Capítulo 9
O ar no interior do túnel parecia ficar mais pesado e rarefeito a cada metro conquistado. A única companhia de Akashi era o som abafado de suas próprias botas roçando contra o cascalho e o gotejar incessante de um líquido que ele preferia não imaginar o que era.
Conforme avançava guiado pela penumbra escarlate que mantinha controlada em sua palma, a textura do chão mudou de súbito. O piso de pedra firme deu lugar a algo duro e irregular que fez seu pé escorregar levemente. Akashi baixou o foco da luz e sentiu o estômago dar um giro violento.
Eles estavam caminhando sobre um ossário.
Eram restos esparsos e fragmentados de outros Tsugimons — carapaças quitinosas estilhaçadas, ossos longos e calcinados, e crânios de formatos bizarros, todos amontoados nas margens daquela garganta rochosa como lixo descartado por um predador monumental. Eram os vestígios daqueles que haviam ousado descer fundo demais e se tornado apenas refeição ou adubo para o que quer que habitasse o fim daquele caminho.
— Que nojo — a voz mental da Umbra sibilou, ecoando com um desgosto profundo e desinteressado. — Carniça barata. Parece que o dono deste lugar tem péssimos hábitos alimentares. Cuidado para não virar só mais um crânio oco nessa pilha, Akashi.
Akashi não respondeu. Ele cerrou os dentes, dando passos curtos e calculados para evitar pisar diretamente nos fragmentos ósseos que estalavam com um som oco sob seu peso.
Poucos metros adiante, a estrutura da caverna sofreu outra mutação drástica. As paredes rochosas e irregulares desapareceram, substituídas por superfícies largas, planas e perfeitamente cinzeladas na própria rocha viva. Eram lajes colossais encaixadas com uma precisão ancestral, formando um corredor cerimonial que parecia pertencer a uma civilização há muito engolida pela terra.
E, gravadas profundamente naquelas paredes de pedra antiga, estavam as pinturas e os entalhes em relevo.
Movido por um impulso de cautela e curiosidade mórbida, Akashi aproximou a luz carmesim da parede. As imagens esculpidas retratavam cenas de um passado esquecido: figuras humanóides primitivas encolhidas e prostradas em adoração ou pavor, tendo ao fundo a silhueta colossal de uma montanha cuspindo fogo.
Mas o foco central de todos os painéis era uma figura monstruosa.
A criatura esculpida na rocha era imensa, dotada de múltiplas extremidades sinuosas e uma carapaça que parecia fundida ao próprio gelo eterno. Em alguns trechos do mural, estrias de frio pareciam emanar do corpo do monstro, congelando rios de lava e sufocando as chamas que tentavam romper a crosta da terra. Os entalhes contavam uma história clara, porém aterrorizante: aquela entidade primordial não era apenas um habitante da montanha; ela era o freio e o carrasco do vulcão. O monstro detinha o poder absoluto de congelar as entranhas da terra ou soltar as correntes térmicas, decidindo, com um simples sopro, se o vulcão entraria em uma erupção cataclísmica ou se tudo seria silenciado sob uma era de gelo absoluto.
— Ora, ora... — a Umbra murmurou na mente dele, o tom irônico dando lugar a uma ponta de cautela genuína. — Parece que o nosso anfitrião não é apenas um bicho com dentes grandes, Akashi. Você encontrou o fóssil de um deus esquecido.
O som que quebrou o silêncio do corredor esculpido não veio de fora, mas de dentro da própria mente de Akashi, raspando em suas paredes neurais como unhas cravadas em vidro.
— Venha... pequeno fragmento de sangue e cinza...
A voz era colossal, gélida e antiga, carregando o peso de eras inteiras de silêncio soterrado. Ela ecoou direto em seu córtex, fazendo o sangue de Akashi gelar nas veias e a tontura voltar com força total. O instinto de sobrevivência gritou em seu interior, e ele deu dois passos trôpegos para trás, pronto para girar os calcanhares e correr de volta pelo caminho de onde veio.
Mas a montanha não pretendia deixá-lo escapar.
Um estalido ensurdecedor ecoou pelo corredor à sua retaguarda. Do teto de rocha antiga, estacas massivas de gelo puro e translúcido despencaram com a força de um cometa, cravando-se profundamente no chão e bloqueando completamente a passagem por onde ele havia entrado. O impacto lançou uma nuvem de poeira e estilhaços cortantes que arranharam o rosto de Akashi.
