreu imediatamente, por um breve instante ela ficou encarando Daiquiri, seus olhos se arregalaram e ela falou:
— Morvath.
Daiquiri congelou, a palavra saiu de uma maneira gutural, quase como se aquele fosse o último suspiro da criatura.
— O quê? — ele tentava se mover após o susto.
— Finalmente... — a criatura perdeu as forças e seu corpo caiu sem vida antes que pudesse terminar a frase.
Daiquiri permanecia imóvel, segurando a espada, enquanto ao redor dele a batalha continuava, Alexander derrubava uma criatura após outra, João disparava flechas enquanto gritava instruções que provavelmente ninguém estava seguindo, Marina levantava aos mãos e uma onda de luz branca atravessava o campo, fechando o ferimento de alguns guardas ferido. O caos parecia distante, o som que ouvia era o de como se ele estivesse ouvindo tudo por debaixo da água.
Morvath.
Ele já tinha ouvido aquela palavra, mas não conseguia recordar de onde, talvez tivesse sido em algum livro de seu pai, ou alguma conversa que não deveria ter escutado, ou somente algum pesadelo de infância que simplesmente esqueceu.
— Daiquiri! — A voz de Marina o trouxe de volta, o fazendo erguer o rosto. — Abaixa! — Uma das criaturas estava atrás dele, ela estendeu a mão, e quando ele se abaixou, lançou uma explosão de energia que atingiu o monstro.
Alexander avançou logo depois, enterrando a espada no chão ao lado da criatura e esmagando-a contra a terra, a batalha perdurou por longos minutos. Mas quando tudo terminou, restavam apenas os sons dos cavalos assustados e das pessoas tentando entender o que acabara de acontecer. Daiquiri estava sentado respirando pesadamente quando Marina se aproximou.
— Você tá ferido?
— Não.
— Tem certeza?
— Sim, Marina — Ele sorriu para ela. — Tenho certeza, obrigado pela preocupação.
— Se está tudo bem, então me diz uma coisa. — Ela o observou por alguns segundos. — Do que aquela criatura chamou você?
— Sinceramente? — Daiquiri olhou para o corpo morto próximo à árvore e viu João se aproximando deles. — Eu também gostaria muito de saber. Normalmente, quando alguma coisa tenta matar a gente, ela não costuma parar no meio da luta para revelar algum segredo familiar.
— Eu achei educado da parte dela — Disse João sorrindo, ele olhou para Marina esperando vê-la rindo do comentário, mas notou que ela estava o encarando seriamente. — O quê? É piada! — Mas ninguém riu, então João perdeu o sorriso.
— Ele chamou você de Morvath — Alexander aproximou-se por último, coberto de sangue que não era seu. — Sabe o que isso significa?
— Não.
— Está mentindo — Marina estreitou os olhos.
— Não estou — era verdade, ele realmente não sabia, ou pelo menos, acreditava não saber.
A noite caiu enquanto a caravana se reorganizava, ninguém queria continuar viagem depois daquele ataque, e improvisaram um acampamento próximo à estrada. Algumas pessoas estavam rezando em silêncio, outras estavam discutindo sobre voltar para Valdora, os guardas vigiavam a floresta e evitavam olhar para dentro dela por tempo demais.
Daiquiri se afastou do grupo e se sentou próximo a uma pequena fogueira, o fogo iluminava o seu rosto enquanto ele observava a espada apoiada ao lado da perna, ainda conseguindo sentir o peso daquela palavra.
Morvath.
João apareceu alguns minutos depois e sentou ao seu lado sem dizer nada, pela primeira vez desde que se conheceram, não havia uma piada pronta para aquele momento.
— Você sabe que eu poderia continuar fingindo que não aconteceu nada, né? — disse João quebrando o silêncio. — Poderia até fazer uma piada, falar que monstros são péssimos em apresentações de boas vindas e seguir com a vida, mas acho que você precisa de alguém aqui agora, mesmo que eu não saiba exatamente o que dizer.