Ele tateou o gelo com as mãos enluvadas pela penumbra; estava congelado com uma densidade impossível, duro como diamante. Estava trancado.
— Acho que o anfitrião não aceita visitas voltando pelo mesmo caminho — a Umbra sibilou na mente dele, a voz da raposa carregando um misto de ironia tensa e um alerta genuíno. — E pelo visto, ele quer ver seu rostinho de perto. Ande logo, Akashi. Ou você abre caminho à força, ou vai virar picolé aqui dentro.
Sem alternativas, tragado por aquela pressão asfixiante, Akashi foi forçado a avançar pelo corredor cerimonial até romper a última cortina de penumbra, caindo em uma vasta câmara subterrânea que parecia o altar esquecido de um mundo morto.
No centro da imensa cúpula de pedra, banhado por uma luz azulada e espectral que emanava das próprias paredes congeladas, repousava o monstro.
A criatura era uma abominação titânica que desafiava a lógica da biologia. Seu corpo principal era uma massa massiva, abaulada e colossal, protegida por uma carapaça ancestral que lembrava a de uma tartaruga gigante, coberta de runas naturais formadas por cristais de gelo eterno e sulcos fumegantes onde o calor da terra tentava, em vão, derreter sua pele.
Mas o que coroava aquela monstruosidade eram suas duas cabeças serpentinas. Ambas erguiam-se em pescoços longos, flexíveis e escamosos, balançando lentamente no ar rarefeito. Seus olhos eram abismos leitosos e brilhantes, fixando-se de imediato em Akashi com uma fome milenar e glacial.
As duas bocas se abriram em uníssono, exalando uma lufada de fumaça branca e congelante que fez o ar da câmara estalar.
— Tão frágil... — ecoou a voz dupla e estrondosa na mente de Akashi, enquanto as duas cabeças da hidra-tartaruga se inclinavam para encará-lo, farejando a essência da Umbra em seu sangue.
A vasta cúpula subterrânea permaneceu em silêncio por um instante, um vácuo tenso onde o único som era o ranger dos cristais de gelo sobre a carapaça titânica. As duas cabeças serpentinas da hidra-tartaruga balançaram em sincronia, aproximando-se o suficiente para que Akashi sentisse o peso daquela presença milenar esmagando seus ombros.
— Pequena centelha... — a voz dupla ecoou diretamente em seu crânio, ressoando como o estalar de geleiras ancestrais rompendo-se no fundo do mundo. — Faz séculos que nenhum fragmento de carne ousa descer até o meu santuário de cinzas e geada.
Akashi segurou a respiração, os dedos trêmulos mantendo firme o cabo de suas adagas invisíveis, enquanto a Umbra sibilava um aviso furioso em sua mente, mandando-o preparar o bote.
— Eu sou Kryos-Vail, a sentinela das entranhas, aquela que mantém o coração da montanha acorrentado — continuou a criatura, as bocas abrindo-se levemente para expelir volutas de um vapor pesado que cheirava a morte e tempo estagnado. — Eu vi impérios de pedra subirem à superfície e virarem pó antes mesmo de os seus ancestrais aprenderem a engatinhar sobre a lama. Eu sou a balança que decide se esta terra expele o fogo que consome ou se tudo afunda no silêncio do branco absoluto.
As duas cabeças inclinaram-se para o lado, estudando o corpo frágil, sangrento e atado de Akashi com uma curiosidade sádica e distante.
— Diga-me, verme... — a voz de Kryos-Vail raspou em sua mente, carregada de um escárnio gélido. — Você já se queimou com o gelo?
Antes que Akashi pudesse formular qualquer palavra, a criatura emitiu um som gutural que fez as paredes de pedra tremerem.
— E mais importante... você realmente achou que sairia vivo deste lugar?
A última frase ecoou como uma sentença de morte irrevogável. No mesmo segundo em que a pergunta se dissolveu na mente de Akashi, a temperatura na cúpula despencou a níveis mortais. O instinto de sobrevivência explodiu em suas veias; seus olhos tingiram-se de um vermelho escarlate profundo e ele saltou para o lado com tudo o que tinha, enquanto a primeira rajada de morte da hidra-tartaruga estalava contra o chão onde ele estava um segundo antes. A luta havia começado.