Daiquiri permanecia em silêncio.
— Seu pai era um homem bastante estranho, todo mundo conta histórias incríveis sobre ele, mas ninguém fala das partes mais humanas, que são as que realmente importam. Talvez isso seja normal quando alguém se torna uma lenda, as pessoas transformam uma pessoa em símbolo e esquece que símbolos não têm medo, não erram e não acordam no meio da noite pensando nas coisas que fizeram. As pessoas fazem tudo isso, seu pai também fazia e você não precisa ser igual a ele só porque nasceu com o sobrenome dele.
— E se eu tiver herdado mais do que um sobrenome? — Daiquiri olhou para o amigo.
— Bom — João demorou a responder. — A gente pode descobrir isso juntos.
— Você sempre fala como se soubesse o que está fazendo. — Daiquiri sorriu de leve.
— Claro, faz parte do charme! — João se levantou e fez pose. — Na verdade, é porque, quando as pessoas percebem que você está tão perdido quanto elas, começam a entrar em pânico, então eu mantenho a aparência. — João estendeu a mão para o amigo, Daiquiri riu e levantou. — Pronto! Já fiz o meu trabalho, agora eu posso ir dormir antes que alguma coisa sai da floresta, coma minha perna e me chame por algum nome estranho. — Ele deu dois passos, parou e olhou por cima do ombro. — Ah, e Daiquiri? Seja qual for a resposta para essa história toda, acho que ela vai estar logo lá — João apontou para a floresta.
Daiquiri acompanhou o olhar dele, entre as árvores, muito distante, alguma coisa brilhou por um instante, um ponto vermelho como dois olhos observando o acampamento, até que desapareceu. Ele olhou para os amigo, mas ninguém percebeu, ninguém além de Marina, que observava a cena do outro lado da fogueira sem dizer uma palavra.
Muito acima deles, onde as árvores escondiam a lua, uma voz antiga sussurrou seu nome, não em seus ouvidos, mas em sua mente, e, pela primeira vez em muitos anos, ele ouvir a voz do seu pai lhe chamando: Daiquiri, não deixe que ele encontre você.
Thoughts
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PermalinkA capitã Serah fala com o rapaz procurando o pai no rosto dele, e depois solta que o aviso da floresta veio do próprio Ezekiel pouco antes de morrer. Ela sabe bem mais do que falou ali na praça. Deve ser gente que passou anos guardando ordem dos outros sem perguntar por quê.
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PermalinkVéi, os monstros nem foram o que me pegou. Foi ele lembrar que o pai conferia a porta duas vezes e ficava acordado quando trovejava. A cidade toda tem a estátua com a espada e o filho tem um homem com medo dentro de casa. Pra mim esse é o pai de verdade.
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PermalinkO João sentar do lado sem piada pronta foi a melhor coisa que ele fez no capítulo todo. Ficar quieto perto de quem levou susto é mais difícil, tchê.
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PermalinkFiquei conferindo a ordem das coisas: o ataque ao norte foi de manhã, a rota mudou, e mesmo assim mandaram a caravana sair antes do pôr do sol. Seis carroças, vinte pessoas e quatro contratados a mais. Quem paga a viagem já sabia que ia acontecer alguma coisa. O contratante ainda aparece nessa história ou fica só como nome?
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PermalinkEsse pedido da capitã de não usarem magia perto da floresta, e ela contando que veio do pai dele meses antes de morrer, me fez pensar nos avisos que a gente só entende anos depois, quando já não dá pra perguntar nada. Aposto que essa floresta cobra isso ainda no começo da viagem. Bom te ver por aqui!
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PermalinkA criatura morre dizendo Morvath e a Serah já tinha avisado pra não usarem magia perto da floresta, pedido do pai dele. Duas peças que se encaixam antes de alguém explicar qualquer coisa. Dá pra ver que você guardou a resposta pra bem longe daqui. Eu ia direto pro próximo.
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