A rajada de ar congelante estilhaçou o piso de pedra exatamente onde os pés de Akashi estavam um segundo antes. Lascas de rocha e gelo crivaram suas costas, rasgando o casaco já em farrapos, mas ele ignorou a dor e rolou desajeitado pelo chão irregular, levantando-se em um salto desesperado.
A cúpula era um inferno silencioso e gélido.
À esquerda, a primeira cabeça da hidra-tartaruga estalou as mandíbulas, expelindo uma coluna de chamas azuis que não aqueciam nada, mas congelavam o ar ao redor em uma estagnação cortante. À direita, a segunda cabeça sibilou, liberando a fumaça cáustica — um vapor denso que escaldava a pele com uma queimação ilusória e putrefata.
Nenhum grito ou palavra verbalizada rompeu o ambiente. Apenas a voz mental de Kryos-Vail continuava a ecoar, pesada e zombeteira, enquanto a colossal criatura deslizava com uma lentidão aterrorizante, encurralando-o no altar.
— Sua carne treme, pequeno parasita — a voz dupla reverberou no crânio de Akashi enquanto ele desviava por milímetros de um bote serpenteante. — O frio já devora suas extremidades. Você não tem para onde correr.
Akashi respirava de forma curta e dolorosa, com os pulmões ardendo como se inalasse vidro moido. Como lutar contra uma montanha viva? Os ataques físicos diretos eram inúteis contra aquela carapaça ancestral. Suas adagas de penumbra sequer riscariam a escama. Ele precisava de alcance, de uma área de impacto maior.
Sua mente, forçada ao limite pela adrenalina, puxou uma lembrança rápida da superfície — dos treinamentos e de como Tsuki manipulava sua energia pura, arremessando ondas expansivas de cura que cobriam grandes espaços sem precisar de contato físico direto.
Uma onda.
Se Tsuki espalhava energia em ondas, ele podia fazer o mesmo com a ruína.
Akashi cerrou os punhos. Os olhos, tingidos daquele vermelho escarlate profundo, brilharam com a fúria da Umbra. Ele canalizou o Toque Petrificante não para concentrá-lo na ponta de uma lâmina, mas para expandi-lo em um arco de trevas estagnadas, arremessando uma onda de pura energia petrificante diretamente contra o peito da hidra-tartaruga.
A onda carmesim atingiu a carapaça blindada com um baque abafado.
Por um segundo, uma teia de rachaduras cinzentas espalhou-se pela superfície do monstro. Mas o feitiço não penetrou. O poder ancestral de Kryos-Vail era denso demais; a petrificação raspou na carapaça como um arranhão superficial, congelando apenas a camada mais externa de gelo e poeira, sem causar dano real à criatura.
As duas cabeças da hidra pararam por um instante, como se avaliassem a mosca que acabara de picá-las, antes de lançarem um contra-ataque duplo em um raio cego de velocidade.
O mundo ao redor de Akashi desacelerou bruscamente.
O som do vento congelante esticou-se em um zumbido grave e arrastado. As escamas da hidra movendo-se em sua direção tornaram-se fotogramas dolorosamente lentos. A estaca de gelo disparada pela cabeça esquerda parecia flutuar no ar, apontada diretamente para o seu peito, a um palmo de perfurar seu coração. Ele estava sem saída. Os reflexos haviam chegado ao limite; seus braços não respondiam mais.
Foi então que a voz da Umbra cortou o ralentamento do tempo, soando estranhamente calma, fria e absoluta dentro de sua mente:
— Você é patético sozinho, Akashi. Mas já que morrer aqui vai me custar o tédio eterno... deixe-me vestir este seu corpo miserável.
Uma explosão de energia cinzenta e azul-profunda irrompeu de dentro para fora do peito de Akashi. O tempo congelou de vez.
Em um piscar de olhos, a penumbra condensou-se violentamente ao redor de sua silhueta, moldando-se com garras felinas, ombreiras angulares e uma carcaça blindada de metal etéreo e sombras vivas que cobriram cada centímetro de sua pele rasgada. A armadura completa havia despertado.